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Um olhar sobre a autogenia*

 

Cada autogenia é uma autogenia porque é vivida por uma singularidade. Uma pessoa carrega dentro de si um mundo de vivências, experiências, possibilidades. Cada autobiografia é vasta, inusitada e às vezes impermeável em alguns aspectos, sendo necessária a delicadeza proposta pela Filosofia Clínica para transitar naquilo que a pessoa autoriza e até mesmo proteger aquilo que ela não consegue expressar, assim como algumas expressividades e comportamentos incompreendidos, até então, pelo senso comum ou pela ciência tradicional. 

Cada caminho autogênico é único. Com seus horizontes mais ou menos abertos. Com fronteiras para estabelecer, outras para cruzar. Ainda que os encontros ocorram, que existam conexões ao longo da vida, o percurso existencial de cada ser que habita a terra, será irrepetível. Dos pássaros às onças, gente…Miguel Angelo Caruzo compartilhou uma reflexão sobre isso em suas redes sociais. Ele diz: “Você pode se inspirar em pessoas, buscar modelos de comportamento ou seguir instruções de vida. Mas, inevitavelmente, o resultado disso será único. Seu caminho não possui precedentes, nem terá cópias. Prevalece o inédito. A comparação pode ocorrer por aproximação; e só. Ser você é um processo singular.” (CARUZO, 2024)

Por isso, na Filosofia Clínica não nos interessa elencar padrões e classificar comportamentos. Nossa proposta de olhar é outra. É acolher e atuar a partir da originalidade extraordinária expressa por cada um, defendendo-a e sabendo que ela é potência para criar uma vida melhor para si, talvez para sua comunidade, para o mundo (grandes líderes como Nelson Mandela, grandes escritoras como Clarice Lispector, abdicaram de alguns caminhos convencionais para viabilizar sua singularidade, aquilo que os fez vibrar) . Assim, é possível notar o desenho do padrão autogênico da pessoa em sua historicidade, desde o assunto imediato que a trouxe à clínica, até seu assunto último, aparecendo ele de maneira óbvia ou obtusa, através dos tópicos determinantes ou das margens, dos desvios, escapes inscritos na existência em discurso.

Os exames categoriais possibilitam que o filósofo clínico colete dados importantes sobre o contexto que compõe a pessoa, sua autogenia andante. Por onde ela circula geograficamente, se o bairro onde reside é Bom Fim, se sua cidade é São Paulo, se a pessoa viaja para o Chile, se participa de um doutorado em filosofia, se visita a casa de Santos Dumont e sua perspectiva de vida, se ela se dedica ao trabalho humanitário ou na defesa dos animais, se convive com os cachorros da Dona Aidê, em suas andanças por rios e lagos para pescar em busca de calmaria, se produz ideias, ciência, física quântica, astronomia, alimentos…

Que lugares a pessoa ocupa dentro de si, na família, no exercício da paternidade, no projeto de construção de sua casa, na escrita de um livro...Nas interseções com lugares, bichos, plantas, ideias...no tempo do amor, nos tempos de dor e sofrimento, nas madrugadas solitárias do ateliê, estabelecendo-se como estrangeira em um novo país…por onde ela navega? 

Quais seus caminhos percorridos? Quais ainda busca percorrer? Nos interessa saber dela. Como seu mundo parece e aparece...O que a faz cozinhar? O que a faz dançar, levantar da cama, viver? Qual sua vibe? Então, desde que começamos a receber a pessoa em consultório, estamos acolhendo essa energia que ela carrega, seu padrão autogênico momentâneo, os padrões autogênicos ao longo de sua história de vida, talvez algum padrão autogênico predominante. 

O clínico exercita-se intelectivamente ao conviver com múltiplas autogenias nos seus momentos de atendimento e o faz, especialmente, através de sua plasticidade e papel existencial de cuidador. 

Tecnicamente falando, padrão autogênico, significa a composição de tópicos da estrutura de pensamento que são determinantes para cada um, em cada circunstância vivida e como esses tópicos conversam a fim de guiar seus movimentos. Há algo que sustenta a pessoa, como os alicerces de um edifício existencial em construção. Algumas autogenias exigem a substituição de pilares, outras podem fazer ruir um edifício inteiro a fim de construir novas moradas…

É importante que o terapeuta esteja atento aos momentos de travessia, onde a pessoa pode se sentir ambígua, estranha, desajustada. Uma partilhante minha, em pleno processo de mudança de rumos, narrou assim: “parece que estou pisando em nuvens”. Em outro dia ela disse: “estou em uma corda bamba, com medo de cair”. Pode acontecer de a pessoa se incompreender porque está com um discurso antigo e atitudes novas, ou, um discurso novo e atitudes antigas. Em um tempo próprio e com o trabalho clínico sério, isso se ajusta e a pessoa se fixa em um novo padrão autogênico. 

Nesses instantes o clínico fica atento para compreender se os tópicos determinantes estão em sintonia, onde há conflitos, se os conflitos são dentro de um mesmo tópico (como amor e ódio em emoções), se um conflito surge quando acessa algum tópico marginal, se os tópicos marginais aparecem para ajudar a acomodar o que é importante, se há insuficiência de submodos para viabilizar sua existência, se algum submodo trava a pessoa para perpetuar determinadas armadilhas conceituais... 

Nesses meandros atua o filósofo clínico, a filósofa clínica. Auxiliando a pessoa a ampliar horizontes, fechar janelas, desconstruir conflitos, rever significados, pré-juízos… Aparar arestas, acomodar dores, construir novos sentidos, novas possibilidades de ser e fazer. De acordo com cada singularidade, via interseção e construção compartilhada, o trabalho da Filosofia Clínica vai  ajudar a viabilizar ensaios existenciais, com um olhar atento sobre a autogenia e suporte às reconstruções em andamento, sempre de acordo com o que a pessoa é e até onde ela vai. Algumas pessoas não suportam grandes mudanças. Outras vivem em busca disso, a autogenia é, também, um submodo, ou seja, faz parte de um jeito de ser.

O título “Um olhar sobre a autogenia” revela a perspectiva desta filósofa clínica a partir de suas histórias de trabalho e vida. Outros filósofos clínicos irão contribuir para pensar e aplicar o método revelando olhares impactados por suas leituras, atendimentos, por seu universo particular... Isso significa dizer que em Filosofia Clínica há espaço para acolhimento da frequência existencial do partilhante e do terapeuta. A diferença, a diversidade, não precisam ser incluídas, pois são elas mesmas compositoras do método. Se cada um é singular, é diverso, é diferente do outro.

Em nossos princípios de verdade vigentes mundo afora, recheados de tipologias, classificações, rótulos…nossa sociedade se debate para tentar oferecer inclusão, pois em função dos padrões de normalidade estabelecidos, somos inevitavelmente produtores de exclusão. 

Ao pensar o fenômeno humano autorizando, por princípio, a existência de cada ser em sua singularidade, a Filosofia Clínica inaugura e registra um novo paradigma. Os resultados do nosso método, não raras vezes descrito pelos próprios partilhantes como acolhedor e libertário, demonstram que a Filosofia Clínica tem um padrão autogênico próprio. 

Em seu texto “Plasticidade na vida e na clínica” publicado na Edição piloto da Revista da Casa da Filosofia Clínica (00/outono/2022), Ana Rita de Calazans Perine diz: “A Filosofia Clínica oportuniza um fluxo existencial mais harmônico a partir da singularidade acolhida, escutada, viabilizada, preservada.” (PERINE, p.11).

A Filosofia Clínica denuncia sua sintonia em termos de método de trabalho ao caminhar no fluxo contrário das abordagens tradicionais. Na Edição 01/inverno/2022, com o texto “Estéticas possíveis: sobre fluxos e contenções” escrevi o seguinte: “...talvez, a Filosofia Clínica seja um método contracultural que tende a cooperação para fluxos existenciais mais livres, que tendem a proteger os inéditos de cada um.” (GAIARDO, p. 12). 

Em sua linguagem, termos e significados próprios, voltados para uma prática clínica de cuidado, sem ser aconselhamento filosófico, sem aplicar noções de saúde ou doença, de normalidade ou patologia. Sem o uso de tipologias, classificações de comportamento ou transtornos, a Filosofia Clínica vem se consolidando no espaço das possibilidades terapêuticas enquanto novo paradigma.

Com um olhar para a singularidade sustentado por um método próprio, seu funcionamento ocorre a partir dos exames categoriais, estrutura de pensamento e submodos, as três etapas que norteiam o trabalho em clínica, bem como as condições de possibilidade como a fenomenologia, a hermenêutica compreensiva, a intencionalidade…

*Dionéia Gaiardo

Filósofa Clínica, Escritora. Mãe do Gael.

https://dioneiagaiardo.wixsite.com/filosofiaclinica/blog

Tapejara/RS 

Referências: 

GAIARDO, Dionéia. Estéticas possíveis: sobre fluxos e contenções. Revista Casa da Filosofia Clínica. Porto Alegre, edição 01, inverno 2022, p.12. Disponível: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2022/06/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-ed01-inverno-2022.html. Acesso em: 16 de outubro de 2024. 

PERINE, Ana Rita de Calazans. Plasticidade na vida e na clínica. Revista Casa da Filosofia Clínica. Porto Alegre, edição 00, outono 2022, p.11. Disponível: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2022/03/revista-casa-da-filosofia-clinica-ed00.html.  Acesso em: 16 de outubro de 2024. 

CARUZO, Miguel Angelo.(miguelangelocaruzo). Você pode se inspirar em pessoas, buscar modelos de comportamento ou seguir instruções de vida. Mas, inevitavelmente, o resultado disso será único. Seu caminho não possui precedentes, nem terá cópias. Prevalece o inédito. A comparação pode ocorrer por aproximação; e só. Ser você é um processo singular. Teresópolis, 16 de outubro de 2024.Facebook: miguelangelocaruzo. Disponível em: https://www.facebook.com/miguelangelocaruzo. Acesso em: 16 de outubro de 2024.

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