terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o ser de tudo aquilo que é mora na palavra. Nesse sentido, é válido afirmar: a linguagem é a casa do ser"

"(...) é indispensável perdermos o hábito de só ouvir o que já compreendemos"

"Não conseguiremos escutar nada sobre a saga do dizer poético enquanto formos ao seu encontro guiados pela busca surda de um sentido unívoco"

"O delirante pensa e pensa mais do que qualquer um. Mas nisso ele fica sem o sentido dos outros. Ele é um outro sentido"

"O desprendido é delirante porque está a caminho de outro lugar"

"O estranho está em travessia. Sua errância não é porém de qualquer jeito, sem determinação, para lá e para cá. O estranho caminha em busca do lugar em que pode permanecer em travessia. O estranho segue, sem quase dar-se conta, um apelo, o apelo de se encaminhar e pôr-se a caminho do que lhe é próprio"

"Lembra Humboldt: 'Apreendida em sua verdadeira essência, a linguagem é algo consistente e, a cada instante, transitória. Mesmo a sua preservação na escrita é sempre uma preservação incompleta, mumificada, mas necessária quando se busca tornar perceptível a vida de seu pronunciamento'"

"(...) o poder suave da simplicidade de um saber escutar"

"Talvez na palavra 'caminho', Tao, resguarde-se o mistério de todos os mistérios da saga pensante do dizer, ao menos, quando deixamos esses nomes retornarem para o que neles se mantém impronunciado"

*Martin Heidegger in "A caminho da linguagem". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 2004.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A palavra vertigem*



"O idioma está sempre em movimento, mas o homem, por ocupar o centro do redemoinho, poucas vezes percebe essa mudança incessante."                    
                                                    Octávio Paz

Um ser irreconhecível se desdobra na expressividade fugaz. Seu aspecto de invasor ameaça o saber encastelado, seu ritmo alucinado de vivências subjetivas re_apresenta um devir quase esquecido. Ao pensar o impensável realiza uma excursão pela partícula de infinito desconsiderada. Sua ótica de incerteza desconstrói o mundo de uma só verdade.  

Os sons murmurados nas entrelinhas apresentam o instante entre um e outro. Sua lógica de estorvo e o caráter de percepção excessiva denuncia espaços, alarga escutas, vislumbra imaterialidades. As associações desgovernadas esboçam um contato fugaz com o absurdo. Parece recordar que a vida não é definitiva.

Sua estranha dialética é ser registro de uma ausência. Como um acesso de desrazão, seu teor de expressividade não cabe numa definição. Nas possibilidades entreabertas pelo discurso novo, uma sensação de embriaguez involuntária, gestada na própria estrutura, ensaia lonjuras desconhecidas. 

A palavra vertigem aparece como um fundamento da lógica dos excessos. Em sua ótica de nuance se estabelecem múltiplas promessas. Como um não-lugar em vias de acontecer, sua tensão desconfigurada e de viés imprevisível, parece interrogar a vida para reinventar o sonho.  
   
Talvez sua maior aventura seja precipitar novas ideias, recomeços. Seu discurso, até então contido, elabora um novo dialeto. A velocidade das idas e vindas descobre itinerários por onde a matéria-prima se refugia. Seu caráter obtuso expõe fragmentos de invisibilidade, transgressão de limites, estrada querendo partir.

Os percursos da singularidade, quando em direção às ideias complexas, apresentam estéticas ainda não lapidadas. O deslize da pena do autor, pelos subúrbios de si mesmo, tenta descrever o refúgio desses inéditos. Assim um visar súbito encontra o inclassificável.

Numa perspectiva de lógica delirante, ao decifrar sua linguagem, é possível se ter subjetividade, tempo e lugar como reféns um do outro. Nela o teor precursor reencontra as poéticas da não-lucidez, reivindica a palavra vertigem para ressoar um mundo por vir.

*Hélio Strassburger in "A palavra fora de si - Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem". Ed. Multifoco. RJ. 2017.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua criação, flutua no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis"

"Um texto é um universo aberto em que o intérprete pode descobrir infinitas interconexões"

"O pensamento hermético afirma que nossa língua, quanto mais é ambígua e polivalente, e quanto mais usa símbolos e metáforas, tanto mais é particularmente adequada para nomear a Unidade onde ocorre a coincidência dos opostos" 

"(...) é possível muitas coisas serem verdadeiras ao mesmo tempo, mesmo que se contradigam"

"No mito de Hermes, encontramos a negação do princípio de identidade, de não-contradição, e do terceiro excluído, e as cadeias causais enrolam-se sobre si mesmas em espirais: o 'depois' precede o 'antes', o deus não conhece limites espaciais e pode, em diferentes formas, estar em diferentes lugares ao mesmo tempo"

"O novo irracionalismo hermético oscila, por um lado, entre místicos e alquimistas e, por outro, entre poetas e filósofos, de Goethe a Gérard de Nerval e Yeats, de Schelling a Franz von Baader, de Heidegger a Jung. E em muitos conceitos pós-modernos de crítica não é difícil reconhecer a ideia do contínuo deslocamento do significado"

"Para salvar o texto - isto é, para transformá-lo de um ilusão de significado na percepção de que o significado é infinito - o leitor deve suspeitar de que cada linha esconde um outro significado secreto; as palavras, em vez de dizer, ocultam o não-dito; a glória do leitor é descobrir que os textos podem dizer tudo, exceto o que seu autor queria que dissessem; assim que se alega a descoberta de um suposto significado, temos certeza de que não é o verdadeiro; o verdadeiro é um outro e assim por diante; os hylics - os perdedores - são aqueles que terminam o processo dizendo: 'compreendi'" 

"O leitor real é aquele que compreende que o segredo de um texto é seu vazio"

*Umberto Eco in "Interpretação e superinterpretação". Ed. Martins Fontes. SP. 1993.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Doce Noturno*



“Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida”
             Cartola

Vive-se a ironia desprovida de vida, ir lá no fundo,
Escavar a alma, atracar com unhas e sede − O copo.
O veneno da maldição, combinar morte com dinheiro,
Esfregar mãos de felicidade, contar os feitos,
Esconder os defeitos da dor, promover a vida,
Escrever no face e se glorificar do intento.
O poder de contrariar a ignorância do cérebro,
A inteligência do berço, do embalar, enlatar e aprontar.
Toda compota tem seu apodrecimento,
Toda maldade é o que se redime
Nem sempre é o perene o que se persegue,
A caça é o que pode morrer engasgado.
É o fim dos tempos logo ali,
Atrás da noite vêm as luzes,
O sol tardio é a dor infinita,
De tanto ler o ver é insignificante.
O que pode estar oculto,
É como estar abrindo a cabeça,
O dia é nos olhos unidos,
O corpo, o prazer é o texto em cor.
Depois deste dia, uma flor é como a dor,
Desmancha a métrica confunde o ritmo.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) com que largos intervalos aparecem as boas obras, e como são raras as publicações seladas por um talento verdadeiro"

"Estabelecei a crítica, mas a crítica fecunda, e não a estéril, que nos aborrece e nos mata, que não reflete nem discute, que abate por capricho ou levanta por vaidade; estabelecei a crítica pensadora, sincera, perseverante, elevada"  

"Para realizar tão multiplicadas obrigações, compreendo eu que não basta uma leitura superficial dos autores, nem a simples reprodução das impressões de um momento (...)"

"O crítico deve ser independente - independente em tudo e de tudo - independente da vaidade dos autores e da vaidade própria"

"(...) 'Flores e frutos' veio mostrar-me que o gênero e as qualidades (...) podiam aparecer nestas regiões com a mesma riqueza de graça, facilidade de rima e virgindade de ideias (...) os versos do Sr. B. Seabra respondem a diversos ecos do coração ou do espírito do poeta"

"(...) o livro do Sr. B. Seabra é um ensaio, uma prova mais séria para admissão no lar das musas"

"Não se contesta às almas poéticas certa sensibilidade fora do comum e mais exposta por isso ao choque das paixões humanas e das contrariedades da vida"

"É como um companheiro da mesma oficina que eu leio os versos do poeta e indico as minhas impressões"

"(...) Da 'Casinha de sapé' já disse que é uma das melhores do livro; acrescentarei que ela basta para indicar a existência do fogo sagrado no espírito do poeta"

"O tempo para os dons do espírito é um meio de desenvolvimento; a inspiração que se aplica cresce e se fortalece, em vez de diminuir e esgotar-se"

"Viajar é multiplicar a vida. De país em país, de costumes em costumes, o homem que nasceu com propensão e gosto para isso, renova-se e transforma-se. Mas, fique bem claro, é preciso ter gosto e propensão; á preciso ser poeta" 

*Machado de Assis in "Crítica Literária - edição de 1910". Ed. W. M. Jackson Inc. RJ.