Muitos intelectuais acreditam lidar com problemas absolutamente novos, jamais pensados anteriormente - problemas como, por exemplo, a questão da "inteligência artificial", o caráter autofágico da democracia, a proposta do gênero neutro na língua portuguesa.
O que os intelectuais do nosso
tempo ignoram - devido à sua deficiência cultural - é que esses problemas já
eram discutidos, sob outras formas, há milhares de anos.
* * *
O caso específico da proposta do
pronome neutro é emblemático. Os defensores da inclusão do pronome neutro nas
normas gramaticais do português partem da posição filosófica convencionalista
radical a respeito da linguagem, segundo a qual a língua - com a sua gramática
e o seu léxico - é completamente convencional e pode ser alterada
deliberadamente (por razões políticas, por exemplo).
Essa posição é a mesma defendida
por Hermógenes no "Crátilo" de Platão (que Ross propõe ter sido
escrito em 388 a.C.). Todavia, no "Crátilo" o convencionalismo
radical de Hermógenes é logo rechaçado por Sócrates: não basta simplesmente o
nosso desejo para transformar a língua; a linguagem deve, de algum modo,
apontar para a natureza das coisas, ainda que inevitavelmente haja algo de
convencional nesse apontamento. E Sócrates estava certo: a língua é
convencional, mas também natural; ela constitui e é constituída pelo mundo
vivido.
* * *
O estudo da história do
pensamento esclareceria muitas das questões consideradas “contemporâneas”:
ainda somos os mesmos, e os problemas centrais do nosso tempo são ainda aqueles
de vinte e cinco séculos atrás.
*Prof. Dr. Gustavo Bertoche
Filósofo. Mestre e Doutor em Filosofia. Professor. Pesquisador. Musicista. Filósofo Clínico. Escritor. Autor da obra: "A dialética do real na epistemologia de Bachelard", dentre outros. Em 2019, por indicação do conselho e direção da Casa da Filosofia Clínica, recebeu o título de Doutor honoris causa.
Curitiba/PR

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