sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Texto de consulta*


1 

A página branca indicará o discurso
Ou a supressão o discurso? 

A página branca aumenta a coisa
Ou ainda diminui o mínimo? 

O poema é o texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta - o texto? 

O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta o contexto do texto? 

O texto visível é o texto total
O antetexto o antitexto
Ou as ruínas do texto?
O texto abole
Cria
Ou restaura?  

2 

O texto deriva do operador do texto
Ou da coletividade — texto? 

O texto é manipulado
Pelo operador (ótico)
Pelo operador (cirurgião)
Ou pelo ótico-cirurgião? 

O texto é dado
Ou dador?
O texto é objeto concreto
Abstrato
Ou concretoabstrato? 

O texto quando escreve
Escreve
Ou foi escrito
Reescrito? 

O texto será reescrito
Pelo tipógrafo / o leitor / o crítico;
Pela roda do tempo? 

Sofre o operador:
O tipógrafo trunca o texto.
Melhor mandar à oficina
O texto já truncado.  

(...)

6 

A palavra cria o real?
O real cria a palavra?
Mais difícil de aferrar:
Realidade ou alucinação? 

Ou será a realidade
Um conjunto de alucinações?

7

Existe um texto regional / nacional
Ou todo texto é universal?
Que relação do texto
Com os dedos? Com os textos alheios?

(...)

9

Juízo final do texto:
Serei julgado pela palavra
Do dador da palavra / do sopro / da chama.

O texto-coisa me espia
Com o olho de outrem.

Talvez me condene ao ergástulo.

O juízo final
Começa em mim
Nos lindes da
Minha palavra.

*Murilo Mendes
Roma, 1965

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Atuar ou ser você mesmo? Dualismos da vida!*


Em nossa última coluna sobre os papéis existenciais abordaremos dois aspectos importantes e dilemáticos.

PERGUNTA: Seria possível perde-se de si mesmo enquanto atua em determinado papel existencial ou função social? Seria possível que você usasse por tanto tempo um rótulo, uma roupagem, um papel profissional que, sem perceber, você tenha se tornado ele? Semelhante ao ator que ao perder-e de si mesmo passa a agir e a acreditar constantemente que é um dos personagens que representava?

Sim! É possível nos perdermos de nós mesmos e nos tornarmos aquilo que durante muito tempo assumimos como identidade. Muitas pessoas tornam-se seus rótulos, seus papéis sociais de forma tão profunda que o sujeito já não mais existe, o que existe é pai, o empresário, o doente, o médico, o terapeuta... E aquilo que deveria ser apenas uma roupagem, um rótulo, uma forma de agir em determinada circunstância, passa a ser a própria pessoa. Muitas assumindo papéis que em nada lhes diz respeito.

PERGUNTA: é melhor sermos NÓS MESMOS ou é melhor vestirmos figurinos tão bem construídos que passamos a ser os próprios personagens encarnados? Há algum problema em deixarmos de ser quem somos e nos tornarmos outra coisa? A resposta é dilemática e complexa. Precisamos antes considerar que pela forma como algumas pessoas se construíram enquanto sujeitos, pelos conteúdos que habitam em seus corações e pensamentos, pela maneira problemática e conflituosa como sua Estrutura Subjetiva foi construída, algumas vezes elas podem não se gostar, podem não querer ser quem são, podem em nada ter a ver com elas mesmas. Em casos assim, de grandes conflitos e tortuosidades existenciais, talvez seja melhor sermos e nos tornarmos determinados personagens do que sermos nós mesmos.

Isto, porém, é muito diferente da pessoa que atua tão bem em determinados papéis da vida que sem querer se perde de si mesma e depois não sabe mais como retornar para sua própria identidade. Da pessoa que perdeu a direção que leva para si mesma, que por conta de algum fator traumático ou processo divisório destruiu a estrada de retorno, ou que apagou os caracteres que a definiam e agora se encontra perdida.

Para concluir, lhes mostrarei um horizonte mais leve e bonito. Você sabia que é possível criarmos papéis e personagens especialmente para lidar com determinados problemas da vida?

Digamos que você tenha problemas com o seu filho, uma relação conflituosa na qual ele lhe traz questões com as quais você não sabe lidar. Neste caso, poderia você assumir um papel existencial, entrar em cena com um personagem que saiba lidar melhor com tais questões do que você mesmo faria. Quais seriam as características deste personagem? Seria alguém atencioso ou alguém com mão de ferro? Alguém que saiba ouvir? Que fale como um conselheiro? Que saiba ver com a visão de quem busca por uma resposta e não por uma condenação? Alguém afetuoso? Será que ao assumir uma roupagem existencial tal você seria um pai/mãe melhor do que é hoje?

A resposta apenas você pode dar, ela encontra-se no depoimento vivo da sua existência, chama-se Historicidade, a história da sua vida. Consulte e provavelmente você saberá!

*Gilberto Sendtko
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Os resultados da investigação de homens que despertam só tocam a despertos. O método é revolucionário: em lugar do passado, o presente, investigação em lugar de cantos conclusivos, tarefa em andamento de que se ignora o fim."

"O filósofo, como os heróis legendários, afronta as portas vedadas aos viventes."

"Heráclito suspeita do que se expõe à observação. Prefere as sombras, porque é aí que a vida se esconde."

"(...) A noite sustenta o dia na contradição."

"Há sabedoria em conviver com o raio. Apanhar o momento único em que o raio luz: uma ideia, um som, momento que não se repete nunca mais, capaz de gerar ideias e palavras e sons."

"A poesia só germina nos golpes que afrontam a inércia e abrem caminho ao desconhecido."

"Heráclito vê, entretanto, na linha traçada sobre a curvatura do vaso, a convergência dos contrários, pois aí a linha reta se dobra."

"Na procura de si mesmo emerge um tempo não registrado em calendários, não medido pelo movimento do sol ou dos astros, tempo que se percebe longo ou breve na passagem, tempo de que se desconhece o fim. Indefinido e obscuro como as previsões dos videntes, fundamenta as decisões que movimentam os passos para o que ainda não é. Quem se põe a caminho se desprende da tradição cristalizada, em que todos os passos já foram previstos, em que escolhas são obstruídas pelo destino. Quem se busca se faz e se desfaz na busca. Não é coisa entre coisas."

"A presença do caos impede que o mundo se imobilize. O mundo não é só uma coleção de coisas, é também o arranjo das coisas, tocadas pelos projetos dos que nele habitam. O mundo está e não está pronto."

*Donaldo Schuler in "Heráclito e seu (dis)curso" Ed. L&PM pocket. Porto Alegre/RS. 2000  

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Pensar sem Mitos*


“Quando dois filósofos não concordam em relação ao ser, eles não concordam em nada.” Étienne Gilson

Havia muito tempo que eu só pensava, passei alguns anos, dias em pensamentos, totalmente absorto. Era uma disputa entre o que eu estava a pensar e o que externamente me cercava.

Acordo sob a égide do panegírico dos homens engravatados que discursavam, mostravam uma tecnologia do século XX, depois disso pensei: realmente, o mundo é feito apenas de convicções. Voltei aos pensamentos. No outro dia o líder maior das minorias e maiorias desanda a desvendar a realidade vazia e a perplexidade em que as pessoas se encontram.

Mais uma vez sem convicções, me tornei mais cético do que já sou. Não a ponto de cometer uma asneira existencial e me agarrar a uma promessa prometeica. Tenho respeito ao mito, mas àqueles que foram forjados, e ninguém com mais de cinco anos leva a sério esses mitos. Errado. Todos se agarram a mitos. Ao homem cabe o argumento, aos deuses não cabe nada, aliás, eles poderiam dar um descanso à insanidade dos homens. 

Nem tudo está perdido, existe ainda a capacidade de argumentar, de pensar, até mesmo de reconhecer no Outro a possibilidade de ler o livro, de ver o filme, de ouvir o som, de poder refletir sobre todas as coisas sem que as convicções tomem conta dos argumentos. 

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Educador. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Sobre a origem da poesia*


A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.

Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.

Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.

Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?

Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.

Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.

Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).

No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.

Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. 

Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre.

Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.

*Arnaldo Antunes

domingo, 25 de setembro de 2016

Papéis Existenciais*



Fiz mímicas
Fiz-me de ator
Personagem de mim mesmo
Representei o teatro
Da minha vida
Para que você entendesse.
Mas, outra vez, você riu
Você riu, uma vez mais
Ah!!! porque você riu?
Espere um pouquinho mais
Não te contaram ainda
Que você não deveria rir?
Ah!!! porque você riu, assim?
Quem deveria rir era eu...
Não rio por pouco. Então chorei
Tava no "script", assim
Promete para mim, vai
Rirmos juntos, só no final?
Ainda não te contaram
Que não deverias rir?
Ah!!! Não te contaram ainda
O que você não pode fazer
Para me deixar triste?
O que te faz rir
Por vezes me faz chorar....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Filósofo Clínico da Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Os Poemas*


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

*Mário Quintana

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O menino que carregava água na peneira*


Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

*Manoel de Barros

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Conjugações existenciais*


Existe um lugar onde é possível reinventar-se em vida. Nesse refúgio intersubjetivo é crível desfazer e refazer as coisas, segredar vontades, qualificar ensaios existenciais, traduzir sonhos. Num contexto de significação flutuante, se ampliam horizontes numa arte do encontro. 

Em um espaço de acolhimento, cultivo, reciprocidade, as narrativas compartilhadas sugerem uma hermenêutica do estar junto. Atiça expressividades na integração das incompletudes. Em busca de fluência discursiva, ao instituir um novo território, aponta originais no ângulo fugaz do instante.  

Algo mais acontece quando duas ou mais pessoas se encontram. Seu teor de abrigo é um farol na solidão dos exílios. Sua matéria-prima é a afinidade das palavras, por onde um extraordinário encontro se realiza. Com essa integração provisória da malha intelectiva, se institui um chão para se ousar o não pensado, cogitado, tentado.

 Nessa reunião de vontades, acessada numa determinada sintonia, é possível transcender em direção ao outro. Em um empreendimento comum, se emancipam os limites da singularidade, institui-se um diálogo com as lógicas da diferença. Na unidade provisória de um talvez, é possível localizar ilegibilidades. Ponto de partida a descrever vontades, traduzir representações. 

Para essa exploração compartilhada reivindica-se, preliminarmente, uma disposição fenomenológica e a hermenêutica compreensiva. A partir da adequada leitura da estrutura de pensamento, é possível elucidar equivocidades discursivas, esboçar uma estética a cultivar afinidades. Mais que entendimento, propõe uma atitude de inclusão e partilha. Aqui se trata de conjugar como elaborar, prosperar. Reivindica-se um acesso aos possíveis e inacreditáveis eventos.

Nesse sentido, sua junção concede visibilidade aos tempos verbais desconsiderados. Seu teor de novidade, ao ser desenvolvimento interpessoal, qualifica processos de libertação criativa. As conjugações existenciais possuem fluidez nos discursos pronunciados no viés da interseção. Com a desconstrução dos isolamentos, tendo como ponto de partida o texto silenciado, se insinuam rituais de novidade. Neles um significado inédito se reapresenta na perspectiva dos encontros. 

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico da Casa da Filosofia Clínica

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A imagem na tela*


“O novo automatismo de nada serve por si só se não estiver ao serviço de uma poderosa vontade de arte, obscura, condensada, que aspira a desdobrar-se em movimentos involuntários que contudo não a constranjam.”
Gilles Deleuze (A imagem-Tempo, Cinema 2)

Sou do tipo que utiliza computador de mesa, um ser quase em extinção disse um dia desse uma voz cifrada do outro lado do écran. Agora o que mais se fala é da autonomia do cérebro, pensa em algo, lá está, o significado é o algoritmo da informação; os olhos, a câmara que move na linguagem cifrada.

Para Deleuze, a informação aproveita-se de sua ineficácia para alicerçar seu poder. O poder impotente. O uso da linguagem cada vez mais é dependente das criptografias nulas, do constructo das linguagens a nudez vira um afronto.

Era tudo que eu queria, a nudez viver ao lado do que cobre sobre a pele como uso livre da linguagem do corpo aos olhos do mundo laico. Tudo é uma questão de adaptação ou tudo é uma questão de tempo para não nos lembrarmos mais do Ser?

O tempo é o passado em nosso corpo, não conseguimos mais compreender o tempo, então, é melhor esquecer o tempo nas tentativas de pensar menos, de fazer tudo na medida certa do descompasso.

A vida é rápida, o tempo não nos livra de todos os sentimentos. Perdemos horas do nosso tempo no entretenimento. Morre-se de medo em ver o tempo nos acordar antes de todos em manhãs pós-golpe. O medo de se sentir útil ao pensamento é mais uma brecha para o desconhecido. Junte os pedaços e vire a página da intolerância.

O mundo hiper-moderno é aquele em que a informação é a própria Natureza.

Existem os lados, os tantos cantos deste mundo em que o pensamento libertário não deixou de respirar. Um lado dirá, ‒ quase burra, nem um pouco de estilo, muita informação ‒ outro ‒ nenhum pensamento é o que se vê em plataformas diversas ‒ mais outro ‒ tudo é uma questão de rede, ou seja, de sermos caçados por nós mesmo na rede. É o fim da autonomia? Em absoluto, não.

Minha tela está dando sinais de finitude, minhas mãos ágeis ainda acompanham o pensamento. O mundo é tão rápido, os dedos aquecidos pela xícara de café se tornam aquecidos neste inverno, mas quando o café acabar o que acontecerá?

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 18 de setembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Poéticos, Delirantes*


"O leitor se inclina e se precipita. E ao cair - ou ao ascender, ao penetrar nos aposentos da imagem e entregar-se ao fluir do poema - se desprende de si mesmo para integrar-se em 'outro si mesmo' até então desconhecido ou ignorado." 

"O próprio da poesia consiste em ser uma contínua criação e assim tirar-nos de nós mesmos, desalojar-nos e levar-nos às nossas possibilidades mais extremas."

"A estranheza é assombro diante de uma realidade cotidiana que se revela de repente como o nunca visto."

"(...) a esquizofrenia revela semelhanças com o pensamento mágico."

"A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso faz fronteira com a magia, a religião e com outras tentativas de transformar o homem e fazer 'deste' e 'daquele' o 'outro' que é ele mesmo." 

"(...) nós somos o tempo, não são os anos que passam, mas nós que passamos."

"Mas todo silêncio humano contém uma fala. Calamos, dizia sóror Juana não porque não tenhamos nada a dizer, mas porque não sabemos como dizer tudo o que queríamos dizer."

"(...) toda magia que não se transcende - isto é, que não se transforma em dom, em filantropia - devora a si mesma e acaba devorando seu criador."

"Léxicos e gramáticas são obras condenadas a nunca estar prontas. O idioma está sempre em movimento, mas o homem, por ocupar o centro do redemoinho, poucas vezes percebe essa mudança incessante."

"O poeta o cria; o povo, ao recitá-lo, recria. Poeta e leitor são dois momentos de uma mesma realidade. Alternando-se de uma forma que não é incorreto chamar de cíclica, sua rotação engemdra a faísca: a poesia."

*Octávio Paz in "O Arco e a Lira" Ed. Cosacnaify. SP. 2012

sábado, 17 de setembro de 2016

Transbordamentos*


Escrever transborda porque é um ato vivo. E se vivo, voluntário mesmo que por qualquer distração ou pretensão se pareça involuntário. Escrever nunca é um acidente, não é uma contingência; é intencionalidade, jamais por acaso. Escrever é vida por transbordar sentimentos sempre em alguma medida.

E, talvez, a medida do poeta seja sempre a desmedida. Por isso, a poesia toca seja como for e nunca deixa ninguém sair ileso.

Porventura, não há poesia indiferente - encanta ou desencanta - denuncia ou saúda - inquieta ou acalenta - repele ou atraí; transforma e comove tanto no mais profano dos ideias quanto no mais divino da prepotência.

Enfim, para despertar consciência e conquistar sabedoria nunca bastará apenas conhecer caminhos, pois fundamentalmente, será sempre inevitável ter coragem e vontade para realizar percursos sem garantia de fato mas que poderão tornar-se coloríveis pela poesia de cada um como autor da sua própria história. Musa!

Prof. Dr. Pablo Eutenio Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Uberlândia/MG - Porto Alegre/RS

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Meu pensamento não poderia dar um passo se o horizonte de sentido que ele abre não se tornasse, pela palavra, aquilo que no teatro se chama um praticável."

"Diz-se que há um muro entre nós e os outros, mas é um muro que fazemos juntos: cada qual coloca a sua pedra no vão deixado pelo outro."

"Coisa alguma, lado algum da coisa não se mostra senão ocultando ativamente as outras, denunciando-as no ato de encobri-las."

"(...) a cultura nunca nos oferece significações absolutamente transparentes, a gênese do sentido nunca está terminada. Aquilo a que chamamos com razão nossa verdade, sempre o contemplamos apenas num contexto de signos que datam o nosso saber."

"(...) Enfim, temos de considerar a palavra antes de ser pronunciada, o fundo de silêncio que não cessa de rodeá-la, sem o qual ela nada diria, ou ainda pôr a nu os fios de silêncio que nela se entremeiam."

"(...) a linguagem diz, e as vozes da pintura são as vozes do silêncio."

"O filósofo carrega a sua sombra, que não é simples ausência de fato da futura luz. Já é, diz Husserl, uma dificuldade muito 'excepcional' não só 'apreender', mas 'compreender pelo interior', a relação entre o 'mundo da Natureza' e o 'mundo do espírito'".

"Deixa de haver filosofia se olhamos primeiro as conclusões; o filósofo não procura os atalhos, percorre todo o caminho."

"Lembrando Bergson: 'Se o cientista, o artista, o filósofo aferram-se à busca da fama, é por faltar-lhes a absoluta segurança de haver criado algo viável. Deem-lhes esta segurança, e vocês os verão imediatamente fazer pouco-caso do rumor que cerca seu nome.'"  

*Maurice Merleau-Ponty in "Signos". Ed. Martins Fontes. SP. 1991

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Extravio*


Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

*Ferreira Gullar

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Insanidades...*


Da última vez que fizeram amor
Esqueceram de se olhar bem nos olhos
Esqueceram de dizer um ao outro
Eu te amo...
Riram muitas vezes
E tantas vezes
Que da última vez
Ela chorou
E ele não sabia porquê...
Depois dos "metrossexuais"
Surgiram os "sapiossexuais"
Fascinação pela inteligência cultural
Amor pela leitura, pelos livros.
Agora ele era o "outro"
Na vida dela
Ela o trocou, de repente
Pelo amor aos livros.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Filósofo Clínico da Casa da Filosofia Clinica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Antes do nome*


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

*Adélia Prado

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O silêncio é o espaço onde as palavras  nascem e começam a se mover."

"Aquilo que os poetas viram e desejam dizer não pode ser dito."

"Os olhos que só vêem o visível não podem ver as ausências que moram ali."

"Lembrando Valéry: ' Que somos nós sem o socorro daquilo que não existe ?'"

"(...) não sabemos o nome de nosso desejo mais profundo. Resta-nos suspirar suspiros que são profundos demais para palavras. Nosso corpo fala línguas que ele mesmo desconhece."

"Lembrando Guimarães Rosa: 'tudo é real porque tudo é inventado.'"

"Para uma lagarta não há nada mais lindo que coisas que se assemelhem a ela. No mundo das lagartas, até os deuses são lagartas. Mas as borboletas obviamente dirão: tolice..."

"Cada sonho é um testemunho de que o Paraíso ainda não chegou."

"No mundo descrito por Orwell, 1984, sonhar era crime, e um homem foi preso porque, ao dormir, falou o seu sonho. E, fazendo isto, confessou que sua alma voava longe."

"O profeta invoca o vento. Ele chama o selvagem, o indomável, o pássaro que nenhuma gaiola pode conter, o mistério que nenhuma palavra pode dizer."

"Ensinar é mapear o mundo, fazer visíveis, pelo poder da palavra, os lugares desconhecidos. 'Minha linguagem denota os limites de meu mundo', dizia Wittgenstein...'"

*Rubem Alves in "Lições de Feitiçaria". Ed. Loyola. SP. 2003