terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Uma viagem literária*



Gozo d’alma.
Um profundo prazer,
Que chega a doer,
Ao ler cada linha
De bom e rico livro.
Quanta alegria,
Mesmo na angústia
Diante do texto real.
Sinto nas entranhas
A voz do autor,
No seu murmurar
Por vezes trágico.
Com ele choro e rio,
Aprendo e desaprendo.
Ele vive em cada palavra,
Fortalece em cada página.
Somos um, cúmplices,
Sem espaço, nem tempo,
Eternos na viagem literária.
Bem digo-o e o celebro.
Quem tem o hábito de ler
Sabe da magia de ser
Amante voraz dos livros.
Não há espaço para solidão.
Só falta espaço nas estantes
Para os viciados na literatura.
Haja tempo para tudo ler!

*Dra Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica. Livre Pensadora.
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Fragmentos Filosóficos Delirantes*


"A palavra do ser humano é o material mais durável. Quando um poeta encarna sua sensação mais fugaz com palavras adequadas, ela vive nestas por milênios e volta a despertar em todo leitor sensível"

"Todo e qualquer livro importante deve ser lido duas vezes seguidas; em parte porque as coisas são compreendidas com mais facilidade em seu contexto quando lidas pela segunda vez e porque só se entende de fato o início depois de se conhecer o fim; em parte porque, a cada trecho, a segunda leitura fornece um efeito e um estado de espírito diferentes dos que se sentem na primeira, fazendo com que a impressão resulte distinta; é como ver um objeto sob outra iluminação"

"Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: repetimos apenas seu processo mental. Ocorre algo semelhante a quando o estudante que está aprendendo a escrever refaz com a pena as linhas traçadas a lápis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar nos é subtraído em grande parte (...)"

"(...)Isso explica o sensível alívio que provamos quando deixamos de nos ocupar com nossos pensamentos para passar à leitura. Porém, enquanto lemos, nossa cabeça, na realidade, não passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se vão, o que resta ? Essa é a razão pela qual quem lê muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo - como alguém que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar"

"A vida real de um pensamento dura apenas até ele chegar ao limite das palavras (...)"

"Apenas uma mente excelente é capaz de oferecer algo digno de ser lido. Pois os demais se limitarão sempre a pensar o que qualquer outro pode pensar. Eles fornecem uma cópia do seu espírito, mas dela todos já possuem o original"

*Arthur Schopenhauer in "Sobre o ofício do escritor". Ed. Martins Fontes. SP. 2003. 

domingo, 20 de janeiro de 2019

Terapia é...*



Terapia é um espaço , com uma terra fértil, que ajuda a desabrochar as mais lindas flores. Ao desabrochar se descobre espinhos, folhas mortas e até galhos tortos. Detalhes que compõe uma flor única. Mas são apenas partes que constituem o todo da flor.

Terapia é significar, é resignificar, é dançar entre as linguagens que formam o mundo de cada um.

É descobrir para onde as tuas asas podem te levar, ou melhor ainda, é poder escolher para onde deseja que tuas asas te levem.

Terapia é contato com as suas verdades, é poder brincar com essas verdades e, quiçá, descobrir que o que existe é apenas um espaço infinito de possibilidades de verdades.

Terapia é descobrir que você faz parte de um todo, mas também é autônomo e tem as suas próprias escolhas.

Fazer terapia é escolher para si mesmo desprender-se das grades de uma prisão, é poder se colocar sem se defender das mesmas e de se mudar para um local no qual lhe traz felicidade existencial.

É escolher ser Feliz a ter razão!

*Letícia Porto Alegre
Psicóloga. Filósofa Clínica. Diretora do Monte Cilene.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o sentido depende do nível em que o leitor se coloca"

"Dionísio é um deus complexo, dialético; é ao mesmo tempo um deus infernal e da renovação; é o próprio deus desta contradição. É verdade que, ao se civilizarem, isto é, ao passarem à categoria de instituições civis, os gêneros dionisíacos (ditirambo, drama satírico, comédia) purificaram, simplificaram, apaziguaram o temperamento inquietante do deus: era uma questão de ênfase" 

"(...) o sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da cultura, do saber, da informação;/ analiticamente, tem algo de irrisório: porque leva ao infinito da linguagem, poderá parecer limitado à observação da razão analítica; pertence à classe dos trocadilhos, das pilhérias, das despesas inúteis; indiferente às categorias morais ou estéticas (o trivial, o fútil, o postiço, o pastiche), enquadra-se na categoria do carnaval (...)"

(...) dizer o contrário sem renunciar ao que se contradiz: Brecht teria amado esta dialética dramática (com dois termos)"

"O sentido obtuso é descontínuo, indiferente à história e ao sentido óbvio; esta dissociação tem um efeito de contra natureza ou, pelo menos, de distanciamento em relação ao referente (do real como natureza, instância realista)"

"O sentido obtuso é um significante sem significado; daí a dificuldade para nomeá-lo: minha leitura fica suspensa entre a imagem e sua descrição, entre a definição e a aproximação. Se não se pode descrever o sentido obtuso, é que, ao contrário do sentido óbvio, não copia nada: como descrever o que não representa nada ?" 

"Óbvio quer dizer: que vem à frente, e é exatamente o caso deste sentido, que vem ao meu encontro; em teologia, como nos ensinam, o sentido óbvio é aquele 'que se apresenta naturalmente ao espírito', (...) Quanto ao outro sentido, o terceiro, aquele que é 'demais', que se apresenta como um suplemento que minha intelecção não consegue absorver bem, simultaneamente teimoso e fugidio, proponho chamá-lo o sentido obtuso (...)"

"(...) não colaboram para que minha leitura resvale ? Um ângulo obtuso é maior do que um ângulo reto (...) também o terceiro sentido parece-me maior do que a perpendicular pura, reta, cortante, legal, da narrativa: parece-me que o terceiro sentido abre o campo do sentido totalmente, isto é, infinitamente (...)"

"Há em cada pessoa, uma pluralidade, uma coexistência de léxicos; o número e a identidade desses léxicos formam o idioleto de cada um"

*Roland Barthes in "O Óbvio e o obtuso". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1990. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Reflexões e Partilhas*



Juntos somos muito mais poderosos e mais poder ainda descobrimos quando escolhemos encantar em vez de tolher, cuidar em vez de ferir. Lembra? Nós sempre fomos incansáveis! Seguimos rastros deixados por outros maiores do que nós e o que encontramos foi poesia.

Perseguimos sonhos e também os nossos sonhos e o que encontramos foi poesia. Focamos em metas, em produtividade e nos lançamos na direção delas e tudo que encontramos de mais salutar foi poesia.
E quanto mais poesia, mais vivo nos sentíamos porque a vida é sempre mais plena na arte. Perdemos as contas de quantas razões nós tínhamos para sorrir juntos. E até nos momentos de aridez durante algumas fases das nossas jornadas na vida havia poesia e foi ela que matou a nossa sede e nos ajudou a compreender o que acontecia e por onde prosseguir para superar os desafios devidos.

Descobrimos juntos que a poesia estava sempre aqui e agora, em qualquer lugar e em todo lugar de dentro e de fora de nós porque ela mesmo sem querer transbordava e avançava até tocar alguém com a sua mãe sutil e poderosa. E doa a quem doer ou comova a quem comover, mas ser poeta talvez não seja uma escolha, pois cada vez mais foi nos parecendo uma condição da qual era impossível discernir onde se começava ou onde se encerrava o que cada um de nós éramos.

Entretanto, a sua envergadura era muito maior e mesmo admirando-a e respeitando-a eu só pude entender com clareza o que acontecia quando finalmente aprendi que assim como as flores, o feminino presente desde o infinito da sua alma até toda a extensão do seu corpo exalava a grandeza e o poder não só de ser mulher mas também, de poder ser o que você quisesse ser.

Você foi um presente maravilhoso e sempre será presente principalmente nas minhas melhores memórias e na minha gratidão. O que você me causou e a sua poesia que me contagiou e me contagia cada vez mais dá sinais de que essa dádiva nunca cessará nem no físico nem no metafisico.

Confesso que era engraçado, prazeroso e curioso quando tentávamos em alguns momentos calcular a quantidade de poesia presente na escuta sempre atenta e carinhosa, nos nossos diálogos, nos seus sorrisos, nos abraços demorados, no seu olhar profundo demais e sempre cheio de manchas verdes vindas lá das suas retinas e nos beijos inevitáveis que tentávamos por vezes matematizar. Mas sempre percebíamos juntos que pelo simples fato da poesia transbordar, ela era como o fenômeno da descoberta de que o universo está sempre em expansão. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Escritor. Educador. Filósofo Clínico.
Uberlândia/MG