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Gestos e Silêncios: o abstrato do cotidiano*

A vida se revela em detalhes que não se deixam capturar pela pressa. São movimentos discretos, quase invisíveis, mas carregados de mundos inteiros. A existência não se mostra apenas nos grandes acontecimentos: ela se insinua nos intervalos, nos gestos mínimos, nos cheiros e sons que retornam sem aviso, insistindo em permanecer.

O cotidiano guarda uma densidade que escapa ao olhar apressurado. Um olhar que se desvia, uma respiração mais longa, o toque breve em um objeto qualquer: tudo isso arquiva memórias e devolve ao presente aquilo que parecia esquecido. O corpo, sem pedir licença, guarda lembranças em gestos repetidos e transforma o vivido em presença.

Na escuta clínica, o invisível se manifesta quando a fala é interrompida e o silêncio se abre como espaço frutífero. Não é vazio, mas terreno de reinvenção. Uma partilhante, ao narrar sua rotina, é tomada pelo cheiro de pão fresco que a transporta à infância; o presente se ilumina pelo passado e o tempo se dobra em camadas. Outro sujeito ajeita a manga da camisa sempre que fala de perdas, e nesse gesto repetido a emoção se inscreve no corpo, tornando lembrança em presença.

Esses fragmentos, aparentemente dispersos, se iluminam uns aos outros. Uma viagem evoca uma música, que por sua vez convoca uma ausência. Não há ordem linear, mas uma trama singular que se constrói na justaposição. O clínico não busca organizar, mas acompanhar: estar presente no fluxo, reconhecer que cada detalhe é fio que sustenta a narrativa.

É nesse ponto que o abstrato se revela como território. Não como ausência de forma, mas como excesso de possibilidades. Ele percorre memórias, abre passagens, revela fragmentos. É presença que continua mesmo quando já não está, horizonte que nunca se fecha, música que insiste em tocar dentro de nós. O abstrato não pede interpretação, mas acolhimento: exige que se reconheça a densidade do vivido sem reduzi-lo ao imediato.

Toda narrativa é trespassada pela emoção. Ela não aparece apenas nas palavras ditas, mas nos silêncios que se prolongam, nos gestos que se repetem, nos cheiros e sons que retornam sem aviso. A emoção é como a música que vibra mesmo quando a melodia já cessou; como a maré que insiste em retornar, mesmo depois de se recolher; como o vento que atravessa o espaço sem ser visto, mas deixa marcas em tudo o que toca.

Quando o sujeito fala de uma perda e ajeita a manga da camisa, não é apenas o corpo que se movimenta: é a emoção que se manifesta em forma de gesto. Quando o cheiro de pão fresco ilumina o presente com lembranças da infância, é a emoção que abre passagem entre tempos distintos. O clínico, ao acolher esses sinais, não busca explicação, mas presença: estar junto ao que se revela, acompanhar o fluxo emocional que dá ritmo à diegese.

Existir, então, é mais do que seguir uma linha reta. É deslocar-se entre memórias, abrir passagens, acolher intervalos. É perceber que o cotidiano guarda uma densidade invisível, feita de gestos, cheiros, silêncios, repetições e emoções. A vida se sustenta nesse fio invisível que conecta palavra e memória, gesto e lembrança, silêncio e ressignificação.

 A clínica, nesse sentido, não interpreta para fechar sentidos, mas acolhe para abrir caminhos. Ela acompanha o sujeito em sua densidade, reconhecendo que existir é sempre mais: deslocamento, excesso, intervalo, emoção. O fio invisível da vida sustenta esse encontro e lembra que não buscamos linearidade, mas abertura.

*Valter da Silveira Machado

Filósofo Clínico

Juiz de Fora/MG

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