O carnaval é a festa do povo. É o instante em que a cidade se abre em cores, tambores e passos improvisados. As ruas se tornam palco, e cada esquina guarda uma história de alegria. Há crianças correndo atrás de confetes, há idosos sorrindo como se voltassem a ser jovens, há foliões que acreditam que a vida inteira cabe em quatro dias de samba.
Mas nem tudo é brilho. No calor da multidão, há
quem confunda liberdade com desmedida. Embriagados pela sensação de que tudo é
permitido, muitos se deixam levar por ilusões que parecem eternas. Gestos
impensados, atitudes que na vida comum jamais seriam tomadas, surgem como se
fossem parte natural da folia. E assim, o que deveria ser apenas celebração se
transforma em excesso, e o excesso, em arrependimento.
Porque todo carnaval tem sua quarta-feira de
cinzas. É o dia em que o silêncio invade as ruas, os confetes se misturam ao pó
e a fantasia se desfaz. O corpo cobra o preço da euforia, e a alma se vê diante
de perguntas inevitáveis: qual o papel que o seu jeito desempenha no carnaval
da vida? Com quantas fantasias já desfilou no desfile das ilusões?
O carnaval da vida é feito de contrastes. Festa e
cinzas, sonho e realidade, máscara e rosto. O papel existencial não é apenas
dançar na avenida, mas compreender o sentido da própria dança. É reconhecer que
cada fantasia tem seu encanto, mas também sua fragilidade. Que a liberdade é
legítima, mas perde sentido quando se transforma em descontrole.
No fim, talvez reste apenas uma certeza: viver é celebrar, sim, mas também é assumir a responsabilidade pelo que se celebra. Porque no carnaval da vida, o que importa não é apenas como se dança na avenida, mas como se caminha quando o samba silencia.
*Valter da Silveira Machado
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

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