terça-feira, 23 de maio de 2017

O abraço e a felicidade*










Pode ser, claro que sim
Você me leu confuso
Neste seu jeito de me ler.
Seus olhos nublados
Me viram no côncavo
Ou no convexo me viram.

E me leram invertido.

Pode ser, claro que sim
Este seu medo tremido
De um grande amor.
Pode ser este seu riso
Que me fez de casa
E feliz por um dia.
Pode ser este desespero
Caindo no copo vazio
De uma saudade.
Pode ser este seu cheiro
De fruta madura
Dos dias finais de outono.
Pode ser a pele infantil
De uma neblina suave
Pedindo um abraço.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*









"A terra é um paraíso, o único que jamais conheceremos. Temos de entender isso no momento em que abrimos os olhos. Não precisamos fazer dela um paraíso - ela é um paraíso. Só temos de nos capacitar para habitar nele"

"O sonhador cujos sonhos não sejam utilitários não tem lugar neste mundo. Quem quer que não se preste a ser comprado e vendido, seja no campo das coisas, das ideias, dos princípios, sonhos ou esperanças, acaba excluído. Neste mundo, o poeta é anátema, o pensador, um tolo, o artista é um escapista, o homem de visão, um criminoso"

"(...) Sabem coisas com que o cidadão mediano nem sonha. Poderiam nos contar mil jeitos melhores de lidar com a situação do que os que costumamos usar agora" 

"Em certos indivíduos, o fato de estarem isolados do mundo tende a produzir um florescimento forçado; eles irradiam força e magnetismo, sua fala é cintilante e estimulante. Têm uma vida sossegada e rica, toda própria, em harmonia com seu meio ambiente e livre das mesquinhas ambições e rivalidades do homem do mundo. (...) a maior parte deles possui talentos e energias insuspeitadas pelo invasor curioso"

"Mas existe uma classe de homens resistentes, antiquados o suficiente para se terem mantido asperamente individuais, abertamente desdenhosos da moda, apaixonadamente dedicados a seu trabalho, imunes ao suborno e à sedução, que trabalham longas horas, muitas vezes sem recompensa ou fama, que são motivados por um impulso comum: a alegria de fazer o que bem entendem. El algum momento ao longo do trajeto eles se destacaram dos outros. Os homens de que estou falando são identificáveis a um mero olhar: seu rosto registra algo muito mais vital, muito mais eficiente, do que a sede de poder. Eles não procuram dominar, mas realizar-se. Operam a partir de um centro que está em repouso. Evoluem, crescem, alimentam só por serem o que são"

"Então veremos se capacidade de fazer dinheiro e capacidade de sobreviver são a mesma coisa. Então veremos o sentido da verdadeira riqueza"

"A palavra significa para o paciente a mesma coisa que a linha e a forma para o pintor. É quase incrível como uma mera palavra, um ponto ou uma linha podem moldar e influenciar a vida de um indivíduo"

"Não são os oceanos que nos isolam do mundo - é o jeito americano de olhar as coisas. Nada se realiza aqui a não ser projetos utilitários"

*Henry Miller in "Pesadelo refrigerado". Ed. Francis. SP. 2006.

domingo, 21 de maio de 2017

Cabelos de Baudelaire*











Certas cores, cabelos que esvoaçam no tempo,
mistura cheiros e sons, açafrão no tilintar do outono,
Tinta que borda a pele, marca a alma, o frio se aproxima.

Ilumina partes do corpo, o tom certo, é como a luz,
Atravessa fendas, melodias espalham, clarão que dança,
Como melodia na luz assombradas de pensamento. 

Dedico meu tempo a teus cabelos, a poética imortal,
Mesmo que não crês no Nada, a cabeleira brilha,
O tempo não apaga os versos, o tempo esquece o presente.

Como o barco de Debussy, eleva a dor diante da música,
Em perdidas matemática antes do sol do meio-dia,
Fios voam mar dentro de luz, fonte da vida, os cabelos em direção à margem,
Morre no horizonte o que oculta. 

*Prof. Dr.Luis Antonio Paim Gomes 
Filósofo. Editor. Livre Pensador
Porto Alegre/RS

sábado, 20 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*













"O que, portanto, deve manter-se impronunciado resguarda-se no não dito, abriga-se no velado como o que não se deixa mostrar, é mistério"

"Uma compreensão de mundo assim orientada pode surgir de diferentes fontes porque a força expressiva do espírito é ativa de muitas maneiras"

"Apreendida em sua verdadeira essência, a linguagem é algo consistente e, a cada instante, transitória. Mesmo a sua preservação na escrita é sempre uma preservação incompleta, mumificada, mas necessária quando se busca tornar perceptível a vida de seu pronunciamento"

"A linguagem é, na verdade, o eterno trabalho do espírito de tornar a articulação sonora capaz de exprimir o pensamento. Rigorosa e imediatamente, esta é a definição da fala em cada situação; sem sentido verdadeiro e essencial, apenas a totalidade dessa fala pode ser considerada como linguagem"

"(...) o poder suave da simplicidade de um saber escutar"

"(..) Do dizer e de sua saga em que se oferece o mundo como um deixar aparecer"

"É que o dicionário não é capaz de apreender e abrigar a palavra pela qual as palavras vêm à palavra"

"(...) uma coisa, chamada palavra, confere ser a uma outra coisa"

"(...) a linguagem é a casa do ser"

"É indispensável perdermos o hábito de só ouvir o que já compreendemos"

"A linguagem da poesia é essencialmente polissêmica e isso de um jeito muito próprio. Não conseguiremos escutar nada sobre a saga do dizer poético enquanto formos ao seu encontro guiados pela busca surda de um sentido unívoco"

*Martin Heidegger in "A caminho da linguagem". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 2004.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Um sentido pra viver*










A névoa deste amanhecer

Não calou o canto do passarinho
Nem escondeu os primeiros raios do sol
Há no ar um desassossego coletivo
Na dúvida em que acreditar
Há, porém, um fio de esperança 
Se não, não teria sentido o viver
Tudo passa... no vir a ser eterno
E as flores brotam e o riacho desenha os caminhos até o mar

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica.
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*













"Criticar é rasgar novos horizontes de compreensão. Uma crítica enclausurada será fatalmente uma crítica cega, provinciana ou parasitária. O seu entendimento superlativo pressupõe a consciência da sua interdisciplinaridade"

"Cada discurso traz consigo a sua lei e o seu horizonte"

"A arte é dimensão fundadora do homem. Restará sempre, para além da morte do poema, a dimensão poética da existência"

"E em toda operação metodológica há muito mais do que uma operação metodológica. Enganam-se aqueles que, confundindo o método com uma simples técnica mecanizada, não são capazes de perceber na presença condicionada do seu contorno, todo um jogo matizado de representações que com ele estabelece um diálogo criador"

"A hermenêutica empreende o percurso inverso da modelização: vive da sua capacidade de abrir-se"

"(...) a própria ciência perdeu a tradicional univocidade, passando a estruturar-se por níveis polissemicamente"

"A ambiguidade ganha corpo quando a sobrecarga impulsiva da linguagem transborda os limites da língua"

"É que o real se realiza numa variedade de níveis e graus de mostrar-se. Há inclusive a possibilidade de o real se mostrar como uma coisa que, em si mesmo, ele não é"

"A linguagem sempre pode mais, porque o homem transcende o seu discurso"

"O poeta é poeta a partir da fala impossível, do silêncio, e o silêncio é o máximo de concentração da voz"

*Eduardo Portella in "Fundamento da investigação literária". Ed. Tempo brasileiro. RJ. 1974.