O tempo dos relógios é o tempo da contagem. Ele organiza compromissos, regula rotinas, marca aniversários e prazos. É o tempo que se mede em números, que se divide em minutos e segundos, que se imprime em calendários e agendas. Mas há um outro tempo, mais íntimo e decisivo, que não cabe em ponteiros nem em tabelas: o tempo da experiência. Esse não se mede, se sente. É o tempo da memória que prolonga o passado, da expectativa que abre o futuro, da intensidade que colore o presente.
Na Filosofia Clínica, essa distinção é fundamental.
O cronológico é útil para a vida social, mas é na temporalidade vivida que se
revelam os modos de ser. Cada pessoa habita sua própria cadência, marcada por
ritmos internos, por pausas e acelerares, por instantes que se tornam eternos e
por horas que se esvaem sem deixar rastro. O clínico, ao escutar, não se guia
apenas pelo calendário, mas pela tessitura existencial que emerge na narrativa
do partilhante.
Pensar o tempo vivido é reconhecer que cada pessoa
traz consigo uma narrativa temporal única. Há quem viva uma hora como
eternidade, e há quem atravesse anos como se fossem segundos. O tempo vivido é
singular, e nele se revelam dores, alegrias, projetos e angústias. É nesse
fluxo que se inscrevem nossas escolhas, e é nele que a liberdade se manifesta:
não como poder absoluto, mas como abertura para criar sentidos, reinventar
caminhos, acolher ou renunciar.
Cada gesto, por menor que seja, é inscrição nesse
tecido. Levantar ou permanecer deitado, falar ou silenciar, seguir ou parar,
tudo se torna marca na corrente da vida. Nas grandes escolhas, como profissão,
afetos ou projetos, o traço se aprofunda ainda mais. Cada “sim” abre uma porta,
cada “não” fecha tantas outras. A liberdade nos chama, e a renúncia vem junto
como companheira inseparável. Não há escolha sem perda, não há afirmação sem
recusa.
A angústia, nesse contexto, é o eco da liberdade.
Ela sopra como vento que lembra que estamos vivos, que não há garantias, apenas
possibilidades. O clínico, no espaço de escuta, percebe como cada ser lida com
essa dança entre decisão e renúncia: alguns se paralisam diante da escolha,
outros sofrem pela perda, e há os que encontram sentido no ato de agir. Não se
trata de apagar a angústia, mas de escutá-la como sinal de presença.
Assim, pensar o tempo na Filosofia Clínica é
reconhecer que a vida não é apenas contagem de horas, mas incêndio de
instantes. O ser humano não é estátua, é travessia. Cada escolha é palavra
única no poema da existência. A liberdade é o pincel, a renúncia é a moldura, e
o ser é a tela onde se desenha o inacabado. Somos artistas de nós mesmos, e
cada decisão é traço singular no quadro da vida.
No fim, ser é ter a coragem de escrever a própria
história com a tinta das escolhas. O tempo dos relógios marca o ritmo externo,
mas é na experiência vivida que se revela a liberdade: não como peso, mas como
a mais bela forma de presença.
*Valter
da Silveira Machado
Filósofo
– Filósofo Clínico
Juiz
de Fora/MG
Comentários
Postar um comentário