sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A palavra Kafka*




Um pretexto de múltiplas faces se apresenta no dialeto Kafka. Seu dizer multifacetado insinua labirintos, deslizes narrativos, frestas à uma admissão do improvável. Num anteparo de aspecto suspenso no ar, estórias mal contadas adicionam possibilidades ao termo definitivo. 

Nesse imenso labirinto, uma lógica da descontinuidade aprecia levar todas as coisas ao limite de suas possibilidades. Ameaçam o território já conquistado, contradizem as verdades consentidas. Ela pode surgir em vielas inesperadas ou nos deslocamentos pelo cotidiano esconderijo. Parece querer dizer sobre a essência da liberdade ser incompletude, distorção, invenção, caminhos abertos.   

Seu convite para acessar esse mundo de escassas fronteiras permanece. Nele o espectador de uma terra estranha se reconhece. Os roteiros imprevisíveis embalam ideias complexas. A irrealidade pode surgir como ameaça e seus cenários, ao se alternar, visualizam Kafka como um dos nomes da transubstância. São as releituras da leitura que desvendam, no leitor, os inéditos que passaram despercebidos da outra vez. Interseção com um desses lugares onde o excesso de estabilidade desestabiliza. 

Em seu teor discursivo algo mais se anuncia. As dúvidas, incertezas, arrependimentos vão ficando pelo caminho a constituir mosaicos, por onde outros irão passar com seus impróprios passos. Pode ser o paradoxo da frase contrariada a reinventar sentidos, a palavra a desconcertar cenários. A indiferença das paredes contrasta com o acolhimento da estrada, vai descobrindo a íntima relação desse estrangeiro diante de si, mais um Kafka exilado no embassamento do olhar.   

Nesse chão de impropriedades se alojam eventos sem nome. Sua característica parece ser a liberdade multiplicada nos deslocamentos. Nessa efetividade das alternâncias, quando a fantasia se mescla ao cotidiano sensorial, castelos, labirintos e outras visitas do inesperado, deixam entrever uma lógica inquieta. 

Assim vestido com a roupagem do instante, Kafka parece perseguir a si mesmo nos outros. Quem sabe um refém do próprio espelho invertido, auto-retrato desatualizado. Um pouco antes do êxtase da descoberta, refere uma filosofia nascente, atualiza o tanto que ainda falta saber. Kafka como um explorador de labirintos, desdobra-se nas miragens de um castelo. 

Menção sobre a intencionalidade do agora partindo para superar muros. Tentativas de descrever o absurdo nos desvãos da escassa visibilidade. A palavra Kafka revela uma aptidão de espanto, inconformidade, por onde tenta capturar-se nalgum ponto dos seus movimentos. Talvez seja o próprio percurso, ele mesmo a rascunhar-se. 

Hélio Strassburger

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Esta noite vai chover...*


Perdão estimados professores de Português. Vou falar alguma besteira. 

Nunca me convenci inteiramente das regras gramaticais. E principalmente da classificação dos verbos. 

Vejam: diziam-me que existiam os verbos: Regulares, os normais.
Irregulares. Pensava comigo se estes seriam os não normais.
Apareciam ainda os defectivos. Me soava aos ouvidos como defeituosos.
Ainda os impessoais. Não queriam pronomes pessoais ou sujeitos por perto.

E aí? Vejam ainda:
Verbos que expressam fenômenos da natureza: Chove. Hoje a noite vai chover. Chove. Quem vai chover? Isto vai chover. E chove.

Ah, mas uma nuvem não poderia dizer: eu chovo. E dizer para a vizinha: tu choves. E falar para uma terceira: ela chove. E todas juntas falarem: nós chovemos, vós choveis, elas chovem.

Vou classificar minhas palavras e meus verbos em todos os tempos possíveis. Em todos os modos imaginados. Com todos os pronomes e sujeitos que os façam construir algum significado diferente...

José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Recomeços*


Desbravo caminhos que em minha alma acordam com os primeiros raios do sol. No caminho da vida peregrino sem cessar. Contemplo as tardes com saudades das manhãs. O fruto doce das alegrias se mistura ao verde das esperanças. Em cada canto um novo canto que na melodia da alma se faz sinfonia no silêncio dos meus tantos cantos.

Alma peregrina que encontra nos portos seguros os mais belos horizontes. Assim é a vida... Um eterno amanhecer que nas tardes de outono sonham com as primaveras que hão de vir. No passado de pretéritos os amores sempre novos com saudades do passado.

Sempre caminhar, se perdendo nos encontros e encontrando-se nas perdas. Viver assim como o caboclo que no chão lavra a terra de certezas da chuva sempre incerta. Olhar sem desanimar, e caminhar rumo ao meu avesso que tece esperanças com as estrelas que anunciam o presente das estações.

Trilhar... a vida sem medo e mesmo com medo arriscar... Perder-se... Encontrar-se... E perder-se novamente... O que de mim não sei a vida me ensina...

Eterno aprendiz no coração do mundo que em mim se faz sempre jornada....

*Pe Flavio Sobreiro
Poeta, Escritor, Estudante de Filosofia Clínica
Pouso Alegre/MG

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O bem é sempre profundo e radical*


“toda a verdade é encurvada e o próprio tempo é um círculo?”
Nietzsche 

Em tempos de fraturas na história, na cultura e em tudo que surge, entre o olhar que faz e a mão que destrói, prefiro viver à margem das ideias construtoras de um mundo melhor. 

Se o mundo começasse pelo desejo de ser um mundo melhor, se o mundo fosse a projeção daquilo que dos sonhos resultasse em algo, certamente não estaria aqui para pensar sobre o mundo. A perfeição existiria, nada de novo e assustador nos aconteceria, acontecimento seria o retorno do Todo, do Mesmo. 

Então, prefiro mesmo que tenha que ter de errar, de pensar em tudo que não seja uniformizado, só assim eu posso me contradizer e refazer meu pensamento logo ali adiante. Isso não é um pecado. Mas os princípios universais, os existentes, não me encorajam a errar até à morte. 

Prefiro viver com o bem ao meu lado, com as vicissitudes do engano mas prefiro, também, ver que meu pensamento está na direção do que sonhei e sonho todos os dias.

* Luis Antônio Gomes
Doutor em Comunicação. Editor da Sulina
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Mergulho ao vento*


Agora o silencio
Voz engolida
Na noite interna
Beijos intensos
Gozo da alma
No olhar intenso
Vou sem ir
Fico sem ficar
Desfaço nós
Quebro o invisível
Para que? Para quem?
Recortes de muitos eus
Vastidão indizível
Rasgo o tempo
Voo ao mar
Mergulho ao vento
Tomada pelos deuses
Devoro
Silencio sem medo
Beijo os beijos
De tanto amar

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora, Poetisa
Juiz de Fora/MG

domingo, 26 de outubro de 2014

Inclusão!*


Podemos começar a falar de inclusão, tentando entender o conceito de integração. 

Integrar é agregar uma pessoa em uma estrutura já pronta, definida, com seus processos já acertados e rígidos. A pessoa integrada faz o esforço de se adaptar aos valores, hábitos, normas e estruturas apresentadas a ela. A ação do integrador, do cicerone, é mínima no sentido de dar atenção às necessidades da pessoa a ser integrada. Apresenta e deixa à vontade para o integrado se adaptar.

Incluir é adaptar as estruturas e processos às necessidades e capacidades da pessoa que chega. É fazer dos hábitos e valores uma forma de ressonância com aquilo que o outro pode e consegue dar dentro de suas capacidades. O currículo adaptado em algumas escolas é um exemplo de inclusão. O aluno tem que atingir não o que toda a turma precisa atingir, mas aquilo o qual sua capacidade suporta.

Tão importante quanto exercer a atividade de incluir é como se faz isso. Incluir passa pelo enfrentamento da alteridade e isso é tão difícil quanto mergulhar de guarda-chuva aberto. O outro, sejam pessoas, ideias, conceitos, teorias, gostos e desejos que não os seus, quase sempre é considerado uma ameaça, velada ou não em nosso pensamento mais consciente. Claude Lévi-Strauss, antropólogo e filósofo francês, dizia que essa necessidade de lidar com o outro, o alienígena, o diferente gerou algumas estratégias. Uma, a antropoêmica que consiste em vomitar, cuspir os estranhos. Impedir o contato físico, o diálogo, a interação social e relações desse viés. 

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, diz que as variantes externas dessa estratégia são o encarceramento, a deportação e o assassinato. A outra estratégia é a antropofágica, que consiste em ingerir os alheios, devorá-los, de modo a fazer, pelo metabolismo, idênticos aos corpos que os ingeriram. Bauman diz que as variantes externas dessa estratégia são o canibalismo, a assimilação forçada como cruzadas culturais, cultos, guerras contra costumes locais e afins. 

Outra forma de encarar o estranho, o outro, o diferente é uma forma mínima de respeito disfarçada de tolerância e resumida pela frase “cada um no seu quadrado” ou “viva e deixe viver”. Tipo, eu tolero, eu aceito desde que cada um no seu canto, no seu bairro, no seu gueto e sem nenhuma interferência ou contato de ambos os lados da fronteira. Não o puno por ser diferente, não entro em contato e não quero fazer com que seja como eu, simplesmente tolero pela completa exclusão.

Tolerar o diferente não é inclusão. É apenas não excluir. Tolerar é um primeiro passo tímido para estancar a exclusão, mas ainda não é atividade de inclusão. Inclusão se dá pelo respeito às diferenças do outro e à percepção do outro como um dos nossos. Como diz Jürgen Habermas, filósofo alemão, a inclusão do outro significa que as fronteiras da comunidade estão abertas a todos, também justamente àqueles que são estranhos um ao outro e querem continuar sendo estranhos.

Esta questão é uma das centrais no problema do multiculturalismo e do pluralismo cultural. Qualquer preconceito de diferença onde um se ache mais especial, valoroso, merecedor, inteligente ou outro atributo a mais que o outro, abre-se espaço para se instalar a intolerância e todas suas formas de exclusão, pela violência física, moral, política.

A inclusão não pode virar moeda de troca, tipo eu te incluo se... Aceitar o outro como ele é somente de forma incondicional, sem barganha. Aceitar o outro não é concordar com todos seus valores e ideias, mas entender que valores e ideias que não as suas também são valores e ideias válidas.

É muito mais fácil excluir, tolerar, “deixar viver” do que incluir, aceitar e exercitar a empatia. Mas em uma vida em comunidade cada vez mais plural e mais desigual política, social e economicamente, quem não fizer sua parte na inclusão estará trabalhando silenciosamente para a exclusão e para o aumento das desigualdades.

*Fernando Fontoura
Filósofo, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 25 de outubro de 2014

Viagem*



"É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar, nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar."

*Cecília Meireles

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A palavra reminiscência*


   
Em uma recordação se pode reescrever fatos, reviver memórias esquecidas, alterar evidências, efetivar desconstruções, reconstruções, reinventar a própria estória. Sua matéria-prima, ao mesclar-se com a ótica atual, é capaz de apontar novas interseções, propor inéditos achados. Inicialmente por fragmentos sem conexão aparente, esses relatos apreciam multiplicar-se, emancipar periferias, descrever vontades marginais. 

Ao rememorar eventos, esses já são outros eventos. As novas ideias, representações, vivências, ainda na perspectiva subjetiva, podem promover modificações de grande alcance no cotidiano de cada um. Esse movimento permite a contemplação das próprias ideias em deslocamento na malha intelectiva, alternância de endereços existenciais.   

É comum as antigas referências de lugar, tempo e demais circunstâncias, expressarem, ao olhar atualizado, um território de verdades estranhas, as quais, ao transbordar num aqui_agora, já são outras. Assim, as relembranças, em sua reapresentação, descrevem a transformação que a estrutura pessoal teve de realizar para sobreviver. 

A aptidão de rememorar, ao transportar e modificar representações, esboça uma arte para decifrar incógnitas. Ao ser ativada pelas narrativas da historicidade, pode contribuir para qualificar buscas, verdades, compartilhar roteiros. Essa nostalgia, por si só, pode se encaminhar em vários sentidos: desviar, retomar, acrescentar. Assim, é possível acordar o que dormia ou adormecer o que acordava.

O imenso território da estrutura de pensamento aprecia essa dialética, por onde experiencia novos lugares dentro de si. A palavra reminiscência acolhe e desenvolve múltiplas conjugações de fatos, sua aventura descritiva se movimenta em várias direções. Os eventos desconsiderados numa época podem ser resignificados em outra, adquirindo nova conformação existencial.  

Seu teor, como chão de possibilidades, pode ampliar a medida de todas as coisas em cada um, nele a fantasia se permite ensaiar novas realidades, favorecer a exploração de improváveis territórios, conceder estéticas de transformação insensível.  

A arte da reminiscência também é uma confidência muito íntima. Um ponto de interseção da historicidade empírica com sua atualização discursiva. Uma atividade para revisitar os arquivos pessoais esquecidos, desmerecidos, por onde a natureza de algo improvável possa se expressar. 

*Hélio Strassburger  

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O Homem que Contempla*


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

*Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A(pro)fundando Narciso*












Inclino-me uma vez mais sobre Narciso. 
Para tentar entendê-lo. Ou salvá-lo...
Narciso puniu-se a si mesmo por ter se olhado no reflexo das águas. 

Não parece ser tão simples assim. Parece que Narciso perdeu-se a si mesmo por não ter conseguido mais sair deste movimento fixo. Movimento que saía de si mesmo e retornava sobre si, sem nada lhe acrescentar. Preferiu sua própria imagem, oca e vazia, a si mesmo. Tentou buscar-se onde ele se via, isto é, onde ele não era. Nada mais desviaria seu olhar sobre si mesmo.

Acontecia assim: Narciso sorria e a imagem lhe sorria. Chorava e a imagem vertia-lhe uma lágrima. Aproximava-se ou se afastava do espelho das águas e a imagem lhe retribuía com o mesmo movimento de aproximação ou de afastamento. Ensaiava um abraço e sua imagem retribuía-lhe de braços abertos. Porém, Narciso não se sentia abraçado...

Narciso tornou-se refém da armadilha de um olhar que nada mais lhe acrescentava. Imagem sem substância, que se desfazia com o redemoinho das águas ou do toque de sua mão sobre o espelho das águas. Duplo sem corpo.

Tentou ainda falar. Mas falava consigo mesmo. Somente a ninfa Eco lhe repetia o final de sua própria fala, do fundo das cavernas.

Narciso dizia: "Existe alguém perto de mim?"
E eco respondia: "De mim"
Narciso falava: "Alguém mais poderia me amar?"
E eco duplicava: "Me amar"

Imagem e fala sem substância e vazias...

Se, ao menos, seu reflexo pudesse lhe mostrar e advertir outra coisa além do seu duplo falso. Talvez o persuadisse a abandonar-se e desviar o seu olhar. Para começar a agir. E direcionar-se para o mundo que o cercava. E volver o seu olhar para o Outro, que significaria a sua existência.

Salvaria a si mesmo, abandonando-se de si...

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Estudante de Filosofia Clínica na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O Poeta é Belo*


O poeta é belo como o Taj-Mahal
feito de renda e mármore e serenidade
O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore
ao primeiro relâmpago da tempestade
O poeta é belo porque os seus farrapos
são do tecido da eternidade

*Mario Quintana 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Cogitação Filosófica*


               
Umas vezes sinto sono, mas quase nunca sonho. Outras vezes realidade, mas quase sempre engano. Umas vezes aspiro ao mito, outras vezes entendo o fato. Umas vezes rosa, outras machado.                   
                                                      Rogério de Almeida


Nem pense em encontrar, no aqui exposto, a precisão cirúrgica dos deuses doentes da modernidade, que passavam os seus extensos dias ceifando sentidos, separando as línguas clássicas das bárbaras e situando as boas e más palavras.

Primeiro, que qualquer tipo de conceito que possa traduzir o desconforto, não serve ao nosso propósito. Não é fácil encontrarmo-nos em um amontoado de conceitos que não se compreende e constatar que, sobre os mesmos, muito pouco se sabe.

Inúmeras vezes, nossa desgraça se torna nossa redenção. Não sabemos exatamente, nem como nem por que. A inquietação que mobiliza, também conduz à construção filosófica e a expressão dos martírios que nos consomem, nessa existência errante e agoniada.

Desconstruir imagens, colocando um quinhão de filosofia em nosso algoritmo. Expressar a profunda aflição que remexe nossas entranhas, numa tentativa desesperada de traçar e ordenar idéias, dando vida aos fantasmas que habitam e que assombram nossas noites insones. A inquietação que imobiliza é a mesma matéria que impulsiona.

 O desafio consiste em dar luz a essas partes obscuras do indivíduo, onde o conhecimento cego do infortúnio não cabe mais na existência e nem reflete a inquietação que muitas vezes nos envolve.

A reflexão filosófica é o caminho para que possamos emergir desse caos mental, denso e sufocante. Remexer entranhas, arrancando do fundo de nosso ser a inspiração contida e trancada dentro d’alma. Urge que juntemos os cacos e que nos reconstruamos com poesia e alguma filosofia.

*Mariah de Olivièri
Filósofa, Artista Plástica, Poeta, Mestre em Filosofia, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

São os rios*


Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. Seu semblante
muda na água do espelho mutante,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E no entanto há algo que se queda
e no entanto há algo que se queixa.

*Jorge Luis Borges

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Noites, sonhos, fronteiras*


A noite
embesta-se
no emaranhado
de meus cabelos
sem vinho
sem ninho
corre
esconde-se
em meio as luas cheias
e estrelas cadentes
assombra as meninas
assanha os meninos
a noite
desvia-se
na contra mão
e me instiga
a deixar os olhos abertos
esperar os vampiros
passarem
até o nascer do sol
para me lambuzar
de sonhos
e me fartar
de amores
a noite... é noite
obediente
rebelo-me
pois nada mais é
além da fronteira
do meu eu
e teu tu.

*Rosangela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Poeta, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Momentos possíveis do imaginário*


“O esquecimento do esquecimento não dá oportunidade apenas às encenações realistas, ele é essencial a qualquer metafísica: ao esforçar-se por apresentar a própria coisa, fundamento último, Deus, ser, a metafísica esquece-se de que a presença é ausente. Ter tudo presente é a bulimia do pensamento ocidental.”
Jean-François Lyotard
(Moralidades pós-modernas, p. 155-156, Papirus, 1996.)

A escritura é o fortalecimento e também poder ser o que se esquece durante o passar do tempo. 

O tempo aqui como conceito diante do que é visto, do que tem diante dos olhos. Tanto faz olharmos por através da vidraça ou mesmo diante de um real supostamente dito, dentro do mesmo espaço, porque o imaginário criado nisso tudo é como o fogo que une o todo.

O que estava separado, o que estava distante acaba se unindo nas chamas. 

A escritura tem um pouco disso, mas se diferencia por sua unidade de ser, por sua fonte longe do imortalizado, é como Lyotard falou de Beckett que fez a “assinatura sofrer”, e ao longe – tudo tem a clareza e distância, dependendo dos limites próximos e da trajetória, olhamos os traços da escritura como quem se impressiona. 

Por vezes, no estranhamento, como se nada existisse além do que estamos vendo, mas para alguns nada é mais clarividente do que historicamente está estabelecido.

*Luis Antonio Gomes
Doutor em Comunicação. Editor da Sulina.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A palavra indefinida*



Existe uma infinidade de expressividades alojadas nalgum ponto entre a percepção de uma quase ideia e sua adequada manifestação. Esse discurso persegue a ordem  de um caos. Nele os subterfúgios se destacam das evidências objetivadas pela definição. Sua tez de promessa extraordinária permanece em aberto. 

É possível ser o convívio com as lógicas da desrazão, a fonte de onde jorra a matéria-prima em busca de descrever-se. Numa atitude de estado nascente, sua inexatidão aproxima a inteligibilidade do absurdo discursivo. Sua noção descortina-se nas páginas da originalidade por vir.  

Um relato assim, longe de instituir fechamentos, refere uma atitude de não-propriedade em relação ao conhecimento. Seu discurso inacabado aguarda preenchimentos. As clausuras recém desconstruídas, acolhem as dúvidas, abrigam especulações irrefletidas. Num traço assim descrito, a ressonância dos deslocamentos pessoais permanece em aberto, parecem querer dizer sobre a presença de uma ausência. 

Nessa poética do desassossego, o termo indefinido permite desdobramentos para além da página inicial. Seu teor exibe tentativas para apreender eventos desconhecidos. Ao admitir novas versões ao que se considerava sabido e definitivo, uma atitude de estranheza reconhece no cotidiano, aquela região de onde se pode re_nascer por inéditos apontamentos. Os manuscritos que resultam desse convívio com o inesperado, perseguem uma lógica das lacunas, dos deslizes da epistemologia convencional.

Por essas confidências de um texto em aberto, algumas noções se apresentam na caricatura do novo território, esboço de uma arte da experimentação as singularidades. Sua provisória nitidez, ao permitir focar e desfocar verdades, concede a ampliação do vocabulário.  

Ao abrigar vertigens, olhares de soslaio, intuição e demais manifestações ainda sem tradução, esse jeito de se pronunciar anuncia ditos de exceção. Assim a palavra indefinida, acolhendo a pluralidade de fenômenos, qualifica a interseção com a eternidade de cada instante.  

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Poética*


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

*Manuel Bandeira

domingo, 12 de outubro de 2014

Por falar de amor*























Se o amor me leva 
a adentrar a casa,
por um lado a dor me leva
a buscar a chave para sair.
                  Jesus Aguiar
                  Vânia Dantas

O amor é algo que talvez não possa ser definido, mas que tentamos sentir ou demonstrar por meio de linguagens e gestos. São abraços, palavras, sonhos, flores e presentes que veem em nome dele e que são direcionados para a pessoa em que encontramos o destino, a fim de entregar esse tesouro tão nobre que existe dentro de nós.
Amor que anestesia o tempo, rompe com a cronologia, instaura um tempo eterno onde parece só existir o início, pois ele não termina jamais. Emoções congeladas num sorriso; é o vencedor que serve. O pensamento e a alma se unem e neste espaço sagrado criado e só a pessoa amada nele permanece.
O amor exige uma exclusividade, talvez a nominemos de fidelidade. Queremos um vínculo, uma entrega total entre o amado e a amada. As estrelas são assim roubadas do céu e guardadas no interior do coração, como bem poetizou o grupo Roupa Nova : “Te dou o meu coração / Queria dar o mundo”.
O amor faz com que entreguemos o mundo e também nos entreguemos totalmente ao coração escolhido, para assim nos derramarmos totalmente.
No escrito bíblico (1 João 4,18), o autor sagrado decreta: “O amor lança fora todo o medo”. Certamente esse amor humano, que também é revestido de divindade, não teme as intempéries do tempo presente porque elevou o coração amado a um lugar muito distante das imperfeições e dos limites, numa dimensão salvífica. Revestiu-lhe de proteção, deu-lhe esperança e o assegurou com a segurança que só mesmo o amor pode oferecer.
O amor desvela o próprio núcleo do ser, volve de luz a pessoa amada, e assim não há trevas que possam permanecer perante a sua presença. Amadurece a inteligência, pois reluz a essência divina de onde procede, e assim molda o humano à imagem e semelhança do Eterno, fazendo com que sua própria inteligência eterna norteie os corações de modo a levá-los a se importar apenas com aquilo que não passa. O amor transpassa a matéria pois vê com outros olhos, vê por dentro dos seres as intenções e os limites e tem compaixão pela essência escondida em casa humilde.
O mundo sofre de uma carência, de um vazio. É a ausência do amor que o deixa assim. O mundo necessita de essencialidade, e só o amor pode iluminar tal fato. O coração humano quer amar e ser amado; quando não o assumimos, vivemos o processo da nadificação, existência fútil, estéril. É o indicativo de que precisa haver uma recriação. Só o amor pode criar, porque ele é dinâmico, ele é força, ele permite perscrutar os contrários para deles criar uma dimensão unitiva/construtiva.
Quando o amor aflora, uma nova primavera se inicia: sol brilhando, flores desabrochando, borboletas voando a anunciar que uma nova estação vem; a alegria ocupa o lugar da tristeza, o amor ocupa o espaço até então tomado pelo medo, a terra está fecunda, a vida cresce.
Enfim, o amor faz o ciclo da vida circular, tudo se modifica, a equidade emerge,  os sons e a poesia dão brilho preparando o grande protagonista que chega e que encanta a multidão que distante dele caminhava, e que agora nele encontra o seu sentido de harmonia.

*Pe. Jesus Aguiar
Filósofo, Teólogo, Filósofo Clínico
Taubaté/SP
*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

sábado, 11 de outubro de 2014

Fragmentos poéticos, filosóficos*



 Em Março de 79

“Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem;
Dirigi-me para a ilha coberta de neve.
A veação não conhece palavras.
As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.
Linguagem, mas nenhuma palavra.”

Graus Negativos

“Encontramo-nos numa festa que não gosta de nós. Ao fim, a festa deixa cair a sua máscara e mostra-se tal como é: uma estação de manobras. Colossos gelados estão de pé, sobre os carris, no nevoeiro. Um pedaço de giz riscou as portas da carruagem.

Não se devia mencionar, mas aqui há muita violência reprimida. Por isso os pormenores são tão pesados. E é tão difícil vermos o outro, que também existe: um raio de sol reflectido que se movimenta por cima do muro da casa, que desliza através do bosque ignorado, de rostos cintilantes; uma frase bíblica que nunca se escreveu: 'vem até mim, pois eu sou contraditório como tu'.

Amanhã trabalharei numa outra cidade. Eu corro para lá, através da madrugada que é um grande cilindro negro e azul. Oríon está pendurada por cima da geada. Crianças num montão de mudez esperam pelo autocarro, crianças pelas quais ninguém reza. A luz cresce, pouco a pouco, como o nosso cabelo.”

*Tomas Tranströmer