O dado atualizado é um elemento importante em Filosofia Clínica. Ele colabora na identificação das mudanças ocorridas ao longo das sessões ou em uma mesma sessão, por isso, faz parte da compreensão dos desdobramentos clínicos. Juntamente com dado literal, dado padrão e evolução do assunto imediato, eles compõem os critérios para montar a estrutura de pensamento.
E são nesses instantes de
discurso existencial atualizado, que a pessoa pode apresentar releituras,
reinvenções e ressignificações sobre dados passados ou, até mesmo, romper com
armadilhas conceituais, surpresa! Admiração! Filosofia! Essa é a matéria prima
da clínica: acolher e transitar pela obra aberta partilhante.
É o inesperado revelando-se ao
clínico que não tem a totalidade da obra existencial do sujeito, mas, está
próximo dele o suficiente para ser um meio pelo qual ele se diz nesses momentos
de novidade. Em uma sociedade onde a crise existencial é vista como doença a
ser erradicada, perde-se ao desconsiderá-la como precursora de novos tempos.
Falta “um olhar carinhoso”, como ensina a artista Raínna Costa.
Uma partilhante em armadilha
conceitual dedicando-se a ter filhos, família e um negócio rentável para lhe
colocar em uma zona de conforto material, ao defender esse modo de ser, pode,
em outro momento, vislumbrar uma fresta para abrir alguma janela antes
desconsiderada. Essa novidade pode ou não se concretizar.
Sua partilha talvez tenha
desdobramentos de ensaio intelectivo proporcionando aberturas existenciais em
diversas direções, sendo esse, em si, um remédio para apoio às escolhas e
buscas. Outras vezes converte-se em novos sonhos, propostas para uma maior integridade
com sua singularidade, inaugurando processos de autogenia estrutural que irão
exigir ousadia para ser outro.
Coragem para momentos de
travessia quando se decide percorrer novas rotas, sem enxergar claramente o que
ainda não chegou. Talvez seja essa uma tradução possível para a expressão “fora
de foco” que Hélio Strassburger trabalha em seus escritos: “O terapeuta ao se
fazer cúmplice desses roteiros da investigação, compartilha falas, escutas e
olhares. Aproximação com o fora de foco da estrutura em busca de encontrar-se.”
(Filosofia Clínica: poéticas da singularidade, 2007, p. 10).
Como nosso método trabalha
prioritariamente com a coleta da historicidade da pessoa a partir dos exames
categoriais, já nesses momentos iniciais dos atendimentos, o mapa existencial
do sujeito começa a ser desenhado dentro deste espaço reservado com a intencionalidade
do cuidado.
Através da interseção entre
clínico e partilhante, acontece uma reconstrução da história da pessoa
revelando como, atualmente, ela percebe, sente, sua trajetória de vida. Uma
percepção que pode mudar ao longo dos encontros, ao menos em alguns aspectos. Por
isso, também observamos a evolução do assunto imediato.
E quando falamos em montar a
estrutura de pensamento do partilhante, queremos dizer que compreenderemos
quais são os tópicos determinantes, decisivos na vida do sujeito. Mas, é
possível que, ao abrir novas janelas, a pessoa movimente sua autogenia, ou seja,
podem ocorrer mudanças desses tópicos que conduzem a vida.
Uma pessoa que funcionava
prioritariamente a partir de axiologia, como o mundo parece e aparece e o que
acha de si mesmo, pode passar a funcionar a partir de emoções, buscas e
axiologia. O dado atual é esse instante pelo qual a multiplicidade de ser que cabe
dentro de cada um de nós é revelada.
A surpresa para o clínico
acontece, por exemplo, quando o sujeito que estava seguindo por um caminho,
decide dar sinal para nova estrada. A tradução de um dado assim admira por ser
novidade ao terapeuta, já a pessoa, não raras vezes, apenas desengavetou um
sonho que lhe habitou em algum momento anterior, e assim, uma potência de ser
surge fenomenologicamente.
Ficou algum rastro da
historicidade que dados divisórios e enraizamentos não foram suficientes para o
sujeito acessar. Porém, por ser importante, apareceu em clínica avançada. Em um
caso, o trabalho por acomodar-se a determinado papel existencial, levou uma
partilhante à exaustão, fazendo emergir o que estava guardado. Cansada de si
mesma sendo alguém para outros, decide, migrar.
O dado atualizado pode ser
precursor de eventos a mudar rumos na vida da pessoa, inclusive, afetando quem
convive com ela, por isso, é importante ao clínico observar os elementos que se
somam em conjunto. Compreender com a partilhante: quem a apoia; se alguém é
contra; se é esse mesmo o seu caminho; como se posicionar...
Questões vão surgindo a cada
atendimento, compondo e amadurecendo as construções compartilhadas. Uma janela
aberta pode significar a perspectiva que a partilhante precisava para superar
um comportamento repetitivo. Por exemplo: para sair de um casamento que já não
faz mais sentido, a pessoa pode iniciar uma nova graduação e encaminhar-se para
uma guinada profissional.
Tendo motivação suficiente para
fazer a travessia, ainda que lidando com as incertezas da reinvenção, mas com
perspectiva demarcada pela busca e capacidade de desfecho, a vida vai se
organizando. Algo que não estava no horizonte clínico até então, ao aparecer,
pode tornar-se a questão central do processo terapêutico, fortalecendo a pessoa
em suas mudanças e gerando bem-estar.
*Dionéia Gaiardo
Filósofa. Filósofa Clínica. Escritora. Mãe do Gael.
Tapejara/RS
**Texto originalmente publicado na edição de verão/2025 da revista da Casa da Filosofia Clinica.
Referências:
STRASSBURGER, Hélio. Filosofia
Clínica: poéticas da singularidade. Rio de Janeiro: E-papers, 2007.
Gaiardo, D., Fontoura, F.,
Strassburger, H., & Caruzo, M. A. Dicionário de Filosofia Clínica. Porto
Alegre: Revista Casa da Filosofia Clínica. Edição 08/outono, 2024. Disponível
em: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html.

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