Quando começamos a estudar filosofia clínica, chegamos com pré-juízos e termos agendados no intelecto sobre ela, pensamos que ela é filosófica como a filosofia. Esse foi o meu caso. Eu estava imbuído de conceitos, juízos, ideias, cheio de agendamentos vindos da filosofia, do meu convívio com a psicologia, da minha história de vida e ideias gerais vindas dos princípios de verdade. Para entendê-la, precisei me desconstruir conceitualmente.
Entendi que minhas noções prévias
não se encaixam nessa nova abordagem, por esta ter como fundamento a
singularidade. Ao entender isso, uma porta se abriu para compreender a proposta
da filosofia clínica; o método olha para cada pessoa de modo individual; cada
atendimento é único. As noções de áreas alheias à filosofia clínica não se
aplicam a ela, mesmo que ela tenha sido fundamentada na filosofia, ela é
singular como cada partilhante. Essa ideia clarifica o paradigma terapêutico.
Quando comecei o pré-estágio,
pude vê-la na perspectiva de um partilhante; tudo que ouvi nas aulas estava
ali. Quando o filósofo clínico conhece o método, seu atendimento não foge dele.
Aprendi com minha terapeuta como ser um filósofo clínico, ao perceber sua
atuação no atendimento, embora eu não estivesse ali para analisar a terapia;
logo percebi nos seus atendimentos a postura fenomenológica. Me deixei
trabalhar, pois era necessário para seguir adiante. Para mim, foi importante
viver cada etapa sem pressa.
Ao começar o estágio
supervisionado, percebi minhas dificuldades; as lacunas que eu tinha em relação
ao conteúdo dado nas aulas. Para sanar esses hiatos, recorri aos livros, aos
dicionários, ao professor e aos resumos das aulas. Essa parte do método é bem
complexa e exigente; é difícil praticar a postura fenomenológica; é complexo
manter o agendamento mínimo; um sorriso, um concordar na hora errada já é
agendamento; como é difícil não poder falar, perguntar e comentar. A escuta
compreensiva é um processo que vai gradualmente se desenvolvendo, devido às
orientações do professor. Com a observância do método, é possível vencer essas
barreiras, pois o método é preciso e eficaz; ele te coloca nos trilhos da
singularidade e da simplicidade.
Nos primeiros atendimentos, não
sabemos como é a prática, só temos a teoria. O partilhante não sabe, não
conhece a filosofia clínica; para ele, somos vistos como psicólogos e, muitas
vezes, querem nosso retorno de imediato; essa é uma das dificuldades. Na minha
primeira sessão, a prática da escuta fenomenológica foi difícil; na supervisão,
compreendi que meus pré-juízos e tópicos não podem entrar na terapia.
O estágio é uma etapa importante,
porque é aqui que se molda o filósofo clínico. As intervenções auxiliam no
comportamento na hora do atendimento, seja na escuta, no acolhimento da
historicidade, fazendo os dados divisórios, os enraizamentos e assim por diante;
tudo isso se aprende nessa etapa. A filosofia clínica é bonita, é interessante,
mas não é romântica como falam por aí; ela é difícil, pois se não nos
dedicarmos a ela, essa fase se torna mais árdua; por isso é importante ser
humilde em aceitar as orientações do professor.
No estágio supervisionado,
fazemos a transcrição dos atendimentos; gravamos as sessões com a autorização
do partilhante, depois temos que analisar o que ele disse. É aqui que se
percebe as falhas do seu conhecimento sobre filosofia clínica. O estagiário vai
olhar para a estrutura de pensamento do partilhante; ver quais tópicos,
categorias e submodos que aparecem na clínica. É uma parte complexa, porém é
uma fase importantíssima e crucial, por ser aqui que se entende o método e a
sua aplicação. Analisar as estruturas de pensamento dos meus partilhantes me
ajudou a entender como funciona o método, me faz estudar mais para melhor ver o
que aparece em uma estrutura de pensamento.
É perceptível no atendimento que
se estabelece uma interseção entre o partilhante e o filósofo clínico, ela pode
se tornar positiva gradualmente; isso faz com que a pessoa atendida se abra e,
com isso, acontece a construção compartilhada. O partilhante muitas vezes vai
se resolvendo só ao desabafar e, quando chegar o momento certo, serão feitos os
procedimentos necessários, as intervenções necessárias. Essa fase do estágio
foi tranquila, pois consegui colher os dados necessários e chegar ao assunto
último de um dos partilhantes. O interessante é que as intervenções não são
feitas de cara, mas sutilmente, leve, sem que a pessoa perceba, muitas vezes
ela recebe de bom grado. Ao longo do atendimento, se vê a autogenia acontecendo
e a evolução do dado atualizado. O interessante é que acontece também no
estagiário a autogenia, gradualmente ele vai se tornando um filósofo clínico.
Entretanto, o terapeuta estará inclinado a qualquer deslize, sendo preciso
estar atento, de modo a vigiar para não sair do método. Se tornar um filósofo
clínico não é fácil, é um desafio; o processo é lento, mas é gratificante.
*Robson de Oliveira Santos
Filósofo Clínico
Casa da Filosofia Clínica
Rio de Janeiro/RJ
**Artigo originalmente publicado na edição primavera/2025 da revista da Casa da Filosofia Clínica
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