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Entre o Ter e o Ser*

 

Agora não são somente as pessoas comuns na rede social: são também os profissionais da palavra - os escritores, os jornalistas, os colunistas - a fazer uso dos chatgpts para escrever.

"O texto é de IA, mas as idéias são minhas".

Sinto muito: as idéias não são suas. Você pode ter desejos, memórias e afetos; idéias, no sentido do pensamento mesmo, você não tem.

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Explico: uma idéia não existe flutuando dentro de uma cabeça. Toda verdadeira idéia é tecida, desde o primeiro momento, numa teia argumentativa mais ou menos complexa, a depender do tecelão (vale lembrar que, em latim, "textus" é "tecido"). Quem não tece não tem tecido - tem apenas fios soltos, que nada são realmente. Isto é: não existe idéia sem argumentos estabilizados e ordenados, um após o outro, numa organização que reflete a própria estrutura de pensamento da pessoa. Ou: o pensamento se realiza e se conhece na sua exteriorização como linguagem pública.

Ora, quem simplesmente esparrama afetos para que uma máquina os ordene num discurso não tem idéia nenhuma; na verdade, pouco a pouco vai ficando incapaz de pensar; torna-se, no sentido mais preciso da expressão, um impotente intelectual, satisfazendo-se com a fantasia de que está pensando, quando na verdade simplesmente assiste ao movimento de um pensamento externo - que não lhe pertence, mas ao qual apõe a sua assinatura.

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Quando leio um texto escrito por chatgp e assinado por uma pessoa, inevitavelmente penso no voyeur, que vê, à distância, o objeto de desejo com outra pessoa e imagina estar ali no meio da ação. Mas ele não faz nada: ele assiste, e fantasia que assistir é participar.

Ou penso no jogador de videogame que se empolga com o gol marcado: "olha só, eu fiz um golaço!". Ele efetivamente "faz" alguma coisa: aperta botões - mas essa ação é absorvida por um sistema independente que produz tudo ali. Do ponto de vista metafísico, o jogador é uma causa ocasional, não a causa eficiente: o "golaço" é do sistema, não dele, embora em sua fantasia ele se aproprie emocionalmente do resultado.

* * *

Isso é um sintoma de uma das patologias metafísicas da nossa civilização: a dissociação radical entre o "ter" e o "ser", entre o "possuir o resultado" e o "ser capaz de produzi-lo". A pessoa que assina o texto de chatgpt quer "ter" um texto publicado, quer "ter" o prestígio intelectual, mas não quer (ou não consegue) realizar o esforço de efetivamente pensar e escrever. A pessoa (que nem percebe que padece de uma doença metafísica) fantasia que o investimento financeiro pode dispensá-la do processo formativo. Afinal, "se eu estou pagando a assinatura da IA, o resultado é meu".

E o resultado é uma atrofia da existência, é uma de-formação contínua - que é o exato inverso da Bildung, da necessária longa formação do ser humano.

**Prof. Dr. Gustavo Bertoche

Filósofo. Mestre e Doutor em Filosofia. Professor. Pesquisador. Musicista. Filósofo Clínico. Escritor. Autor da obra: "A dialética do real na epistemologia de Bachelard", dentre outros. Em 2019, por indicação do conselho e direção da Casa da Filosofia Clínica, recebeu o título de Doutor honoris causa.

Rio de Janeiro/RJ

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