Desde que comecei o estágio supervisionado, tenho me aprofundado na prática da filosofia clínica. É perceptível nos atendimentos toda teoria estudada em sala de aula; é uma experiência enriquecedora. Na filosofia clínica, as vivências de consultório revelam-se tão singulares quanto os sujeitos atendidos. Neste relato, abordo minhas vivências colhidas em mais de um ano de atendimentos, período no qual observei o surgimento da construção compartilhada e seus desdobramentos. Quando acontece a construção compartilhada? Ela acontece gradualmente através das sessões de terapia, desde o primeiro atendimento ela pode começar a dar seus primeiros passos.
Há diversas razões que podem
levar alguém a buscar o acompanhamento de um filósofo clínico. No início do
processo, após o acolhimento, o terapeuta pode perguntar ao partilhante o que o
trouxe à terapia ou de que forma pode ajudá-lo. Nessa fase, o cuidador realiza
a recíproca de inversão, momento em que se dispõe a escutar e a estar presente
junto ao sujeito atendido. A partir daí acontece a interseção e, durante a
clínica, pode ser positiva, negativa, mista ou indeterminada, dependendo de
cada singularidade.
Durante as sessões, o terapeuta
evita tocar no ponto de dor do partilhante para preservá-lo e resguardar o
lugar de acolhimento. Nesse processo, o filósofo clínico fala pouco,
priorizando uma escuta ativa e isenta de juízos de valor, fundamentada no desejo
de conhecer o indivíduo por meio de sua própria fala e presença na clínica. É o
partilhante que deve falar e trazer suas questões existenciais. O cuidador,
algumas vezes, o estimula a falar; pode ocorrer o silêncio entre eles, que
muitas vezes é benéfico. Ao final da sessão, o partilhante pode se sentir mais
leve, ficar pensativo de um jeito negativo ou positivo, pode alcançar um alívio
por expressar coisas que talvez nunca tenha falado com ninguém. Talvez ele
fique desconfortável devido a algum
assunto que pode trazer muitas lembranças; mas depende de cada caso e de como o
sujeito se encontra em determinado dia.
Em cada atendimento, ocorre o
conhecimento e o entendimento recíproco; estabelece-se uma sintonia e um laço
entre filósofo clínico e partilhante; constrói-se também o respeito mútuo.
Durante as sessões, a pessoa atendida compreende a dinâmica da terapia e
reconhece ali o seu espaço de expressão. Percebe a escuta ativa do terapeuta,
que guarda e aplica seus relatos para oferecer suporte em seus dilemas
existenciais. Gradualmente, vai acontecendo a construção da confiança, e também
a de um lugar onde o partilhante percebe que não haverá julgamento, no qual
pode se abrir, pois ali é um espaço de conforto construído mutuamente. É o
lugar fora da vida cotidiana, onde o partilhante pode se expressar, pois é
possível vivenciar mais à vontade (chorar, sorrir etc.). Ele pode notar que ali
existe alguém disposto a ouvi-lo e acolhê-lo.
À medida que as sessões progridem
e a história de vida é colhida, o filósofo clínico aprofunda o conhecimento
sobre o partilhante por meio dos exames categoriais. Essa investigação,
contudo, não se limita a uma fase inicial, estendendo-se por todo o processo
clínico. Tais exames permitem localizar a posição existencial do indivíduo: o
lugar e as circunstâncias que o moldaram, a relevância de suas relações, o
tempo em que habita, o assunto imediato que o trouxe à terapia e o assunto
último a ser trabalhado. Essa dinâmica gradualmente leva à construção
compartilhada, que perpassa todo o processo terapêutico.
Ao fazer a análise da estrutura
de pensamento, o filósofo clínico começa a entender como o partilhante é e como
funcionam seus tópicos e submodos determinantes. A estrutura de pensamento (EP)
é a teia de associações que une sentimentos, crenças, conhecimentos etc.,
definindo o modo como o sujeito se encontra existencialmente. É a forma como a
pessoa é. Nessa fase, o filósofo clínico encontra os viabilizadores dos tópicos
da EP: os submodos. E eles podem ser usados nos procedimentos clínicos.
Tanto o partilhante como o
filósofo clínico qualificam a intercessão e constroem o lugar terapêutico.
Nesse espaço há a possibilidade de desenvolver-se: o partilhante enquanto
pessoa e o filósofo clínico em seu papel existencial. Ao longo das sessões, pode
ocorrer uma relação de confiança, respeito e cuidado. A construção
compartilhada acontece de sessão em sessão. Sendo ela horizontal, não há um
terapeuta que sabe tudo e vai ditar para o partilhante o que deve fazer, mas há
alguém que escuta, entende, fala quando é preciso.
A construção compartilhada ocorre
por meio da interseção ao longo dos atendimentos. Ela emerge da terapia
realizada a partir da parceria entre filósofo clínico e partilhante. Esse
processo culmina em um bem-estar subjetivo — um resultado terapêutico singular
e moldado conforme a vivência de cada indivíduo.
*Robson de Oliveira Santos
Filósofo Clínico
Formado pela Casa da Filosofia
Clínica
Rio de Janeiro/RJ
**Texto originalmente publicado
na edição de inverno/2026 da revista da Casa da Filosofia Clínica
.jpg)
Comentários
Postar um comentário