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Reflexões sobre Autocuidado: entre o Essencial e o Excesso***

 

Prezados(as) leitores(as),

Tenho refletido há algum tempo sobre um tema cada vez mais recorrente nas redes sociais, nas conversas do cotidiano e no espaço terapêutico: o autocuidado.

Nunca se falou tanto sobre esse tema como nos dias de hoje. Antigamente, não tínhamos um conhecimento tão difundido sobre a importância de práticas como os exercícios físicos, por exemplo. Com o avanço da ciência e da comunicação, passamos a entender melhor o impacto positivo dessas ações em nossa saúde e qualidade de vida, especialmente ao envelhecer. Isso representa um grande ganho em comparação com gerações passadas.

No entanto, também observamos um movimento preocupante: o excesso. O que começou como uma prática benéfica para o corpo e a mente, muitas vezes tem se transformado em uma nova forma de cobrança e pressão social. O autocuidado virou tendência, virou regra — e, com isso, muitos passaram a se sentir obrigados a seguir rotinas que não fazem sentido para suas realidades. O que era para ser libertador, tornou-se mais um peso.

Um exemplo clássico relacionado ao tema é a prática da corrida, popularizada pelo médico norte-americano Dr. Kenneth H. Cooper, considerado o "pai da aeróbica". Em 1968, Cooper publicou o livro “Aerobics”, no qual introduziu um novo conceito de atividade física baseada em resistência cardiovascular. Ele foi pioneiro ao associar o exercício regular à prevenção de doenças, e seu método rapidamente se espalhou pelo mundo. As chamadas "corridas Cooper", que medem a capacidade aeróbica do indivíduo por meio de testes físicos, passaram a ser amplamente adotadas por militares, atletas e civis. O que ele propôs foi revolucionário — mas o teste de Cooper, que avalia a capacidade aeróbica através de uma corrida de 12 minutos, também tem limitações. Ele não considera a individualidade biológica de cada pessoa e não avalia outros componentes importantes do condicionamento físico, como força muscular e flexibilidade, ou seja, um método seguido por muitos sem os devidos cuidados somente porque na época "todos faziam".

É fundamental lembrar que o autocuidado vai além de hábitos como se alimentar bem, praticar exercícios ou realizar procedimentos estéticos. Ele precisa ser algo espontâneo, ou, quando necessário, orientado por questões de saúde — nunca imposto. Somos seres únicos, com tempos subjetivos e necessidades distintas.

Na clínica, ouço com frequência relatos de pessoas que se sentem sobrecarregadas por não conseguirem cumprir todas essas “exigências” de uma rotina perfeita. Algumas se sentem culpadas por não conseguir encaixar exercícios, meditação, alimentação regrada e mais uma série de obrigações em seu dia a dia. Para certos indivíduos, ter a agenda cheia é motivador; para outros, é sufocante. Um dos maiores atos de autocuidado pode ser, justamente, reconhecer e respeitar seus próprios limites.

A internet está repleta de fórmulas prontas — mas essas fórmulas não conhecem sua história, não levam em consideração sua singularidade. Por exemplo: não fazer nada pode ser, sim, uma forma legítima e saudável de autocuidado. No entanto, muitos se sentem culpados ao parar, pois fomos educados para produzir o tempo todo. A cultura da produtividade nos ensinou que descansar é sinônimo de preguiça, e isso precisa ser desconstruído com urgência.

Pensemos em pessoas que acordam todos os dias às 4h da manhã, passam horas no transporte público, enfrentam jornadas exaustivas e cobranças inatingíveis no trabalho, e ainda assim precisam cuidar da casa, da família e, por vezes, trabalham até nos finais de semana. Como podemos exigir que essas pessoas ainda encontrem tempo e energia para seguir rotinas idealizadas de autocuidado? Isso reforça a importância de escutar com atenção cada indivíduo — com empatia, sem julgamentos.

Além disso, as redes sociais têm um papel importante nessa pressão. Muitos se comparam com influenciadores que mostram uma rotina aparentemente perfeita: acordam cedo, fazem yoga, tomam café saudável, meditam, leem livros, trabalham com paixão e ainda têm tempo para lazer. O problema é que essa exposição raramente mostra a realidade por trás das câmeras. O autocuidado virou uma performance. E, quando a vida real não acompanha esse ideal, instala-se a frustração.

A terapia é justamente esse espaço: um lugar onde diferentes realidades são acolhidas, analisadas e tratadas com respeito. Nenhuma receita é imposta. O(a) filósofo(a) clínico(a), por exemplo, conduz o partilhante ao pensar por si mesmo(a), respeitando seus ritmos. Quando alguém deseja se cuidar, mas não encontra meios, exploramos juntos formas de reorganizar a rotina, reconstruir hábitos possíveis — ou, simplesmente, acolher o momento de pausa como legítimo. É também na escuta clínica que se revela a importância da autenticidade: o autocuidado não é um pacote de ações pré-definidas, mas uma escuta atenta do que realmente faz sentido para cada um.

No fim das contas, o mais importante é que nossas escolhas nos façam bem. Que possamos encontrar felicidade nas pequenas decisões e força para lidar com os momentos difíceis. O autocuidado, quando vivido com leveza e autenticidade, pode ser uma das maiores formas de amor-próprio.

Se há uma certeza que podemos ter nesse caminho é a de que cuidar de si não deve ser um fardo, e sim uma prática de liberdade e consciência. E, como toda prática consciente, ela começa pela escuta — de si, do corpo, das emoções, e também do silêncio.

*Tatiana Borges Carvalho

Filósofa clínica

Recanto da Filosofia Clínica

São Paulo/SP

**Texto originalmente publicado na edição inverno/2025 na revista da Casa da Filosofia Clínica

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