segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Fragmentos filosóficos, literários e algo mais¨*


"(...) aquela compreensão do ser humano que nos possibilita reconhecer outra pessoa pelo tom da voz, pela maneira de segurar um objeto, até pelo timbre do seu silêncio ou a postura com que se coloca num determinado espaço; em suma, por toda essa maneira quase imperceptível mas peculiar de alguém existir"

"O hábito de ler livros em que nenhuma palavra podia ser tirada de seu lugar sem alterar o significado oculto do texto, a avaliação prudente e atenta de cada frase em busca de seu sentido e até de seu duplo sentido, deram a seus olhos essa expressão particular"

"(...) O que será isso? Sinto-o muitas vezes. Esse silêncio repentino como uma linguagem inaudível"

"(...) Mais tarde seguiremos nossos próprios caminhos e nos tornaremos aquilo a que temos direito, pois não existe só uma sociedade"

"E quando um ser humano se perdeu a si mesmo, renunciou a si, perdeu também aquela coisa especial, singular, para a qual a Natureza o criou como ser humano"

"(...) essas palavras, estendidas eternamente por milhares de sinuosidades como uma estrada sem fim e sem objetivo, pareciam de repente ter parado diante de objetivos palpáveis"

"(...) Momentos inesquecíveis, situações em que a vida perde sua lógica normal"

"Era a falha das palavras que o torturava, a vaga consciência de que as palavras eram apenas subterfúgios transitórios para as coisas realmente experimentadas"

*Robert Musil in "O jovem Torless". Tradução: Lya Luft. Ed. RBS-Publicações. Porto Alegre/RS. 

domingo, 10 de novembro de 2019

A escuta e o mundo*



As vezes contamos histórias para esquece-las enquanto quem ouve se comove e as leva consigo para partilha-las noutros lugares. Os desabafos podem nos deixar mais leves ao mesmo tempo em que complementa lacunas de quem já aprendeu a ouvir.

A escuta pode libertar ao ponto de aprendermos a desapegar do que passou, deixando partir em paz o que não faz mais sentido. Pois, só é dolorosa qualquer partida quando ainda não se compreendeu que nada é para sempre, sobretudo, quando se trata do efêmero. Ou seja, se podemos tocar, lembrar ou sentir significa que é finito e que durará somente o suficiente para ecoar e seguir adiante se transformando.

Por isso, as histórias sempre serão tão importantes seja para quem as esqueceu seja para quem as recebeu para aprender mais uma nova forma de enxergar o seu mundo ou de lidar com as próprias emoções. Enfim, as vezes a palavra é o nosso melhor remédio, outras vezes é o único. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico.
Uberlândia/MG

sábado, 9 de novembro de 2019

Fragmentos de filosofia, poesia e algo mais*



O Roteiro***

Não plantei trigo nem rosas:
Plantei mudas de baladas
Pelas tardes cor-de-rosa,
Por marinhas madrugadas.

Pesquei peixes coloridos
Dos olhos do meu amor.
E andei de tartaruga
Pelas margens do sol-pôr.

Esqueci dos meus chinelos
Num tapete de veludo.
E pus um gato angorá
Em cima do sobretudo.

Fiz um avião supersônico
Com a manchete do jornal.
E o vento levou a morte
Para longe do meu quintal...

Fiz tudo que foi possível
Do tempo que me foi dado.
Deixei a vida macia,
Tornei meu dia encantado."

*Luiz Guilherme do Prado Veppo
Médico. Escritor. Poeta. Professor de Literatura.
Santa Maria/RS (1932-1999)

**Compilado da obra: "Prado Veppo - Obra Completa" Ed. UFSM

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O primeiro passo para compreender a Filosofia Clínica*



O título ideal para um texto desse tipo sobre filosofia clínica, deveria ser Abordagem do que não é possível ser abordado: guia para um texto que não deveria ser escrito. Controverso, não? Mas, nas linhas seguintes, explicitaremos o porquê que um título assim seria justificável. 

Para esclarecer nossa proposta, vamos nos remeter a Sócrates (469 a.C. – 399 a. C.) um ateniense que mudou o foco da filosofia Ocidental. Longe de nos determos em longas linhas acerca da história da filosofia, abordaremos apenas alguns traços desse pensador para servir ao fio condutor de nossa reflexão.

Antes de Sócrates, havia pensadores denominados filósofos da natureza, ou seja, suas reflexões estavam voltadas para o todo, o cosmos, a ordem, a origem de tudo o que é. Depois desses pensadores, surge Sócrates inaugurando o pensamento mais antropológico. Ele não escreveu nada, tudo o que sabemos dele foi escrito por seus seguidores, como Platão, ou por opositores, como Aristófanes.

Platão nos mostra que seu mestre andava pelas ruas de Atenas questionando as certezas de seus interlocutores. Em todos os diálogos, essas certezas eram desconstruídas. Mas, Sócrates não dava respostas após tirar seu interlocutor da segurança de suas convicções, e ainda se autodeclarava ignorante com a célebre frase “Sei que nada sei”.

Trata-se, no caso de Sócrates, de um recurso irônico, mas para a filosofia clínica, um princípio metodológico. Chegamos, em parte, ao porquê de nossa afirmação quanto ao título. Se metodologicamente o filósofo clínico não sabe nada, como abordar temas da clínica filosófica quando nada se deve saber acerca, nesse caso, do partilhante?

Trata-se de uma questão cuja resposta não e possível de ser dada em apenas um pequeno texto como este. Mas, para melhor compreendê-la, podemos apontar uma primeira questão a fim de explicitar um principio básico da clínica filosófica. O que é necessário dizer é que o princípio básico para o qual afirmar que nada se sabe é referido à questão da singularidade como referencial básico dessa abordagem terapêutica.

Agora precisamos nos remeter a outro pensador, chamado David Hume (1711-1776) que em seu ceticismo filosófico nos ensina que aprendemos durante nossa experiência de vida a dotar a explicação das coisas com relações causais. Por exemplo, se vimos várias vezes que pela manhã o sol nasce, concluímos que o sol nasce todas as manhãs. Mas, essa aferição, nos diz Hume, é apenas em nossa experiência e nada diz que de fato acontecerá. E o que tem a ver essa, “quase absurda”, afirmação humeana com a filosofia clínica?

Podemos tomar desse ceticismo metodológico que não é o fato de diversas pessoas que apresentam determinados sintomas, terem tidos causas em comum, que todas as pessoas que apresentam os mesmos sintomas terão essa mesma causa comum. Ou seja, quando algum partilhante aparecer no consultório com sintomas característicos ou até “idênticos” aos que o terapeuta já acompanhou, nada indicará que as causas são as mesmas, portanto, o modo como se lidará com esses problemas, também não o será.

Assim, como escrever alguma coisa quando, na verdade, todos os casos clínicos serão absolutamente únicos, irrepetíveis e redundantemente, singulares? Aí está a questão. O que a filosofia clínica nos proporciona são “ferramentas” metodológicas a fim de que possamos recepcionar melhor o que o partilhante nos trás.

Uma vez que o “não saber” é a base metodológica da filosofia clínica, precisamos “saber” ser receptivos ao que esse mesmo partilhante nos trás como sua história de vida, problemas, questões, etc., para que caminhos possíveis, em vista do bem-estar existencial, sejam viabilizados a partir do partilhante e sua interseção com o terapeuta, numa construção compartilhada de sentido e entendimento.

Então, qual seria o primeiro passo para compreender a filosofia clínica? Ouvir!

Ouvir o que ela tem a dizer para que possamos ouvir a nós mesmos – pois o primeiro a ser beneficiado com o conteúdo dessa abordagem, somos nós mesmos ao aprendê-la –, as pessoas com as quais convivemos, uma vez que ao sermos afetados por esse aprendizado, o trazemos para nossa prática de vida e, por fim, o partilhante, que abrirá as portas de seu ser para que possamos, de alguma forma, ajudá-lo – seja qual for o significado do conceito de ajuda que a singularidade do partilhante propicie ao terapeuta viabilizar.

 *Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo  
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico.
Teresópolis/RJ

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Fragmentos Filosóficos, Poéticos, Criativos*


"De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário. E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns; não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário"

"(...) viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci"

"Eu me sei assim como a larva se transmuta em crisálida: esta é minha vida entre vegetal e animal"

"(...) Lóri quis transmitir isso para Ulisses mas não tinha o dom da palavra e não podia explicar o que sentia ou o que pensava, além de que pensava quase sem palavras"

"Os humanos tinham obstáculos que não dificultavam a vida dos animais, como raciocínio, lógica, compreensão. Enquanto que os animais tinham esplendidez daquilo que é direto e se dirige direto"

"(...) a mentira em que se havia acomodado acabava de ser levemente locomotiva do lugar onde se acomodara. No entanto já lera biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida, pelo menos de vida interior"

"Às vezes no próprio coração da palavra se reconhece o Silêncio"

*Clarice Lispector in "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres". Ed. Rocco. RJ. 1998.