Existe uma pergunta que se insinua como brisa e, às vezes, ruge como tempestade: O que Acha de Si Mesmo? Não é uma questão que se resolve com espelhos, diagnósticos ou biografias. É um convite ao mergulho, uma travessia por corredores internos que mudam de forma conforme os olhos que os percorrem.
Pensar sobre si é como tentar
abraçar a própria sombra. Ela escapa, dança, se alonga, se encolhe. O “eu” não
é uma estátua, mas um rio, ora sereno, ora turbulento. E nesse fluxo, sentir e
pensar se entrelaçam como amantes que não sabem se estão se encontrando ou se
despedindo.
Na clínica filosófica, essa
pergunta se abre como uma flor que não quer ser colhida, apenas contemplada. O
que achamos de nós mesmos não é uma decisão final, mas uma paisagem que muda
com a luz, com o tempo, com o olhar.
Há dias em que me acho vasto,
como se coubesse o mundo inteiro em mim. Em outros, sou estreito, um beco sem
saída. Às vezes sou ideia, outras apenas pele. Sou o que sinto, mas também o
que penso sobre o que sinto. Sou o que lembro, o que esqueço, o que invento
para suportar o que não entendo.
Michel Foucault, ao explorar a
hermenêutica do sujeito, nos lembra que o cuidado de si é uma prática, uma
escavação. “Conhece-te a ti mesmo” não é um slogan, mas uma jornada. O “eu” não
é dado, é cultivado. E essa cultura de si exige escuta, atenção, ternura. Não
se trata de encontrar uma essência, mas de acompanhar os movimentos da
existência.
Interpretar o “eu” é como ler um
poema escrito em tinta invisível. Cada gesto, cada escolha, cada recusa é uma
linha desse texto. Não há um autor único, mas múltiplos narradores que disputam
o microfone da consciência. O “eu” é um palco onde atuam vozes herdadas,
desejos ocultos, medos disfarçados de certezas.
E se o “eu” é um labirinto,
talvez não haja saída, mas há caminhos. Sentir é um deles. Pensar, outro.
Identidade, talvez, seja o mapa que desenhamos enquanto caminhamos, sabendo que
ele nunca estará completo. Somos cartógrafos de nós mesmos, com mãos trêmulas e
bússolas que às vezes apontam para dentro.
O que acho de mim mesmo? Depende
do dia, da memória que me visita, da palavra que me atravessa. Às vezes me acho
inteiro, outras, fragmento. Há momentos em que me acho estranho, como se fosse
hóspede de mim. E há instantes raros em que me reconheço, não como quem se vê,
mas como quem se aceita.
Pensar sobre si é um ato de
bravura. Não porque revele verdades, mas porque desvela perguntas. É como abrir
uma gaveta e encontrar cartas que nunca escrevi, mas que falam de mim. É
perceber que o “eu” não é um ponto, mas uma vírgula: sempre em suspensão,
sempre em movimento.
Na Filosofia Clínica, não se
trata de corrigir o “eu”, mas de compreendê-lo em sua dança única. Cada pessoa
é uma coreografia de afetos, pensamentos, histórias e silêncios.
A hermenêutica do sentir propõe que nos lemos
como quem lê um livro sagrado: com reverência, com dúvida, com amor. Não há
manual para ser quem se é, há apenas o gesto de se permitir ser múltiplo.
E nesse labirinto, possivelmente
o mais importante não seja encontrar a saída, mas aprender a caminhar com
leveza. Sentir sem julgar. Pensar sem se punir. Ser sem se exigir definição. O
que acho de mim mesmo? Que sou um mistério gentil, uma pergunta viva, uma
história inacabada.
Por fim, talvez o “eu” seja
apenas um caminho em constante construção. Cada passo revela uma paisagem nova,
cada pausa abre espaço para o silêncio. O que acho de mim mesmo é transitório,
mas é nesse movimento que encontro sentido.
“E você...o que acha de si hoje?
*Valter da Silveira Machado
Filósofo-Filósofo
Clínico-Tecnólogo Ambiental
Juiz de Fora/MG

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