sábado, 29 de abril de 2017

O que aprender, torne seu *









Uma coisa é você escrever sobre o que leu e assimilou expondo com fórmulas e conceitos decorados – coisa muito comum aos que estudam Heidegger, como eu. Outra, é colocar por escrito o que foi lido e confrontado com as próprias experiências para que, comprovada sua validade, possa expor como aquilo que foi devidamente incorporado à vivência. Neste caso, mais do que entender o que o autor escreveu, você tornou aquele conhecimento integrado à sua própria experiência.
Desse modo, aprender o conteúdo de determinado autor não nos torna devedores do mesmo a ponto de, em toda afirmação, ser necessário mencioná-lo. Se desde a infância nosso conhecimento é construído a partir de inúmeras experiências e do estudo de diversos autores, toda nossa expressão é uma derivação ou assimilação do que culturalmente nos foi deixado. Nem por isso devemos escrever e falar dizendo a todo o momento de onde aprendemos.

A menção deveria ser feita em eventos específicos como, por exemplo, em trabalhos acadêmicos e em conversas, no caso em que uma frase ou passagem relevante possa ser expressa. Muitas vezes, a menção ao autor revela a falta de nossa assimilação na própria experiência – ou até um apelo a autoridade em relação a algo sobre o qual não temos convicção. Nesse caso, referir-se a um dito ou ideia alheia demonstra admiração, inquietação ou interesse, mas ainda pode ser algo estranho a nós.
Em outras palavras, somos a soma inevitável do que experienciamos no e do mundo. Salvo o caso em que psiquicamente o sujeito não é afetado pelo ambiente, a vida nos constitui a partir do que vivenciamos. É assim que além das experiências cotidianas, para compreendermos a realidade de modo mais abrangente é necessário ampliar o horizonte de possibilidades. Para isso a leitura é fundamental. O que ler? Os clássicos da literatura e, caso queira dar um passo além, clássicos da filosofia. Os primeiros irão abranger o universo imaginativo. Ampliarão as possibilidades da experiência da vida cotidiana. Abrirão as viabilidades de comportamentos morais entre tantos outros ganhos. Também contribui com a aquisição da habilidade para dar “corpo” aos conceitos filosóficos. Nesse caso, sem literatura a compreensão filosófica fica bastante limitada.

Uma vez dita a relevância da literatura, passemos para a filosofia. Enquanto a primeira abarca o universo imaginário para compreender as possibilidades da experiência, a filosofia abrange a perspectiva da própria realidade em vista de vê-la tal como é. Todavia, não se trata de dizer o que é a realidade. Isso é tarefa secundária e sua viabilidade é limitada. A filosofia busca antes ver, contemplar a realidade, experienciá-la em sua totalidade; inevitavelmente as palavras que a descrevem serão limitadas. Exemplo disso pode ser encontrados nos resultados a que chegaram os pré-socráticos ao buscar o princípio que dava unidade à physis – água (Tales), indeterminado (Anaximandro), ar (Anaxímenes), devir (Heráclito) etc. Diante disso, o que distingue um clássico?
Um dos fatores que caracteriza um clássico é a abrangência do que nele é dito sobre as experiências humanas no âmbito universal. Contudo, quem escreve não experienciou a totalidade das possibilidades contidas na realidade. É aí que entra a realidade mesma como parâmetro para pensar a validade do clássico. Para isso é preciso considerar dois pontos. O primeiro diz respeito ao que foi escrito. Trata-se de uma expressão limitada, organizada lógica e gramaticalmente para que seu sentido seja compreendido. Todavia não é o sentido do texto o mais importante, mas aquilo a que ele se refere. A validade é alcançada na medida em que o texto, como uma forma “imaterial” receba a experiência “concreta” do leitor para preenchê-la.
Nesse sentido, talvez um dos erros de nossa educação filosófica esteja em ter como meta aprender o pensamento de um filósofo ao invés de utilizá-lo como meio para compreender a realidade. Não duvido do valor da pesquisa aprofundada sobre Aristóteles, como faz Pierre Aubenque ou da filosofia antiga, apresentada em louváveis volumes escritos por Giovani Reale. Todavia, o foco da filosofia é a vida e os problemas nela contidos. A busca por compreendê-la requer o diálogo com aqueles que pensaram nesse mesmo assunto.

No entanto, o que valida nossa pesquisa é a construção de uma compreensão do problema a partir de nós mesmos, daquilo que assimilamos dos filósofos anteriores e incorporamos ao nosso modo de ver o mundo. Ainda que não encontremos meios de expressá-lo, a visão adquirida já é um ganho em si. Nem todos têm vocação para a filosofia no sentido estrito. Todavia, conforme nos ensinou Aristóteles, todos tendem ao saber; e isto deveria servir de ponto de partida para que todos, de algum modo, buscassem sair de suas zonas de conforto a fim de aprender um pouco mais.
*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
Filósofo. Filósofo Clínico. Livre Pensador.
Teresópolis/RJ

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*












"Se possuem alguma fórmula ela certamente não é explicativa, e o prefiro não continua sendo uma fórmula cabalística, assim como a do Homem do subsolo, que não pode impedir que 2 e 2 sejam igual a 4, mas que não se resigna a isso (prefere não 2 e 2 sejam igual a 4). O que conta para um grande romancista, Melville, Dostoievski, Kafka ou Musil, é que as coisas permaneçam enigmáticas e, contudo, não-arbitrárias: em suma, uma nova lógica, plenamente uma lógica, mas que não nos reconduza à razão e que capte a intimidade da vida e da morte"

"Vemos claramente por que o real e o imaginário tinham de ser superados, ou mesmo intercambiar-se: um devir não é imaginário, assim como uma viagem não é real. E o devir que faz, do mínimo trajeto ou mesmo de uma imobilidade no mesmo lugar, uma viagem; e é o trajeto que faz do imaginário um devir. Os dois mapas, dos trajetos e dos afetos, remetem um ao outro"

"(...) explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os mapas dos trajetos são essenciais à atividade psíquica"

"O trajeto se confunde não só com a subjetividade dos que percorrem um meio mas com a subjetividade do próprio meio, uma vez que este se reflete naqueles que o percorrem"

"A questão não é a dos dois indivíduos, os dois autores, mas de dois tipos de homem, ou de duas regiões da alma, de dois conjuntos inteiramente diferentes"

"Chega às novas figuras quem sabe transpor o limite. Talvez Wolfson permaneça na margem, prisioneiro da loucura, prisioneiro quase razoável da loucura, sem poder arrancar de seu procedimento as figuras que ele apenas entrevê, pois o problema não consiste em ultrapassar as fronteiras da razão, e sim em atravessar como vencedor as da desrazão (...)"

"(...) uma linha de feitiçaria que foge ao sistema dominante, Kafka faz o campeão de natação dizer: falo a mesma língua que você e, no entanto, não compreendo sequer uma palavra do que você diz"

"A neurose, a psicose não são passagens de vida, mas estados em que se cai quando o processo é interrompido, impedido, colmatado. A doença não é processo, mas parada do processo, como no 'caso Nietzsche'"

*Gilles Deleuze in "Crítica e Clínica". Editora 34. SP. 2004.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A natureza das diferenças*










A SuperTerra se revela
Mostra-nos nosso verdadeiro tamanho
coloca-nos diante a real pequenez
Será que aprenderemos?
Libertar do poder
Compartilhar com amor
Aceitar as diferenças
Aceitar nossa natureza
Ainda há tempo! 
Saturno faz a faxina
Convoca-nos ao trabalho sério
Não dá mais para tantas
Vaidades, orgulho, prepotência
Ou abrimos a flor de lótus no peito
Ou seremos devorados pela sombra
É hora da ação determinada
Do diálogo, do dar as mãos...
É possível...
Não é utopia, é o acender a luz
Consciência!

*Dr. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*








"Já Platão havia reconhecido que a palavra humana possui um caráter de discurso, isto é, expressa a unidade de um pensamento através da integração de uma multiplicidade de palavras, e tinha desenvolvido, em forma dialética, essa estrutura do logos"

"A dialética, como arte de conduzir uma conversação, é ao mesmo tempo a arte de olhar juntos na unidade de uma perspectiva isto é, a arte da formação de conceitos como elaboração da intenção comum"

"(...) Nesse sentido a pessoa a que chamamos experimentada não é somente alguém que se fez o que é através das experiências, mas também alguém que está aberto a experiências"

"(...) o homem experimentado é sempre o mais radicalmente não dogmático, que, precisamente por ter feito tantas experiências e aprendido graças a tanta experiência, está particularmente capacitado para voltar a fazer experiências e delas aprender"

"Elogia-se, portanto, a compreensão de alguém, quando ele, julgando, consegue deslocar-se completamente para a plena concreção da situação em que o outro tem de atuar"

"(...) o homem compreensivo não sabe nem julga a partir de um simples estar postado frente ao outro de modo que não é afetado, mas a partir de uma pertença específica que o une com o outro, de modo que é afetado com ele e pensa com ele"

"Quem está dominado por suas paixões se depara de repente com o fato de que não é capaz de ver numa situação dada o que seria correto"

"Na verdade, o horizonte do presente está num processo de constante formação, na medida em que estamos obrigados a pôr à prova constantemente todos os nossos preconceitos"

*Hans-Georg Gadamer in "Verdade e Método - traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica" Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 1997.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O amor e a saudade*



Conduza-me pela mão
Por um campo de centeio
Para saciar a fome
De todas as belezas.
Me enxague as mãos
Neste cristalino córrego
De qualquer sentimento
Que possa machucar.
Escrever sobre a vida
É amar duas vezes,
Várias vezes.
Outras tantas vezes
É chamar a saudade
Para bem junto de si.

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*













"Para Platão o mito também encerra em si um determinado teor conceitual; pois ele é aquela única linguagem conceitual na qual se pode exprimir o mundo do vir-a-ser. Também não pode haver outra apresentação que não seja mítica daquilo que nunca é, mas sempre 'vem a ser', daquilo que não perdura identicamente determinado, como os produtos do conhecimento lógico e matemático, mas que de momento a momento aparece como outro"

"O processo mitológico não tem a ver com objetos da natureza, mas com as puras potências criadoras, cujo produto originário é a própria consciência"

"Todo começo do mito, especialmente toda concepção mágica de mundo, está impregnado dessa crença na essência objetiva e na força objetiva do signo. A magia da palavra, a magia da imagem e a magia da escrita formam o acervo fundamental da atividade mágica e da visão mágica de mundo"

"(...) Mas a autêntica força mítico-mágica da linguagem só vem à tona quando já aparece na forma de som articulado"

"(...) O mesmo papel que cabe à imagem cabe também à sombra de alguém. Ela também é uma parte real vulnerável dessa pessoa e todo ferimento da sombra é um ferimento na própria pessoa. É proibido pisar na sombra de alguém, pois com isso se pode transmitir uma doença à pessoa"

"Também aqui, como no desenvolvimento de todas as 'formas simbólicas', luz e sombra estão correlacionadas. A luz se anuncia e se mostra na sombra que projeta: o puramente 'inteligível' tem o sensível como seu oposto, mas esse oposto ao mesmo tempo constitui seu correlato necessário"

*Ernst Cassirer in "A filosofia das formas simbólicas - O pensamento mítico". Ed. Martins Fontes. SP. 2004.

domingo, 23 de abril de 2017

Cabelos de Baudelaire*


Certas cores, cabelos que esvoaçam no tempo,
mistura cheiros e sons, açafrão no tilintar do outono,
Tinta que borda a pele, marca a alma, o frio se aproxima.
Ilumina partes do corpo, o tom certo, é como a luz,
Atravessa fendas, melodias espalham, clarão que dança,
Como melodia na luz assombradas de pensamento.

Dedico meu tempo a teus cabelos, a poética imortal,
Mesmo que não crês no Nada, a cabeleira brilha,
O tempo não apaga os versos, o tempo esquece o presente.
Como o barco de Debussy, eleva a dor diante da música,
Em perdidas matemática antes do sol do meio-dia,
Fios voam mar dentro de luz, fonte da vida, os cabelos em direção à margem,
Morre no horizonte o que oculta. 

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 22 de abril de 2017

A palavra dialética*









A rigidez do raciocínio bem estruturado, nos relatos da palavra definida, abriga um dizer de natureza inconformada. Antítese da comunicação inicial, esse teor descompassado, ao ser contradição, prescreve novos rituais para comunicar. As propostas por desmerecê-lo reafirmam sua natureza de transgressão. Seu rumor de não palavra, ao ser dizível, aponta uma estética da desrazão. 
Esses relatos interditos na expressividade buscam emancipar as fronteiras discursivas. Sua desconformidade inaugura espaços, oferece ambientes para novos experimentos narrativos. Ao quebrar protocolos emancipa aquilo por vir. A palavra dialética contém em si mesma: afirmação e negação. Um território com cheiro de terra nova se apresenta em cada página. 
Na ruptura com aquilo que já foi novidade, se empenha em querer mais. Acolhe as dinâmicas da crise como um anúncio. Sua referência de inspiração são as autogenias precursoras. Ao dizer não a rigidez do discurso completo, bem acabado, sua alternativa é uma poética das incompletudes. Sua ótica de reverência à vida persiste em ser ensaio criativo. 
Nessa arte de evidenciar frestas se rasura a norma definitiva. Suas vírgulas, espaços em branco, acenam um devir de raridades. Sua lógica subversiva, ao denunciar refúgios na palavra consentida, equivale a uma premonição. Assim é possível vislumbrar algo mais além de fracassos, acertos, dúvidas. São muitas as invenções contidas na desorganização preliminar do sujeito. Sua força emancipadora reside nos anúncios de originalidade.
Sua intencionalidade de negação faz girar a vida aprisionada nas teses de sentido único. A ideia, ao sair de si mesma, desconstrói certezas para inaugurar verdades. Desse ponto de vista uma transcendência parece flertar com os descaminhos do cotidiano. Quiçá um devir a flanar entremeios da rigidez discursiva, significando-se como arte a emancipar fronteiras.
*Hélio Strassburger