Para pensarmos temas de consultório e, talvez, semelhantes àqueles em voga como a tranquilidade da alma, desenvolvido por Sêneca - cuja reflexão tem circulado atualmente - é importante relembrarmos a noção introdutória ao nosso método: o mundo é uma representação da pessoa, reveladora de sua singularidade.
Assim, em filosofia clínica,
tanto “tranquilidade” como “alma”, ou mesmo “tranquilidade da alma”, são
considerados termos equívocos, ou seja, sem contextualização ou tradução, longe
do sujeito que os pronuncia, geram dubiedades, interpretações diversas.
Se ocorrer o caso de um
partilhante trazer esse tema para a clínica, é preciso compreender o
significado dado por ele. Investigar o sentido e uso conferido a essa
afirmação. O sujeito pode dizer em suas queixas iniciais: “sempre quis ter a
alma tranquila”. Essa fala vem do tópico buscas: para onde a pessoa se dirige
existencialmente, junto com um termo equívoco, o qual, inicialmente, não sei o
sentido. Posso interpretar a partir das minhas referências sobre tal assunto.
Mas, minha interpretação não
interessa para o trabalho terapêutico em filosofia clínica! Nesse momento, o
que sei deve ser suspenso, ou seja, devo colocar meu conhecimento em uma gaveta
e me dispor a ouvir, via interseção positiva, com o mínimo de agendamento
possível, pois o chão de fábrica do filósofo clínico é a perspectiva do
partilhante. Por isso, solicito que ele fale mais sobre o assunto,
contextualizando a partir de sua historicidade. Procedo a partir dos exames
categoriais, estudo da sua estrutura de pensamento e submodos.
Para clarear, segue uma das
características da filosofia clínica: “a fundamentação teórica é filosófica,
não tipologiza discursos existenciais, (...) não utiliza definições como: cura,
loucura, doença, normalidade... Michel Foucault denuncia esses conceitos como
ideologia, política, vontade de poder” (Strassburger, 2016).
Então, como a filosofia clínica
cuida do partilhante se não usa esses conceitos e nem o conhecimento prévio
dado pelas tipologias? Consideramos cada indivíduo em sua singularidade. Cada
pessoa tem sua representação de mundo. Mas o que é singularidade?
Lúcio Packter explica: “A
primeira lição fundamental na Filosofia Clínica é que aquilo que uma pessoa
sente, vive, afirma, imagina, faz – isso é assim para ela -, independente de
ser compartilhado com as outras pessoas, de ser aceito, criticado, ironizado,
proibido e assim por diante”. (Packter, 2001, p. 27)
A isso chamamos singularidade.
Esse modo próprio de ser e estar no mundo, dadas as circunstâncias de cada um.
E como o trabalho a ser feito com o partilhante é sempre a partir da história
de vida contada por ele mesmo, de sua representação de mundo, dizemos que a
filosofia clínica é um método a posteriori. Ou seja, sem o sujeito, tenho uma
estrutura metodológica. O conteúdo para preenchê-la, é trazido pela pessoa.
No prefácio do livro de Lúcio
Packter (2001, p. 11), Filosofia Clínica: propedêutica, Hélio Strassburger diz:
“A Filosofia Clínica se mostra, no contexto da historicidade, como um filosofar
comprometido com a vida e seus desdobramentos objetivos, nas múltiplas
problemáticas em que se faz atuante, com um sujeito que aparece como fruto de
suas vivências e singularidade”.
Aqui a palavra sujeito é
importante, pois na terapêutica filosófica clínica, eu tenho um partilhante
(aquele que compartilha suas vivências conosco) indicando que há escolhas de
linguagem e significações específicas do novo paradigma, uma das características
do método. Logo, nem paciente, nem cliente, mas partilhante, inserido
ativamente no processo, operando em construções compartilhadas com o filósofo
clínico, de acordo com sua estrutura de pensamento, desde seu idioleto,
representações da existência, sentidos possíveis.
Dessa forma, a relação entre a
abordagem terapêutica da filosofia clínica e o tema da “tranquilidade da alma”
- incluindo qualquer outro conceito ou termo equívoco apresentado pela pessoa
em clínica - acontece a partir da singularidade de cada um e pode revelar-se um
assunto imediato ou, no decorrer das sessões, desenhar-se em assunto último,
talvez vinculado a ele. Se o sujeito não traz esse assunto, se isso não faz
parte de seu mundo, pode ser uma afronta querer saber seu pensamento sobre
“tranquilidade da alma” ou propor prioridade a isso.
Agora, caso apareça, cabe ao
terapeuta compreender o sentido, significado e alcance desse assunto na malha
intelectiva do partilhante, como se relaciona com ele, se consegue viabilizar
(se usa submodos produtivos) a “tranquilidade da alma”, enfim, é preciso
investigar que lugar isso cumpre na estrutura de pensamento da pessoa.
Ela pode ter aprendido que “só se
é feliz quando se alcança a tranquilidade da alma”, pode ter a convicção de que
“tranquilidade da alma é poder pagar as contas”, ou refletir escrevendo sobre o assunto, tal como
fez Sêneca, compartilhando sua experiência. Nossa tarefa é cuidar da
singularidade a partir de sua história de vida e representação.
*Dionéia Gaiardo
Filósofa Clínica. Escritora. Mãe do Gael.
Tapejara/RS
**Artigo originalmente publicado na edição outono/2026 da revista da Casa da Filosofia Clínica.
Referências:
PACKTER, Lúcio. Filosofia
Clínica: propedêutica. 2.ed. Florianópolis: Garapuvu, 2001.
FILOSOFIA CLÍNICA, Hélio
Strassburger. Jornal Correio do Povo, 07.05.2016.
SÊNECA. Sobre a ira. Sobre a
tranquilidade da alma: diálogos. São Paulo: Penguin Classics Companhia das
letras, 2014.
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