domingo, 16 de junho de 2019

As manchas verdes na janela*



A saudade só persiste como dor enquanto continua apegada num passado que ainda não passou. E isso se dá somente quando o autoconhecimento ainda não é suficiente para transbordar-se em poesia que irriga e faz tudo que fora vivido florescer em gratidão para deixar a paz reinar.

Pois, é das memórias que nos causam prazer e alegrias que obtemos mesmo sem querer a inspiração necessária para prosseguir liberto de tudo que já não faz mais sentido agarra-se agora.

E quanto as memórias que nos provocam dor e lágrimas, nos resta galgar a capacidade salvadora de extrair as lições mais prioritárias e transformadoras ao ponto de transcender. É por isso que quando alçamos voo a determinado patamar de sabedoria ou de poesia numa intencional redundância de sentir e significar, qualquer saudade se converte em gratidão e paz.

Portanto, cada vez mais só me resta agradecer pela poesia que a feliz contaminação que as manchas verdes oriundas literalmente das janelas da sua alma me causaram um dia... Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Filósofo Clínico. Educador. Livre Pensador.
Uberlândia/MG

sábado, 15 de junho de 2019

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) uma influência anônima, assim como o sangue dos antepassados se movimenta em nós constantemente, misturando-se ao nosso e formando com ele a coisa única e irrepetível que somos em cada curva de nossa vida"

"Não sabia estar em transição ? Desejava algo melhor do que transformar-se ? Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho"

"Se lhe puder dizer alguma coisa mais, é isto: não pense que aquele que o procura consolar leva uma vida descansada no meio das palavras simples e discretas que às vezes fazem bem ao senhor. A vida dele comporta muito sacrifício e muita tristeza e fica-lhes muito atrás. Mas se assim não fosse, ele nunca podia ter encontrado aquelas palavras"

"Estamos colocados no meio da vida como no elemento que mais nos convém. Também, em consequência de uma adaptação milenar, tornamo-nos tão parecidos com ela que, graças a um feliz mimetismo, se permanecermos calados, quase não poderemos ser distinguidos de tudo o que nos rodeia"

"(...) há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles"

"(...) Numa ideia criadora revivem mil noites de amor esquecidas que a enchem de altivez e altitude"

"As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas"

"As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera"

*Rainer Maria Rilke in "Cartas a um jovem poeta". Ed. Globo. Porto Alegre/RS. 1976.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

O tempo que resta*



"O tempo que resta" é um dos últimos filmes a que assisti. É francês e mostra os meses finais de vida de um jovem fotógrafo que descobre sofrer de um tipo de câncer já em processo de metástase. O filme é sensível, triste e tem aquele tempo e tom especialíssimos que só os europeus sabem imprimir nas produções cinematográficas.

Em alguma medida, "O tempo que resta" lembra outro filme: "O poder além da vida". Este fala também de um jovem que precisa encarar a morte ou a vida depois de sofrer um acidente de trânsito enquanto se prepara para participar das olimpíadas. Com os movimentos limitados, se vê obrigado a deixar para trás a vida de noitadas, mulheres e bebidas, contando com o auxílio e inspiração de um senhor que o jovem apelida de "Sócrates".

A diferença das duas obras é que, no primeiro caso, o personagem principal desiste de viver e, no segundo, a tragédia serve como divisor de águas na trajetória do jovem, convidando-o a adotar valores e princípios mais elevados. Impossível não se sensibilizar tanto com uma como com outra obra e não por acaso lembro imediatamente de uma amiga que se diz ateia e que teme o acontecimento de uma grande tragédia na própria vida para que nela desperte a consciência sobre a existência de Deus.

Afora argumentos religiosos ou espiritualistas sobre a existência ou não de uma divindade, fato é que, para grande parte das pessoas, é necessária uma dor imensa ou perda para que atente para o lado bom da vida. São inúmeros os relatos de pessoas que perceberam o modo de vida maluco que levavam só depois de um impacto emocional violento.

Lembro que, ainda na adolescência, considerando que pretendo viver pelo menos 80 anos, calculei quantos dias de vida me restavam. Surpresa, cheguei à conclusão de que era muita coisa para apenas cumprir o ciclo de nascer, crescer, reproduzir e morrer, ocupando boa parte da vida produtiva para acumular bens e recursos que seriam gastos na terceira idade, para tratar doenças decorrentes de um modo de vida inadequado.

Desde então não espero notícias ou fatos ruins, muito embora eles tenham acontecido, para viver aquelas coisas simples do cotidiano que tanto bem fazem ao físico, ao emocional e espiritual. Tento me convencer de que este é o jeito novo de viver, o jeito de uma nova era, mais iluminada e feliz, e, na minha fantasia feita realidade é assim mesmo. Independente do tempo que mes resta, é uma tentativa de potencializar o poder de viver.

*Sandra Veroneze
Jornalista, Escritora, Editora. Filósofa Clínica. 
São Paulo/SP

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"A loucura, conforme sugeri há algum tempo, é fabricada, num certo sentido, por alienistas. Em outras palavras, a Psiquiatria produz a esquizofrenia ou, mais precisamente, os psiquiatras criam esquizofrênicos"

"(...) na medida em que é concedido aos psiquiatras o privilégio, em sociedades livres, de tratar pessoas adultas contra a vontade delas - um privilégio de que outros médicos e profissionais não gozam -, a psiquiatria torna-se assimilada a jurisprudência e ao direito carcerário; em suma, torna-se uma disciplina para controlar os desviantes, não para curar doenças"

"Toda a história da psiquiatria se baseia aparentemente na premissa - inexplícita, mas por isso mesmo ainda mais importante - de que os psiquiatras têm o direito a 'diagnosticar' qualquer pessoa, em qualquer parte, viva ou morta, quer ela goste ou não"

"(...) a esquizofrenia é um símbolo sagrado da psiquiatria, da mesma forma que, digamos, o Cristo crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo"

"Lembrando os ensinamentos de Ronald Laing:'O homem futuro verá que aquilo a que chamamos 'esquizofrenia' foi uma das formas em que, frequentemente através de pessaos comuns, a luz começou a penetrar através das brechas de nossas mentes excessivamente fechadas'" 

"Quando os guardiães de manicômios chamam de 'pacientes' seus prisioneiros e de 'doenças' o (mau) comportamento de seus prisioneiros, e quando se intitulam 'doutores' e chamam suas punições de 'tratamentos', eles estão, com efeito, usando conosco (e possivelmente com eles mesmos) o mesmo ardil a que Ulisses recorreu contra os Ciclopes"

"Assim, a verdadeira Medicina ajuda os verdadeiros médicos a tratarem ou curarem verdadeiros pacientes; a falsa Medicina (Psiquiatria) ajuda falsos médicos (psiquiatras) a influenciarem ou controlarem falsos pacientes (os doentes mentais)"

"A essência da minha argumentação é que homens como Kraepelin, Bleuler e Freud não eram o que afirmavam ou pareciam ser, notadamente, médicos ou investigadores médicos; eles eram, de fato, líderes e conquistadores político-religiosos. Em vez de descobrirem novas doenças, eles ampliaram, através da psiquiatria, as metáforas, o vocabulário, a jurisdição e, por conseguinte, o território da Medicina ao que não eram nem são doenças (...)" 

"Como Bleuler tampouco descobriu qualquer doença nova, nem desenvolveu qualquer novo tratamento, sua fama assenta, em minha opinião, no fato de ter inventado uma nova doença - e, através dela, uma nova justificativa para se considerar o psiquiatra um médico, o esquizofrênico um paciente e a prisão em que aquele confina este, num hospital"

*Dr. Thomas S. Szasz. Médico psiquiatra (anti-psiquiatria). Prof. na Universidade do Estado de Nova York in "Esquizofrenia - o símbolo sagrado da psiquiatria". Zahar Editores.RJ. 1978. 

terça-feira, 11 de junho de 2019

As palavras*



Ainda sou das antigas.
Gosto das palavras.
Símbolos e sinais
Que nos relacionam,
Que trazem imagens,
Tocam corpo e alma,
Fazem pensar e refletir,
Questionar e duvidar.
Verbos em ação,
Subjetivos a me expressar,
Adjetivos conferindo atributos,
Toda gramática da vida
Expressa em letrinhas.
Magia criada pela inteligência,
Tributo dos humanos.
Que me fazem entender
O que não vejo.
Só desprezo a tagarelice,
Que prende a alma,
Cria ilusões,
Acende vaidades,
Traz dor e sofrimento.
Cansei dos excessos,
Das palavras inúteis,
Do blá, blá, blá
Repetitivo.
Admiro a profundidade
A criatividade
Os livros densos
Os poemas intensos
Os cânones
Talvez pelos cabelos brancos
Ou pelo correr do tempo
Em seu valor
Amo as palavras
Em rima ou verso
Tudo tão diverso.
Pode me faltar tudo,
Menos os livros,
Eternos amigos.

Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica. Livre Pensadora.
Juiz de Fora/MG