Falar de terapia hoje em dia é falar de um iFood de modalidades de atendimento terapêutico; muitas possuem semelhanças com pequenas diferenças entre si. A maioria possui um leque de parâmetros externos à pessoa que é atendida, isto é, os critérios normativos e tipológicos. Isso vira um self service de conceitos, ideologias e diagnósticos, nos quais as pessoas são encaixadas e deixam de se reconhecer segundo suas características individuais e únicas. Tais parâmetros estão fora das pessoas e procuram ditar o que cada um é.
Entre as terapias existentes há
um princípio de verdade que as une sobre esses conceitos, levando a sociedade a
vê-los como norma e qualificador de cada sujeito. Em muitos âmbitos da
sociedade, os indivíduos se justificam por esses parâmetros externos.
Mas existe alguma abordagem
terapêutica que se diferencie das demais?
Sim, e se chama filosofia clínica. Ela está fazendo uma revolução
copernicana entre as abordagens terapêuticas. Porém, antes de falar sobre isso,
é preciso esclarecer um pouco sobre a importância de Nicolau Copérnico e a
consequência de suas ideias.
Nicolau Copérnico, astrônomo e
matemático nascido na Polônia, em 1473, desenvolveu a teoria segundo a qual os
astros giravam em torno do sol, inclusive a Terra. Essa ideia ficou conhecida
como heliocentrismo. Antes dele se acreditava que a Terra era fixa, os
planetas, o sol e a lua giravam em torno dela. Essa antiga teoria se chamava
geocentrismo, e foi criada por Cláudio Ptolomeu no ano 150, quando reuniu as
teorias em um livro que chamou de Almagesto, essa teria sobreviveu por 14
séculos. Quando Copérnico propôs o heliocentrismo, precisou criar argumentos e
provas da veracidade de sua teoria.
Qual é a razão de considerarmos a
importância da revolução copernicana? Ela foi a responsável por mudar um
pensamento vigente há séculos. A mudança ocorreu em vários âmbitos da
sociedade: na ciência, por exemplo, abriu as portas para novos pesquisadores,
como Galileu Galilei; na filosofia, com René Descartes e Immanuel Kant; e
principalmente na Igreja, que precisou rever as suas convicções. A partir dessa
revolução, nasce a ciência moderna, quebrando com a hegemonia do pensamento
antigo e medieval. O pensamento de Copérnico foi um novo paradigma. Ele
percebeu que o sol (Estrela) é fixo; e os planetas, cometas, asteroides, luas
orbitam em sua volta. Mas o que isso tem a ver com a filosofia clínica?
A filosofia clínica é um método
terapêutico fundamentado na ideia da singularidade de cada pessoa que busca a
terapia. Ela é um novo paradigma, quebrando as regras das demais abordagens
terapêuticas, assim como foi com a revolução copernicana. Ela não usa os
parâmetros externos, critérios normativos ou tipológicos para entender e
auxiliar as pessoas. Mas tem na pessoa seu próprio parâmetro.
Aqui peço ajuda ao filósofo Kant
que usou a teoria de Copérnico para fazer a sua revolução filosófica. Para o
autor da Crítica da Razão Pura, os objetos aparecem para nós segundo a forma
como nossa mente os organiza, e não é mais a mente a se ajustar aos objetos. O
homem define o objeto. Tudo o que conhecemos passa por estruturas da mente.
Antes de Kant e Copérnico, considerava-se que a mente se adaptava ao objeto
para conhecê-lo, fazendo um movimento de fora para dentro. Com a revolução
copernicana, o objeto (conhecido) vem de dentro para fora.
No âmbito das terapias, é isso o
que a filosofia clínica faz: vê o partilhante como singular, pois é ele quem
diz de si. Não se traz pressupostos normativos fora dele para representá-lo ou
defini-lo. Essa é a revolução copernicana da filosofia clínica: é o partilhante
que diz ao filósofo clínico o que se passa com ele, o que ele sente, o que ele
vê, como vê. Não existe nada fora do partilhante que venha colaborar com a
clínica. É por isso que ela não trabalha
com diagnóstico, pois este veredito é construído a partir de fora daquela
singularidade.
A filosofia clínica se diferencia
das demais abordagens, realizando sua revolução copernicana, pois considera, em
seu método, cada partilhante único, irrepetível, e somente ele pode dizer de
si. Enquanto as demais, trazem elementos de fora da pessoa, como teorias
pré-concebidas sobre um ser humano saudável, para atendê-la, colocando as
singularidades dentro de caixas, conceitos e diagnósticos. Assim, as pessoas
podem não desenvolver seu modo único de habitar o mundo ou se estagnado em um
determinado ponto.
A filosofia clínica é uma
revolução copernicana por ser um paradigma inovador no ramo das terapias. Em
cada atendimento, ela considera as questões existenciais das pessoas fora dos
ditames das supostas ideias ou verdades universais, mas a partir delas mesmas. O filósofo clínico estuda cada singularidade
que aparece em seu consultório, segundo seu método.
*Robson de Oliveira
Filósofo. Filósofo Clínico.
Escritor.
Rio de Janeiro/RJ
**Texto originalmente publicado
na edição primavera/2026 da revista da Casa da Filosofia Clínica.
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