Uma descoberta realizada nos meus vinte e seis anos de magistério:
Quase todas as pessoas possuem um
talento natural para realizar, de modo brilhante e extraordinário, alguma
atividade.
Porém, esse talento quase nunca é
reconhecido e desenvolvido pela escola, porque sua natureza é extra-escolar.
Ali está a menina com uma
incrível habilidade social. Aquela outra que tem um senso estético refinado. A
que desenha como ninguém. A que canta. A que sabe fazer uma geléia de maçã
divina. A menina que tem mãos boas para plantar. O rapaz que é um líder nato
nos esportes. O que escreve contos de realismo fantástico. O que
instintivamente descobre os caminhos na mata. O que conversa com os cães, ou
com os pássaros, ou com as flores. O que toca violão de ouvido. O que sabe
fazer móveis de madeira. O que pilota sua bicicleta com leveza e graça.
A genialidade, entendida como
talento extraordinário, é comum e trivial; ela está muito bem distribuída em
todos os lugares e em todas as classes sociais - e tanto pode ser inata quanto
construída desde a infância.
A idéia de que os gênios são
raros é uma das grandes mentiras criadas pela escolarização universal e
compulsória - uma mentira que, de tantas vezes contada, tornou-se lugar-comum.
* * *
A escola é uma indústria de
produção de "normalidade": o verdadeiro currículo escolar é o da
normalização da humanidade. Ou: a escola fabrica proletários de corpo e alma
bem treinados, capazes de manter o corpo e a inteligência imobilizados por
horas, para produzir ou vender, em troca de baixos salários, algo que não lhes
pertence.
Por isso, a escola precisa matar
o gênio dentro de cada indivíduo. Precisa desvalorizar as habilidades sociais e
manuais, castrar a inteligência prática, proibir o corpo de realizar as suas
potências. A escola precisa, enfim, adestrar a pessoa livre, para que se torne
escrava por sua própria vontade, acorrentada por grilhões imaginários,
aterrorizada pela possibilidade do desemprego na sociedade de consumo.
A escola universal e obrigatória
é uma máquina criada com o propósito de transformar gênios capazes de viver de
seus talentos em fracassados em busca de emprego.
*Prof. Dr. Gustavo Bertoche
Filósofo. Mestre e Doutor em Filosofia. Escritor. Musicista. Filósofo Clínico. Autor de Realidade e realização - A dialética do real na epistemologia de Bachelard, dentre outros. Em 2019, por indicação da direção e conselho da Casa da Filosofia Clínica, recebeu o título de Doutor Honoris Causa.
Rio de Janeiro/RJ

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