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Uma arqueologia do oculto*


 



         

       Há algo de intrigante na coincidência de dois livros que, à primeira vista, numa análise superficial ou meramente disciplinar não teriam razão para dialogar. Mas considerando uma perspectiva pluriversal, interdisciplinar e transdisciplinar, de um lado a recente leitura de A vida secreta das palavras I, de Hélio Strassburger, um ensaio filosófico-clínico que investe contra a psiquiatria diagnóstica em nome da singularidade irredutível de cada sujeito. De outro, uma leitura de 2025, A vida secreta dos números, de Kate Kitagawa e Timothy Revell, história global da matemática que desmonta o eurocentrismo para revelar os pioneiros apagados pela narrativa hegemônica. O que os une, para além do título, nesse caso, seria que ambos operam uma arqueologia do oculto, desenterrando aquilo que regimes de saber configuraram como invisível.

         Strassburger constrói a sua argumentação sobre a brilhante premissa de que cada pessoa carrega uma estrutura de pensamento singular, cuja expressão linguística jamais se esgota em significados dicionarizados. A vida secreta das palavras I é, precisamente, esse excedente semântico que só se manifesta no encontro clínico, quando o filósofo suspende os seus preconceitos, os seus prejuízos e se dispõe a aprender a língua do outro com quem partilha. Trata-se de uma hermenêutica não interpretativa, mas compreensiva, que descreve em vez de rotular (Strassburger, 2026). A crítica ao DSM e à medicalização do sofrimento existencial não é apenas institucional, mas epistemológica, desvelando o que está em jogo, isto é, a recusa de subordinar o particular sob o universal.

         Kitagawa e Revell, por sua vez, realizam movimento análogo, mas em direção aparentemente oposta. Sua arqueologia não visa o sujeito individual, mas a própria história da matemática. Ao recuperar contribuições da Índia, da China, do mundo islâmico e de matemáticas mulheres sistematicamente apagadas, demonstram que o cânone matemático é uma construção cultural, não um desdobramento natural do gênio europeu (Kitagawa; Revell, 2025). O eurocentrismo funciona aqui como equivalente epistemológico do diagnóstico psiquiátrico: ambos reduzem as singularidades e as pluralidades à norma.

         Nesse sentido, a primeira afinidade entre os livros refere-se ao estrutural, pois ambos denunciam a violência simbólica dos sistemas totalizantes. Onde a psiquiatria tradicional fabrica loucura e o eurocentrismo matemático fabrica gênios ocidentais. Onde o DSM patologiza a singularidade, a história oficial apaga a diversidade. Em ambos os casos, o que se oculta é a multiplicidade legítima das formas de saber.

         Mas há também uma diferença epistemológica fundamental que merece escrutínio. Strassburger opera no regime da subjetividade: sua unidade de análise é a palavra vivida, o discurso existencial irreplicável. O conhecimento que produz é necessariamente singular, não cumulativo, não transferível. Cada encontro com cada partilhante é inédito, um recomeçar do zero, pois cada pessoa é única do início a eternidade, é uma história e linguagem inteira a ser aprendida. Já Kitagawa e Revell operam no regime da objetividade histórica: a matemática, mesmo em suas origens plurais, aspira à universalidade. Um teorema demonstrado na Índia do século XIV vale tanto quanto um demonstrado em qualquer grande universidade do Brasil ou do mundo. O conhecimento matemático é cumulativo, transferível, verificável.

         Isso nos coloca diante de uma interessante tensão produtiva. A hermenêutica de Strassburger recusa a generalização como violência; a história de Kitagawa e Revell recorre à generalização como reparação. Ambos querem ampliar o conceito de validade, mas por vieses divergentes: um alargando o que conta como experiência legítima, o outro alargando quem conta como autor do conhecimento.

         Outra afinidade reside na centralidade do olhar estrangeiro. Strassburger, apoiado em Heidegger e Wittgenstein, sustenta que a linguagem é uma morada que o filósofo clínico deve habitar como estranho, sem pressa de traduzir. Kitagawa e Revell mostram que os maiores avanços matemáticos surgiram justamente no contato entre civilizações, na tradução entre sistemas numéricos diferentes (Kitagawa; Revell, 2025). Criticamente, o estrangeiro não é o outro a ser classificado, mas a condição de possibilidade do novo.

         Há ainda um ponto de contato que escaparia a uma leitura apressada: a dimensão ética. Ambos os livros são, no fundo, tratados sobre justiça epistêmica. Strassburger defende o direito de cada sujeito à sua própria linguagem, recusando que o sofrimento seja traduzido para o código do DSM. Kitagawa e Revell defendem o direito de cada civilização ao seu lugar na história do pensamento, recusando que a matemática seja apropriada como propriedade exclusiva do Ocidente. A justiça epistêmica, em ambos os casos, não é um adendo moral, mas uma condição de rigor: só se conhece verdadeiramente aquilo que se consente deixar falar na sua própria língua.

         Talvez o contributo mais original deste cruzamento seja a percepção de que toda vida secreta, seja das palavras, seja dos números, só se revela quando abandonamos a soberania do saber pronto, pasteurizado, a priori acerca de cada mundo como vontade e representação. Strassburger nos ensina que compreender é antes de tudo escutar o que ainda não foi dito (Strassburger, 2026). Kitagawa e Revell nos mostram que a história do conhecimento é sempre mais larga do que a memória eurocêntrica oficial permite. Em ambos os casos, o segredo não reside nas coisas, mas no olhar que as recusa como já ditas.

*Prof. Dr. Pablo Eugênio Mendes

Filósofo. Mestre e Doutor em Filosofia. Analista de sistemas. Musicista. Escritor. Livre pensador. Em 2019, por decisão da direção e conselho da Casa da Filosofia Clínica, recebeu o título de Doutor honoris causa. 

Uberlândia/MG 

**Texto originalmente publicado na edição primavera/2026 da revista da Casa da Filosofia Clínica.  

Referências:

KITAGAWA, Kate; REVELL, Timothy. A vida secreta dos números: uma história global da matemática e de seus pioneiros desconhecidos. Tradução de Rafael Rocca dos Santos. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.

STRASSBURGER, Hélio. A vida secreta das palavras I: ensaios em filosofia clínica. Porto Alegre: Sulina, 2026.

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