quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Retrato*


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

*Cecília Meireles

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A palavra mundo*


As palavras sempre fluem de sensações que nos acometem a todo instante. As vezes me parece um fluxo contínuo e irreparável. E é com esses substratos simbólicos, fonéticos e tão distintos que compomos os nossos discursos; é com isso que produzimos conhecimento e ainda, é com isso, que podemos tanto tocar todos aqueles capazes de nos perceber.

Os fenômenos que o sentir nos provoca ou nos convoca faz de nós instrumentos capazes de tocar e ser tocados pelo menos até nos comover para nos converter em pontes hábeis a dirimir distâncias ou, ainda, mesmo sem querer, nos tornar naus que assumem a vocação de navegar cada vez mais nesse oceano todinho feito de infinitos e que se chama amor.

Talvez por isso e muito mais, seja cada vez mais evidente que as palavras tem poder porque elas causam ações que afetam a sua realidade e isso, define ou redefine as direções. As palavras podem até mesmo manchar de verde as suas próprias retinas outrora opacas.

As palavras ora em sobressaltos ora como brisa de um verão inesquecível, segue abrindo caminhos e descaminhos na direção do seu coração e de outro mundo possível.

E é assim, supostamente, que vamos imprimindo a nossa história que sempre se converte em obras a quatro mãos. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Eugenio Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Uberlândia/MG

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça"

"Hladik preconizava o verso porque ele impede que os espectadores se esqueçam da irrealidade, que é a condição da arte"

"Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos"

"(...) Depois refleti que todas as coisas sempre acontecem precisamente a alguém, precisamente agora. Séculos de séculos e só no presente ocorrem os fatos"

"(...) Conheci o que os gregos ignoram: a incerteza"

"(...) Depois de nove ou dez noites compreendeu com alguma amargura que nada podia esperar daqueles alunos que aceitavam com passividade sua doutrina, e sim daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável"

"A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Esta geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam"

*Jorge Luis Borges in "Ficções". Ed. Cia das Letras. SP. 2007.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Poética*


"Poesia: procura de um agora e de um aqui.”
                          Octavio Paz

A poesia é o rastro da vida. O rastro de uma explosão no universo que estilhaça em milhões de objetos, imagens, que nem todas as línguas conseguem dar conta. Mas o fato de o signo estar colado no que existe, da nuvem de linguagens, certamente é o que consegue ver além do olhar preso na realidade.

Caminhos que perdemos pode ser um leve encontro poético mediado por signos e objetos. Quem um dia atravessou, quem passou por estradas, ruas, águas e o mais distante nas alturas, pensou na construção de suas emoções? Nem tudo é poesia na vida, mas a poética está em todos os lugares.

O fato de existir narrativas sobre todas as coisas não significa que daí há poesia, mas a poesia está nela, na narrativa que diante da linguagem se faz o poético mais oculto ou mais límpido aos olhos. 

Temos depois o processo da leitura da vida: o entendimento da vida nem sempre é poético mas a beleza da forma deixa o conteúdo mais para a poesia do que para a realidade. A realidade não tem obrigação de estar dentro do poético, mas toda poesia está nas entranhas da vida.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 14 de janeiro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"De fato, todo filme parece dizer que não há diferença , que a vida imaginária é tão real quanto a outra, e que a vida que tomamos por real pode a qualquer momento se tornar inverossímil, absurda, anormal, perversa, levada a extremos por nossos desejos ocultos"

"O indefinível era melhor do que o específico, ainda que exótico, Buñuel, além disso, sonhava em introduzir sorrateiramente algumas informações falsas em todos os seus filmes, como que para minar e desviar ligeiramente o rumo da história e da geografia; a verdade fiel o aborrecia tanto quanto um espartilho apertado"

"O fenômeno da identificação - a joia do cinema, a transferência mágica, a passagem secreta de um coração a outro - provavelmente está além da explicação racional. Ele mexe em demasia com parâmetros parcamente conhecidos"

"Também sabemos que de início praticamente todas as obras-primas foram rejeitadas e vilipendiadas. É quase uma regra. Toda obra realmente forte tem que incomodar. Na verdade, isso é um sinal da sua força"

"Todo o nosso século, ainda que obstinadamente concreto, parece secretamente obcecado com a criação de múltiplas materializações do invisível"

"Apesar do aparente paradoxo, parece correto, porque um verdadeiro autor nunca sabe exatamente o que quis dizer. Mal sabe o que disse. Ele é o que Victor Hugo chamou de 'a boca das trevas'. As palavras são transmitidas através dele, com frequência bastante fora de seu controle. Ela vêm de regiões obscuras; quanto mais rico e profundo for o gênio do autor, mais vastas serão estas regiões. Ele as partilha com outros e até, no caso dos maiores escritores, com toda a espécie humana, porque se torna uma das vozes da humanidade"

*Jean-Claude Carrière in "A linguagem secreta do cinema". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1994. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Supermercado sentimental*


Este é um ensaio de ficção autobiográfica da série “Aconteceu com um amigo”. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos é fruto do inconsciente ou provavelmente aconteceu num mundo virtual. Se você conseguir imaginar e entrar na história, então já será realidade.

Bom dia,

Faço parte de um grupo de homens que cada vez mais cresce no mercado: separado, cinquentão, estabilizado financeiramente, à procura de uma mulher mais jovem, bonita, madura intelectualmente, companheira e independente.

Dizem que tenho “dedo podre” e só encontro mulheres problemáticas, mas a verdade é que só colocam nas prateleiras carne com papelão, leite com farinha, verdura com agrotóxico. Assim fica difícil encontrar algo de bom nas gôndolas.

O que me fascina em uma mulher é o que ela tem entre as duas orelhas. Inteligência emocional, sensibilidade, afetividade, maturidade, cultura, ética, charme, humildade, bom humor. O que encontro nas ofertas do supermercado costuma ser maquiagem, botox, alisamento, tatuagem, silicone, carência, trauma, arrogância. Nos aplicativos da Internet, o que mais chama atenção são os perfis perfeitos, quase todos falsificados ou com prazo de validade vencido. Acabo não comprando nada.

Claro que nesta busca, por vezes estou esfomeado e devoro um big mac, um chocolate qualquer numa embalagem bonita ou uma banana split bem gostosa, mas sou consciente que estou praticando uma extravagância apenas naquele dia, depois retorno com minha dieta.

Sei também que não preciso me contentar com o que sobrou no fundo da prateleira ou ofertas de ocasião. Existem mulheres fascinantes com buscas semelhantes a minha. O problema é encontrá-las e, passo seguinte, aproximar-se. Antigamente os príncipes surgiam montados em cavalos brancos ou sentados em porsches vermelhos. Hoje podem chegar virtualmente através de mensagens eletrônicas. O risco é o mesmo, por trás de um cavalo, um carro, um belo texto ou uma embalagem bonita, pode existir um sapo ou um(a) tremendo(a) idiota.

Como saber? Pesquisa, referências, experimentação, indicação. Só que chega uma hora em que as pessoas cansam desta busca  e acabam por levar qualquer coisa mesmo. É o que tenho visto em muitos relacionamentos: se todos namorassem por estar apaixonado e não por carência, o número de solteiros quadruplicaria.

Um dia meu terapeuta pegou o mapa do mundo e perguntou se eu procurava uma mulher bonita. Ao responder afirmativamente, recortou o mapa pela metade. Na seqüência, quis saber se precisava ser independente e, antes da minha resposta, já foi rasgando novamente o mapa. Quanto mais exigências eu fazia, menor ficava o papel, até que já não era mais possível segurar com as mãos. Com este exercício, pretendia mostrar que a mulher desejada existia, mas teria que procurá-la talvez a vida inteira, sem garantia de sucesso. E se por acaso a encontrasse, deveria torcer para rolar uma boa química.

A partir deste exercício, procurei diminuir minhas expectativas. Tentei abrir mão da maturidade, algumas cenas de ciúme logo contrariaram minha proposta.  Abdiquei da cultura, mas confundir Kant com cantor de rock foi demais. Quando confiei por inteiro, fui traído. Sejamos sinceros, não dá pra se contentar com um(a) parceiro(a) só porque é hétero, independente e disponível. É muito pouco. Se for bonito(a), charmoso(a) e bem humorado(a), já melhora, mas ainda falta muito. Para alguns, a lista é infinita, para outros, é mínima. 

Será que devo me conformar com o mediano, ficar na zona de conforto e desperdiçar uma existência fingindo que o coaxo é o canto do cisne? Preciso nivelar por baixo? Estou errado em idealizar a busca de minha alma gêmea? Dizem que sou exigente demais, procuro defeitos, desprezo as oportunidades e vivo fora da realidade.

Antes só, que mal acompanhado. Nem é questão de estar mal acompanhado, o problema é a sintonia. Se não for pra acrescentar, pra estar em sintonia fina, vibrando na mesma freqüência com a companheira, prefiro um livro, um filme, um tinto, um amigo. Mas a busca continua. Se atualmente os homens se encontram em vantagem numérica, as mulheres têm a vantagem de ser especialistas em pesquisas de mercado. E mais, o sexto sentido feminino é um radar muito poderoso, mas precisa estar ligado, revisado e atualizado, porque nestas pesquisas corre-se o risco de deixar para trás um ingrediente que nem foi citado, mas pode ser fatal: o amor.

Apaixonei-me por cinco mulheres ao longo da vida. Casei com duas. Amei três. Apaixonar, amar e casar são situações que se relacionam, mas sobrevivem independentemente. Quando juntas, formam um trio imbatível. Quero as três. Coladinhas. Nada menos que isso.

PS – Desculpa a brincadeira com a maquiagem, botox, alisamento e inteligência das mulheres. Foi uma figura de linguagem. Você é uma das tantas mulheres que desconstroem esta metáfora.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS