sábado, 18 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) Bacon: (...) o entendimento humano é como um espelho falso, que, recebendo raios de modo irregular, distorce e descolore a natureza das coisas, que se misturam à própria natureza do espelho"

"Não somos a medida das coisas, mas os logrados pelas coisas. A Caverna é pessoal, uma toca fechada, isolada do mundo comum"

"Samuel Johnson (...) ensinou-nos que a essência da poesia é a invenção, no sentido de descoberta"

"(...) O que há de melhor e mais maduro em nós há de responder, integralmente, àquil que pretendemos enxergar"

"Não temos palavra adequada para explicar Shakespeare: ele escapa a qualquer categorização disponível"

"Lemos, penso eu, para sanar a solidão, embora, na prática, quanto melhor lemos, mais solitários ficamos"

"Nada explica Shakespeare, e nada pode reduzi-lo a uma explicação"

"Contemplamos na vasta escritura de Cervantes aquilo que já somos"

"Vivemos um intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece"

*Harold Bloom in "Onde encontrar a sabedoria ?" Ed. Objetiva. RJ. 2009. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Limites ou horizontes?*


​- Nosso relacionamento é aberto ou fechado?

- Por mim tanto faz.

- Desculpa, mas para mim não é assim. Só consigo me relacionar se houver fidelidade conjugal. Relacionamento fechado.

- OK, combinado.Vamos fechar, mas precisamos esclarecer algumas questões. Se meu personal trainer convidar para um café depois da aula e eu aceitar, isto é considerado infidelidade?

- Claro que não.

- Preciso lhe contar sobre o café? Não aconteceu nada, conversamos sobre dieta e exercícios.

- A principio, não é necessário que eu saiba tudo sobre sua vida. Tudo certo querida.

- Na outra semana, o personal me convida pra jantar.  Não vai rolar nada proibido, ele só quer me apresentar um programa de treinamento para a maratona de abril. 

Preciso lhe contar? Você acha isto uma forma de infidelidade conjugal?

- Confio em você querida, não precisa contar.

- Quinze dias depois, você vai viajar e o personal me convida para assistir um filme sobre a maratona de Paris em seu apartamento. Oferece-me um vinho, fico um pouco tonta e durmo com ele. Quando você retorna, exponho o que aconteceu e comunico que nosso relacionamento, antes fechado, agora deixou de ser. Você acha que ao narrar o fato fui fiel ou infiel a você? 

Limite é uma linha que delimita, separa, divide, afasta. Fisicamente pode ser representado por cercas, paredes e grades que dificultem a passagem de penetras indesejados. Dependendo do contexto, podem proteger ou vulnerabilizar. Minha dúvida é saber se, de fato, limites afastam ou são convites para invasões. Assaltantes preferem invadir mansões protegidas por muralhas ou casebres indefesos?

Cercas existenciais também são divisões que colocamos em nossas vidas e na vida dos outros. Servem para manter pessoas fora ou para aprisionar dentro. São bem menos delimitadas e muito mais frágeis que cercas físicas. Podem ser questionadas, alteradas, esticadas, ultrapassadas e até mesmo destruídas com o poder da palavra. Promessas e bons argumentos costumam remover paredes, mas os resultados nem sempre são promissores.

Para alguns, fidelidade é uma cerca existencial que se resume apenas ao lado hormonal. Relacionamento sexual fora do casal é traição. Ponto final,  todo o resto é permitido.  Para outros, fidelidade abrange bem mais que contato físico. Envolve também pensamentos, confiança, cumplicidade, sentimento, valores, preconceitos. Para esses, a cerca é quase uma muralha.

Até onde vai a fronteira da fidelidade? Será que João não traiu Maria todas as vezes que foi indiferente aos limites que impunha e ela questionava ameaçando transgredi-los? Ultrapassar limites seria um erro maior do que ficar aquém destes?

Aceitar um convite para jantar é um gesto de educação, mas qual o limite das concessões sociais? Às vezes o terreno é pantanoso, e onde o piso aparenta ser firme, uma taça de vinho pode desequilibrar a estrutura.

Vivemos uma época de limites nebulosos e até mesmo ausentes. Alguns casais, inseguros no relacionamento amoroso, precisam a todo custo colocar uma baliza qualquer para validar seus valores morais e sociais. Idealizam cercas para se aprisionar mutuamente, sem se dar conta que estão se posicionando como controlador e propriedade.

A obrigação de não ultrapassar o limite imposto faz com que o amor fique em segundo ou terceiro plano. Muitas vezes, é justamente a retirada do balizamento que determina de fato e de direito o limite, que não deveria ser a cerca e sim o sentimento e a sensibilidade. Relacionamentos deveriam ter limites ou horizontes?

Portas abertas nem sempre são um convite para entrar ou sair.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Um apetite de vida aumenta com o ardor das palavras. O poeta já não descreve - exalta. É preciso compreendê-lo seguindo o dinamismo de sua exaltação. Entra-se então no mundo admirando-o. O mundo é constituído pelo conjunto das nossas admirações"

"Os poetas, em seus devaneios cósmicos, falam do mundo na linguagem do mundo. As palavras, as belas palavras, as grandes palavras naturais, acreditam na imagem que as criou. Um sonhador de palavras reconhece numa palavra do homem aplicada a uma coisa do mundo uma espécie de etimologia onírica"  

"As palavras do mundo querem fazer frases. Sabe-o bem o sonhador que, de uma palavra que sonha, faz surgir uma avalancha de palavras"

"As cosmogonias antigas não organizam pensamentos, são audácias de devaneios, e para devolver-lhes a vida é necessário reaprender a sonhar"

"E que vem a ser um belo poema senão uma loucura retocada ? Um pouco de ordem poética imposta às imagens aberrantes ? A manutenção de uma inteligente sobriedade no emprego - ainda assim intenso - das drogas imaginárias. os devaneios, os loucos devaneios, conduzem a vida"

"O ser do sonhador invade aquilo que o toca, difuso no mundo. Graças às sombras, a região intermediária que separa o homem e o mundo é uma região plena de uma plenitude de densidade ligeira. Essa região intermediária amortece a dialética do ser e do não-ser"

"Que importam para nós, filósofo do sonho, os desmentidos do homem que reencontra, após o sonho, os objetos e os homens ? O devaneio foi um estado real, em que pesem as ilusões denunciadas depois. E estou certo de que fui eu o sonhador. Eu estava lá quando todas essas coisas lindas estavam presentes no meu devaneio. Essas ilusões foram belas, portanto benéficas. A expressão poética adquirida no devaneio aumenta a riqueza da língua"

*Gaston Bachelard in "A poética do devaneio". Ed. Martins Fontes. SP. 2001. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A brisa e o coração*


Uma brisa suave
Soprava vindo do sul
Trazendo boas lembranças
Mas parecia existir
Entre nós dois
Um muro de ar!
Uma ponte que ruíra
Afogando nossos abraços.
De agora em diante
O passado seria
Levado pelas águas
O futuro jogado
Na direção dos ventos.
Sentia, todavia
Toda vez que a via sorrir
Uma imensa gratidão
E sabia do dia
Que o seu coração
Se lhe abriria...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Noruega cria primeiro Hospital Psiquiátrico do mundo sem fazer uso de medicamentos***


Quem possui uma ideia sobre saúde mental, provavelmente não concebe a existência dela sem medicação. Na sociedade contemporânea, praticamente todas as "doenças" mentais são susceptíveis de serem tratadas por drogas, independentemente do grau, muito menos quais são suas particularidades em relação à história de vida do paciente.

Como resultado de uma maneira de entender os conceitos de saúde, paciente, medicina e bem-estar, entre outros, acredita-se que todos os seres humanos podem ser tratados da mesma maneira e que, por exemplo, uma depressão é idêntica em uma mulher de 50 anos e em um adolescente de 16. Em um homem que perdeu sua esposa ou uma jovem que não pode dormir à noite. E sob essa premissa, a todos são oferecidos a mesma solução: uma droga cuja promessa é trazer "equilíbrio", o que quer que isso represente. Além disso, essa compreensão da saúde mental é tão dominante que pensar em outras alternativas pode ser considerado um absurdo, algo realmente louco.

 No entanto, na Noruega, um projeto está sendo promovido buscando demonstrar a viabilidade de outra alternativa, ou seja, que é possível separar a saúde mental e psiquiátrica da abordagem farmacológica que dominou nossa cultura de "saúde" nos últimos 50 anos.

Na remota cidade de Tromso, no norte da Escandinávia, é onde fica o Hospital Psiquiátrico de Asgard, que já na entrada anuncia sua particularidade: " behandlingstilbud medikamentfritt ", (livres do tratamento de drogas) slogan promovido pelo próprio Ministério da Saúde do país e que, entre outros fins, procura explorar outras formas de tratar a mente e seus distúrbios.

Qual é a alternativa? "Ouvir o paciente", disse Merete Astrup, diretora da instituição. Ela descreve a especificidade dessa "nova" perspectiva:

"É uma nova maneira de pensar. Antes, quando as pessoas procuravam ajuda, elas sempre recebiam as necessidades dos hospitais, e não o que os pacientes queriam. Estávamos acostumados à dizer aos pacientes: 'este é o melhor para você'. Mas agora dizemos: 'o que você realmente quer?'. E eles podem dizer: 'estou livre. eu posso decidir'".

Da mesma forma, Magnus Hald, chefe de serviços psiquiátricos do Hospital Universitário do Norte da Noruega, acrescenta:

"Devemos considerar que a perspectiva do paciente é tão valiosa quanto a do médico. Se os pacientes dizem que isso é o que eles querem, parece bom para mim. Trata-se de ajudar as pessoas a continuarem com suas vidas da melhor maneira possível, e devemos ajudar a continuarem tomando medicação se é o que elas quiserem, e apoiá-las se quiserem experimentar [o tratamento] sem medicação. Devemos tornar isso possível".

Esses dois testemunhos expressam com simplicidade o principal problema da psiquiatria moderna: o lugar secundário para o qual ele relegou a história não do paciente, mas da pessoa.

Tanto quanto à abordagem cientificista parece inapelável, a verdade é que, no que diz respeito à mente, suas "doenças" não são o resultado exclusivo de desequilíbrios neuroquímicos. Loucura, depressão, ansiedade e outros distúrbios geralmente são sintomas nos quais às circunstâncias de nossas vidas são condensadas, mas que muitas vezes não compreendemos e ainda não exploramos.

Em outras palavras: não há duas pessoas no mundo que estão tristes pelos mesmos motivos. No entanto, a partir de uma abordagem moderna da mente humana, em vez de tentar entender essas razões, para todos os indivíduos são oferecidos a mesma solução: um antidepressivo.

No momento não é possível saber até que ponto este projeto lançado na Noruega chegará em outras partes do mundo. Entretanto, o mero gesto de ouvir o paciente psiquiátrico é, para os médicos que os tratam, um grande passo cuja direção talvez seja uma compreensão da saúde e do bem-estar como estados que fluem diretamente da subjetividade e das circunstâncias pessoais.

Comentário:

A iniciativa de estabelecer um modelo de tratamento psiquiátrico sem o uso de drogas vai na contramão dos interesses da indústria farmacêutica, motivo pelo qual provavelmente não ganhará destaque essa abordagem e, invés disso, deverá ser combatida por outros "especialistas".

Do ponto de vista estritamente acadêmico, essa abordagem possui ampla fundamentação teórica e é mais coerente do que os métodos atuais aplicados em saúde mental, em sua maioria frutos do modelo biomédico de saúde.

Três textos publicados aqui no blog estão em harmonia com esse conceito, onde a noção de "doença mental" é questionada, bem como o diagnóstico de depressão e o chamado Transtorno de Hiperatividade e Impulsividade. São leituras indispensáveis para quem deseja ampliar sua visão sobre o assunto. São eles:

"Pedofilia é doença? Entenda a estratégia do ativismo pedófilo por trás dessa mentira teórica".
"Depressão - A moda psiquiátrica mais famosa do século XXI"
"O diagnóstico de TDAH é útil ou prejudicial? - Informações importantes".

* Fonte: www.opiniaocritica.com.br
** Ainda se fala em 'saúde mental', 'patologias', 'normalidade e loucura'....conceitos e abordagens ideologizadas (Michel Foucault) mas estão chegando, quem sabe ...!!? Aqui na colônia ? Bem... vamos tomar um café ? HS

domingo, 12 de novembro de 2017

A Fala Cotidiana contra a Verdade*


“O mundo inteiro nos é oferecido, mas por meio do olhar.”
Maurice Blanchot

Por aqui, no país de orientação religiosa pós-liberal, na capital, Porto Alegre, um movimento pela moralidade parece estar além dos deuses; no lugar das decisões mitológicas prevalece a orientação de ordem político-social-moralista. O que deseja implantar como normal e, quiçá, lei, no futuro, vedar olhos em nome de um pretenso desejo de punição aos que pensam contrário. Fadiga dos tempos, o moralismo toma conta do corpo que pensa sem a razão e leva à força toda a diferença na guilhotina do espetacular.

Em tempo de democracia o que cair na rede é válido, até as frustrações de um espírito conservador, que, em forma de ironia, sacraliza o cotidiano. Para eles, os moralistas, a arte deve ser controlada por guardiães do bom costume, como se o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, além de pastor, tomasse o controle dos corações e dissesse o que é o lado bom e o lado mau das cabeças.

Na cultura Ocidental o tema é recorrente, desde que a mitologia foi tomada de assalto pelo racional, isso lá distante, na Grécia da epopeia, no lugar em que existia o mito que se fundiu com o racional, o pensamento se formou. Um mundo vive de idas e vindas, mas não permitir que o mito tome conta do “sagrado” invenção para dominar o racional em relação ao medo do mito, o homem se formou.

A educação, no entendimento dos que pensam que tanto faz existir o histórico, o lado mais obscuro do homem está na sua cabeça. Foi criado o bem para eliminar o outro lado. As religiões monoteístas controlam tudo, menos a tara do conservador, nem a gula dos ditadores.

Aqui, o ditador moral, o que move o mundo sendo movido por sua tentativa de cura ao se salvar da morte. Momentâneo. O homem é um passo do desconhecido. Sou do lado anárquico da humanidade. A cultura no seu confinamento moralista empobrece o crivo do pensar. Nem mesmo se tem mais diálogo quando, hoje, na contemporaneidade, se lavam as mãos em nome da purificação do espírito, impondo um lado que, para mim, o grotesco é parte desse lado, então, uniformizar as mentes é uma forma de controle do olhar, uma forma de vigiar na paz democrática, no medo do desconhecido. Ao falar um pouco das origens, a partir da leitura e do ver cinematográfico, do olhar perdido no horizonte, sinto-me distante cada vez mais do cinismo democrático e religioso deste século.

Não sinto saudades do que vivi, a corrente da vida é parte do cotidiano que escapa das mãos do guardião social. Tem uma saída, o possível está na insignificância da linguagem, burlar os olhos, desvelar os véus, mostrar a dor da realidade que já cansou da simples nudez, mostrar o que tem por dentro, pois todo significado pode forjar novas linguagens e embaralhar os códigos do guardião.                      
Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS