segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sexta feira à noite*

Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das
[esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.
 
Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.
 
Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

*Marina Colassanti

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Descuidos*


Quatro gotas de poesia
Três vezes ao dia
Ou sempre que necessário...
Poesia em cápsulas
Poesia em conta-gotas
Chazinho com poesia
Poesia em doses homeopáticas
Acupuntura de poesia
Poesia com massagem
Para curar qualquer mal.
Mas já vou avisando
Que amar não é fácil
Quase é quase como uma dor
Saudade é a alma da gente
Dizendo para onde quer voltar.
O primeiro amor passou
Passou o segundo amor
O terceiro amor passou
...................................
Passaram, se foram
Mas em mim nenhum deles passou
Pois meu coração continuou.
Quem sabe algum dia
Por um descuido da vida
Ou por pura poesia
Você goste de mim.....

*Jose Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre-se/RS

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"As máscaras pós-modernas estão sob influência. Influência de coisas, de problemas ancestrais. Traduzem a força impessoal que, de forma subterrânea, vem de muito longe, e às vezes se exprime à luz do dia."

"No caso, a adesão aos totens coletivos parece-me traduzir um (re)conhecimento de si como resultado de um devir. Todos estamos na estrada. A realidade é estruturalmente impermanente."

"Trata-se na realidade de uma dialética específica, que poderíamos qualificar de alquímica, na qual o mesmo e o outro estão constantemente dialogando, num andamento sobressaltado, para formar um corpo social intenso que dura só um instante."

"Só existe autêntica 'inteligência' se soubermos ligar os diferentes aspectos, as múltiplas máscaras da pessoa plural."

"Nunca será demais insistir na misteriosa alquimia que existe entre a pessoa e seu ambiente comunitário. Essa interação, a subjetividade de massa em seus múltiplos fenômenos, tudo isto bem demonstra que a ligação, a inteligência que o homem estabelece com o seu meio natural e social constitui para ele a maneira de refletir em si mesmo o universo inteiro."

"O gênio enraizado (no sentido forte) no mundo contém em si todos os 'tipos' humanos, o louco, o santo, o criminoso, a mamãe e a puta, sem esquecer o tipo sem qualidades que constitui o homem de todos os dias."

"(...) isto é reservado ao artista, indivíduo à parte, mais ou menos maldito, original e marginal."

"Assim, para retomar uma expressão goetheana, a conexão social é feita mais de 'afinidades eletivas' que de contratos racionais. Ter ou não o 'feeling' será o critério essencial para julgar a qualidade de uma relação. E é nesse aspecto no mínimo evanescente que repousará sua durabilidade."

"Sensibilidade trágica que transforma uma fraqueza numa virtude. Que, de um sentimento de impermanência de todas as coisas, faz um 'mais ser' intenso: o do carpe diem."

"O imaginário societal tem uma autonomia específica. É móvel, fugidio, polimorfo, mas não menos eficaz. E somente um politeísmo epistemológico pode levar a entender o advento das figuras em torno das quais se estrutura a ligação social."

"O filósofo americano Thoreau fala em algum momento de um quarto Estado. Ao lado da Igreja, do Estado e do povo, o estado de 'andarilho errante'. Que podemos entender através de todas essas figuras nômades que recusam a estabilidade sexual, ideológica ou profissional."

*Michel Maffesoli in "O ritmo da vida". Ed. Record. RJ. 2007

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Apesar e Por causa de*


Apesar de tudo que aconteceu. Dos defeitos, dos erros, do medo, das incoerências, contradições, incertezas. Apesar de você, apesar de mim, apesar dos outros, apesar de todos, ainda assim, te amo.

É possível amar apesar de tantas impossibilidades ou o amor precisa ser politicamente correto? E se o afeto verdadeiro for algo mais alternativo, não tão equilibrado, que envolva um certo choque e rompa a etiqueta? Que sentimento é este, difícil de definir, de aplicação muito ampla e quase sempre utilizado de maneira ambígua e leviana?

Algumas pessoas se curam por amor, outras adoecem. Alguns decidem morrer por amor, outros matam.  Alguns fazem mágica com o amor, mostrando um pouco dele para logo depois o fazer desaparecer. Como conseguem realizar isso? Alguns jamais  conhecerão o amor, outros se confundirão e raríssimos o desfrutarão por toda a vida. 

Embora muitos jamais o alcancem ou reconheçam, o amor é uma necessidade tão básica e vital para o ser humano quanto comer e beber. O que os sedentos e famintos fazem em nome da saciedade? Atacam, disputam, se expõem, vão à luta. Sem medo. Sem vergonha. Sem noção. E os carentes de amor, o que fazem?

Alguns se retraem, se escondem, amedrontam-se, envergonham-se, vão para os livros, psicólogos e caem na solidão. Outros se atiram em viagens, drogas, festas, trabalho, esportes. Alguns vão procurar na rua, outros em sites de relacionamento. Quantos livros, especialistas e desculpas  ainda será preciso ler,  consultar e utilizar até que se aprenda a escolher o que sentir por alguém?

Não tenho a menor pretensão de achar que, justo eu, um médico, estudioso da alma humana, tenha descoberto a receita secreta do amor. Assim como um mapa não ensina ninguém a viajar, artigo ou livro algum ensinará a amar.

Não há um modelo ou definição universal de amor. Cada indivíduo tem sua maneira singular e única de sentir, dar e receber amor. Tentar se enquadrar em um manual ou protocolo, julgando e condenando condutas que se afastem do padrão, é um convite para o fracasso.

Dona Maria era casada há quinze anos, mas tinha convicção que o marido não a amava, pois para ela, quem ama, faz carinhos, beija, abraça, dorme de conchinha, e seu marido não praticava nada disto.

Seu José, o marido, demonstrava seu amor comprando presentes, viajando com a família, escrevendo poemas apaixonados. Adorava  passar as noites conversando e jogando cartas com a esposa, que cansada, quase sempre recusava o convite e ia para a cama mais cedo.

Ele também passou a desconfiar que a esposa não mais o amava. E neste circulo vicioso de melindre e suspeita, permaneciam casados e descontentes. Como seria bom se alguém pudesse esclarecer e traduzir para o casal que suas formas de amar eram diversas, porém válidas e genuínas.

Abigail diz quem ama cuida do outro, Benedita pensa que amor é se entregar, Diamantina sustenta que amar é admirar, Gladis afirma que amar é não ter segredos, Salomé não admite um amor sem tapas e beijos, Matilde espera muitos filhos de seu amor, Ofélia quer ficar com seu amor até o fim da vida, Ismália precisa de muitos telefonemas e presentes para amar, Conceição diz que amar é não ter vergonha de se sentir ridícula...Tudo isto é amor. Todas estão certas, mas isto é assim para elas. Não necessariamente para seus pares, nem para mim, nem para você. Não há nada de errado nisto.

Aprendi na minha pratica anestésica, que quando um paciente se queixa de dor, precisamos acreditar que está doendo. Ainda que não exista motivo aparente, que pareça simulação, que tenhamos convicção que não pode estar padecendo tanto, se o paciente diz que dói, é porque dói.  Em algum lugar. Talvez no coração, no cérebro, na alma. É preciso investigar e tratar.

Da mesma forma o amor. Quando alguém ama, vai amar do seu jeito, por algum lugar. Talvez pelo sensorial, pela emoção, pela razão, pela loucura. Não existe uma maneira única e correta de amar, a mesma que sirva para todos.  E quase nunca se ama da maneira que o outro imaginava ou gostaria. Cada um se enamora e demonstra seu amor de acordo com sua experiência de vida.

Um abismo separa dois amantes, por mais que se considerem almas gêmeas. Cada qual terá suas manias, crenças, expectativas e formas de encarar a vida e o amor. A tendência é que no inicio, estas diferenças naturais entre ambos os atraiam, mas depois,   criem um distanciamento.

Para Slavoj Zizek, filósofo esloveno, a construção de uma ponte, tentando reduzir ao máximo este abismo, seria a fórmula do amor, atravessando a parede que separa um e outro até encontrar o amor.

Encurtar o abismo, atravessar paredes, permitir que alguém possa te destruir e confiar que isto não vai acontecer, ainda me parecem conselhos teóricos e poéticos. Para amar é preciso algo mais prático.

Felizmente, amamos como podemos, e não como deveríamos ou como recomendam os conselheiros sentimentais. Esta é a graça do amor. Amar do nosso jeito, do jeito que conseguimos ficar perto, do jeito que nos serve. Sem regras, sem necessidade de acertar de primeira. A superação da impossibilidade é a cola “superbonder” do amor. Se grudar, nada mais vai separar.
.
Para mim, acredito que amar seja a evolução do casal crescendo e permanecendo juntos, apesar de tudo. Repito, apesar de tudo. Dos defeitos, dos erros, do medo, das incoerências, contradições, incertezas. Mais que isso, amar e viver apesar de, mas especialmente, por causa de.  Se não conseguiram ficar juntos, talvez não tenha sido amor, talvez só um tenha amado... Mas isto é apenas uma hipótese. 

 E para você, como funciona o amor?

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Poéticos, Delirantes*



"Feitiçaria é o mundo onde as palavras têm poder. O feiticeiro fala e a palavra, sem o auxílio das mãos, realiza o que diz. Deus diz 'Paraíso!', e um jardim de delícias aparece. A bruxa diz 'Sapo!' e o príncipe se transforma em sapo. Outro é o mundo da técnica e da ciência: ali as palavras não têm poder. As palavras podem ser ditas à vontade que nada acontece."

"O mundo humano é construído com palavras. Como dizem os textos sagrados: 'No princípio de todas as coisas está a palavra...' E, à semelhança da aranha, é dentro do corpo que a palavra é gerada. É ali, no caldeirão mágico do corpo, que se processa a transformação alquímica de palavras em carne."

"Um jantar é um ritual mágico. Seu propósito é realizar o sonho do alquimista, a transubstanciação universal de todas as coisas."

"'A ciência normal', diz T. S. Kuhn, 'não procura nem novidades de fato nem de teoria. Quando é bem sucedida, ela não encontra novidades.'"

"'Estou muito curioso sobre aquilo que o senhor irá dizer', alguém comentou a Wilfried Bion, pouco antes de uma de suas conferências. Ao que ele retrucou: 'Eu também...'"

"'(...) nenhum poder, uma pitada de conhecimento, uma pitada de sabedoria, e o máximo possível de sabor...' (L 45-46)"

"Os gregos sabiam que a verdade mora na escuridão: os que vêem são cegos, e somente os cegos podem ver. Aqueles que possuem bons olhos e são sóbrios não podem."

"A verdade vive no avesso daquilo que é conhecido com familiaridade. Sabedoria é loucura, loucura é sabedoria."

"Os poetas buscam as palavras que moram no silêncio."

"Palavras de ordem não toleram as brumas, pois é lá que moram os sonhos. Luminosidade total para tornar impossível sonhar. Pois os sonhos são testemunhos de que a alma se recusa a se tornar um pássaro engaiolado."

"Para uma lagarta não há nada mais lindo que coisas que se assemelham a ela. No mundo das lagartas, até os deuses são lagartas. Mas as borboletas obviamente dirão: tolice..."

"Nas palavras de Fairbairn, 'o psicoterapeuta é o verdadeiro sucessor do exorcista. A sua missão não é perdoar pecados, mas expulsar demônios'. Parafraseando Wittgenstein, podemos dizer que o analista está envolvido numa 'batalha contra o feitiço' que certas palavras lançaram sobre nós."

"No mundo descrito por Orwell, 1984, sonhar era crime, e um homem foi preso porque, ao dormir, falou o seu sonho. E, fazendo isto, confessou que sua alma voava longe."

*Rubem Alves in "Lições de Feitiçaria". Ed. Loyola. SP. 2003 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"... 'é assim pra mim': mazelas de um relativismo deturpado ..."


Certamente, você já se deparou com um interlocutor que encerra a discussão com a violenta afirmação: "É assim pra mim!", fechando a possibilidade de qualquer diálogo. Interessantemente, muitos de tais interlocutores defendem sua postura "democrática", afirmando que "é assim para ele", e se não "é assim para você", ele respeita. Em nome do respeito e da democracia, esse interlocutor encerra violenta e autoritariamente a conversa, sem que os argumentos existentes para a aceitação ou recusa de uma determinada ideia ou proposta venham a ser expostos e examinados.

Alguns filósofos clínicos têm defendido esta forma como a "verdadeira filosofia", professando um relativismo deturpado e abandonando a postura filosófica de suspensão de juízos e investigação. Parece que tal incompreensão do que venha a ser filosofia é derivada de uma leitura equivocada e descontextualizada de trechos de citações de alguns filósofos.

Alerto o leitor que esta deturpação do conceito de filosofia pode trazer sérias consequências, verdadeiras mazelas, não apenas para a existência cotidiana - o que já seria de grandissíssimo impacto e poderia trazer muitos prejuízos à pessoa - mas para a própria construção da vida em sociedade, o que em alguns contextos pode ser criminoso.

Imaginemo-nos, por exemplo, assumindo a postura do relativismo deturpado "É assim pra mim!" em todos os contextos de nosso existir. Nas situações em que nos enganamos - e nos enganamos muitas vezes, pois o erro é sempre possível em nossos processos de conhecimento - ao aceitarmos a ideia de que "É assim para mim", deixaríamos de pesquisar, investigar os conteúdos e fatos que justificariam nossas escolhas. Nossas escolhas e ações, então, seriam repetições irrefletidas e não fundamentadas que perpetuariam um erro. Tendo ou não consciência de nossos erros, as consequências de nossas ações existem de fato, e influenciam não somente em nossas vidas, mas vidas de muitas outras pessoas que convivem conosco ou, simplesmente, são atingidas pelas consequências de nossas ações.

Em se tratando de escolhas ou ações cujas consequências tragam um impacto social mais amplo, nossa recusa em pesquisar e refletir, em pensar junto com o outro, poderá trazer consequências nefastas para uma grande parcela da população.

A filosofia, desde suas origens, consiste em pesquisar os motivos que temos para aceitar ou não determinada ideia, para escolher este ou aquele caminho. Ela é, também, um pensar junto com o outro, um diálogo, no qual cada um expõe os motivos para pensar da forma como pensa, e todos examinam os diferentes modos de pensar e motivos expostos, a partir de critérios rigorosos, com base na lógica e nos dados da realidade.

O que é a realidade? Perguntam alguns filósofos. E embora de modo distinto, todos respondem ser algo que independe de minhas crenças, que independe de ser "assim pra mim", embora, muitas vezes, eu possa ler de uma maneira muito própria.

Como saber se a maneira como lemos é um erro ou aproxima-se mais daquilo que se apresenta a nós, dos dados que independem de nós? Não há outra forma senão a investigação. E para que nossa pesquisa não seja conduzida por nossas concepções prévias, por nossas paixões, os critérios de investigação se fazem necessários.

Os diferentes métodos filosóficos estabelecem critérios para a pesquisa, e tais critérios precisam ser claros e compartilhados. Eu posso pensar de modo diferente, mas devo ser capaz de demonstrar a outros o que me faz pensar desta maneira, de onde parti e como cheguei a minhas conclusões.

Quando nos deparamos com alguém que pensa muito diferente de nós e fazemos o exercício de apresentar ao outro o que nos faz pensar como pensamos, este exercício nos provoca a revisitar nossos processos de pensamento e, consequentemente, poderá gerar uma avaliação.

Você já se viu numa situação em que, na tentativa de explicar ao outro os motivos pelos quais chegou a uma conclusão, identificou um erro em seu próprio raciocínio? A correção do erro levou a uma mudança de posição? E se não tivesse corrigido tal erro, quais poderiam ter sido as consequências de suas ações?

O mesmo pode se dar quando o outro explica a nós os motivos pelos quais pensa como pensa. Ao acompanharmos seus motivos, é possível observarmos dados que não possuíamos acerca de uma situação. Tais dados poderão modificar nosso posicionamento.

Postura muito limitada

Desta forma, afirmar "é assim pra mim", e com isso recusar-se a pensar em outras possibilidades, pode ser uma postura muito limitada, geradora de erros, preconceitos e prejuízos não somente para quem assume esta postura, mas para muitos outros.

Voltando à tarefa do filósofo clínico, quando afirmamos o respeito à singularidade, à representação, não nos referimos à aceitação cega e irrefletida de "verdades" que "são assim para o partilhante (paciente)". Referimo-nos a uma postura filosófica de investigação junto com o outro. 

A pessoa que procura um filósofo clínico não encontrará alguém para simplesmente concordar com seus pensamentos e ações. Encontrará alguém para dialogar, alguém que utilizará métodos e critérios filosóficos, construídos no decorrer da história da humanidade, para investigar a pertinência ou não de suas ideias, para provocar a pensar nas consequências dos desdobramentos de suas ações, alguém para partilhar a pesquisa sobre novos e possíveis caminhos para o existir. Neste processo, é comum encontrarmos dados que não possuíamos, vermos perspectivas pelas quais não estávamos observando, ratificarmos ou retificarmos nossos pensamentos e ações.

Recusar-se a pensar afirmando "é assim pra mim" é um relativismo deturpado porque o próprio relativismo diz respeito a um posicionamento relativo a um contexto, e não à ausência do pensar, a recusa ao diálogo.

Infelizmente, esta postura equivocada tem se tornado padrão em muitos contextos de nossa sociedade, levando, cada vez mais, a um individualismo exacerbado e à impossibilidade do pensar. Entre suas consequências, as posturas inflexíveis e irrefletidas, a perpetuação dos erros, a discriminação, a violência contra o diferente são apenas algumas de suas mazelas.

Podemos evitá-las com um exercício que nos é próprio: o diálogo, a abertura para pensar junto com o outro.

*Prof. Dra. Monica Aiub
Pesquisadora. Escritora. Filósofa Clínica.
São Paulo/SP

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Numa cidade distante*



Tem mais de quarenta anos, e pela primeira vez viaja ao exterior, cheia de incertezas.

A vontade mesmo era ficar no conforto dos objetos familiares e da vida previsível cujos contornos às vezes pareciam se estreitar demais.

Vai num grupo de trabalho, mas no hotel e em algumas atividades está sozinha. Uma tarde vê-se obrigada a atravessar sem companhia a cidade desconhecida: dá os primeiros passos repetindo mentalmente o roteiro, segura a bolsa como se fosse a bússola de sua alma. Ao seu redor fragmentos de frases no idioma estrangeiro que ela entende mais ou menos, os cheiros e cores diferentes.

O sol incide sobre todas as coisas de uma forma nova.

Então é tomada de euforia: está num país remoto, numa cidade desconhecida, consegue andar e orientar-se - e não sente medo. É uma alegria inquietante para ela, que nunca imaginou sentir-se tão bem e contente longe da casa e da família. Antes, isso lhe pareceria uma traição. Agora, caminhando no chão do imprevisível, começa a dizer em voz alta: "Eu sou uma pessoa! Eu sou uma pessoa!"

E, sentindo-se ridícula, ri de si mesma, lágrimas nos olhos, como se tivesse acabado de nascer. Está só. Está livre, está completa, e, nesse instante, sem nenhuma culpa.

É capaz - sabe disso agora.

Nada a teria impedido de descobrir isso antes, não poderia acusar ninguém de estar querendo podar ou abafar sua personalidade. Eram amarras consentidas que a prendiam, muitas auto-impostas, um confortável papel que aceitara e assumira porque assim esperavam dela.

Mas ali, naquela breve caminhada, libertara em si uma pequena alma transgressora, ainda que de limites tão ínfimos que alguns até achariam graça. Nesse dia compreendeu que amadureceu. Entrou numa joalheria e comprou um anel, um aro muito simples, que nunca mais tirou do dedo: sua aliança consigo mesma e com a sua verdade.

Amadurecer passou a ser retirar as máscaras e ver no espelho o verdadeiro eu - onde se lia uma severa contabilidade de gastos e lucros, saldos nem sempre tranquilizadores, pouca ousadia. Quanto de amargura, quanto de bom humor tinha sobrado, quanta capacidade e fervor para se renovar antes que a resignação encobrisse tudo ?

Percebeu que não importava tanto o que havia lhe acontecido naqueles quarenta anos, mas o que ela estava fazendo com o que eventualmente acontecera. Era uma oportunidade assustadora e maravilhosa: amadurecer não significava estagnar, mas reafirmar - ou reinventar - cada dia aquilo que mesmo inconscientemente ela se propunha como o sentido, o rumo e o tom de sua vida. 

Precisara chegar àquela cidade distante para fazer essa descoberta.

Levara quarenta anos para se encontrar como pessoa: talvez levasse mais quarenta para achar que entendera todos os significados disso.

Mas aí precisaria de outros quarenta para enfim ver que nada tem explicação, e que o interessante na vida não são as respostas: são os enigmas.

* Lya Lyft in "Pensar é transgredir". Ed. Record. RJ. 2004

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Vida de Menina*


Com fresca e fina flor nos cabelos ao vento
Caminha sem amanhã e vai.
Indo de flor em flor, desabrocha sua vida
Como um botão de rosa ruboroza
E se enche do mel que o frescor da brisa traz.
De forma graciosa caminha ao léu
Na direção que não sabe se leva ao céu.
De graciosas formas, esguias e esbeltas,
Ergue-se em frente e para a frente
Como se caminhasse por sobe estrelas.
Tendo os céus a seus pés, segue.
E como se não houvesse mais nada a perder,
Invade as vias de campos floridos e arborizados,
Caminhando decidida a empodeirar-se de si mesma.
Já consigo em rédeas curtas e curtindo,
Consegue se encher de vida,
Se enche de alegria e de verdade.
Encara de frente as frustrações!
Avança por sobre tudo que deve avançar!
Recua, calcula, prevê o imponderável,
E carrega nos ombros a esperança e a sabedoria.
Queixo elevado e olhos altivos, passo firme,
Com o futuro no agora, trazido a cabo, com rédeas curtas,
Visualiza aquilo que ninguém mais vê
Cria, refaz, carrega em si a vontade de crescer, de mudar,
De fazer do mundo um lugar melhor.
Caminha, sonha, encontra, encerra,
Vive.

*Vinicius Fontes
Filósofo. Mestrando em Filosofia. Filósofo Clínico.
Rio de Janeiro/RJ 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Poéticos, Delirantes*



"Desejo apenas, querida, peregrinar por tua alma, percorrê-la até o âmago, até o lugar onde ela se torna um templo. E lá quero erguer a minha nostalgia como uma custódia, que há de se elevar até a tua magnificência. Este é o meu desejo."

"Nestes dias de criatividade, sinto como os invólucros abandonam as coisas, como tudo se envolve numa atmosfera de confiança, sem quaisquer disfarces. Os momentos criativos são como crepúsculos vespertinos após carregados dias de verão."

"E agora, em meio ao perfume desta imensidão azul, aproveito os dois ou três dias que ainda passarei antevendo em sonhos o reencontro contigo, para continuar a relatar-te o esplendor destes dias que estou vivendo aqui, em um país estrangeiro. Cada vez mais estou convencido de que não me refiro às coisas, e sim àquilo que elas fizeram de mim."

"(...) Ele permanece pobre, porque é incapaz de revelar a um confidente a existência dos seus tesouros, e segue solitário por não conseguir edificar uma ponte que conduza do seu íntimo para o meio exterior que o circunda."

"(...) A senhora precisa adquirir confiança em tudo e encontrar o lugar onde haja espaço para a sua riqueza. Caso contrário a senhora desperdiçará a sua vida e não levará em consideração a sua própria pessoa. (...) Em ambos há tesouros de ouro puro."

"Não sei como outros mundos, distantes, amadurecerão a ponto de se tornarem divindades. Mas para nós o caminho está traçado pela arte. Porque, entre nós, os artistas são os sedentos que tudo absorvem, tanto os imodestos que jamais constroem uma cabana em algum lugar, como os eternos que transcendem os telhados dos séculos. Eles recebem pedaços da vida, e dão a vida. Mas, uma vez que receberam a vida e trazem dentro de si o mundo como todo o seu poder e todas as suas possibilidades, eles oferecerão algo que ultrapassará aquilo que receberam..."

*Rainer Maria Rilke in "O diário de Florença". Ed. Nova Alexandria. SP. 2002. 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Meu amor*


a poesia passou por aqui
recitou seus versos
de presente trouxe as estrelas
e de lua me encantou
contou-me secretamente
que lhe entregaria
ternuras e carinhos
porque o que vale
é Amar

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora. Poeta.
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Literários, Delirantes*



"Pessoas que encontram partes preciosas de si não em outras pessoas, mas em livros"

"Para que mais alguém lê um livro, senão para se transformar ?"

"Também quando leio Clarice (Lispector), pensei, tenho esta impressão. Os livros de Clarice são duros de ler. São incômodos e, até, desagradáveis. Suas ficções me submetem, me tiram do sério - me interpretam. Não sou eu que as leio, elas sim me leem, e isso me desnuda. Os livros de Clarice Enervam, esgotam, perturbam."

"Ser capaz de ouvir, e de suportar a presença imprevista do outro, as surpresas que nos oferece, a desarmonia de suas ideias. Chegar de mãos vazias e aceitar o que me dão. Entregar-me, em vez de esperar que o outro se entregue. Desarmar-me, ainda que seja para encontrar o que não desejo encontrar.!

"Nada se assemelha ao contato silencioso e misterioso, mas intenso, que liga o leitor a um livro."

"Houvesse uma sincronia perfeita entre o grande livro e o grande leitor, e só chegaríamos a leituras previsíveis, a releituras, e com isso afundaríamos na repetição. Ficaria de fora, assim, aquilo que a leitura de um grande livro guarda de mais fundamental: o susto."

"A literatura não é só o que se escreve, é também um mergulho interior."

"São esses grandes livros que, lidos, na intimidade e em segredo, vêm deslocar nossas visões de mundo. São eles que abalam nossa sensibilidade, que descortinam novas perspectivas e novas misérias, são eles que nos leem."

"A leitura é um ato silencioso, íntimo e intraduzível."

"A experiência estética é secreta porque é interior; ela é pessoal porque a literatura só toma corpo na mente e nos nervos de cada leitor."

"Para um mesmo leitor, em momentos diferentes, um livro é outro livro. A literatura (a arte) é um terreno instável, movediço, que não suporta medições." 

"A leitura é uma experiência misteriosa, de que participam não só o texto que se lê, mas a imaginação, a memória, a história, a sensibilidade de quem lê."

"Cada um lê com o que tem, lê com o que é, lê como pode. Não existe leitura perfeita, nem completa; muita coisa, mesmo para os leitores treinados, sempre fica de fora. É esse aspecto inesgotável da literatura que lhe confere um caráter mágico."

"Toda leitura é feita de mal entendidos. Isto é, de imagens rocadas, de defeitos, de imprecisões, de suposições."

"Tudo aquilo que julgamos 'entender bem', quer dizer dominar e possuir, está fora do literário. A leitura de um grande livro mexe com o que temos de mais instável e de mais sensível, pois joga com o inacessível e o remoto."

*José Castello in "A literatura na poltrona". Ed. Record.  RJ. 2007

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A escuta das palavras*

     
                                   
          
A palavra, em deslocamento por seus muitos territórios, também busca uma legibilidade para sua escuta escutando-se. Aptidão rara em meio as ditaduras da semiose verbal. Ao conviver sempre no mesmo lugar, ainda que em línguas diferentes, é excepcional vivenciar as dialéticas da aventura.    

Em um mundo apropriadamente imperfeito, pode ser indizível, ao dicionário conhecido, encontrar o melhor para si. Essa suspeita se insinua nas possibilidades do instante perfeito nas entrelinhas da imperfeição. Essa transgressão da zona areia movediça de conforto existencial, se aproxima de um mundo razoável e suas contradições. Assim pode acolher e dialogar com a mutante medida de todas as coisas em cada um.   

Ao destacar o viés dessas poéticas da irreflexão, se esboça uma negação de que tudo já foi dito, pensado, tentado. Nele um espaço desconhecido se abre como proposta.

Talvez a escola, ao ensinar a ler e escrever, também pudesse incluir aprendizados na arte de ouvir, sonhar, flutuar, experienciar essa matéria-prima diante do olhar, muitas vezes refugiada nas impróprias paredes. Quiçá emancipar-se além do tumulto silencioso das palavras.    
   
Nesse sentido, a convivência aprendiz, a decifração desses códigos da não-menção, presentes nela mesma, pode conceber a crise precursora, o desajuste social, a incompreensão, como rascunho de uma obra acontecendo. Em um chão de incompletudes, os subúrbios da expressividade acolhe o devir dos recomeços.

Ao Filósofo dos casos perdidos, acostumado a ter um não saber como ponto de partida, vislumbra-se essa dialética como um redirecionamento do olhar. Lógica principiante a conjugar o recém chegando vocabulário diante de si. Uma estética a reivindicar o cuidador singular para acolher e contribuir com a nova condição. Ao cogitar dos eventos inesperados o espelho da realidade também se move.    

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico na
Casa da Filosofia Clínica

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Se eu fosse um padre*


Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções, 

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas, 

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus! 

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

*Mário Quintana

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Faça com Excelência*


 “O que merece ser feito merece ser bem feito”, escreveu Nicholas Pausin. Porém, o que vemos é que a maioria das pessoas vive fazendo as coisas pela metade. A justificativa é sempre a mesma: isso é insignificante, eu não dei tanta importância, eu fiz essa tarefa por cortesia, nas minhas horas de folga, foi um favor que fiz.

Para mim, essa é a armadilha na qual muitos executivos caem cotidianamente: projetos mal elaborados, mal executados e por aí vai. Minha dica é: não caia na armadilha de fazer algo mal feito, mesmo que seja por cortesia. A imagem que fica é a do desleixo. Seu trabalho é sua “marca” e ela será sua propaganda durante muito tempo. Então, faça da melhor forma possível, nunca deixe margem para falarem do seu trabalho de forma negativa.

Lembre-se de Picasso. Sua assinatura está nas suas obras. Pinturas famosas você encontra a todo momento no mercado, mas Picasso é Picasso.

Fazer com excelência é uma questão de postura. É só estabelecer um pacto consigo mesmo e, a partir dele, tudo o que fizer será bem feito, para que, no futuro, ao olhar para trás, você possa se orgulhar do que fez.

Portanto, faço minha a frase de Nichola Pausin: “O que merece ser feito, merece ser bem feito”.

*Beto Colombo
Administrador de Empresas. Escritor. Filósofo Clínico
Criciúma/SC

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Poéticos, Delirantes*



"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se ao meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-de-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos Para além da curda da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.

(...)
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

(...)
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim

(...)
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

(...)
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz."

*Fernando Pessoas in "Ficções do Interlúdio". Ed. Cia das Letras. SP. 1998

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Pedacinhos de si mesmo*



Era assim...
Seu tempo era demorado. Silenciava e olhava para um lugar perdido. Quando perguntado dizia:
- Sou assim...

Havia prometido, mil vezes, ser um bom menino. Mas dentro dele alguma coisa andava na direção oposta. Era da sua natureza ser sem rumo. Viver e amar sem destino. Um caos interno fazia sua estrela brilhar mais forte.

O tempo havia lhe ensinado paciência. O que passou, tinha que passar. O que ficou, ficará até que chegue a sua hora. Afinal, o que custa viver, e esperar uma vida inteira?
-Sou assim .... - dizia sempre que perguntado.

Trazia uma gentileza no olhar. Coisas que só ele fazia como fazia.
Pedia desculpas pelo espaço dos outros que ocupava. Desculpava-se antecipadamente por uma ofensa recebida. Pelo rumo do vento que batia nele. Pelo raio de sol que impedia de passar.

Agradecia por tudo. Era grato a quem o amava. E aos amores quando estes partiam , desculpava-se e agradecia.

Quem o conhecia, dizia:
-Deixa ele. Ele é assim mesmo....

Duvidava da Providência. Seu anjo da guarda andava sempre bêbado. Caía mais do que ele. Seu coração tinha um cupido que não aprendia a usar o arco e a flecha. Amava e escondia em seu coração.

Tirava um pedacinho de si mesmo para dar a quem não tinha....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A perfeição *


O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

*Clarice Lispector

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Blackstar*

                                                                                                         
Quero tua língua falando aos meus sentidos, tua voz melancólica, esse sorriso aberto a cantar nas estrelas, teu olho do azul profundo sobrevoa como se fosse um pássaro do além-mar.

O teu olhar não petrifica os sonhos, o teu brilho é fonte de energia aos que nascem, o teu olhar não ilumina, é fonte interna de prazer nas páginas de um livro. Tudo aqui nasce e fica entre o sonho e a boca, entre a audição e o corpo.

A dança é o nascente da linguagem, é o que faz a imagem ter um sentido do prazer, as cores mudam em tua cabeça, os cabelos esvoaçantes nos olhos da liberdade. A cabeça muda as cores, muda a forma de mudar, o conteúdo e forma, um tiro de tinta na guerra dos ódios.

A tua voz é minha cura, é dança que não acaba mais, um presságio não é garantia de vida, é vida que se vive. E a miséria, já dizia Breton, “a miséria moral deste tempo é infinita”. Vamos ao espaço ouvindo os acordes de tuas cores.

*Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Professor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o espaço não utilizado em Arquitetura, igual à palavra não proferida numa obra literária, possuía seu próprio esboço (...)"

"Os poços, assim como os seres vivos, têm seu período de vida. A exemplo dos homens, a água pode envelhecer e morrer."

"E podes fazer de tuas palavras o que desejares, embora elas também possam fazer de ti muitas coisas"

"A memória não tem a mesma idade em todas as partes de nossos interior"

"Permaneceu sob esta cidade como aquelas mulheres que, durante a vida inteira, ficam debaixo do mesmo homem sem raciocinar se aquele homem as deseja ou quer.." 

"Dizem que a alma do homem cresce mais do que o corpo."

"Tomem cuidado enquanto dormem! Dizemos aqui que a pessoa durante o sono esquece, a cada noite, alguém que amou ao estar acordada..."

"Afinal, os que haviam partido sempre contavam o final da história numa língua estrangeira, incompreensível para aqueles que haviam ficado."

"A cada palavra proferida, alguma coisa mudava nele: os bigodes, os olhos, os joelhos, os dedos, a cor das unhas... Até que formasse uma frase, estaria transformado num outro homem. Se a frase fosse diferente, ele seria diferente também." 

"Não nos devemos acostumar nem ao leito, nem ao próprio nome. É por isso que o monge de quem estou falando não se detém por mais de três semanas em mosteiro algum, e sempre acaba dormindo dentro de uma arca vetusta. Assim que ele se acostuma a um lugar qualquer, muda de nome e sai em busca de novas águas."

"Dizem-nos que contemplamos estrelas desaparecidas há muito tempo, mas não sabem que a água que bebemos também já foi bebida há muito tempo."

"Por isso mesmo, tome cuidado com as suas doenças, até mesmo em sonho, e durante a vigília, mais ainda. Elas sempre passam algum recado..." 

*Mirolad Pávitch in "Paisagem pintada com chá". Ed. Cia das Letras. SP. 1990

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Decidi*


Decidi! Está feito! Vou mudar...
Eu quero mudar tudo de lugar;
Trocar a disposição de alguns móveis, cadeiras, camas, penteadeira e até o meu sofá.
Reorganizar!

Ir em busca, um novo lugar, dentro ou fora...
Algumas coisas vou reciclar, outras doar, outras... ainda não sei bem onde vão ficar.

Quero mudar de paisagem, respirar novo ar, dentro e fora da casa, pois agora aprendi a caminhar.
Só falta agora a coragem de levantar-me do meu conforto existencial e ir em busca do novo, daquilo que vim fazer aqui.

A liberdade interna se expande a cada dia e então começo a refletir o lugar onde quero estar, o cheiro das coisas, a tonalidade dos sentimentos, a umidade do ar.

Quero mostrar para mim mesma a poeira escondida nos cantinhos do meu caminho, bagunçar, desarrumar para poder limpar. Já sei como sou, não tenho mais medo da solidão, nem de "bicho papão", quero o lugar desconhecido, as paredes incertas, as portas entreabertas, o amanhecer sem rumo, sem destino...

Hoje quero tudo isso e espero com serenidade e paz, a maturidade está fazendo com que eu percorra muitos caminhos tranquilos, nunca mais fiquei estagnada, a gente aprende que o movimento transforma algo em alguma coisa, não importa muito a coisa, o importante é a transformação.

Agora consigo respirar, saber o que quero e o que não quero.
Entrego minha vida ao fluir do existir, o destino regado de sabedoria me conduzirá ao meu melhor lugar, desisti de controlar. Agora eu quero aprender, mais, mais e tantas vezes mais eu precisar.

E o vento amigo que balança meus cabelos me conduzirá para que lado da estrada devo caminhar, não importa se for de trem, carro, carroça, ou bicicleta, ou simplesmente andando devagar, sei que respirando e seguindo em frente chegarei no meu destino.

Isso é liberdade.
Isso é vida.
Isso é o que minha alma anseia!!!

*Vanessa S. R
Professora de filosofia, Filósofa clínica, Dançarina, Atriz,
Petrópolis/RJ