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Uma leitura do mundo*

Concordo integralmente com o modo como Hans-Georg Gadamer entende a linguagem:

"A linguagem não é um dos meios pelos quais a consciência se comunica com o mundo. (...) A linguagem não é nenhum instrumento, nenhuma ferramenta. Pois uma das características essenciais do instrumento é dominarmos seu uso, e isso significa que lançamos mão e nos desfazemos dele assim que prestou seu serviço. Não acontece o mesmo quando pronunciamos as palavras disponíveis de um idioma e depois de utilizadas deixamos que retornem ao vocabulário comum de que dispomos. Esse tipo de analogia é falso porque jamais nos encontramos como consciência diante do mundo para num estado desprovido de linguagem lançarmos mão do entendimento. Pelo contrário, em todo conhecimento de nós mesmos e do mundo, sempre já fomos tomados pela nossa própria linguagem. É aprendendo a falar que crescemos, conhecemos o mundo, conhecemos as pessoas e por fim conhecemos a nós próprios. Aprender a falar não significa ser introduzido na arte de designar o mundo que nos é familiar e conhecido pelo uso de um instrumentário já dado, mas conquistar a familiaridade e o conhecimento do próprio mundo, assim como ele se nos apresenta".  (Gadamer, "Verdade e Método")

Gadamer quer dizer que o homem está no mundo na medida em que está na linguagem: estamos posicionados no real na proporção em que somos capazes de nomear, descrever e explicar o que há diante de nós - e o que há dentro de nós. Quanto maior é o nosso horizonte de linguagem, maior é o nosso mundo; se temos um horizonte lingüístico limitado, o nosso mundo não pode se expandir.

Por isso sempre insisto que é necessário aprender a ler bem: é preciso ler a boa literatura, a boa História, a boa Filosofia. Afinal, somente enxergamos e direcionamos aquilo que temos a capacidade de trazer para o plano do que pode ser dito - e ampliamos o nosso domínio do dizer (isto é: a extensão do léxico, o controle da lógica presente na sintaxe, a agudeza da interpretação) por meio do desenvolvimento da nossa perícia na atividade de ler.

* * *

Amigos, a solução da nossa crise civilizacional - uma crise já mais que centenária - não será encontrada no campo da política, da legislação ou da economia; a saída da crise estrutural da civilização brasileira necessariamente passa, em primeiríssimo lugar, pela cultura. Tudo o mais depende da nossa capacidade de leitura - dos livros e do mundo. Ou aprendemos a bem ler os livros e, conseqüentemente, a bem ler o mundo, ou jamais seremos capazes de criar com liberdade o nosso próprio caminho na História.

*Prof. Dr. Gustavo Bertoche

Filósofo. Mestre e Doutor em Filosofia. Escritor. Musicista. Filósofo Clínico. Autor de Realidade e realização - A dialética do real na epistemologia de Bachelard, dentre outros. Em 2019, por indicação da direção e conselho da Casa da Filosofia Clínica, recebeu o título de Doutor Honoris Causa.

Rio de Janeiro/RJ

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