Agora não são somente as pessoas comuns na rede social: são também os profissionais da palavra - os escritores, os jornalistas, os colunistas - a fazer uso dos chatgpts para escrever.
"O texto é de IA, mas as
idéias são minhas".
Sinto muito: as idéias não são
suas. Você pode ter desejos, memórias e afetos; idéias, no sentido do
pensamento mesmo, você não tem.
* * *
Explico: uma idéia não existe
flutuando dentro de uma cabeça. Toda verdadeira idéia é tecida, desde o
primeiro momento, numa teia argumentativa mais ou menos complexa, a depender do
tecelão (vale lembrar que, em latim, "textus" é "tecido").
Quem não tece não tem tecido - tem apenas fios soltos, que nada são realmente.
Isto é: não existe idéia sem argumentos estabilizados e ordenados, um após o
outro, numa organização que reflete a própria estrutura de pensamento da
pessoa. Ou: o pensamento se realiza e se conhece na sua exteriorização como
linguagem pública.
Ora, quem simplesmente esparrama
afetos para que uma máquina os ordene num discurso não tem idéia nenhuma; na
verdade, pouco a pouco vai ficando incapaz de pensar; torna-se, no sentido mais
preciso da expressão, um impotente intelectual, satisfazendo-se com a fantasia
de que está pensando, quando na verdade simplesmente assiste ao movimento de um
pensamento externo - que não lhe pertence, mas ao qual apõe a sua assinatura.
* * *
Quando leio um texto escrito por
chatgp e assinado por uma pessoa, inevitavelmente penso no voyeur, que vê, à
distância, o objeto de desejo com outra pessoa e imagina estar ali no meio da
ação. Mas ele não faz nada: ele assiste, e fantasia que assistir é participar.
Ou penso no jogador de videogame
que se empolga com o gol marcado: "olha só, eu fiz um golaço!". Ele
efetivamente "faz" alguma coisa: aperta botões - mas essa ação é
absorvida por um sistema independente que produz tudo ali. Do ponto de vista
metafísico, o jogador é uma causa ocasional, não a causa eficiente: o
"golaço" é do sistema, não dele, embora em sua fantasia ele se
aproprie emocionalmente do resultado.
* * *
Isso é um sintoma de uma das
patologias metafísicas da nossa civilização: a dissociação radical entre o
"ter" e o "ser", entre o "possuir o resultado" e
o "ser capaz de produzi-lo". A pessoa que assina o texto de chatgpt
quer "ter" um texto publicado, quer "ter" o prestígio
intelectual, mas não quer (ou não consegue) realizar o esforço de efetivamente
pensar e escrever. A pessoa (que nem percebe que padece de uma doença
metafísica) fantasia que o investimento financeiro pode dispensá-la do processo
formativo. Afinal, "se eu estou pagando a assinatura da IA, o resultado é
meu".
E o resultado é uma atrofia da
existência, é uma de-formação contínua - que é o exato inverso da Bildung, da
necessária longa formação do ser humano.
**Prof. Dr. Gustavo Bertoche
Filósofo. Mestre e Doutor em Filosofia. Professor. Pesquisador. Musicista. Filósofo Clínico. Escritor. Autor da obra: "A dialética do real na epistemologia de Bachelard", dentre outros. Em 2019, por indicação do conselho e direção da Casa da Filosofia Clínica, recebeu o título de Doutor honoris causa.
Rio de Janeiro/RJ

Comentários
Postar um comentário