segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedisse inundações"

"E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?"

"(...) para nascer as coisas precisam ter vida (...)"

"Já agora nem sabia se vira o céu por si mesma como quem vê o que existe ou se pensara em céu e conseguira inventá-lo (...)"

"(...) a vida que se leva por dentro não é a vida terrena"

"(...) alguma coisa que se estava construindo e que só o futuro veria"

"Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é aquela que toca na minha fronteira  com o que já não é eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é"

"(...) na sua busca viajava dentro de si bem longe"

"(...) já lera biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida, pelo menos de vida interior"

"Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quando pinto"

"Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado"

"Na certa mereceria um dia o céu dos oblíquos onde só entra quem é torto"

"Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam"

*Clarice Lispector in "Clarice na cabeceira" - Org. José Castello. Ed. Rocco. RJ. 2011. 

domingo, 16 de setembro de 2018

Levitação-Imagem*



  “Iluminei a escuridão de minha invisibilidade – e vice-versa.”
                                         Ralph Ellison

A imagem eu não inventei, as cores eu não as criei, a técnica já existia antes de eu criar o método de levitar para fotografar, o método alpinista de captar imagens, detalhes que só conseguimos ver de uma grande lente, movie, de movimento, tomadas aéreas.

A levitação-imagem é aquela em que busco fisgar naquilo que o olho sonha ver. Só ele, o olho naquele ângulo, a partir de uma música ao fundo (inaudível até hoje quando volto a sonhar), em um estilo que pode arrebatar até o mais cético em relação à existência de coisas sobrenaturais.

É mesmo, sobrenatural, eu levito (mas isso tem uma altura, no máximo 15 metros), isso causou espanto na primeira vez quando subi até a torre de um velho prédio público, e com minha lente diminuta de um celular, fui de um lado ao outro, cercando a torre, discorrendo meu pensamento, o olhar que se afinava na captação das imagens possíveis e as que já não existiam mais.

O tempo se estendia, eu conseguia compor as imagens do mesmo prédio em diferentes épocas. Eu, um ser levitando, invisível aos olhos do mundo. Sem cansar, fiquei lá em cima, creio que altura era de 10 metros, depois desci sem que ninguém percebesse minha presença. Um invisível entre os passantes. Misturei minha pele na dos outros, voltei à terra e saí caminhando entre os transeuntes.

Não contei a ninguém, guardei esse segredo da “imagem levitação”, nome que escolhi para esse método que nasceu do pensamento, do lado mais obscuro da alma de um homem qualquer, de repente se torna o voo do olho, o corpo que vê.

Fui logo aos livros, nada especial, não tentar entender o fenômeno, mas compreender de onde eu tirei que poderia levitar. Essas coisas estranhas já aconteceram comigo, como aquela de eu me encontrar em uma loja de piano e pedir para entrar e ver o piano, e logo que sentei na banqueta em frente ao piano comecei tocar Chopin.

 Depois algumas peças de Mozart, nada excepcional, atônito fiquei, isso durou uns 3 anos, lá eu ia uma vez por semana - em meu sonho - na loja. Já era um velho conhecido do vendedor, era a atração invisível, tinha palmas do vendedor e dos fantasmas. Passou. Agora, quase 2019, me encontro a levitar em imagens e pensamentos, do alto faço a cartografia da vida que vive lá embaixo. 

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 15 de setembro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"É característico da natureza do homem não estar limitado a uma única abordagem específica da realidade, mas poder escolher seu próprio ponto de vista e assim passar de um aspecto das coisas para outro"

"A arte (...) ensina-nos a visualizar as coias, e não apenas conceitualizá-las ou utilizá-las. A arte nos propicia uma imagem mais rica, mais viva e mais colorida da realidade, e uma compreensão mais profunda de sua estrutura formal (...)"

"Uma criança que joga não vive no mesmo mundo de fatos empíricos rígidos que o adulto. O mundo da criança tem uma mobilidade e uma transmutabilidade muito maiores"

"Quando a poesia perde de vista o maravilhoso, perde seu significado e sua justificativa. A poesia não pode prosperar em nosso mundo trivial e corriqueiro. O milagroso, o prodigioso e o misterioso são os únicos temas dignos de um tratamento verdadeiramente poético"

"Poetizar a filosofia e filosofizar a poesia - tal era a mais alta meta dos pensadores românticos. O poema verdadeiro não é obra de um artista individual: é o próprio universo, a única obra de arte que está sempre se aperfeiçoando"

"Todos nós sentimos, de maneira vaga e indefinida, os infinitos potenciais da vida, que silenciosamente esperam o momento em que serão despertados de seu sono para a luz clara e intensa da consciência"

"A imaginação do artista não inventa arbitrariamente as formas das coisas; mostra-nos essas formas em seu aspecto verdadeiro, tornando-as visíveis e reconhecíveis"

"Tem-se a impressão de que a realidade não só é acessível para as nossas abstrações científicas, mas também esgotável por elas. Mas assim que entramos no campo da arte isso se revela como uma ilusão, pois os aspectos das coisas são inúmeros, e variam de um momento para outro"

"(...) a mente primitiva as ignora e rejeita. Sua visão da vida é sintética, e não analítica. A vida não é dividida em classes e subclasses. É sentida como um todo contínuo e ininterrupto que não admite distinções nítidas e claras. Os limites entre as diferentes esferas não são barreiras insuperáveis; são fluentes e flutuantes"

*Ernst Cassirer in "Ensaio sobre o Homem - introdução a uma filosofia da cultura humana". Ed. Martins Fontes. SP. 2005.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Ou eu ou ela*



Poderíamos trazer
Tudo isto de volta
E se por vezes
Por um pouco que chorávamos
Fascinava-me o seu jeito
E a sua facilidade
De sorrir por um motivo qualquer
E meus olhos parados
Já se punham tristes
Na hora da despedida
E o adeus, até breve
Que nós murmurávamos
Muito mais parecia
Como um lamento ausente
Das saudades
Que já sentíamos..!!

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Para apreender mais de perto a operação da imaginação criadora, é preciso portanto virarmo-nos para o invisível interior da liberdade poética. É preciso separarmo-nos para atingir na sua noite a origem cega da obra"

"Falar mete-me medo porque, nunca dizendo o suficiente, sempre digo também demasiado (...)"

"No escritor o pensamento não dirige a linguagem do lado de fora: o escritor é ele próprio como um novo idioma que se constrói (...)"

"Contrariamente ao Ser e ao Livro leibnizianos, a racionalidade do Logos pela qual a nossa escritura é responsável obedece ao princípio da descontinuidade"

"Husserl é já, no seu estilo de pensamento, mais atento à historicidade do sentido, à possibilidade do seu devir, mais respeitador daquilo que, na estrutura, permanece aberto"

"O ato de compreender, que opõe á explicação e à objetivação, tem de ser o caminho principal das ciências do espírito"

"Artaud teve igualmente cuidado em marcar a sua discordância em relação à psicanálise e sobretudo ao psicanalista, aquele que julga poder segurar o discurso na psicanálise, deter a sua iniciativa e poder de iniciação"

"(...) O sonhador inventa a sua própria gramática"

*Jacques Derrida in "A escritura e a diferença". Ed. Perspectiva. SP. 2005. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Poéticas do indizível*



“(...) Graças às sombras, a região intermediária que separa o homem e o mundo é uma região plena, de uma plenitude de densidade ligeira. Essa região intermediária amortece a dialética do ser e do não-ser.”
                                                                       Gaston Bachelard

Uma crença muito antiga aprecia atualizar-se nesse enigmático hoje que um dia foi amanhã. Poderia ser o pretérito imperfeito de uma busca ou aquele quase nada onde tudo acontece. Atualização de um dialeto nem sempre dizível, se alimenta nas fontes inenarráveis, nos paradoxos, nas desleituras criativas.

Seu visar inédito sugere desvãos ao mundo que se queria definitivo. Costuma ser abrigo do acaso na versão do avesso das coisas. Ao referir o encantamento das pequenas devoções, parece ter a vocação de traduzir esse texto interminável, por onde a vida escoa seus segredos. Realiza um esboço sobre as tentativas de decifrar por inteiro um mundo que é mistério por natureza.  
  
A característica de ser imprevisível seria insuportável, não fora a poesia re_significada numa lógica delirante. No submundo dos outros é possível reconhecer parte do nosso, isso pode acontecer no elogio ou crítica, censura ou aplauso. Essa contradição parece fundamentar uma distância aproximada de cara metade. Assim ódio e paixão podem se reconhecer no mesmo objeto de desejo.

O transbordamento discursivo relata a vida num desses lugares onde os sonhos acontecem. A recriação estética imprecisa sua matéria-prima nas gavetas desmerecidas, na via marginal, no rastro dos rituais exóticos. Ao primeiro olhar, a inexatidão dos rascunhos aponta manuscritos ilegíveis. Há que se conviver em meio às brumas para aprender sua dialética, a trama significativa de existir absurdo. 
 
Talvez os personagens de cada um possam se esboçar na percepção de consciência alterada, oferecer leituras sobre os fenômenos ao seu redor, como uma ousadia retórica a testar o limite das palavras na relação com os extraordinários eventos.

Universo subjetivo inconformado com a definição refém de si mesma, ao deixar entrever sua fonte de originais, se alimenta nas ressonâncias dos ensaios irrefletidos.  As poéticas do indizível se associam em código próprio, para desvendar sua arquitetura irreal, reivindicam uma interseção nem sempre cabível a verdade dos consensos. Ao se colocar numa ótica de devaneio e invenção sua decifração percorre os instantes de um discurso que silencia. 

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico não filiado a Anfic

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A explicação médica unifica geralmente a alucinação e ignora seu caráter dialético, sua ação de superação"

"A admiração é a forma primária e ardente do conhecimento, é um conhecimento que enaltece o seu objeto, que o valoriza. Um valor, no primeiro encontro, não se avalia: admira-se"

"O negro alimenta toda cor profunda, é a morada íntima das cores. Assim o sonham os obstinados sonhadores"

"E é aqui que se pode captar a diferença entre as dialéticas da razão que justapõe as contradições para abranger todo o campo do possível e as dialéticas da imaginação que quer apreender todo o real e encontra mais realidade naquilo que se oculta do que naquilo que se mostra"

"A alquimia também entrega-se frequentemente a essa simples perspectiva dialética do interior e do exterior. Ela se propõe muitas vezes a 'revirar' as substâncias, como se revira uma luva. Se saber pôr para fora o que está dentro e para dentro o que está fora, diz um alquimista, és um mestre da obra"

"O vinho é realmente um universal que sabe tornar-se singular, quando encontra um filósofo que saiba bebê-lo"

"A raiz domina o obstáculo contornando-o. Ela insinua suas verdades; estabiliza o ser por sua multiplicidade"

"Nós somos seres profundos. Ocultamo-nos sob superfícies, sob aparências, sob máscaras, mas não somos ocultos apenas para os outros, somos ocultos para nós mesmos. E a profundidade é em nós, no dizer de Jean Wahl, uma transcendência"

"Em suma, nos nossos sonhos noturnos, retomamos inconscientemente a vida de nossos antepassados viajantes (...)"

"Por mais efêmero que seja o medo, está quase sempre na origem de um conhecimento"

* Gaston Bachelard in "A terra e os devaneios do repouso". Ed. Martins Fontes. SP. 2003.