terça-feira, 19 de junho de 2018

As palavras iniciais*



As expressões preliminares possuem um teor de anúncio de incertezas. Sua linguagem cifrada, em um discurso incomum, abre espaço, compartilha desafogo, reapresenta as formas do indizível. De antemão, tem-se um imenso nada a se mostrar na crise desconstrutiva pessoal.

Essas palavras desarticuladas realçam um caos subjetivo em ação. Nesses conteúdos de rascunho, já se pode vislumbrar endereços existenciais, descrever a novidade chegando. Por esse começo é possível investigar o mundo das vontades, das representações. Nos ditos de assunto imediato, nem sempre confirmados no discurso posterior, os relatos oscilam em busca de legitimidade. A partir desse acolhimento, pode-se qualificar a relação clínica, regular o ângulo da visão, ajustar a lógica desse encontro singular.

O teor de con-fusão entre o passado e o agora passando, além de traduzir um viés im-paciente, proporciona atenção a esse sujeito em estado nascente. Após essa antítese com as anterioridades, existe um lugar para restabelecer novos pontos de equilíbrio. Nesse instante de des-ordem, onde uma esteticidade desconstrutiva se apresenta, a pessoa deveria ter o direito de realizar ensaios existenciais com segurança, cuidado especializado.

Em uma libre associação discursiva assim descrita, a categoria tempo costuma ser aliada das ressignificações. Com ela é possível vislumbrar as intencionalidades e desdobramentos da manifestação primeira. Seu incômodo com a paz dos cemitérios sugere uma vida transbordando ao antever horizontes. Conteúdos clandestinos insinuam-se nas entrelinhas das primeiras menções.

Essas considerações de abertura, muitas vezes irreconhecíveis à primeira vista, possuem a força e o significado do instante. Seu desconcerto busca redesenhar uma arquitetura subjetiva que desponta. Suas divagações e desencontro de ideias, falsetes, rascunham impropriedades a quem vai ficando pelo caminho. Esses conteúdos restariam indescritíveis, classificados nalguma forma de loucura, não fosse a tradução do olhar diferenciado, a partir da compreensão dessa expressividade singular.

Nessa antevéspera de novidades, o papel existencial do Filósofo Clínico aprecia ser um cúmplice a sustentar travessias. Seus termos sugerem apontamentos para reinvenção existencial. Sua estética de manifestação absurda reivindica um chão às promessas de libertação. A palavra inicial segue inconclusa.

*Hélio Strassburger in “A palavra fora de si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem”. Ed. Multifoco. Rio de Janeiro. 2017.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O que a filosofia tem a ver com o amor?*



Provavelmente você já ouviu falar que o termo filosofia pode ser explicado etimologicamente como a junção de dois termos: philos (amor, amizade etc.) e sophia (saber, sabedoria, conhecimento). Então, filosofia nada mais é do que o amor à sabedoria.

Também é possível que você saiba que, conforme atestam os manuais de filosofia, se atribui a Pitágoras a célebre história de que ao chamá-lo de sábio, o pensador — que também deu o nome ao teorema cuja criação lhe é atribuída — disse que a sabedoria é própria dos deuses e que ele era apenas um amante do saber, isto é, um filósofo.

Mas, ainda ficou a ser dito que a noção de filosofia remete a um pensamento que não estava presente somente em Pitágoras e, muito menos, na explicação etimológica da palavra. O sentido do amor, para o grego, é algo que constituirá seu modo de pensar. Compliquei muito? Tentarei explicar. (OBS: Espere uma exposição simplificada e não um artigo acadêmico).

Para explicar, recorro a dois pilares da filosofia ocidental: Platão e Aristóteles. Quando eles constroem seus respectivos edifícios filosóficos, colocam no cume (ou na base), a noção de algo absoluto. Para Platão, a perfeição está no Bem, já para Aristóteles, está no Ato puro.

Em ambos, o fundamento da realidade é algo divino. Mas não tem a ver com o Deus cristão. No caso de Aristóteles, o deus como Motor Imóvel, sequer se volta para o ser humano, que é imperfeito. Há, ao contrário, a busca humana dessa perfeição, de pensar deus como aquele que não tem necessidade, a quem nada falta. E o que essas ideias têm a ver com o amor?

O amor, seja como philia, que deu origem à palavra filosofia, seja como eros, que originou nosso termo erótico, remete ao desejo de algo que não temos total acesso. É um desejo daquilo que falta. Em outras palavras, é o desejo do saber que move o filósofo. O mesmo saber que seu amante jamais possuirá em sua totalidade.

No caso do amor humano, Platão chegou a dizer que é a incompletude do ser humano que o faz buscar seu complemento no outro. No caso da busca filosófica, a sabedoria é a perfeição que será procurada, mas jamais adquirida totalmente.

Voltando um pouco na questão da noção de Deus dos gregos, vale salientar que eles não tinham a ideia de uma divindade, como a concebida pelo cristianismo, na qual Deus busca um relacionamento com sua criação pecadora, isto é, imperfeita. Afinal, se o amor é o desejo pelo que falta e não falta nada a Deus, porque é perfeito, logo ele não ama. A ideia de amor gratuito e que se compadece dos imperfeitos, o agape, virá com a noção cristã de Deus.

O Deus aristotélico se basta e tende ao que é perfeito. Neste caso, quando pensa, e se pensa, esse Deus só pode pensar a si mesmo. Quanto aos homens, seu aperfeiçoamento está em voltar-se para essa perfeição última, essa causa primeira, esse Ato puro, esse sumo Bem.

Portanto, quando ama, o homem se volta para o que lhe falta, seja na esfera humana, relacionando-se com o próximo, seja na esfera intelectiva, almejando o saber, a perfeição, o deus. Assim, a filosofia é busca amorosa pelo saber.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Escritor. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Teresópolis/RJ

domingo, 17 de junho de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) Mas dado o manual, o cientista criador pode começar suas pesquisas onde o manual a interrompe e desse modo concentrar-se exclusivamente nos aspectos mais sutis e esotéricos dos fenômenos naturais que preocupam o grupo"

"Abandonar o paradigma é deixar de praticar a ciência que ele define. Descobriremos em breve que tais deserções realmente ocorrem. São os pontos de apoio em torno dos quais giram as revoluções científicas"

"(...) Mesmo os que, trabalhando no mesmo campo de estudos ou em campos estreitamente relacionados, começam seus estudos por livros e realizações científicas idênticas, podem adquirir paradigmas bastante diferentes no curso de sua especialização profissional"

"A ciência normal, atividade que consiste em solucionar quebra-cabeças, é um empreendimento altamente cumulativo, extremamente bem-sucedido no que toca ao seu objetivo: a ampliação contínua do alcance e da precisão do conhecimento científico"

"A ciência normal não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou da teoria; quando é bem sucedida, não os encontra"

"(...) é preciso que a pesquisa orientada por um paradigma seja um meio particularmente eficaz de induzir a mudanças nesses mesmos paradigmas que a orientam"

"A transição de um paradigma em crise para um novo, do qual pode surgir uma nova tradição de ciência normal, está longe de ser um processo cumulativo obtido por meio de uma articulação do velho paradigma. É antes uma reconstrução da área de estudos a partir de novos princípios, reconstrução que altera algumas das generalizações teóricas mais elementares do paradigma, bem como muitos de seus métodos e aplicações"

"Paradigmas não podem, de modo algum, ser corrigidos pela ciência normal. Em lugar disso, como já vimos, a ciência normal leva, ao fim e ao cabo, apenas ao reconhecimento de anomalias e crises (...)"

"(...) os cientistas falam frequentemente de 'vendas que caem dos olhos' ou de uma 'iluminação repentina' que 'inunda' um quebra-cabeça que antes era obscuro, possibilitando que seus componentes sejam vistos de uma nova maneira (...)"

*Thomas S. Kuhn in "A estrutura das revoluções científicas". Ed. Perspectiva. SP. 2013. 

sábado, 16 de junho de 2018

Ins-piração*



Muito Bom quando…
Não precisar seguir a expectativa do mundo.
Poder fazer o que der na telha.
Tirar a máscara de bonzinho e perfeito.
Descer do salto e tirar a maquiagem.
Se permitir comer sem culpa.
Conseguir brincar com a vida, ser palhaço.
Compreender que na queda o rio cria energia.
O trabalho se faz prazer e realização.
Deixar o controle e a posse.
Souber que a doença é caminho.
Não julgar ou criticar os outros.
Compreender que queixar não muda nada.
Deixar a simplicidade facilitar a vida.
Compreender que somos seres da escolha.
Deixar de ser mindset fixo
Se transformar em mindset em crescimento.
Neste instante tudo fica mais fácil e
Viver valerá realmente mais a pena!

Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora. Livre Pensadora.
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O espanto certamente foi, no passado, aquele espelho, de que tanto nos agrada falar, que trazia os fenômenos para uma superfície mais lisa e tranquila. Hoje, esse espelho está despedaçado, e os estilhaços do espanto tornaram-se pequenos. Porém, mesmo no mais minúsculo estilhaço, já não se reflete apenas um fenômeno isolado: impiedosamente, este arrasta consigo o seu reverso - o que quer que você veja, e por menos que veja, transcende a si próprio a partir do momento em que é visto" 

"Um poeta é original, ou não é poeta"

"Saber que não há nada depois da morte, algo terrível e que jamais poderá ser inteiramente compreendido, lançou sobre a vida um novo e desesperado caráter sagrado"

"Não se detém por muito tempo em lugar algum: parte tão rápido quanto chegou. Foge dos verdadeiros senhores e habitantes das gaiolas"

"(...) quando se recolhe com as palavras (...) a possibilidade de exprimir algo de outro modo inexprimível (...) a multiplicidade de nosso mundo também consiste, em boa parte na multiplicidade de nossos espaços de respiração" 

"Possuímos uma acentuada tendência a nos lançarmos sempre ao longínquo, indo constantemente de encontro a tudo aquilo que, estando imediatamente à nossa frente, deixamos de ver"

"(...) comecei a compreender que cada indivíduo tem uma configuração linguística própria, que o distingue de todos os demais. Compreendi que embora os homens falem uns com os outros, não se entendem; que suas palavras são golpes que ricocheteiam nas palavras dos outros; que não existe ilusão maior do que a opinião de que a língua é um meio de comunicação entre seres humanos"

"Um ser humano possui muitas facetas, milhares delas, e só por algum tempo pode viver como se não as possuísse"

"Cada indivíduo é o centro do universo, e é apenas porque o universo está repleto de tais centros que ele é precioso. Este é o sentido da palavra 'homem': cada indivíduo é um centro ao lado de incontáveis outros que são tão centros do universo quanto ele próprio"

"(...) os nomes das poucas pessoas que nos possibilitaram respirar, e sem as quais jamais teríamos suportado todos os outros dias (...)"

*Elias Canetti in "A consciência das palavras". Ed. Cia de Bolso. SP. 2011.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O livro sobre nada*



É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.

Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.

Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.

Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.

Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.

Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.

Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.

Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.

Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O leitor do século XXI consegue ser sartreano?*



Eu queria que, ao renunciar à torre de marfim, o mundo me aparecesse em sua plena e ameaçadora realidade, mas não quero que, por isso, minha vida deixe de ser um jogo. Por isso endosso inteiramente a frase de Schiller: ‘O homem só é plenamente homem quando joga’.”
                           Jean-Paul Sartre (Diário de uma guerra estranha – Caderno XIV – 1940)

“Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que há dentro de nós, o que acontece com o resto?”
                                               Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa)

Quais os olhares que existem sobre o Jean-Paul Sartre no século XXI, de que forma o l’adulte terrible é visto hoje, existe espaço para o homem sartreano neste século? Me vem essas questões quando busco uma de sua obras que mais admiro, O ser e o nada. Há uma pertinência na leitura histórica dos festejados filósofos do século passado, não sou adepto ao modismo, pelo simples fato, a afetação beira quando se determina o que é bom ou o que é lixo.

Sartre soube viver como poucos o que sempre desejou, o homem que sempre buscou, o que gostaria de viver e não aquilo que imaginaria viver segundo a moral vigente de época impunha. Ele bem disse em seu primeiro romance A Náusea, só há existência no personagem Roquentin, ele se perde num presente estranho e duvidoso. Isso é que me levou a procurar mais sobre Sartre, sua forma de pensar, narrar o mundo naquele momento histórico tinha lá suas idiossincrasias. Tudo que existe é por nossa escolha. 

Sartre soube fazer muito bem seu caminho, escolhas que agradaram muitos; outros o abominaram profundamente e nada disso foi suficiente para ofuscar a sabedoria do homem que viveu intensamente seu tempo. As críticas não importam hoje em dia, ele foi um monstro sagrado do Século XX que construiu sua vida com atitudes, livros, textos e mais textos, com opiniões desastrosas e com sacadas inovadoras que provocaram a ira dos poderosos, dos santos, dos deuses e admiração de uma legião de homens e mulheres. Antes de tudo isso, Sartre soube fazer o pensamento mover-se, soube filosofar, é o que importa agora para mim, em pleno Século XXI, o tempo em que o pensamento anda escasso.

O que restou da obra de Sartre? Ele não inventou nada, o “Nada” hoje é parte do acaso das verdades absolutas. A aversão que se nutre ao pensador do existencialismo, não se dá porque ele “errou”, ou narrou de forma equivocada seu tempo, mas por outros motivos, o pensador-escritor é deixado de lado por nossa tendência de querer uma mensagem, melhor, no criticismo moderno, querer ver a explicação mais correta da realidade.

O erro de Sartre foi reivindicar nos escritores uma militância, que fossem todos à esquerda, submetidos a regras rigorosas da escrita, era a tentativa mais absurda que tinha em “Crítica da razão dialética”, de conciliar o marxismo com o existencialismo.

O que nos leva a consciência de alguma coisa é o processo unir o existir e o saber. Isso só se torna possível na experiência literária, ensaística do Sartre. Ele foi além dos princípios fundantes da filosofia. O experimentar poder ter sido também sua perdição. A conciliação do existencialismo ao marxismo foi um tiro da cegueira do século XX no escuro. A imposição de que todos escritores fossem de esquerda era no mínimo a bala perdida de sua reflexão. 

Mesmo assim, as circunstâncias que se deu esse adágio, que mais servia aos inimigos, é que o levou a ser um que sempre foi, do mundo das coisas para sua realização em si. Eis o existencialista em plena contradição. A liberdade é parte deste homem contemporâneo, um legado que me leva a apreciar sua obra quase na sua totalidade.

Nem todo Sartre é datado, embora sua filosofia em O Ser e o Nada busque de forma incessante explicar a existência do Outro além da minha existência, o contrário seria estar distante de seu próprio tempo. O moralista permaneceu em sua vida e obra, sua certeza da liberdade diante de um tempo que embotava o homem. Sartre foi um revolucionário de sua época. O legado é extenso, é danoso a outro tipo de moral. Não resta dúvida que o mundo precisa de homens que rompem com a moral vigente. A vida é uma experiência e não algo que é simplesmente dado.

  A vida é o Tempo sem tempo a preencher o ar com inaudito das coisas pensadas. Ontem, com aquilo que estamos tateando, o perceber da condição para se conhecer. Hoje, com o que restou daquilo que não pudemos compreender na sua totalidade. Amanhã, nem Sartre nem qualquer outro filósofo nos garante algo irrefutável. O pensamento para valer a pena, em qualquer época, reivindica o direito de pensar livre. É o que Sartre soube fazer com maestria e estilo, provocar a contradição e não buscar a chave de todos os problemas. A filosofia e a literatura em Sartre estão a salvo por muito tempo.  

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS