No decorrer dos anos, desde a criação da filosofia clínica, inúmeras cabeças pensantes debruçam-se sobre a compreensão, aplicação e docência na área. As pesquisas apontam para uma prática terapêutica em pleno desenvolvimento de suas capacidades. No intuito de fomentar alicerces demonstrativos sobre a abrangência da clínica propiciada pelo método, muitos desses esforços são orientados ao teste e validação de cada um dos elementos técnicos e ao seu funcionamento em relação às demais partes. Guardadas as devidas proporções no distanciamento entre fundamentos e prática de consultório, é evidenciado um enxugar na metodologia em detrimento a criação de elementos novos em uma abordagem já tão ampla.
A filosofia clínica nasce do
olhar de seu criador ao recortar a forma de pensar de alguns filósofos que o
ajudaram a sair de critérios rígidos da clínica vigente. Ao invés da atenção às
interpretações de cada pensador, como faz a academia, direcionou-se a como
pensavam e não qual era o pensamento e seus desdobramentos históricos. Na sua
criação existe um movimento dialógico entre escolas opostas e o que seria
excludente entre elas, na história da filosofia, se torna indiferente para essa
terapia. Tal “incoerência” pode fazer sentido se pensada sobre o primado da
relação terapêutica onde, apesar de todos comungarem de um vínculo com o mundo
objetivo cada um tem impressões subjetivas em relação aos seus eventos.
O método é um meio para a relação
de dois indivíduos em um ambiente específico. Ele trabalha de maneira oposta à
sua fonte de inspiração. A filosofia aspira a universalização sobre suas
análises conceituais. A filosofia clínica busca o indivíduo, a singularidade.
Esta última, por sua vez, é uma noção técnica resultante de um eixo formado
entre exames categoriais, estrutura de pensamento e submodos na compreensão do
filósofo clínico. Esta métrica não tem serventia para leitura do homem ou da
humanidade, mas serve ao terapeuta quando precisa entender o indivíduo à sua
frente. Talvez essa seja a maior dificuldade. Conceber diante de todo o
estudado que nada, metodologicamente falando, está na pessoa atendida e sim
naquele que escuta.
Desta maneira a filosofia clínica
não pode ser um meio para se falar dos universais. Ao mesmo tempo, isso não
impede a fala de alguns especialistas ou mesmo terapeutas onde são defendidas
universalizações. Talvez isso aconteça pela ausência de um critério de
separação entre os pressupostos metodológicos, seus ditames e tudo aquilo que a
filosofia clínica suscita a partir das possibilidades clínicas na prática.
Quando um colega diz “a filosofia clínica pensa X sobre a psiquiatria”, ou “a
filosofia clínica fala Y sobre sexualidade”, muitas das vezes está apontando
para suas próprias reflexões. Ela cumpre somente o papel de oferecer parâmetros
para aproximação e compreensão de alguém o mais próximo possível de como se
compõe.
A clínica acarreta uma série de
impressões para aqueles que atendem e elas não são menos importantes, mas é
preciso cuidado para não “vender” as próprias como se fossem próprias da
filosofia clínica. É preciso um apartar-se de si (epoché) inclusive para deliberar
sobre o método e sua funcionalidade. Também, uma divisão clara entre o
oferecido por ele e as influências do exercício quando acarretam reflexões que
fogem a lógica da relação entre filósofo clínico e partilhante. São dois
“lugares” diferentes, eles se aproximam e se distinguem concomitantemente.
Algumas elucubrações podem surgir a partir dos atendimentos como reflexões
filosóficas críveis, mas não necessariamente pertencem ao cerne da filosofia
clínica. Neste sentido o terapeuta precisa da maior assertividade possível no
uso das palavras.
A terapia, principalmente no
início, é o território do desconhecido. Por isso, é comum a sensação de
desconforto devido à falta de subsídios, no tocante à historicidade, inerentes
ao processo de descortinar a singularidade. É necessário para o filósofo clínico
se amigar a descomodidade e fazer dela sua aliada. Pois quando reconhece seu
desconhecimento e sua ignorância, diante de um indivíduo no ambiente de
partilha, se torna capaz de perceber quais caminhos são possíveis percorrer
para se nutrir do outro.
Atenção, paciência e disciplina
nos estudos (tanto do método quanto do partilhante) são quesitos caros aos
discentes. Essa tríade tem a potência de qualificar a jornada do filósofo
clínico independentemente da fase de formação em que esteja. É preciso se
dobrar à lógica alheia para ver emergir de lá o inédito e fazer dele referência
para o aprendizado. A filosofia clínica se dá na tarefa incessante de conhecer
a singularidade.
* Paulo
Alves Filho
Filósofo. Escritor. Filósofo
Clínico na Casa da Filosofia Clínica
Rio de Janeiro/RJ
**Texto originalmente publicado
na edição de outono/2026 da revista da Casa da Filosofia Clínica

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