segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ilusão*


“Ouvir meras fábulas talvez não seja o programa favorito de vocês – talvez queiram ouvir A VERDADE. Bom, se é isso que vocês querem, então é melhor procurarem outro lugar – mas juro pela minha vida que não posso dizer exatamente que lugar é esse.”  Paul K. Feyerabend

O momento em que começamos a pensar mais e mais sobre o mundo, sobre os mistérios que envolvem um mundo coerente e a incoerência que temos em vivenciá-lo. Todos vivem no mesmo barco, a nau do mundo é a mesma no plano teórico no que concerne ao corpo, na relação do corpo com o mundo.

Como proferiu Feyerabend em uma de suas últimas conferências, “Ademais, os cientistas, os senhores da guerra, os esfomeados e os abastados são todos seres humanos”. Existe uma ponte imaginária nesta minha perspectiva, pois, se estou a pensar em português (ironia da reflexão), é a busca cotidiana de conhecer a natureza do mundo.

Não há pretensão nisso, a pior arrogância e delimitar o pensamento em uma representação do pensamento apenas especializado. Quando nos deparamos, por exemplo, com a dor, quando ficamos dias e dias na insônia, quando a produção diária e a queima de energia é melhor que deitar, é quando penso: estamos num dilema, ou salvamos a razão, ou aprimoramos a vida.

Uma maneira básica de começar, quando se chega a meio século, é naturalmente intensificar o movimento, principalmente do corpo. Mesmo assim somos traídos por uma cultura racional instintiva da modernidade que é o consumo desenfreado. Em todas as áreas e partes misturamos o que é bom e o que é ruim, somos iludidos por nossas ações, mas muitas vezes, nos recuperamos diante do inesperado que sempre aparece, seja, no acordar cedo para ir mover-se na água, na quadra, nas ruas, no campo aberto etc.

Nem estou pensando em Descartes na sua moral em dizer que a realidade está objetivamente em suas causas. Pretérito, meu caro. A reflexão vem sim, distante, de uma melhor descrição coerente de tudo existe. Platão fazia, então, precisamos nos aprimorar sobre o que existe, sempre foi assim, acontece que hoje existem formas de ir por estes caminhos.

Uma alternativa, a circularidade de uma hermenêutica oriental, outros roteiros que possam envolver o corpo e a mente. Não sou adepto do experimentalismo por ser um homem do meu tempo. Adeptos ou não, o mundo bem que podia se conectar de forma mais harmoniosa, mas é tão difícil quando nem mesmo ainda temos a capacidade de recomeçar do nada e fazer as coisas todas num só dia. Depois, voltar a pensar sobre tudo, ou esquecer tudo para não perder o outro dia que está prestes a nos acordar.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 23 de julho de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações."

"(...) encontro a maior serenidade na alucinação"

"Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação"

"E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?"

"(...) para nascer as coisas precisam ter vida" 

"Já agora nem sabia se vira o céu por si mesma como quem vê o que existe ou se pensara em céu e conseguira inventá-lo"

"(...) a praça de pedra se perdeu entre os gritos com que os carroceiros imitavam os animais para falar com eles"

"(...) a vida que se leva por dentro não é a vida terrena"

"Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é aquela que toca na minha  fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é"

"Vivia de coincidências, vivia de linhas que incidiam e se cruzavam e, no cruzamento, formavam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que era mais feito de segredo"

*Clarice Lispector in "Clarice na cabeceira - Organização de José Castello". Ed. Rocco. RJ. 2011.  

sábado, 22 de julho de 2017

Conjugações existenciais*














Existe um lugar onde é possível reinventar-se em vida. Nesse refúgio intersubjetivo é crível desfazer e refazer as coisas, segredar vontades, qualificar ensaios existenciais, traduzir sonhos. Num contexto de significação flutuante, ampliam-se horizontes numa arte do encontro.

Em um espaço de acolhimento, cultivo, reciprocidade, as narrativas compartilhadas sugerem uma hermenêutica do estar junto. Atiça expressividades na integração das incompletudes. Em busca de fluência discursiva, ao instituir um novo território, aponta originais no ângulo fugaz do instante.

Algo mais acontece quando duas ou mais pessoas se encontram. Seu teor de abrigo é um farol na solidão dos exílios. Sua matéria-prima é a afinidade das palavras, por onde um extraordinário encontro se realiza. Com essa integração provisória da malha intelectiva, institui-se um chão para se ousar o não pensado, cogitado, tentado.

 Nessa reunião de vontades, acessada numa determinada sintonia, é possível transcender em direção ao outro. Em um empreendimento comum, emancipam-se os limites da singularidade, institui-se um diálogo com as lógicas da diferença. Na unidade provisória de um talvez, é possível localizar ilegibilidades. Ponto de partida a descrever vontades, traduzir representações.

Para essa exploração compartilhada reivindica-se, preliminarmente, uma disposição fenomenológica e a hermenêutica compreensiva. A partir da adequada leitura da estrutura de pensamento, é possível elucidar equivocidades discursivas, esboçar uma estética a cultivar afinidades. Mais que entendimento, propõe uma atitude de inclusão e partilha. Aqui se trata de conjugar como elaborar, prosperar. Reivindica-se o acesso aos possíveis e inacreditáveis eventos.

Nesse sentido, sua junção concede visibilidade aos tempos verbais desconsiderados. Seu teor de novidade, ao ser desenvolvimento interpessoal, qualifica processos de libertação criativa. As conjugações existenciais possuem fluidez nas pronúncias no viés da interseção. Com a desconstrução dos isolamentos, tendo como ponto de partida o texto silenciado, insinuam-se rituais de novidade. Neles um significado inédito se reapresenta na perspectiva dos encontros.

*Hélio Strassburger

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Onde anda você ?*


Às vezes escrevo para te lembrar
Por onde tu andas ,agora,
Minha pequena amada?
Seus passos por onde passam
Que não cruzam mais com os meus?
Minh'alma sabia desde sempre
Então te pintei na ponta
Da estrela da manhã
Pendurei teu nome
Na ponta da lua crescente.
Quando de longe te vi
Logo de saída percebi
Que em mim também pensavas
A harmonia da natureza
Perdeu com o fim do nosso amor.
Bateu mais forte meu coração
Meu corpo sentiu uma vertigem
Ah, teu canto, tua dança
Teus lábios se abrindo
Neste teu riso tão limpo.
Ah, traga-me de volta o teu abraço
Compramos uma charrete cheia de flores
Com dois cavalos alados brancos
E andamos pela Rua da Praia...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Do bom, belo e aparentemente justo*


Maria tanto amava que ardia..
Mas até o último suspiro negaria...
Era direita, a Maria.
Só que todo santo dia numa saída ela pensava
Bolava, rebolava, revirava.
Nem mais dormia, a Maria.
Ainda honesta,
enlouquecida, definhava..
(nada bom) 

Foi então que conheceu Teresa.
Era bem puta, a vadia.
(faria o que o Zé gostava
que era também o que queria)
(o duplamente bom) 

Maria deu ao Zé , de presente, a Teresa
E a si própria, deu João e deu ao João...
Zé ficou alegre de repente.
Cantarolava. Assobiava. Até sorria!
Trazia flor pra Maria.
Comprava carne de primeira.
Vestido novo de chitão...
Nem cogitava um João!!!
(mas era justo, justíssimo!)

Enquanto isso a Maria
Agradecida ( e direita )
Trabalhava à tarde
E à noite dormia.
Cansada e feliz
Com o seu Zé, a Teresa
E com João., a Maria!
(bonito, muito bonito, dona Maria!)

"Quem em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez a si
próprio?" (Nietzche)

*Aila Magalhães

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Leitor anarquista da Filosofia Cristã*

       
“Quer dizer, no momento em que adentramos o espaço da memória, entramos no mundo.”**
Paul Auster

Gosto de ler os filósofos cristãos, principalmente os dos séculos XIX e alguns do XX. Assim, ao lê-los aprendo mais do que muita ironia vã da ignorância religiosa e fanática sobre Deus. Sou de fato um ser em movimento, mas o que nunca deixou-me impressionar é a latência reflexiva dos moralistas ao tratar da vida como se ela tivesse uma base sólida para todas os questionamentos. 

Escamotear a existência em nome de um ser superior. De fato, a vida é onde tudo se inicia e tudo se perde no fim. O acontecimento tem seu apogeu. Os observadores mais atentos, os desavisados e dispersos, porém atentos, a todos que param um pouco para apenas sentir e deixar o tempo passar ou ficar parado no ato de pensar. Éttienne Gilson escreveu:

O pânico que parece se apoderar dos apologistas sempre preocupados em não perder o último navio, é algo que lhes é natural, mas não deixa de ser inútil. Não há último navio. Da popa daquele no qual você embarcar, você verá outros três ou quatro se preparando para partir.***

Ou seja, prefiro a reflexão inteligente do que ardor de uma crença, de uma outra ordem de religião. Isso se aprende ao longo dos tempos. Quantos Tempos existe quando vive em uma só vida? Depende, não da crença, a meu ver, da capacidade que se tem de encarar a realidade sem temer que a ordem das coisas não gerida pelo fervor de uma crença, mas por circunstâncias que envolvem essa vida.

No caso dos exegetas, daqueles que dedicam sua vida a interpretar, a eles meu profundo respeito, mas nem com todos me sentaria para conversar, ouvi-los. Porque se tem algo que me deixa numa profunda dislexia é o tom professoral, é querer dar aula no mais alto grau da tonalidade e expressão teatral de um professor. Isso me tira do sério, então, prefiro conversar com os livros. 

O Éttinne Gilson é meu companheiro por excelência. Com ele aprendi a ler melhor textos filosóficos, a ouvir e, principalmente, recusar verdades e tons pseudo educadores de alguns seres monocórdios. No final da última página de um Gilson, acredito cada vez menos na luz duradoura de uma Verdade única.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

** A Invenção da Solidão. Paul Auster. Companhia das Letras, 1999.
*** O Filósofo e a Teologia. Éttinne Gilson. Paulus, 2012.