domingo, 24 de setembro de 2017

Sou*


Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

*Jorge Luis Borges

sábado, 23 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz"

"(...) o rosto que o espelho reflete é igualmente aquele que o contempla"

"A identidade das coisas, o fato de que possam assemelhar-se a outras e aproximar-se delas, sem contudo se dissiparem, preservando sua singularidade, é o contrabalançar constante da simpatia e da antipatia (...)"

"A linguagem não é um sistema arbitrário; está depositada no mundo e dele faz parte porque, ao mesmo tempo, as próprias coisas escondem e manifestam seu enigma como uma linguagem e porque as palavras se propõem aos homens como coisas a decifrar"

"(...) se a língua é uma ciência espontânea, obscura a si mesma e inábil - em contrapartida é aperfeiçoada pelos conhecimentos que não se podem depositar em suas palavras sem nelas deixar seu vestígio e como que o lugar vazio de seu conteúdo"

"O que erige a palavra como palavra e a ergue acima dos gritos e dos ruídos é a proposição nela oculta"

"As coisas e as palavras estão muito rigorosamente entrecruzadas: a natureza só se dá através do crivo das denominações e ela que, sem tais nomes, permaneceria muda e invisível, cintila ao longe, por trás dele, continuamente presente para além desse quadriculado que, no entanto, a oferece ao saber e só a torna visível quando inteiramente atravessada pela linguagem"

"(...) Começa-se a falar sobre coisas que têm lugar num espaço diverso do das palavras"

"O homem é um modo de ser tal que nele se funda esta dimensão sempre aberta, jamais delimitada de uma vez por todas, mas indefinidamente percorrida, que vai, de uma parte dele mesmo que ele não reflete num cogito, ao ato de pensamento pelo qual a capta (...)"

*Michel Foucault in "As palavras e as coisas". Ed. Martins Fontes. SP. 2002.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Dançar e Punir*


“E assim, à medida que o sol se punha, uma visão foi se impondo aos meus olhos.”
Antonin Artaud

Nas redes sociais as pessoas que gostam de legitimar a cultura do óbvio, da constatação, da quantidade, essas, emburreceram de vez. Jogam suas frustrações na falta de tempo para compreender a vida, naquilo que ela possa nos apresentar de novo, de desconhecido.

A vida é o tempo de todas as coisas, o mais simples é o extremo, destruidor ou construtivo: arrasar ou adorar. É mais fácil primeiro adorar, depois, em outro sentido, destruir o pensamento contrário; sem se dar conta, pode-se estar cavando o próprio erro: o fim é o limite para o pensamento duro.

O que vem a ser o pensamento duro, bruto? É o pensar dentro da construção cultural dual, em que existem os polos do bem e do mal. Essa religiosidade racional é parte da vida, é claro, não serei eu a refutar todas as manifestações pelo simples fato de pensar diferente.

Eis a reflexão dos frágeis, pensar, refletir, o contraponto do monismo deste tempo irredutivelmente evaporizado no digital DNA das fraquezas brutais dos homens; está faltando Alteridade.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


(...)

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A lua e os sonhos*


Tremendo. Frio nos ossos.
Entardecer róseo na alma.
Fresta entre os dois mundos.
O que está para além do horizonte?
Vastidão do infinito.
O que sempre foi e será.
Mundo das possibilidades.
Colcha de cristais e fios de seda.
Olimpo inteiro.
Planetas e Deuses.
Naves espaciais e anjos.
Realidades paralelas.
Tremendo. Fogueira acesa.
Ventos limpando arestas.
Bacantes dançando à Dioniso.
Lua nova plantando sonhos.
Prenúncio de flores...
Desejos renascendo do coração.
Saturno despede da retrogradação.
Todos respiram aliviados.
Por enquanto, na casa do Centauro,
Ele planeja uma faxina mais leve.
A noite chega com céu estrelado
O frio continua intenso.
A fogueira esquenta a alma.
E a lua nova traz fio de esperança.
Para quem sabe e compreendeu!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica. Livre Pensadora.
Juiz de Fora/JF

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Devo frisar que, desde sempre, o ato de pensamento esteve voltado para os que se fazem perguntas, e não para os que já têm as respostas"

"O sentido para a pessoa é fornecido pela pluralidade das máscaras que a constituem, e pelo contexto no qual suas diversas máscaras poderão expressar-se"

"O próprio do sonho é efetivamente escapar a uma lógica de controle de si mesmo"

"As máscaras pós-modernas estão sob influência. Influência de coisas, de problemas ancestrais. Traduzem a força impessoal que, de forma subterrânea, vem de muito longe, e às vezes se exprime à luz do dia"

"Nascer com o mundo sem passar pelas palavras, eis efetivamente o que parece estar em jogo em todas as práticas tribais e em seus excessos"

"No caso, a adesão aos totens coletivos parece-me traduzir um (re)conhecimento de si como resultado de um devir. Todos estamos na estrada. A realidade é estruturalmente impermanente"

"O gênio enraizado (no sentido forte) no mundo contém em si todos os tipos humanos, o louco, o santo, o criminoso, a mamãe e a puta, sem esquecer o tipo sem qualidades que constitui o homem de todos os dias"

"Não existe, então, verdade objetiva. Só importam verdades momentâneas, factuais, ligadas às situações existenciais, tributárias das comunidades ou tribos de que todos participam"

"(...) a conexão social é feita mais de 'afinidades eletivas' que de contratos racionais. Ter ou não o 'feeling' será o critério essencial para julgar a qualidade de uma relação. E é nesse aspecto no mínimo evanescente que repousará sua durabilidade"

*Michel Maffesoli in "O ritmo da vida - Variações sobre o imaginário pós-moderno". Ed. Record. RJ. 2007.