Vi que no
âmago da criação pode muito bem existir algo tão incontrolável e
incompreensível como um vulcão em erupção.
Anne Rice, Pandora
A arte terapêutica constitui-se a
partir das interrogações e reflexões compartilhadas no espaço clínico.
Introspecção silenciosa em ousadias de descoberta anuncia uma transgressora
liberdade de ser um. Expressividade em desocultar a matéria-prima contida nas
invisíveis formas em desdobramentos de viver. Elenco de aparência inexplicável
em rotas protegidas pelas tramas conceituais. Possibilidades de um não-sei-quê
contido nas hipóteses em experimentação. Introspecção silenciosa em ousadias de
descoberta.
Interseção em ponto de partida,
possui significados de natureza própria. Uma das características fundamentais
na terapia, esse exercício voltado para a autonomia partilhante constitui-se
num processo existencial iniciado bem antes do primeiro encontro. A pessoa
inaugura-se em momentos de uma estranha desarmonia, rotas de espanto ara com
seu inexplorado continente. Na dialética desses contextos o filósofo clínico
desempenha um papel existencial participativo. Um lugar para a palavra tornar
acessível à arquitetura bem protegida das singularidades.
Uma raridade estética aprecia
constituir o espetáculo desses encontros. As recordações podem destacar,
revelar e organizar conteúdos até então desmerecidos pelos princípios de
verdade dos contextos partilhantes. Momentos em tradução alternam-se na
interação do cuidador em tratativas de aproximação com esses vastos e até então
indecifráveis mundos. Relação imprecisa constitui-se a partir de um não-saber,
com ele procura emancipar-se, evidenciando contornos por íntimos desacordos em
buscas de reequilíbrio. Vestígios da historicidade em percursos de revelação.
Deleuze ensina que a sintaxe é
constituída pelas curvaturas, os anéis, as viradas, os desvios dessa linha
dinâmica, na medida em que passa por algumas posições, do duplo ponto de vista
das disjunções e das conexões. Já não é a sintaxe formal ou superficial que
regula os equilíbrios da língua, porém uma sintaxe em devir, uma criação de
sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na língua, uma gramática do desequilíbrio.
O exercício clínico em hospitais,
consultórios, jardins ou na beira da praia, pode significar, na ficção
representativa da vida real, um cúmplice ao bem viver de cada um. Um quase
antropomorfismo revela-se na ação-reflexão-ação das práticas de consultório.
Atenção e cuidados para com esses anjos decaídos de toda espécie. Essência dos
deuses nas entrelinhas de assunto imediato.
A intencionalidade contida na
imprevisibilidade fenomenológica pode identificar as funções estruturantes ao
ser singular. Qualificar a raridade desses encontros constitui-se em desafio
por entre escolhas de um rumo sem norte. Trata-se de dialogar com o imprevisível
em cada representação. Muitas vezes o filósofo-cuidador descobre, na
improvisação, os procedimentos para compreender as imagens em traços de
palavra. É o evento clínico o lugar para esses achados de natureza prática.
Nesse sentido, a qualificação
desse “estar junto” constitui um ponto de apoio eficaz ao trabalho do filósofo
clínico. Colocar-se no lugar do outro, em perspectiva de ajuda, constitui
elemento essencial à natureza dos cuidados. Sua postura constitui um estilo
clínico aproximando ou afastando o sujeito do princípio animador da sua
terapia. Uma permuta de papéis existenciais, elabora ingredientes
imprescindíveis ao existir desses provisórios acordos.
Donaldo Schuller reflete sobre o
prazer que se prolonga na fala:
“A fala retém, reitera,
inventa o que não foi, mas poderia ter sido, excita a imaginação, constrói o
imaginário. A fala veste translúcida de corpos ardentes, é erótica. A
confidência revela o lugar comum. Ela erotiza os ouvidos do confidente pelas
coisas que sugere. A escrita erotiza os olhos pela mesma razão. Eróticos são os
lábios que falam e as mãos que golpeiam as teclas. Os tecidos eróticos que
velam e desvelam chamam-se discurso e romance.” (A palavra imperfeita. Ed.
Vozes. Petrópolis. 1979).
As pistas e indícios contidos na
simbologia descritiva da pessoa podem antecipar a qualidade dos encontros. Por
essa aproximação em suspensão provisória dos juízos, é possível compreender as
funções representativas em seus momentos de aparecimento. Conhecer imediato em
signos de não contar. Aspectos de si na experimentação por entre múltiplas
possibilidades. Singulares versões apreciam essa investigação compartilhada. A
escuta de base analítica-fenomenológica pode descortinar o diferenciado em cada
história de vida, mas não é tudo! A partir dessa abertura em direção ao outro,
se faz possível acessar os percursos da alma. Efeitos de superfície em submodos
de ser podem antecipar a natureza dos cuidados.
Renunciar as antecipadas opiniões
constitui ingrediente eficaz na qualidade das aproximações para com esses
desconhecidos universos. Muitas vezes, sentir-se atingido pela intensidade das
reciprocidades, pode ser decisivo para a qualificação dos atendimentos, assim,
o terapeuta tem a possibilidade de, a partir do seu referencial estrutural,
investigar-se em perspectiva, oferecendo alternativas até então desconhecidas
no outro lado da relação.
Jacques Derrida recordando
Górgias:
“Revela serem os encantamentos
inspirados pelos deuses através das palavras que trazem o prazer, afastam o
luto. Confundindo-se, de imediato, com o que a alma pensa, a potência de
encantamento a seduz, persuade e transforma pela fascinação.” (A farmácia de Platão, Ed. Iluminuras. SP.
2005)
O filósofo clínico é parte
integrante dessa experiência transformadora. Faz possível inéditos
aparecimentos ao próprio olhar. Empresta parcela significativa de sua estrutura
à interseção. O cuidador poderá interagir com esses aspectos constitutivos do
sofrer da pessoa. Ponto de vista socializado, a atividade terapêutica
qualifica-se na medida inexata de seu prosseguimento. Evidências em ponto de
apoio ao extraordinário da recém-descoberta. Como um sol a esconder-revelar a
própria luz, a atividade clínica, também, constitui-se por entre lacunas de
tradução. Recíprocas influências constituem a natureza da magia. Investigações
em busca de compreensão podem favorecer aspectos desmerecidos. Alternativas ao
desvelar perceptivo-interativo em desenvolvimento na interseção. Contextos da
tradição existencial da pessoa preparam o poder de encantamento.
Ernst Cassirer em seus escritos
sobre a linguagem simbólica ensina:
“(...) a expressão ‘feitiçaria
por analogia’, que se costuma utilizar para uma determinada corrente da
atividade mágica, não corresponde de maneira alguma ao autêntico sentido dessa
atividade; pois onde nós vemos apenas um mero signo e uma semelhança do signo,
para a consciência mágica e, por assim dizer, para a percepção mágica, está
presente, ao contrário, o próprio objeto.” (A filosofia das formas simbólicas.
Ed. Martins Fontes. 2004. SP).
A ausência de receitas,
tipologias ou aconselhamentos constitui o paradigma cuidador da Filosofia
Clínica. Imprevisíveis horizontes vão se descortinando em hipótese de
tratamento. Uma desarmonia aprecia percorrer esses instantes, constituindo-se
numa força desigual. Energia às contradições transformadoras, faz possível os
procedimentos de (re)significação. Nesse sentido, a fé na metodologia pode ser
algo incompreensível. Muitos clínicos esbarram nesse ponto: efetuam leituras,
sabem as lições e se empenham na pesquisa teórica, exclusivamente! Esbarrando
nos limites para com a natureza imprescindível das práticas de consultório:
pré-estágios, supervisão e pesquisa empírica.
Para Umberto Eco:
“A ênfase é dada ao processo, à
possibilidade de individuar muitas ordens, A recepção de uma mensagem
estruturada de modo aberto faz com que a expectativa de que se falou não
implique tanto uma previsão do esperado quanto uma expectativa do imprevisto.”
(Obra aberta, ed. Perspectiva. SP. 2005.)
Uma das principais dificuldades
em alguns métodos de abordagem se refere ao desrespeito a singularidade da
pessoa. Um exemplo disso ocorre quando a natureza das desconstruções afronta o
ser do terapeuta, ocasião em que, muitos profissionais fazem a opção por
respeitar sua condição pessoal em detrimento das escolhas e buscas do sujeito
sob seus cuidados. Um conjunto harmônico de inspiração teórica e vivências,
constitui a arquitetura clínica da Filosofia. Aproximações realizadas pela via
da interseção constituem-se em desdobramentos de existir. Lugar-tempo-relação
onde a plasticidade do filósofo clínico aparece como ingrediente inevitável às
aproximações com os desconhecidos referenciais na pessoa do outro. O
aprofundamento da relação poderá determinar a natureza intersubjetiva do
trabalho. Etapa para identificação do assunto último. Endereço apara localizar
as origens estruturantes do sofrer. Autogenia em instantes de recém-descoberta
à farmácia interna da pessoa.
Existe uma importância e
significado mal-ditos nos fracassos da atuação clínica. O destaque refere-se às
possibilidades de aperfeiçoar não apenas o método, mas a si mesmo em buscas de
vir-a-ser cuidador. Um repensar as abordagens, incrementando plasticidades na
situação diversificada do consultório. Leituras em aspectos de singularidade
podem qualificar o mutante compartilhar dos atendimentos.
Fernando Pessoa refere:
“Toda obra fala por si, com a voz
que lhe é própria, e naquela linguagem em que se forma na mente; quem não
entende não pode entender, e não há pois que explicar-lhe. É como fazer
compreender a alguém um idioma que ele não fala.” (Alguma prosa. Ed. Nova Fronteira.
RJ. 1990)
A esteticidade seletivo presente
nas diferenciadas formas de arte, bem assim as pessoais traduções dos sonhos,
podem oferecer vias de acesso às conexões de natureza íntima. Construção
compartilhada no devir clínico. Em terapia, as teorias são meios auxiliares ao
fazer clínico. Reciprocidade imprescindível à dialética do ser cuidador.
A Filosofia Clínica não busca
normalizar ou curar. A compreensão-interativa com esses territórios, de
aparente insanidade, constitui-se, muitas vezes, a partir da condição mais
própria dessa excepcional humanidade. Uma fenomenologia da estrutura de pensamento
pode favorecer alquimias. Vislumbrar a natureza das químicas, distinguir fórmulas
e qualificar misturas, (re)apresentando a pessoa o extraordinário de si mesma.
Os medicamentos existenciais podem ser encontrados na forma sublime e quase
imperceptível do jeito de ser em cada um. Procedimentos clínicos eficazes
favorecem a agradável conversação com as singularidades.
Os procedimentos podem ser
encontrados na essência da condição humana em interseção com a vida. Olhar em
perspectiva com o arcaico das singularidades. Sua essência constitui-se em
preservar a autenticidade estrutural. Assim, destacam-se harmonias, contradições
e buscas nas imprecisas práticas da Filosofia Clínica.
*Hélio Strassburger in “Filosofia
Clínica – Poéticas da singularidade”. Págs 91-95. Ed. E-Papers/RJ. 2007.
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