terça-feira, 12 de agosto de 2014

A ousadia de ser si próprio*


Para sermos autênticos pagamos um preço. A sociedade não “perdoa” aquele que a renega. Somos incitados à falta. Nossas necessidades são forjadas pela lei do similium. Temos que obter tudo aquilo que o outro possui, não importando a que preço. Necessitamos adquirir.

Somos estimulados a não pensar e a não decidir. Para isso existe uma infinidade de profissionais como a nutricionista, que nos diz o que devemos ingerir (nosso gosto, onde fica?); o terapeuta, que nos “esclarece” sobre determinada emoção ou comportamento; o estilista, que sentencia a cor da moda, ao infinitum.

Desde pequenos somos direcionados a não confiar em nós mesmos, a não compactuar com nossa verdade interna, a negar nossas vontades e desejos.

Em 1784, Emanuel Kant discorreu sobre esse tema, em uma revista berlinense. Seu célebre artigo O que é o Iluminismo, (nesses tempos de padronização de comportamentos e atitudes) nos conduz à reflexão. Sapere aude! Atreve-te a saber! Essa é sua máxima.

Kant nos fala da falta de decisão e da falta de coragem em seguir a si próprio. Do “perigo” em sair do cercadinho da cômoda segurança de ser guiado por mãos alheias. O cercadinho aprisiona. Embora trôpego, urge ir em frente. Enfrentar a vida e as situações sem ser coagido e direcionado pelo “meio”. Kant profere que é da vocação de todo homem pensar por si próprio. O indivíduo é dotado de liberdade, precisa aprender a usá-la sem receio. Se houver quem pense por nós, não teremos a necessidade de nos preocupar e nos ocupar conosco. Assim, não precisamos pensar nem decidir, outros por nós o farão; afinal, é tão cômodo! Somos conduzidos a sentir medo e a não confiar em nossa sabedoria. Somos reféns de nossa falta de ousadia.

Pensar por si soa perigoso. É penoso fazer uso do próprio intelecto, afinal, não fomos educados nessa direção. Apenas poucos conseguem, com a catequização do próprio espírito, caminhar a passos seguros. Afastar-se do rebanho, causa dissabores impronunciáveis. Ser original, criativo, soa profundamente ameaçador. Somos estimulados à passividade, a acomodação, ao não questionamento, ao não raciocínio. À obediência. De toda menoridade vigente, Kant ilustra que a menoridade em coisas de religião, é entre todas as formas de menoridade a mais danosa e humilhante.

Kant salienta que vivemos numa era de iluminismo. Urge emancipar o gênero humano da menoridade, deixar que cada indivíduo se valha de sua própria razão, em tudo aquilo que é questão de consciência. O iluminismo é a saída do homem de um estado de menoridade que deve ser imputado a ele próprio. Sapere aude

*Mariah de Olivieri
Filósofa, Mestre em Filosofia, Artista Plástica, Poeta, Estudante de Filosofia Clínica
na Casa da Filosofia Clínica em Porto Alegre/RS 

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