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Tornando-se filósofo clínico***

Quando começamos a estudar filosofia clínica, chegamos com pré-juízos e termos agendados no intelecto sobre ela, pensamos que ela é filosófica como a filosofia. Esse foi o meu caso. Eu estava imbuído de conceitos, juízos, ideias, cheio de agendamentos vindos da filosofia, do meu convívio com a psicologia, da minha história de vida e ideias gerais vindas dos princípios de verdade. Para entendê-la, precisei me desconstruir conceitualmente.

Entendi que minhas noções prévias não se encaixam nessa nova abordagem, por esta ter como fundamento a singularidade. Ao entender isso, uma porta se abriu para compreender a proposta da filosofia clínica; o método olha para cada pessoa de modo individual; cada atendimento é único. As noções de áreas alheias à filosofia clínica não se aplicam a ela, mesmo que ela tenha sido fundamentada na filosofia, ela é singular como cada partilhante. Essa ideia clarifica o paradigma terapêutico.

Quando comecei o pré-estágio, pude vê-la na perspectiva de um partilhante; tudo que ouvi nas aulas estava ali. Quando o filósofo clínico conhece o método, seu atendimento não foge dele. Aprendi com minha terapeuta como ser um filósofo clínico, ao perceber sua atuação no atendimento, embora eu não estivesse ali para analisar a terapia; logo percebi nos seus atendimentos a postura fenomenológica. Me deixei trabalhar, pois era necessário para seguir adiante. Para mim, foi importante viver cada etapa sem pressa.

Ao começar o estágio supervisionado, percebi minhas dificuldades; as lacunas que eu tinha em relação ao conteúdo dado nas aulas. Para sanar esses hiatos, recorri aos livros, aos dicionários, ao professor e aos resumos das aulas. Essa parte do método é bem complexa e exigente; é difícil praticar a postura fenomenológica; é complexo manter o agendamento mínimo; um sorriso, um concordar na hora errada já é agendamento; como é difícil não poder falar, perguntar e comentar. A escuta compreensiva é um processo que vai gradualmente se desenvolvendo, devido às orientações do professor. Com a observância do método, é possível vencer essas barreiras, pois o método é preciso e eficaz; ele te coloca nos trilhos da singularidade e da simplicidade.

Nos primeiros atendimentos, não sabemos como é a prática, só temos a teoria. O partilhante não sabe, não conhece a filosofia clínica; para ele, somos vistos como psicólogos e, muitas vezes, querem nosso retorno de imediato; essa é uma das dificuldades. Na minha primeira sessão, a prática da escuta fenomenológica foi difícil; na supervisão, compreendi que meus pré-juízos e tópicos não podem entrar na terapia.

O estágio é uma etapa importante, porque é aqui que se molda o filósofo clínico. As intervenções auxiliam no comportamento na hora do atendimento, seja na escuta, no acolhimento da historicidade, fazendo os dados divisórios, os enraizamentos e assim por diante; tudo isso se aprende nessa etapa. A filosofia clínica é bonita, é interessante, mas não é romântica como falam por aí; ela é difícil, pois se não nos dedicarmos a ela, essa fase se torna mais árdua; por isso é importante ser humilde em aceitar as orientações do professor.

No estágio supervisionado, fazemos a transcrição dos atendimentos; gravamos as sessões com a autorização do partilhante, depois temos que analisar o que ele disse. É aqui que se percebe as falhas do seu conhecimento sobre filosofia clínica. O estagiário vai olhar para a estrutura de pensamento do partilhante; ver quais tópicos, categorias e submodos que aparecem na clínica. É uma parte complexa, porém é uma fase importantíssima e crucial, por ser aqui que se entende o método e a sua aplicação. Analisar as estruturas de pensamento dos meus partilhantes me ajudou a entender como funciona o método, me faz estudar mais para melhor ver o que aparece em uma estrutura de pensamento.

É perceptível no atendimento que se estabelece uma interseção entre o partilhante e o filósofo clínico, ela pode se tornar positiva gradualmente; isso faz com que a pessoa atendida se abra e, com isso, acontece a construção compartilhada. O partilhante muitas vezes vai se resolvendo só ao desabafar e, quando chegar o momento certo, serão feitos os procedimentos necessários, as intervenções necessárias. Essa fase do estágio foi tranquila, pois consegui colher os dados necessários e chegar ao assunto último de um dos partilhantes. O interessante é que as intervenções não são feitas de cara, mas sutilmente, leve, sem que a pessoa perceba, muitas vezes ela recebe de bom grado. Ao longo do atendimento, se vê a autogenia acontecendo e a evolução do dado atualizado. O interessante é que acontece também no estagiário a autogenia, gradualmente ele vai se tornando um filósofo clínico. Entretanto, o terapeuta estará inclinado a qualquer deslize, sendo preciso estar atento, de modo a vigiar para não sair do método. Se tornar um filósofo clínico não é fácil, é um desafio; o processo é lento, mas é gratificante.

*Robson de Oliveira Santos

Filósofo Clínico

Casa da Filosofia Clínica

Rio de Janeiro/RJ

**Artigo originalmente publicado na edição primavera/2025 da revista da Casa da Filosofia Clínica

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