sexta-feira, 30 de junho de 2017

O verbo e as carícias*


Hoje eu me apaixonei de novo por maneiras antigas de compor carícias em forma de palavras porque descobri outros caminhos para delinear velhos verbos de ação já muito aplicados outrora em linhas e entrelinhas de vida; agora. 

E de tantos encontros, desencontros e reencontros nascera um dom que nunca morrera, pois nitidamente me parece que ele sempre esteve aqui, pulsando com canto sutil e quase sem nenhum intervalo. E é isso que muito corrobora para que a poesia prevaleça de dentro para fora, de fora para dentro e ainda, para muito além do meu próprio ser e estar. 

E pensar que um sorriso tímido, de olhar profundo, de lábios e gestos doces demais pudessem sobreviver décadas sem jamais se desconstruir. E reconhecer que esse sorriso, que esse olhar e aqueles lábios e gestos contribuíram enormemente nesse papel existencial de ser ou estar poeta. 

Portanto, hoje e sempre eu precisarei agradecer com todas as minhas forças ao belo fato de haver pessoas que me comovem e me competem, sobretudo, por me tocarem demais; pessoas especiais as quais a sua importância costumeiramente transcende e muito a sua própria consciência ou capacidade para observar e sentir. Musa!

Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Uberlândia/MG - Porto Alegre/RS

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A gleba me transfigura*


Sinto que sou abelha no seu artesanato.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(...)
Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.
Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.

pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que
vão pelas estradas.
Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
(...)
Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
(...)
Em mim a planta renasce e flosrece, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada
e fecundada no ventre escuro da terra.

*Cora Coralina

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A escuta das palavras*













A palavra, em deslocamento por seus muitos territórios, também busca uma legibilidade para sua singularidade. Aptidão rara em meio às ditaduras da semiose verbal. Ao conviver sempre no mesmo lugar, ainda que em línguas diferentes, exibe uma excepcional aventura discursiva em cada pessoa.

Em um mundo apropriadamente imperfeito, pode ser indizível, ao dicionário conhecido, o melhor ponto de equilíbrio para se traduzir. Essa suspeita se insinua nas possibilidades do instante perfeito. Essa transgressão da zona areia movediça de conforto existencial aproxima-se de um mundo quase invisível. Assim pode acolher e dialogar com a mutante medida de todas as coisas.

Ao destacar o viés dessas poéticas da irreflexão, apresenta-se uma negação de que tudo já foi dito, pensado, tentado. Nele um espaço desconhecido se abre como proposta. Talvez a escola, ao ensinar a ler e escrever incluísse aprendizados na arte de ouvir, sonhar, flutuar, dialogar com suas paredes, experienciar a singularidade diante de si mesma. Quiçá emancipar-se do tumulto silencioso da palavra impronunciada.

Nesse sentido, a convivência aprendiz com esses códigos de ser inédito pode conceber a crise precursora, o desajuste social, a incompreensão, como rascunhos de uma obra acontecendo. Em um chão de incompletudes, os subúrbios da expressividade acolhem o devir dos recomeços.

Ao Filósofo dos casos perdidos, acostumado a ter um não saber como ponto de partida, vislumbra-se essa dialética como uma emancipação do olhar. Lógica principiante a conjugar o recém chegando vocabulário de ser singular. Uma estética a reivindicar a exceção por onde o espelho da realidade se move.

*Hélio Strassburger

terça-feira, 27 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) a dialética corre o risco de abrir um mundo que todos estão tomando o cuidado de fechar sobre suas igualdades; na medida em que ela é uma técnica de transformação, opõe-se à estrutura enumerativa da propriedade, escapa para fora dos limites pequeno-burgueses (...)"

"O bom senso é como o cão de guarda das equações pequeno-burguesas: ele tapa todas as saídas dialéticas, define um mundo homogêneo, no qual nos sentimos em casa, protegidos dos problemas e dos escapes do 'sonho' (entendam: de uma visão não contabilizável das coisas)"

"(...) a arte morre por excesso de intelectualidade, a inteligência não é uma qualidade de artista, os criadores poderosos são empíricos, a obra de arte escapa ao sistema, em suma, o cerebralismo é estéril"

"A Literatura, no entanto, só começa perante o indizível, em face da percepção de um algures estranho à própria linguagem que o procura. É essa dúvida criadora, essa morte fecunda, que a nsosa sociedade condena na sua boa Literatura e que ela exorciza na má"

"A fala do oprimido é real, como a do lenhador, é uma 'fala' transitiva: quase impotente para mentir; a mentira é uma riqueza, pois supõe posses, verdades, formas de substituição(...)"

"Sabemos, doravante, que o mito é uma fala definida pela sua intenção (sou um exemplo de gramática), muito mais do que pela sua literalidade (eu me chamo leão)"

*Roland Barthes in "Mitologias". Ed. Difel. RJ. 2007.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Navegar os sonhos*


O Azul do mediterrâneo me acorda nesta madrugada. A história desta cidade de 2600 anos me revela a permanência do tempo nos espaços onde Deus e os homens comungaram da estética do existir.

As estrelas deste céu azul anil me reforçam que podemos sair da rotina e adentrar outros espaços.
O cotidiano engessa. A rotina limita.

Colombo aqui viveu e um dia desejou navegar e desbravar novos horizontes. E descobriu as Américas!

Quantas vezes do alto destas torres e neste jardim sonhou em ver novos terras? Não ficou no sonho. Rompeu o medo e navegou.

Sair dos agendamentos e criar ouvindo a alma e o coração nos permite navegar e descobrir possibilidades infinitas.

Genova reforça em mim "O é Possível". Possível pensar por Si-mesmo e criar livremente.

Liberdade requer coragem de sair da condição de escravo e assumir a loucura de ser Si mesmo! É possível!

Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

domingo, 25 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O mundo estava aí fora, cheio de novas informações e sugestões, estranho, imenso, aberto, e me envolvia completamente, me chamava, era tão diferente da segurança do meu quarto com cortinas, do programa de televisão todas as noites, da rotina da faculdade (...) Eu precisava sair desse mundo sufocante, hipócrita e artificial"

"Então tratei de descobrir algo que desse um sentido verdadeiro à minha vida, algo que não fosse tão perecível como a glória de ser jogador de futebol ou médico de ricos (...)"

"Minha tarefa no momento é desaprender. Esquecer tudo que me colocaram na cabeça durante anos a fio. Esquecer até começar a ser, um dia, outra pessoa, melhor. Com outra cultura, outro pensamento, outras crenças, outras razões - mais reais e mais fortes - para viver"

"(...) hoje em dia a gente só encontra pessoas condicionadas pela sociedade em que vivem, compreende ? Pessoas que vivem segundo os moldes que fabricam para que vivam. Conformistas. E desse modo só compram calça Lee ou tênis Adidas ou sei lá que mais. Conformistas"

"Permaneceu sentado três horas, imóvel, olhando a água morder os degraus carcomidos e musgosos. Quando levantou-se e voltou para o tráfego da avenida carregava os olhos cheios da água movediça, oleosa e viva do rio; sabia que seus olhos já se aproximavam da profunda água parada que habitava os olhos de Mariana"

"Era - intuía mais que sabia - a última vez que contemplava a cidade com seus antigos olhos. Estava em gestação silenciosa e dolorida dentro de si uma outra maneira de ver - e essa maneira nova trazia muito da maneira de ver de Mariana"

*Tabajara Ruas in "A região submersa". Ed. Mercado Aberto. 1994. Porto Alegre/RS.

sábado, 24 de junho de 2017

Meu caminho para a escrita*


“A leitura traz ao homem plenitude, o discurso segurança e a escrita exatidão.” (Francis Bacon, Ensaios)

Jamais pensei que iria escrever alguma coisa para mais de uma pessoa. Passei a adolescência quase sem ler. Somente iniciei minhas leituras, relevantes e em quantidade, a partir dos 20 anos. Isso é muito tarde para muitos. Minha escrita foi surgindo nessa época. Antes disso não havia diferença entre o que escrevia no fim do ensino médio e o que um iniciante na escrita da quarta série do ensino fundamental escrevia, inclusive a dificuldade de expressar o que pensava e sentia.

Mas, as coisas mudaram. Hoje ainda não conheço muitas regras da nossa língua. Uma frase às vezes deve repetidamente ser mudada para que a forma esteja de acordo com o que minha intuição permite. O que conheço de escrita devo totalmente à minha leitura. E para quem começou a ler e escrever com certa frequência a partir dos 20 anos, até que não me saio mal escrevendo.

Quando apresentei minha monografia enquanto cursava a licenciatura de filosofia, o professor que me argüia me disse: “Miguel, você escreve muito bem. Mas, sua fala não corresponde à sua escrita.” Ou seja, pelo que parece, escrevo melhor do que falo.

Creio que devo isso ao fato de falar desde quando me entendo por gente. Fui tomando todos os vícios de linguagem possíveis ao longo de minha infância e adolescência. Mas, minha escrita tem certa “pureza”. Escrever e ler aconteceram concomitantemente no momento tardio de minha formação expressiva. Aprendi a me expressar por escrito quando já falava bastante e minha formação básica já havia terminado.

Aos 21 anos, quando entrei no bacharelado em filosofia, tive de aprender outra forma de escrita. Já não bastava expressar o que pensava, sem rigor. Agora era necessário dizer o que o escritor quis dizer, ou pelo menos de modo aproximativo. Foi um grande desafio. Lembro que uma de minhas primeiras notas foi “3,5”, atribuída pela professora com a qual cursei disciplinas em todo meu bacharelado. As notas finais eram as melhores e ela ainda foi minha orientadora na monografia para conclusão do bacharelado. De alguém que pouco entendia o que lia dos conteúdos filosóficos, consegui chegar a não somente entender, mas expressar por palavras escritas.

Hoje não me considero um “escritor”, muito menos um dominador da arte de escrever e me expressar. Mas, reconheço que ultrapassei o jovem que até os dezenove anos escrevia vergonhosamente (devo isso ao meu desinteresse, à ausência de estímulos em casa e à qualidade do ensino público no qual cursei o nível fundamental e médio) e apenas sabia elementos básicos de mecânica de veículos a diesel (trabalhei alguns anos em oficina mecânica).

Ler e escrever foram exercícios que mudaram muito meu modo de interagir com o mundo. Digo “meu modo” porque sei que são diversos os modos de interagir com o mundo e a escrita tornou o “meu” um pouco melhor, o que não vale como regra universal. Agora tenho o Alétheia*. O primeiro blog para o qual escrevi foi a Casa da Filosofia Clínica**, administrado por Hélio Strassburger, que até hoje me dá grande força para seguir escrevendo. Se posso deixar uma dica para quem pensa em escrever, direi:

“Leiam e escrevam o tempo todo. Todas as ideias que vierem à cabeça, coloquem no papel sem preocupar-se se sairá bem ou se as pessoas gostaram. Primeiro expresse-se, depois veja se essa expressão vale a pena ser compartilhada. Na grande maioria dos casos, valerá sim.”

Esse foi meu caminho para escrita. Qual foi, é ou será o seu?

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Educador. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

** Este texto foi publicado em 2011 no meu extinto blog chamado “Alétheia”, no qual postei entre 2011 e 2012. Não alterei nada nele para publicá-lo aqui.

***O blog da Casa da Filosofia Clínica existe até hoje e há vários textos antigos meus publicados por lá.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A natureza não oferece paz, simplicidade, univocidade; ela é o elemento da interrogação, da contradição, da negação, da dúvida ampla"

"(...) a obra do gênio doente, transformado em gênio pela doença, admirando, elogiando, elevando, prosseguindo, transformando, legando-a para a cultura que não vive apenas do pão ordinário da saúde"

"(..) há coisas que o homem tem vergonha de revelar a si mesmo, e cada indivíduo vai colecionando uma quantidade bastante grande dessas coisas. Sim, podemos até dizer que, quanto mais correta for uma pessoa, maior será o número dessas coisas"

"(...) a fronteira entre as atividades de poeta e escritor não passa por fora, pelo lado das aparências, e sim dentro da própria pessoa"

"Na esfera de Lessing, nós nos acostumamos a relativizar as coisas, a humanizar o conceito de verdade, e nos habituamos à ideia de que os critérios do que é verdadeiro residem menos na verdade defendida do que naquele que a defende"

"O gênio, podemos afirmar, revela-se onde aparece algo nunca antes intuído, onde algo nunca antes imaginado se materializa; o gênio se anuncia ao possibilitar algo novo que só se torna duradouro, até mesmo vitorioso, pela força e graça da personalidade"

"(...) os amigos da humanidade e da perfectibilidade que acreditam que o ser humano almeja a felicidade e a vantagem, quando na verdade ele também anseia por sofrimento, essa única fonte do conhecimento, e não deseja o palácio de cristal e o formigueiro da perfeição social, jamais abrindo mão da destruição e do caos"

*Thomas Mann in "O escritor e sua missão". Ed. Zahar. 2011. RJ.  

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Inocência*


“Mas quanto mais me tornava transparente e leve, mais meus despojos cinzentos ganhavam consistência para seus sentidos fatigados.”
Pierre Klossowski

Imagino meu corpo além do meu corpo. Além, um pouco mais distante do que hoje sou. Bem antes, quando bem pequenino ao lado de minha mamãe. Bem ao lado, sentadinho em um banquinho, enquanto ela cuidava de minha avó enferma. Estava ali, ainda sem a consciência real das coisas, nada a perder, e o lado humano de estar à deriva da lógica da vida. 

A vida dos homens não existia. A inocência e a vida, brincava com o Nada: suprema maneira de ser apreendida pelo pequeno Ser. Uma alegoria do impossível, desde que, hoje, já não sei o que estava a viver. Construí esse mundo, através do imaginário de minha mãe, pude ir além do que hoje posso compreender. 

Falava sozinho, como um humano que ainda está a ver o mundo, o poente é mais distante hoje. Minha mãe cuidava de sua mãe, olhava-me com lágrimas de dor e felicidade.

Essa é uma imagem que não lembro por mim mesmo, é a recordação de relato que minha mãe volta sempre a me contar. Já narrou inúmeras vezes, não importa, estou sempre pronto para ouvi-la novamente. Todos os ângulos, a vida é sempre a mesma, o amor está dentro e fora dessa narrativa. O amor é infinito, a dor morre logo ali [...] outras narrativas.

“Dalgum modo outra vez e todos outra vez no olhar fixo. Todos duma vez como uma vez.” Samuel Beckett

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Em nenhum outro sentido a palavra 'espírito livre' quer ser entendida: um espírito que se tornou livre, que voltou a tomar posse de si mesmo"

"(...) reconheci que havia chegado o tempo de me voltar para mim mesmo. De uma vez por todas ficou claro para mim, de uma maneira terrível, quanto tempo já havia sido desperdiçado (..)"

"(...) o fato de que a humanidade até hoje esteve nas piores mãos, de que ela foi regida pelos malogrados, pelos vingativos-astutos, pelos assim chamados 'santos', esses caluniadores do mundo e violadores do homem"

"Quando se desvia a seriedade da autoconservação, da fortificação do corpo, quer dizer, da vida, quando se faz da anemia um ideal, quando se constrói 'a salvação da alma' sobre o desprezo ao corpo, o que é isso se não uma receita para a décadence?"

"Com a 'aurora' iniciei, pela vez primeira, a luta contra a moral da renúncia a si mesmo"

"(...) tudo aquilo que é decisivo nasce 'apesar de tudo'"

"A gente paga caro por ser imortal: morre-se mais de uma vez durante a vida por causa disso"

"Foi o próprio Deus que ao fim de sua obra se disfarçou de serpente indo se deitar sob a árvore do conhecimento: assim ele se restabeleceu do fato de ser Deus... Ele havia feito tudo demasiado belo... O diabo é apenas a ociosidade de Deus a cada sétimo dia (...)"

"No fim das contas ninguém pode captar nas coisas, incluídos os livros, mais do que ele mesmo já sabe. Para aquilo que a gente não alcança através da vivência, a gente também não tem ouvidos"

*Friedrich Nietzsche in "Ecce Homo". Ed. L&PM Pocket. Porto Alegre/RS. 2014. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Escrever as palavras*


Escrever é gravar
As palavras para sempre.
Falar é jogá-las
Ao vento.
Sentado no chão
Colhi as ervas
Para a minha cura.
Ajoelhado, rezando
Apanhei as flores
À tua procura.
Deitado, sonhando
Sobre o nosso leito
Inventei você mil vezes.
Escrevendo
Eternizei você
Para todo o sempre.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas"

"(...) há duas maneiras de usar a poesia (...) Uma das maneiras é o poeta usar as palavras comuns e de algum modo torná-las incomuns - extrair-lhes a mágica"

"(...) Quando penso em amigos meus tão caros como Dom Quixote, o sr. Pickwick, o sr. Sherlock Holmes, o dr. Watson, Huckleberry Finn, Peer Gynt, etc. (não estou certo se tenho muito mais amigos)

"(...) de súbito a palavra ganha vida"

"(...) imagino que uma nação desenvolve as palavras de que necessita"

"(...) uma língua não é, como somos levados a supor pelo dicionário, a invenção de acadêmicos ou filólogos. Ao contrário, ela foi desenvolvida através do tempo, através de um longo tempo, por camponeses, por pescadores, por caçadores, por cavaleiros. Não veio das bibliotecas; veio dos campos, do mar, dos rios, da noite, da aurora"

"(...) gostaria de dizer que cometemos um erro bastante comum ao pensar que ignoramos algo por sermos incapazes de defini-lo"

"(...) Passamos à poesia; passamos à vida. E a vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia - a poeisa, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante"

*Jorge Luis Borges in "Esse ofício do verso". Ed. Companhia das Letras. 2007. SP. 

domingo, 18 de junho de 2017

As palavras iniciais*













As expressões preliminares possuem um teor de anúncio de incertezas. Sua linguagem cifrada, em um discurso incomum, abre espaço, compartilha desafogo, reapresenta as formas do indizível. De antemão, tem-se um imenso nada a se mostrar na crise desconstrutiva pessoal.

Essas palavras desarticuladas realçam um caos subjetivo em ação. Nesses conteúdos de rascunho, já se pode vislumbrar endereços existenciais, descrever a novidade chegando. Por esse começo é possível investigar o mundo das vontades, das representações. Nos ditos de assunto imediato, nem sempre confirmados no discurso posterior, os relatos oscilam em busca de legitimidade. A partir desse acolhimento, pode-se qualificar a relação clínica, regular o ângulo da visão, ajustar a lógica desse encontro singular.

O teor de con-fusão entre o passado e o agora passando, além de traduzir um viés im-paciente, proporciona atenção a esse sujeito em estado nascente. Após essa antítese com as anterioridades, existe um lugar para restabelecer novos pontos de equilíbrio. Nesse instante de des-ordem, onde uma esteticidade desconstrutiva se apresenta, a pessoa deveria ter o direito de realizar ensaios existenciais com segurança, cuidado especializado.

Em uma livre associação discursiva assim descrita, a categoria tempo costuma ser aliada das ressignificações. Com ela é possível vislumbrar as intencionalidades e desdobramentos da manifestação primeira. Seu incômodo com a paz dos cemitérios sugere uma vida transbordando ao antever horizontes. Conteúdos clandestinos insinuam-se nas entrelinhas das primeiras menções.

Essas considerações de abertura, muitas vezes irreconhecíveis à primeira vista, possuem a força e o significado do instante. Seu desconcerto busca redesenhar uma arquitetura subjetiva que desponta. Suas divagações e desencontro de ideias, falsetes, rascunham impropriedades a quem vai ficando pelo caminho. Esses conteúdos restariam indescritíveis, classificados nalguma forma de loucura, não fosse a tradução do olhar diferenciado, a partir da compreensão dessa expressividade singular.

Nessa antevéspera de novidades, o papel existencial do Filósofo Clínico aprecia ser um cúmplice a sustentar travessias. Seus termos sugerem apontamentos para reinvenção existencial. Sua estética de manifestação absurda reivindica um chão às promessas de libertação. A palavra inicial segue inconclusa.

*Hélio Strassburger 

sábado, 17 de junho de 2017

Por Não Estarem Distraídos*


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam mais com aspereza queriam, sem um sorriso.

Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

*Clarice Lispector. Livro “A Descoberta do mundo: crônicas”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 508.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Buen Camino*


Depois de atravessar o Caminho de Santiago andando, passei a gostar de caminhar. Solitário ou em grupo, nunca fiquei só, mesmo que não houvesse ninguém a meu lado. O pensamento se tornou meu companheiro de viagem. O corpo também assumiu papel determinante e passou a mostrar o valor de cada unha, cada dedinho do pé, cada quilo a mais por carregar.

Muitas vezes não havia ninguém para compartilhar o raiar do dia, uma cafeteria cheirosa escondida no meio do nada, uma cegonha trazendo comida para os filhotes. Batia fotos, mas por melhor que fosse a câmera, não conseguia transmitir a euforia daqueles momentos. Ficava com aquelas imagens e sensações guardadas em mim.

Houve uma noite especial em que me senti só. O peregrino russo tirou o violino da mochila e começou a tocar no pátio do albergue. Logo um casal de gregos passou a cantar e vários outros dançavam depois de quilômetros rodados e pés cansados. Ali, apesar de estar rodeado de pessoas, senti que estava carente e precisava de alguém especial para me abraçar,  segurar em seus braços e dançar. 

Outros dias, bastava cumprimentar alguém com um “buen camino” e logo estava enturmado  como se fossemos irmãos. Andávamos horas conversando, mesmo sem falar o mesmo idioma. Logo se aprende quem quer falar e quem quer ficar quieto na caminhada.

No inicio minha mochila pesava demais. Carregava segredos que já não me pertenciam, preconceitos que atrapalhavam, regras de moral com prazos de validade vencidos, rancores mofados, amizades ilusórias, casos mal resolvidos, frustrações enferrujadas, certezas duvidosas, dúvidas cruéis, grandes, médios e pequenos medos.  Foram importantes em uma época, agora dificultavam meus passos.

Tinha que esvaziar aqueles fardos inúteis para ir adiante. O problema é que não tinha certeza se eram tão inúteis assim, poderiam fazer falta um dia. Vacilava e não jogava nada fora. Caminhadas longas obrigam o caminhante a ficar dias inteiros grudado na mochila. É assim que se aprende o peso do supérfluo. As costas doíam, a coluna pesava, precisava tomar uma atitude. Sentei no chão, olhei para a mochila distendida, tirei as coisas de dentro, escolhi o que poderia ser dispensável.

Hesitei um bocado, mas finalmente comecei a descarregar. Poderia ter feito isto muitos anos antes no consultório de um analista, no entanto, o caminho é mais ecológico, acolhe aquilo que não  nos serve e entrega a quem necessita. O caminho é solitário e solidário. 

Depois de Santiago, fiz outras caminhadas. Em cada uma, planejava o roteiro, traçava as melhores trilhas, calculava a quilometragem diária, condições climáticas, hospedagem mais econômica. Tudo estudado com bastante antecedência e atenção. Meses antes já estava sonhando com a viagem. Fazia inclusive a contagem regressiva dos dias.  Mas quando lá chegava, me surpreendia pensando em minha casa, meu trabalho, minhas rotinas, meus problemas.  Fisicamente estava no caminho, mas não estava inteiro lá.

Por outro lado, cada caminhada serviu para despejar uma ou outra carga obsoleta residual. Não é fácil se livrar de tudo de uma só vez, mas progressivamente vai se tornando menos complicado e indolor. Este é um trabalho que ninguém pode fazer por nós, cada um tem sua hora, seu jeito de lidar com exclusões. Nem tudo que excluí foram coisas ruins. Às vezes é preciso deixar para trás coisas boas, sair da zona de conforto e abrir espaço para o desconhecido.

Um peregrino não nasce pronto, ele se faz. Não me considero pronto. Sei que ainda existem muitos caminhos por percorrer e muito por descarregar. Sei também que não vou ter pernas suficientes para andar por todos lugares que sonhei, mas preciso continuar. Meus passos me conduziram até aqui, preciso e quero prosseguir nesta jornada.

Agora, depois de tantos quilômetros rodados, pretendo iniciar uma nova caminhada. Um jeito diferente de andar.  Talvez nem precise levar cajado, botas, mochila, saco de dormir. Tampouco metas, lugar, dia ou hora para chegar.

Quero caminhar bem devagar, quase parando. O tempo e a distância serão mensurados ao contrário do habitual. Desapegar já não será necessário. Paradas valerão mais que passos. O acostamento será tão importante quanto a estrada. O apego será minha bússola e o amor meu norte.


Há muitas histórias por contar. Há tanto que quero saber. Há tanto por compartilhar. Quer andar comigo?  

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Há sabedoria em conviver com o raio. Apanhar o momento único em que o raio luz: uma ideia, um som, momento que não se repete nunca mais, capaz de gerar ideias e palavras e sons"

"Heráclito vê, entretanto, na linha traçada sobre a curvatura do vaso, a convergência dos contrários, pois aí a linha reta se dobra"

"O médico e o paciente foram escolhidos como exemplo da convergência dos contrários"

"O rio de Heráclito rasga um curso de dois mil e quinhentos anos na literatura ocidental, recolhendo as águas de afluentes que nascem em todas as épocas. Os poetas não resistem à força de suas imagens. Combatendo os poetas, ele os atraiu. Mandou silenciar a voz dos poetas nos concursos sem molestar o poeta que trazia em si mesmo. Não silenciaria voz alguma o pensador que compreendeu o universo na contradição"

"Não contemplamos o mundo de fora, como se assistíssemos a um espetáculo sentados na platéia"

"Estamos sem medida para avaliar objetivamente o extraordinário"

"O homem, dotado de uma psique sem limites, limita-lhe os movimentos ao se deter em coisas: propriedades, dinheiro, prestígio. O homem que quer coisas sofre o cerceamento delas. Quem se contenta com coisas recua diante do melhor"

"A busca da verdade empreende-se no silêncio, longe do ruído das multidões. Estas exigem palavras claras, consagradas, familiares. Como esperar que aplaudam intrincadas oposições ? Os que se embrenham no matagal do saber carregam a singularidade como sacrifício. Isolam-se, porque a poucos interessa tão insólita aventura. Forma-se uma elite marginalizada, porque colocada sem recursos à margem"

*Donaldo Schuler in "Heráclito e seu discurso". Ed. L&PM Pocket. Porto Alegre/RS. 2004.  

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Reflexões aleatórias e fragmentadas #1*


Considere que compreendeu a ideia de um autor quando for capaz de expor, com suas próprias palavras, o que foi assimilado.

A memorização foi (e creio que é) fundamental para o ensino ao longo dos milênios. Mas, isso não desconsidera a interpretação.

Se a gente não assimila o que memoriza, corre o risco de estabelecer diálogos vazios mesmo com uma imensa gama de conteúdos na memória.

Não se deve considerar apenas a compreensão do que um autor disse, mas se o que ele disse é verdadeiro.

Um texto de filosofia é um caminho e não um fim em si mesmo. O que é falado importa na medida em que se refere àquilo que diz.

Experimente apreciar uma boa música, pintura ou ler um clássico da literatura após acompanhar um noticiário. A atualidade torna-se trivial.

Intenta cursar uma pós-graduação e tem como escolher um bom orientador. Escolha! Tive um excelente orientador e fez toda a diferença.

Estudar profundamente um autor é como conviver intimamente com alguém. Algo desse autor fará parte de você para o resto de sua vida.

Começar é o primeiro passo, o segundo é perseverar. Pois se há pedras no caminho de quem inicia, há montanhas para quem decide continuar.

A soberba de quem não admite a ignorância acerca de algo é o maior impedimento ao conhecimento do novo.

A “Apologia de Sócrates” mostra que a atividade filosófica tem consequências práticas. O preço da verdade pode ser a própria vida.

Cada parágrafo de “Fides et Ratio” daria um artigo ou aula. Há uma riqueza admirável de conteúdo condensada em cada frase.

Uma das melhores maneiras de melhorar a fluência na prática da escrita é escrevendo, de preferência, diariamente.

Escreve melhor quem escreve sobre o que sabe. Mesmo que seja um saber sobre a dificuldade de escrever. Eis um tema para começar.

Para mim, a escrita com caneta e papel e a digitada em computador exigem algumas habilidades diferentes. Exercite as duas modalidades.

Outra maneira de exercitar a escrita é formando ideias de maneira sintética, como tenho feito aqui, e detalhada, como faço no blogue. A prática da escrita por meio de um diário também é uma modalidade que alia autoconhecimento com aprimoramento da técnica. Experimente!

Temos diversas plataformas para exercitar a boa escrita como Whatsapp, Facebook e e-mail. Comece melhorando a qualidade de suas mensagens.

Antes de sentir a necessidade de aprender a gramática, percebi que a leitura de bons livros era fundamental para melhorar minha escrita.

Comecei a ler com frequência depois dos vinte anos. Foi somente após isso que comecei a escrever melhor. Antes escrevia penosamente.

Nunca li com o fim de melhorar a escrita. Li com interesse em conhecimento do conteúdo que o texto ensinava. A melhora foi consequência.

Professor de filosofia não é necessariamente Filósofo. Já vi a incapacidade de alguns desses professores para constatar meras obviedades.

Ser filósofo não é ter “opinião” própria. É abordar algo que seja acessível a outros filósofos, viabilizando o debate sobre sua veracidade.

Se não houvesse alguma objetividade no discurso filosófico – ainda que seja sobre a subjetividade –, sua exposição ou debate seria estéril.

Não somos obrigados a ler todos os autores que versam sobre um assunto, nem temos tempo pra isso. Mas, devemos ler bem os que escolhemos.

Saber que obras são essenciais para ler é tão importante quanto saber lê-las. Comece pelos clássicos que versam sobre seu tema de interesse.

Ler muitos livros sem assimilação e reflexão sobre seus conteúdos, pode deixar você cheio de ideias... confusas, desconexas e inúteis.

Se você lê dois grandes autores que discordam e concorda plenamente com o que os dois escreveram, provavelmente não entendeu nada.

Escrever postagens limitadas a 140 caracteres, como no Twitter, é um desafio pessoal. Tendo a escrever demais até em conversa pelo Whatsapp.

Pierluigi Piazzi insistia que o estudo não rende quando se estuda muitas horas em um dia, mas um pouco todos os dias. Seja constante!

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Livre Pensador. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Canção de Mim Mesmo*


1.
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.
Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.
Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.
Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.
A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.
A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,  odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?
Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

(...)

*Walt Whitman