Alguns discursos sobre a filosofia clínica podem ser encantadores. Falar sobre o fato de cada pessoa ser única, exaltando a singularidade; referir-se ao fato de haver uma construção compartilhada entre filósofo clínico e partilhante; mencionar os procedimentos clínicos únicos para cada indivíduo; defender o dirigir-se ao outro, via recíproca de inversão, a fim de compreender sua representação de mundo; entre tantas outras características, podem expor a realidade do consultório, mas nem sempre refletem seus reais desafios.
Uma das possíveis negligências
com as quais o filósofo clínico pode se deparar encontra-se no desafio da
suspensão de juízo. A ideia de acolher o partilhante por meio da postura
fenomenológica – ao realizar a “epoché” – pode ser discursivamente linda. Respeitar
o outro como um “solo sagrado” diante do qual deve-se “tirar as sandálias” das
verdades pessoais a fim de compreender o outro a partir de si constitui uma
apresentação comum nos textos, nos discursos e nas redes sociais de terapeutas
da filosofia clínica. No entanto, o intento de colocar entre os parênteses da
estrutura de pensamento as convicções pessoais pode deparar-se com barreiras
quando essas certezas parecem irrenunciáveis. Afinal, “são verdades”, não?
Um desses desafios pode ser
encontrado num caso de querela dos diagnósticos. A filosofia clínica bebe nas
fontes foucaultianas – e até machadianas: lembremos de “O alienista” – ao
questionar a subjetividade e o interesse político da afirmação de uma anormalidade
em nome da ciência. Como se esta fosse uma instituição homogênea detentora de
uma verdade capaz de dizer o que as coisas são a partir de critérios
inquestionáveis. Mas, o “argumentum ad verecundiam” ou o apelo à autoridade é
uma falácia se não considerarmos a consistência do processo de elaboração das
pesquisas, os critérios de afirmação dos resultados e a abrangência e a
perenidade de tais veredictos. Será que dá para ser filósofo clínico e
dogmático ao mesmo tempo?
Outro aspecto relevante, ainda no
âmbito dos diagnósticos, pode ocorrer em outra instância, aparentemente tão ou
mais forte do que o apelo à ciência: a experiência pessoal. A dor ou o prazer
de uma determinada vivência pode mudar crenças religiosas, visões políticas,
valores, autoimagens, critérios de obtenção de entendimento e certezas, entre
inúmeras outras possibilidades. Com isso, o filósofo clínico pode ver sua
representação de mundo afrontada ao se deparar com partilhantes defendendo ou
acreditando em ideias antagônicas às suas.
O filósofo clínico possui uma
representação de mundo. Ela faz parte de sua constituição e é imprescindível em
sua vivência cotidiana. No entanto, em seu papel existencial de cuidador, deve
ser capaz de levar consigo somente o método a fim de acolher o partilhante,
ouvir seu relato, e organizar as informações obtidas segundo categorias,
tópicos e submodos. Deve evitar colocar algo de si, enquanto critério para a
própria vida, que possa interferir na realização da hermenêutica compreensiva e
nos procedimentos clínicos necessários para auxiliar o sujeito sob seus
cuidados.
A tentação de render-se às
seduções dos diagnósticos pode vir também pela facilidade de proferi-las ou
aceitá-las. Um dos desafios do filósofo clínico é o de ser um aprendiz. Como
não há padrões, a cada partilhante recebido em sessão ocorre um trajeto oriundo
da inteira ignorância sobre sua identidade, seus problemas e as respectivas
possibilidades de lidar com eles. Esse exercício socrático de reconhecimento de
um não-saber pode gerar desconforto. A saída possível, como uma fórmula a
priori, pode trazer conforto. Ter a convicção de que está lidando com um
transtorno, uma síndrome ou qualquer “anomalia” passível de ser encontrada no
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) pode “explicar
tudo”.
A dificuldade de realizar a
suspensão de juízo seja devido à experiência pessoal, ao conforto dos
diagnósticos previamente apresentados, à confiança acrítica na objetividade da
ciência, seja por qualquer outro motivo, é um possível desafio para filósofos
clínicos em qualquer época e tempo de experiência. Edmund Husserl apresentava a
“epoché” de sua fenomenologia como uma postura artificial. Pois era contraposta
à atitude natural de quem vive cotidianamente.
Uma das atitudes mais filosóficas
do filósofo clínico consiste em familiarizar-se com o espanto (thaumazein) no
consultório, ao ser capaz de ver o novo onde os olhares enviesados só enxergam
o conhecido. Ele deve lidar com os inéditos de cada partilhante e em cada nova
sessão. Precisa acostumar-se com o não saber, gradativamente tornado
compreensão, na medida em que se desdobra a construção compartilhada ao longo
da caminhada na clínica. O terapeuta habitua-se com o desconforto, a pedra no
sapato, de ter de conhecer o indivíduo atendido a partir de si, sem as muletas
da convicção da própria representação de mundo ou dos princípios de verdade das
normatividades convencionadas.
*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Mestre e Doutor em
Filosofia. Filósofo clínico. Escritor. Autor de: “Introdução à Filosofia
Clínica”. Ed. Vozes/RJ. 2021; “Lições de Filosofia Clínica. Ed. Sulina. Porto
Alegre/RS. 2024, dentre outros. Prof. Titular de Filosofia Clínica. Em 2019,
por indicação do Conselho e Direção da Casa da Filosofia Clínica, recebeu o
título de “Doutor Honoris Causa”.
Teresópolis/RJ
**Texto originalmente publicado na edição inverno/2026 da revista da Casa da Filosofia Clínica.

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