terça-feira, 22 de setembro de 2020

Notas de um Filósofo Clínico*

 

Em quais parâmetros o filósofo clínico me enquadra?* 

O filósofo clínico não aconselha com teses filosóficas. Seu método foi construído a partir de diálogos com filósofos. Mas, com contínuo contato com pessoas. O método sistematizado da clínica filosófica é um caminho para compreender pessoas e as melhores maneiras de ajudá-las em suas questões. Por isso, não há fórmulas, lista de diagnósticos, modelo ideal a ser alcançado ou para servir de parâmetro normativo, muito menos regras para atingir um bem-estar. Ao ouvir a história de quem procurou seus cuidados, o filósofo clínico compreende o contexto (exames categoriais), o que constitui a pessoa (estrutura de pensamento) e os meios (submodos) que ela já possui para atuar existencialmente ou se será preciso apresentar novas possibilidades. Lidar com pessoas não é uma ciência exata nem uma adequação a uma proposição universal. Estamos no campo das aproximações, da sensibilidade, da percepção, da plasticidade.

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Como assim? A filosofia clínica não tem padrões de procedimentos?*

 Em filosofia clínica, não há indicações padronizadas sobre o bem viver. Algo que é bom para uma pessoa, pode ser ruim para outra. Essa noção é radicalizada a ponto de constituir o procedimento de trabalho do filósofo clínico. Há um método construído e atualizado a partir de atendimentos e pesquisas. Ele oferece meios para compreender o outro e proceder de modo personalizado, segundo a estrutura constituinte de quem procura os cuidados do terapeuta. Essa compreensão está na história de vida da pessoa e seus contextos (historicidade e exames categoriais), nos elementos que a habitam (estrutura de pensamento) e em seu modo de proceder (submodos).

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A Filosofia Clínica é um método terapêutico filosófico que tem como pressuposto a noção de que cada pessoa possui uma representação de mundo. Derivando de noções de Protágoras para o qual “o homem é a medida de todas as coisas”, atualizado em Schopenhauer que ensina que “o mundo é minha representação”, Lúcio Packter percebeu que cada pessoa representava o mundo a partir de seu contexto, historicidade e os elementos que a constitui estruturalmente. O filósofo clínico é aquele que busca aproximar-se ao máximo da representação de seu partilhante. Isso ocorre por aproximação e não por exatidão.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo

Filósofo. Professor. Escritor. Filósofo Clínico.

Teresópolis/RJ

domingo, 20 de setembro de 2020

De quantas mortes você já ressuscitou?*

A condição para mostrar a vida tal qual se apresenta, inclui a possibilidade de se reescrever, além do primeiro olhar, as páginas do velho diário. Um desses refúgios por onde se insinuam conteúdos desatualizados, também eles compondo essa realidade se reapresentando em múltiplas expressões. Seus apontamentos convidam a emancipar as contradições entre o que se diz e o que se faz.

O convívio com esses desdobramentos existenciais auxilia a elucidar a representação por trás dos percursos da singularidade. Sua releitura descobre espaços, até então, desconsiderados. Muitas vezes, na inquietude de uma voz silenciada, se encontra algo mais, propício aos novos tempos.

Sua redação está contida na palavra vivenciada, traduzindo fenômenos que estavam ali, como benção, estorvo, desassossego. Esses manuscritos da estrutura de pensamento instituem, na equivocidade dos paradoxos, a vida até então fora de foco. A interseção do sujeito com seus relatos pode ampliar o que já existia como promessa ou desconstrução. Nos antigos manuscritos, se pode acessar a distância percorrida e o que está por vir.

Tudo aquilo que se vê, ouve, sente, nesse mergulho da reciprocidade, acrescenta algo até então, desconhecido. O pensador de raridades estabelece uma conversação com esses territórios, até então desconsiderados. Lembrando de que a concepção de si mesmo sendo outro pode ocupar boa parte do caminho.   

Ao se alterar o uso dos termos comuns, o rumo dos acontecimentos também se desloca. Na ausência de uma abordagem emancipadora, as ondas desse mar se sucedem em busca de uma terra que, de tão próxima, se distancia. Nesse sentido, um capítulo dessa história, por si só, pode conter indícios sobre o restante da obra. 

As dialéticas do movimento estabelecem a contradição da palavra escrita com a palavra vivida, bem assim, um saber aprendiz para transgredir seus muros. A crônica dessas vivências se escreve vivendo, seus episódios com aspecto de coisa nenhuma, lhe permitem deslocar-se livremente. Ao percorrer os múltiplos endereços existenciais, com a alternância dos cenários, é possível decifrar seu desenvolvimento discursivo. 

Sua tez de absurdidade é aliada para superar os limites da ultima palavra. Na convivência com as dores do parto é possível compreender a natureza e o alcance dessas metamorfoses, as quais, após o caos precursor, estruturam renascimentos, parindo outro si mesmo. A essência do visar incomum aprecia o convívio com os dialetos da vida extraordinária. Se assim não fosse, permaneceria irreconhecível, a espera de algum diagnóstico.

Os discursos existenciais pluralizam o espetáculo do mundo. Tendo como referência uma retórica protagonista, reescrevem sua história, vivenciando a parcela de infinito que lhes cabe por inteiro. Um sujeito, ao dialogar com sua condição existindo, compartilha seu selo de originalidade, apresenta a fonte de inspiração de onde partiu. Ao se reconhecer como autor da própria história, integra a estética das ruas com o sabor dos seus devaneios.

*Hélio Strassburger

Filósofo Clínico e Professor. Autor de "Poéticas da Singularidade". Ed. E_Papers/RJ. 2007; "Diálogos com a lógica dos excessos". Ed. E-Papers/RJ. 2009; "Pérolas Imperfeitas - Apontamentos sobre as lógicas do improvável". Ed. Sulina/Porto Alegre. 2012, dentre outras.   

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

A Filosofia Clínica para Não-Filósofos Clínicos***

O que é a Filosofia Clínica?

A resposta geralmente adotada pelos filósofos clínicos é: “a Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica aplicada à terapia”.

Esta resposta é boa. E não é.

É uma boa resposta porque é exatamente isso que a Filosofia Clínica faz: aplica a filosofia da tradição ocidental, a filosofia acadêmica, à terapia.

Por outro lado, é uma resposta abrangente demais. Afinal, o conjunto da “filosofia acadêmica” tem uma quantidade muito grande de elementos, que podem ser tão diferentes entre si quanto podem ser diferentes variadas espécies de, digamos, frutas.

Por essa razão, a afirmação de que “a Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica aplicada à terapia” é inútil. Aos olhos do leigo – e mesmo de muitos estudiosos – a filosofia é um emaranhado de teorias contraditórias, quando não bizarras; parece que qualquer coisa pode ser filosofia, e que filosofia pode ser qualquer coisa.

Mas isso não é verdade. A filosofia tem um fio condutor muito claro. Para explicar isso, vou fazer uma analogia com as frutas. Há frutas de todos os tipos: mais doces, mais azedas, até mais amargas. Há frutas grandes, pequenas, suculentas, mais secas. Há frutas com casca grossa e fina, com sementes enormes ou minúsculas.

Todas as frutas têm, todavia, algo em comum: são os recipientes nutritivos das sementes usados pelas espécies para atrair os animais, que os levam para longe – o que faz com que suas sementes sejam espalhadas pelo mundo.

Por isso, não há frutas sem sementes. Se não tiver semente, não cumpre a função de fazer nascer um novo pé de fruta, e não pode ter nascido, visto que um exemplar de uma espécie frutífera necessariamente foi uma semente dentro de uma fruta antes de nascer como planta.

Do mesmo modo que as frutas, há filosofias de todos os tipos.

E como o conjunto das frutas pode ser definido por ter sementes, o que remete à finalidade de fazer nascer novos exemplares da espécie, da mesma forma o conjunto da filosofia pode ser definido pelo seu método e pela sua finalidade.

O método da filosofia é racional argumentativo. A filosofia ocidental, que é a filosofia acadêmica, nasce com a especificidade de exigir de seus participantes a concordância com regras racionais de argumentação, para que todos os indivíduos racionais, que concordam com as mesmas regras, possam acompanhar a argumentação e contribuir para que se possa chegar mais próximo ao objetivo.

Mas qual o objetivo da argumentação na filosofia? Qual a finalidade última de toda a discussão entre os filósofos?

Toda filosofia tem, em última instância, a finalidade de ser um instrumento para que o ser humano investigue o sentido da existência.

Não o sentido da vida, não o sentido da morte, não o sentido da liberdade, ou da sociedade, ou de qualquer outro conceito.

Mas o sentido da existência. Do ser humano? Do mundo? Do universo? Do Cosmos? De Deus? Sim, desde que colocado na seguinte perspectiva: a filosofia é a procura, realizada por um ser que existe, que está onde existe, pelo sentido da existência de si e do sentido da existência de onde existe.

A pergunta fundamental de qualquer filosofia, a interrogação que está por trás de todos os livros de todas as escolas de todos os tempos da filosofia, é: “por que existe, quando poderia não existir?”, “por que há, quando poderia não haver?”, “por que é, quando poderia não ser?”.

Os instrumentos variam; mas a pergunta fundamental é essa, mesmo para as escolas que defendem que a pergunta não tem sentido.

Então a Filosofia Clínica é uma terapia voltada para a busca pelo sentido?

Não e sim.

A Filosofia Clínica não é uma terapia que considera que todos tenham que encontrar, subjetivamente, O Sentido para a existência.

Da mesma forma que para algumas linhas filosóficas a pergunta pela busca pelo Sentido tem significado, e para outras linhas filosóficas a busca pelo Sentido não tem o menor significado e é uma pergunta absurda, há pessoas para as quais faz sentido buscar um Sentido e para outras não faz sentido buscar um Sentido.

Seria uma violência a tentativa de enxertar uma busca pelo Sentido em alguém que considera essa busca absurda. O enxerto de um elemento potencialmente poderoso assim na estrutura existencial de alguém que considera esse elemento absurdo seria catastrófica – causaria uma desestruturação indizível.

Contudo, sob outro aspecto, a Filosofia Clínica é uma terapia que busca o sentido do ser – caso o sentido do ser seja traduzido como a representação formal do conjunto de elementos significativos da estrutura existencial da pessoa, aquilo a que os filósofos clínicos chamam a “Estrutura de Pensamento” do indivíduo.

A filosofia acadêmica fornece aos filósofos clínicos os instrumentos (pela lógica, pela fenomenologia, pela analítica da linguagem) para a construção da Estrutura de Pensamento formal da pessoa. E aí se pode dizer que o filósofo clínico que produziu a Estrutura de Pensamento de alguém tem o mapa formal do sentido de sua existência.

Portanto, nesta acepção, a Filosofia Clínica é uma terapia voltada para a busca pelo sentido, ou seja, pelo sentido da existência subjetiva da pessoa que com o filósofo clínico partilha seu mundo. Mas esse sentido da existência subjetiva da pessoa pode não ter (assim como, evidentemente, pode ter) o caráter de uma busca pelo Sentido da Existência.

Isso porque cada pessoa é diferente da outra. Cada uma tem uma Estrutura de Pensamento única no mundo. Cada pessoa tem uma combinação exclusiva de elementos, que variam não apenas quanto aos diferentes tipos, mas também em relação à importância, à ordem, à circunstância e às relações de cada elemento com cada um dos outros elementos da Estrutura de Pensamento.

Por essa razão, não é possível considerar que existe um modelo de “normalidade” à qual todas as pessoas ditas “anormais” devem se conformar. Se existisse um modelo de “normalidade”, em que ele seria baseado? Na “normalidade” do criador da teoria terapêutica? Essa hipótese é evidentemente absurda, visto que não há no mundo duas pessoas que compartilhem uma mesma estrutura existencial – e a tentativa de aplicar indiscriminadamente elementos de uma estrutura de uma pessoa, pela força da persuasão, da insistência ou de recursos mais sutis, na estrutura de outra pessoa pode causar graves conflitos existenciais.

Portanto, não há “normal” e “patológico” na Filosofia Clínica. A Estrutura de Pensamento formal de uma pessoa é compreendida pelo filósofo clínico como um mapa que indica os pontos de sustentação e de tensão, de conforto e de explosão, de harmonia e de conflito entre os elementos que fazem parte da estrutura existencial da pessoa. E não há mapa “certo” ou “errado”, pois nem toda tensão, explosão e conflito é ruim na estrutura de pensamento – podem mesmo ser elementos sustentadores para algumas pessoas, elementos que não podem ser tocados sob risco de desmoronamento de toda a existência.

Se não há mapa “certo” nem “errado”, qual o papel do filósofo clínico?

O filósofo clínico não sabe responder essa pergunta até o início do processo da terapia. Isso porque cada pessoa tem uma diferente motivação ao se encaminhar para ela. E muitas vezes a motivação inicial que leva a pessoa à terapia não é a motivação última, que vai sendo descoberta no processo.

O filósofo clínico usa seus instrumentos para ajudar a pessoa a resolver o que a leva à terapia.

E como o processo da terapia ocorre?

A primeira tarefa do filósofo clínico é a formação da “Estrutura de Pensamento” formal da pessoa. Isso começa com a narração da história da pessoa pelas próprias palavras da pessoa. Esse processo pode levar algum tempo, pois é importante, por dois motivos, que a pessoa conte como vê a sua história.

O primeiro motivo é que o filósofo clínico precisa conhecer como a pessoa relata suas circunstâncias históricas, para que possa compreender os pontos de referência da Estrutura de Pensamento. Aqui, o filósofo clínico usa a Fenomenologia.

O segundo motivo é que o filósofo clínico precisa entender como a pessoa utiliza sua linguagem, pois a linguagem revela o modo como os elementos da Estrutura de Pensamento relacionam-se entre si. Aqui, o filósofo clínico usa a Analítica da Linguagem.

E depois que o filósofo clínico conseguiu produzir uma Estrutura de Pensamento formal da pessoa?

Ele vai saber exatamente o que são, onde estão, como estão relacionados, os pontos que levaram a pessoa ao desconforto existencial que a fez procurar a terapia.

Mas não basta dizer isso à pessoa. Afinal, é possível mesmo que a pessoa já saiba disso. Ou que não faça diferença nenhuma para a pessoa saber ou não, pois não saberia o que fazer com esse conhecimento.

Depois que o filósofo clínico produzir a Estrutura de Pensamento formal da pessoa, terá conhecido um conjunto de armas que ela muitas vezes nem sabe que tem, ou não sabe como usar eficientemente.

Essas armas são os modos como a pessoa lida da forma mais eficiente com seus problemas.

Muitas vezes a pessoa aprendeu, por qualquer razão, que o jeito certo de lidar com um determinado problema é de tal e tal maneira – maneira que, eventualmente, não corresponde à sua Estrutura de Pensamento, e que, por alguma razão que a pessoa não consegue explicar, sempre dá errado com ela.

A pessoa pode nunca ter aprendido – e, na verdade, quase nunca aprendeu – a usar os modos próprios à sua Estrutura de Pensamento particular para lidar com os problemas com que se depara. A pessoa pode nunca ter aprendido a usar as suas armas mais poderosas, que são exclusivas dela, e que, por isso, provavelmente ninguém a ensinou a usar.

Justamente as armas que o filósofo clínico identificou na Estrutura de Pensamento.

Por essa razão, o filósofo clínico pode ensinar os modos mais eficientes que a pessoa tem para lidar com seus problemas. E cada pessoa tem modos diferentes para lidar com dificuldades que são próprias só dela, o que faz com que cada processo terapêutico seja completamente diferente de todos os outros.

Cada processo é diferente, assim como o estudo de cada filosofia acadêmica é diferente. Cada filósofo estudado pela tradição acadêmica coloca questões e problemas diferentes, usa métodos diferentes e chega a conclusões diferentes. O trabalho do estudioso de filosofia é saber como colocar com propriedade essas questões e problemas, saber usar os métodos específicos a cada filósofo estudado e compreender o alcance de suas conclusões – cada filósofo com sua especificidade, sua originalidade, sua diferença.

Não é diferente do que a Filosofia Clínica faz com as pessoas que buscam a terapia. O filósofo clínico vê cada pessoa como se visse um filósofo importante a ser estudado.

Ele estuda essa pessoa com cuidado e atenção para que o mapa de elementos da existência dessa pessoa seja bem constituído. Nesse mapa, ficam evidentes os modos como a pessoa pode resolver melhor os seus problemas, para que o filósofo clínico possa ensinar a pessoa a usar as suas próprias armas – em outras palavras, para que o filósofo clínico possa ensinar a filosofia da pessoa a ela mesma.

* Prof. Dr. Gustavo Bertoche

Filósofo. Escritor. Musicista. Filósofo Clínico. 

Teresópolis/RJ

** Este texto foi preparado para uma apresentação para leigos a respeito da Filosofia Clínica. Por esta razão, foram evitados termos técnicos da FC, que seriam ambíguos ou incompreensíveis se utilizados sem a devida tradução (que, no contexto, seria cansativa e desnecessária).

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Resenha crítica da obra: "Poéticas da Singularidade"*

STRASSBURGER, Hélio. “Filosofia Clínica, poéticas da singularidade”. Rio de Janeiro: e-papers, 2007. 116 p.

O livro de Hélio Strassburger expõe suas experiências fazendo um relato singular da filosofia clínica por um terapeuta experiente e sensível. O autor percorre em vinte e seis pequenos textos os momentos fundamentais da relação clínico-partilhante e das singularidades desse processo, valendo-se do estilo poético.

A filosofia clínica é apresentada como “escrita em reciprocidade de compartilhar (...) aquilo que, para muitas pessoas, é o mais sagrado, sua história de vida” (p. 7). Essa é sua forma de reconhecer que existir é coexistir. É sobre esta relação compartilhada que o autor descreve “uma fenomenologia do fazer clínico que esboça encantamentos indizíveis ao olhar de senso comum” (p. 8).

Evidencia-se a sua convicção de que a atividade clínica não pode ser bem descrita com linguajar comum, só a poética alcança seus recantos mais escondidos. O propósito da clínica é promover uma “interação transformadora com as crises” (p. 9). Ela é uma forma de indicar novos roteiros de vida para pessoas cujos choques na estrutura de pensamento tornaram a vida difícil e sem sentido.

O início do processo revela a aproximação de mundos diversos, terapeuta e partilhante vivem realidades distantes porque focam a circunstância de maneira diferente. Hélio assume um pressuposto da fenomenologia, não há um mundo em si, mas vários de acordo com a atitude existencial adotada pelos sujeitos. Na fase inicial do processo é preciso cuidado para não reduzir o mundo do partilhante a uma tipologia rígida ameaçando sua singularidade, pois como o homem é existência isso significa que sua estrutura de pensamento constitui uma ótica da existência.

O espírito do encontro é a abertura à mudança, o cuidador não reduz as alternativas do partilhante. “O ir e vir das interseções, afirma o autor, aprecia roteiros para a desconstrução das antinomias da inflexibilidade” (p.13). É este encontro que promove a desconstrução de conflitos íntimos incompreensíveis “nos paradoxos das fórmulas prontas” (p. 14).

O reconhecimento da singularidade existencial é o aspecto mais marcante do início do processo. Em linguagem fenomenológica isso significa que o homem é um projeto único e seu ter que ser o torna histórico. A habilidade do cuidador leva o partilhante a lhe apresentar sua história de vida da forma que ele julgue mais fácil expor suas intimidades mais fundas, suas dores mais escondidas. “Vestígios dessa raridade existencial se antecipam nos primeiros encontros, através do sofrer em pedidos de ajuda” (p. 15).

Nesse momento, explica o autor, a atenção se concentra na reciprocidade cuidador – partilhante. O propósito da acolhida existencial é permitir “a ruptura com as estruturações de onde tirava forças para limitar as possibilidades de melhor viver” (p. 16). Ao ser acolhido, o partilhante encontra alternativas para reconstruir sua vida, superando os nós existenciais nascidos nos conflitos de sua estrutura de pensamento. O terapeuta acompanha a jornada única do partilhante, pois o viver é “um jeito único na subjetividade de cada pessoa” (p. 19). O ambiente de liberdade no compartilhar de experiências “nunca se confunde com o artificialismo do laboratório” (p. 20). O desafio da relação será então a de favorecer o acesso do partilhante a seu mundo, mesmo que ele pareça absurdo, pois “a vida busca escrever seus melhores roteiros a partir de sua existência” (p. 22).

O mundo do partilhante começa a se abrir com as primeiras queixas denominadas de assunto imediato. Quanto mais o partilhante encontra acolhida ao expor sua queixa inicial, quando melhor compreendida sua história de vida e mais bem elaborado o planejamento clínico, mais ele muda.

Para Hélio sua transformação é atribuída à magia das interseções, mas isso não significa ausência de uma técnica precisa de ajuda. Os encontros expõem o mundo do partilhante e aí se encontra o reflexo de suas origens. O autor reconhece que as experiências das fases iniciais da vida são muito intensas e se refletem no decorrer da existência, confirmando o que as principais escolas de psicologia dizem sobre as aprendizagens na infância. Assim, os medos começam a se mostrar numa viagem para trás, para lugares existenciais escondidos. Ele diz que “a insegurança e o medo podem descortinar temores de raiz mais funda, alimentam-se com o cristalizar dos sonhos em abstrações cada vez mais distantes” (p. 28).

Os encontros clínicos expõem paisagens de um passado distante que, apesar de longínquos, revelam a vida mesma. Essa perspectiva de análise é fundamentalmente fenomenológica, reconhece que a existência é situada e que o estar presente no mundo possui um sentido temporal. A ida a lugares distantes é também, uma viagem ao passado e a lugares que a consciência conserva vivos.

No passado as lembranças se modificam no que o autor denomina feitiço do tempo e que é a forma como o “viver contido re-inaugura-se na insanidade normalizada dos dias” (p. 32). O encontro com o passado permite re-significar experiências e romper os choques formados na estrutura do pensamento. Qual o sentido que tem um fato? Depende das possíveis atitudes do sujeito tendo em vista sua estrutura de pensamento, se mais ou menos emotiva, mais ou menos inversiva, mais ou menos epistemológica, etc.

O encontro clínico é revelado como troca de impressões humanas nem sempre traduzíveis pelas palavras. Ao comentar a expressividade do silêncio, o autor explica porque a filosofia clínica não se resume à analítica de linguagem, uma vez que o silêncio do encontro propicia uma reconstrução de choques inalcançados “pela lógica do dizer” (p. 35).

E isso é fundamental na técnica porque o silêncio traduz “o pressuposto para a conexão com as instâncias mais profundas do viver, lá onde a contemplação do livre curso das idéias encontra-se com a eterna novidade de si mesma” (p. 35). E textos de Clarice Lispector são empregados para traduzir encontros onde o que se sente não é dito em palavras. A linguagem é um caminho possível para o íntimo, mas é só uma das maneiras de chegar lá. “As palavras podem estabelecer vínculos de aproximação ou distanciamento entre as pessoas” (p. 40).

O terapeuta descobre assim uma das mais maravilhosas funções da poesia que é a de deixar aparecer o mundo íntimo da pessoa quando a linguagem precisa e objetiva empregada pela ciência positiva e a analítica de linguagem não parece a melhor para traduzir o que o partilhante quer dizer. Por isso ele faz referência a Heidegger e ao papel da linguagem que “longe de abandonar o lugar da poesia, (...) permite que toda movimentação do dizer seja reconduzida para a origem sempre mais velada” (p. 44). Essa ida ao mundo do outro ganha uma feição mais claramente fenomenológica quando a referência a Heidegger se completa com as teses de Merleau-Ponty.

O autor afirma que Merleau-Ponty diz existir “uma maneira de introduzir o outro como incógnita em sendo a única que considera sua alteridade e a explica” (p. 47). O encontro com o mundo do outro pode ser comparado a um ir atrás do espelho até os sonhos e símbolos pelos quais ele se expressa. O autor menciona também Rubem Alves para quem “não sabemos o nome de nossos desejos mais profundos. Resta-nos, segundo ele, suspirar suspiros que são profundos demais para palavras” (p. 49). O partilhante pode encontrar muitas formas de se expressar e “criar uma linguagem sua e se expressar no dizer sem palavras” (p. 53).

A intuição fenomenológica é a forma do autor reconhecer o fato primitivo da consciência, isto é, pensar a vida do sujeito como abertura ao que não é o sujeito. O que não é o indivíduo é, no mínimo as coisas e pessoas que o rodeiam e a implicação sujeito mundo assim expressada por Hélio: “deixamos a verdadeira essência das coisas falar imediatamente para nós, deciframos a autêntica assinatura das coisas” (p. 53).

No caso do clínico a intuição fenomenológica se manifesta nos projetos existenciais dos partilhantes, cujas partes se organizam e reorganizam como as figuras do caleidoscópio. A terapia permite que os elementos do projeto possam se combinar com risco reduzido para a pessoa e seus próximos. Hélio explica: “em terapia pode-se ir bem longe sem sair do lugar. Em alguns casos, chegar até onde o interseção permita. Para, quem sabe depois, voltar e saborear a renovação dos antigos refúgios” (p. 62).

A clínica igualmente propicia descobrir vivências escondidas no dia-a-dia. “Na magia do desvendar-se íntimos distanciamentos podem se evidenciar singularidades calcadas pelo não-ver das cotidianas cegueiras” (p. 63). O espaço do encontro clínico-partilhante cria o ambiente para a expressão do que é exótico na vida e é esquecido pela própria pessoa.

E esse encontro, pelas dificuldades de caracterização, não mereceu ainda um relato preciso do exercício do cuidador. Trata-se, contudo, de atividade com objetivo definido “construir indícios aos novos endereços existenciais para onde a pessoa encaminha as suas buscas” (p. 77). Os endereços existenciais traduzem chamados íntimos que Ortega y Gasset denominava vocação.

A revelação do mundo do partilhante, ainda que mostre muita singularidade, não é comparável ao que a psiquiatria denomina loucura. Sobre o assunto o autor faz referência ao trabalho de Michel Foucault e a função da loucura que o filósofo francês diz ser “aproximar-se tão perto quanto possível da razão” (p. 81). Sobre a imagem que o autor constrói da loucura reflete “aspectos de um mundo desconhecido pelo próprio sujeito. Uma espécie exilada na própria casa” (p. 85). A loucura é um processo de re-significação que a pessoa realiza, mesmo que sem sucesso.

A filosofia clínica é apresentada nesse livro como cúmplice do bem viver, forma de obter uma vida com mais qualidade pela superação dos nós existenciais que nascem dos choques presentes na estrutura de pensamento do partilhante. Não se trata, pois, de “normalizar ou curar” (p. 95). A técnica é apresentada como uma forma de terapia compreensiva que não se mostra nos antigos paradigmas. A preparação do filósofo clínico para realizar este procedimento é específica, inclui aulas presenciais, estudo de textos, pré-estágio e prática de atendimento.

A filosofia clínica para o partilhante é a oportunidade de rever a vida, experimentar devaneios, buscar compreender a si próprio. Buscar nexo onde ele parece não existir.

O livro de Hélio Strassburger não é uma introdução à filosofia clínica, também não é uma exposição objetiva ou detalhada da técnica. É um relato íntimo de vivências terapêuticas apresentadas em linguagem poética, nem sempre de simples compreensão. É, sobretudo, uma revelação luminosa do encontro pessoal e das riquezas dos mundos singulares. O acesso à singularidade pessoal é sempre um desafio da clínica.

A obra foi construída sobre os pressupostos fundamentais da fenomenologia existencial como procuramos evidenciar, num diálogo que aproxima Heidegger e Merleau-Ponty.

*Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho

Foi Chefe do Departamento de Filosofia da UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei/MG). Filósofo. Psicólogo. Escritor. Filósofo Clínico.

São João del Rey/MG

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Dialogar*

Sobre a Filosofia Clínica dialogar ou não com as outras linhas Terapêuticas.

Estudei por sete anos Psicologia e por questões circunstanciais, tive contato direto com a Psiquiatria, estudando e aprendendo durante 12 anos. Convivi com terapeutas do Brasil inteiro, tive uma clínica de terapia comportamental e eu mesma como paciente fiz terapia cognitiva, Gestáltica, psicanalítica até chegar na Filosofia Clínica.

Com isso, acredito que posso dizer alguma coisa enquanto paciente e como estudante e pesquisadora. Entendo que se tem uma linha que dialoga com as outras é a Filosofia Clinica, primeiro por ser honesta no sentido de dar o mérito de sua fundamentação a mãe de todas, ou seja a própria Filosofia, que por si só já é um oceano tão grande e recheado de conteúdos que poderíamos dela já ter múltiplas e infinitas linhas terapêuticas.

Segundo porque profissionais de todas as áreas podem fazer o certificado B, que dá a base teórica a clínica filosófica, porem para a prática e para o certificado A é preciso antes ter feito filosofia.

Outra, quem estudou Filosofia, sabe como encontrar conteúdos e fundamentos. Em Aristóteles, sua lógica silogista as suas Causas, Categorias, Psicologia, ideias de Ato e Potência e Primeiro Motor. Também em sua metafísica que da a filosofia o primado da investigação causal, bem como a teoria das essências como reveladora da identidade. Já em Descartes, tem-se o método (Verificar, analisar, Sintetizar, Enumerar). E a teoria do Cogito, dando a existência a partir do pensamento? Quem copia o que de quem? Quem deu a dica que no pensamento do homem está a validação da sua existência?

Foi a Filosofia, é certo! Assim como foi e é nela, que primeiramente a FC se fundamenta. E Kant? Quando nos apresenta seu juízo estético, relacionado ao princípio de prazer que temos em relação às coisas? Em apenas uma das suas frases celebres já podemos ver por exemplo uma das raízes que irá despontar em uma das teorias que irá falar em Id e Super Ego -"o céu estrelado por sobre mim e a lei moral dentro de mim" - Aqui também está redescoberta a ideia de sensibilidade e consciência, já revirada por Platão.

Há também a Crítica da Razão Pura, sobre juízos e a coisa da coisa em si? E as condições de sensibilidade e de possibilidade? O Imperativo categórico, que entre outras coisas convida o sujeito a olhar para suas ações, como uma forma de legislar seus limites e os do outro. Quem mergulhar profundamente na Filosofia vai descobrir estas e muitas outras ferramentas infalíveis para criar um método e para mudar a visão de mundo construir um arsenal de novas concepções e ferramentas para ajudar o ser humano. Para tanto, é claro, tem que ter o pó da genialidade, pois ideias sem este tempero ficam insípidas.

Com Freud o pai da Psicanálise, não foi diferente, quem conhece Psicanálise e Filosofia sabe que este entre outros bebeu do saber em Sócrates, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, mergulhou profundamente em Schopenhauer e achou seus grandes insights em Nietzsche. Poderia ficar páginas e páginas fazendo ligações com outros grandes filósofos que contribuíram de forma contundente as linhas terapêuticas, mas isso fica pra outra hora.

Quem estudar Filosofia e depois estudar qualquer uma das linhas terapêuticas modernas, não mais cometerá o engano de pensar que tudo começou com essa ou aquela linha terapêutica. Contudo, só posso dizer que a Filosofia Clínica é puro diálogo e está muito mais aberta do que imaginamos.

Para tanto se faz necessário, ampliar o olhar e despertá-lo das paixões cegas. Basta abrir os olhos, para ver no núcleo de estudos e formação de Filosofia Clínica , médicos, psiquiatras, enfermeiros, professores, biólogos, teólogos, matemáticos, psicólogos, pedagogos, terapeutas e muito mais, isso por si mesmo já é a prova mais clara e eficiente de que o diálogo entre a Filosofia Clinica e as outras linhas acontece, seu método aplaca inúmeras possibilidades.

*Alba Regina Bonotto

Psicóloga, Filósofa Clínica

São Paulo/SP

domingo, 13 de setembro de 2020

Anotações e Reflexões de um Filósofo Clínico*

 

Amigos, ao encontrar essa que talvez seja uma das mais tristes tirinhas do Calvin - neste caso, uma tirinha criada por um fã -, recordei vividamente de algo que passei há alguns anos como professor numa escola privada.











               


   


* * *

No último ano em que lecionei Filosofia no fundamental, para uma turma de oitavo ano (isto é: crianças de treze e catorze anos), havia um menino com olhos que faiscavam com o fogo da vida. Alegre, falante, brilhante.

Ele não conseguia participar das aulas sentado. Por isso, na minha classe podia andar pela sala livremente - e foi em uma aula de Filosofia que descobriu que recuperava a calma o foco ao se deitar sob o quadro, justamente no espaço em que o professor usualmente caminha durante as explicações.

Pois bem: durante uma aula, a coordenadora entrou na sala e viu o pequeno deitado ali. Imediatamente gritou com ele, que teria sido conduzido à direção se eu não houvesse interferido.

Quando expliquei, privadamente, que não somente autorizava, mas mesmo encorajava-o a participar das aulas deitado no chão - pois assim ele ficava mais confortável e atento -, a coordenadora olhou fundo nos meus olhos por alguns segundos. 

Até hoje não sei se ela queria me intimidar ou me entender. Sei que, frente à minha impassibilidade, começou a rir: "Hahahaha, só você mesmo, hein, Bertoche". Acho que recebi naquele momento a indulgência reservada aos professores de Filosofia, esses esquisitões.

Resultado: ele continuou a participar das minhas aulas até o fim do ano letivo caminhando peripateticamente entre os colegas ou, qual um Diógenes, esparramado sob a lousa.

* * *

Um tempo depois, o jovem foi meu aluno novamente, já no ensino médio.

O fogo dos seus olhos havia se apagado. Sentava-se encolhido na carteira escolar e nada falava durante as discussões de filosofia. Não procurava nenhum professor mais simpático para conversar animadamente na hora do recreio.

Às vezes, dormia durante a aula. Ajustando os medicamentos, me disseram.

Fui conversar com a coordenadora sobre ele.

"Ah, é sobre o aluno fulano de tal? A família medicou, os professores estão elogiando, ele agora está ótimo, né?"

O meu coração chorou.

*Prof. Dr. Gustavo Bertoche. 

Filósofo. Escritor. Musicista. Filósofo Clínico. Além do doutoramento acadêmico (UERJ), possui o doutorado "Honoris Causa" conferido pelo Conselho da Casa da Filosofia Clínica em 2019. 

Teresópolis/RJ