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A metafísica de Alberto Caeiro***

De todos os heterônimos de Fernando Pessoa talvez seja Alberto Caeiro, um dos meus neopagãos prediletos, ao acionar em nós o submodo em direção às sensações (da abstração intelectiva para sensação corpórea), que mais dialogue com sensorial & abstrato, o tópico 3 da estrutura de pensamento. Entendendo por sensorial o que deriva diretamente dos sentidos (dimensão do mundo sensível, concreto, plano dos fatos) e por abstrato o que se liga aos conceitos (dimensão do mundo inteligível ou arquetípico, plano das ideias). estrutura de pensamento, por sua vez, definida como um conjunto plástico e dinâmico de 30 tópicos que, em combinações várias, servem de constructos a serem preenchidos pela diversidade que em cada um de nós habita de modo peculiar. Em clínica observamos que nem sempre o reiteradamente analisado é real e propício à sua integralidade. Em algumas singularidades a ponderação excessiva pode fragmentar o olhar, impedir conexões necessárias, gerar pontos cegos, romper com o fluxo...

O Intervalo do cuidado: filosofia da ressignificação*

  A vida se configura como processo contínuo, comparável ao amanhecer: cada ciclo anuncia a possibilidade de novos panoramas. Não se trata de rupturas, mas de transições que instauram espaços de elaboração, semelhantes ao instante em que a noite se despede e o dia começa a nascer. É nesse ambiente que o cuidado e a ressignificação florescem, como sementes que encontram solo fecundo para germinar. Nesse intervalo, que pode ser compreendido como campo clínico, emoções e memórias se mobilizam não como ônus, mas como matéria de reorganização. Escutar com paciência é permitir que o silêncio se converta em espaço de invenção, e nesse gesto o cuidado se manifesta como acolhimento, sustentando o sujeito em sua travessia singular. Sob a ótica filosófica, cada passagem é abertura. A questão que emerge não é “o que se perdeu?”, mas “o que se transforma?”. A vida é fluxo, como rios que seguem seu curso, e é justamente na transição que se revela a possibilidade de reinventar-se. O olhar des...

Super-heróis do cotidiano*

Se você só vê gente viva e já acha que está de bom tamanho; se o mais próximo que chegou de um gnomo ou fada foi através de desenhos animados; e se até considera viagem astral uma ideia bem bolada, mas prefere apreciá-la em relatos alheios, esta crônica é pra você. Pra você que, assim como eu, também é uma pessoa comum. Ou seja: nunca viu espírito, não tem o dom da clarividência, não faz ideia de como se hipnotiza alguém e também não consegue ir muito além do ascendente nas interpretações de mapa astral. Somos pessoas comuns, com nossas limitações, mas também com potencialidades e é sobre elas que quero falar. Muito embora não consigamos acessar esses níveis mais sutis da existência, nós, seres humanos comuns, também temos poderes. Super poderes, pra falar a verdade! Cito quatro, primordialmente: autoconhecimento, autogoverno, autossuperação e auto esquecimento. Autoconhecimento é olhar com honestidade e franqueza pra si mesmo, analisando virtudes e qualidades, mas também fragilidades,...

Antipsiquiatria e filosofia clínica***

A psiquiatria biológica não é medicina, não é científica, seus medicamentos não são tratamentos e seu livro Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM em inglês) não diag-nostica nenhuma doença mental. Mas se tudo isso for uma verdade, o que tem a ver com a filosofia clínica? Sem entrar na questão ideológica que há por trás da psiquiatria biológica - a construção de conceitos de “doenças mentais, o jogo do lucro que promove, favorece e impulsiona a indústria farmacêutica e o grupo de elite dos criadores da medicalização da vida, a reengenharia social através dos poderes institucionais da própria psiquiatria e das instituições que a apoiam etc. - ela é o oposto contraditório da filosofia clínica na questão de como se percebe o fenômeno humano. Em primeiro lugar, a psiquiatria biológica usa do verniz da medicina e da ciência como formas de “investigar” o comportamento humano. Digo “verniz” porque não passa disso, pois, psiquiatria biológica não é medicina nem ciência. M...

Atento à singularidade*

Pode ser incômoda a ideia da singularidade proposta pela filosofia clínica. Mesmo entre filósofos clínicos e estudantes há a possibilidade de uma inclinação para generalizar algum comportamento a ser adotado ou um idealizar um fim a se alcançar para a obtenção do bem-estar subjetivo. Reconhecer cada pessoa como única, requer a aceitação de que para cada uma delas as orientações de vida são irrepetíveis e a fonte onde se encontra os parâmetros é a própria pessoa atendida. Os filósofos clínicos levam suas vidas com suas verdades, emoções, princípios etc. Porém, quando está diante de um partilhante, seus juízos sobre como viver, seus valores, como vê o mundo etc. devem ficar suspensos. Um processo no qual o terapeuta busca compreender a pessoa a quem atende com um mínimo de mácula de suas próprias verdades. Lembre-se de que não há uma negação de um referencial objetivo. As diferenças provêm da experiência de cada pessoa em relação aos elementos internos e externos. Não há um só modo de li...

Sobre Filosofia Clínica e Literatura III***

Na primavera de 2006, em um final de manhã, na cidade do Rio de Janeiro, após os atendimentos na Miguel Lemos (altura do posto 5 em Copacabana), fui ao centro histórico almoçar no centro cultural Odeon na Cinelândia. Depois segui para as livrarias do largo São Francisco, região da faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, onde se refugiam obras raras, descartadas, esquecidas.     Após algum tempo caminhando pelos corredores, visitando suas estantes, me deparei com uma escada, daquelas usadas para vasculhar as prateleiras mais altas. Subi em seus degraus sem mudá-la de lugar, assim descobri o livro: Despertar dos mágicos – introdução ao realismo fantástico de Louis Pauwels e Jacques Bergier, em sua 19. edição, 463 págs. Traduzida por Gina de Freitas e publicada pela DIFEL /SP em 1983. Borges diz algo assim: “séculos e séculos depois e um texto chega até você com sua mensagem, em tempo próprio.” Existem vários nomes para esse fenômeno, alguns chamam de coincidência, outros...

A escritora de San Fernando*

“A atmosfera dessa amizade pura é o silêncio, mais puro que a palavra. Porque falamos para os outros, mas nos calamos para nós mesmos.”                                                                                      Marcel Proust   Existem milhares de faróis espalhados, milhões imaginados por pessoas que gostariam de seguir viagem, dos que gostariam de aportar em terra segura, dos que fogem dos perigos dos homens, dos que querem se proteger das tempestades, dos que desejam uma luz para orientar seus projetos, seus navios. Conheci uma jovem “escritora”, ela fez questão de se autointitular iniciante de escritora, de alma já poeta, desde sempre, e que desde o tempo de escola escrevia, vivia a poesia, leitora assídua de livros de poesia. Foi em uma venda dentro do merca...

Encontro*

O contrário de perder é encontrar. Quando alguém se perde no mato precisa encontrar a saída. Se perder a carteira, é bom fazer uma reza pra encontrar. Quando se está perdido em um pensamento, um problema, uma adversidade ou uma agrura qualquer, procura-se encontrar a solução para resolver a aflição. Quando você marca um encontro com alguém, esta procurando uma saída, um desenlace ou simplesmente pretende ficar frente a frente, se deparar e ver no que vai dar? Os americanos têm uma expressão, “date”, que significa ter um encontro ou sair com alguém em um contexto romântico, para que se conheçam melhor. Linguisticamente falando, “ir ao encontro de” significa acolher, concordar. Por outro lado, “ir de encontro a” indica discordância, bater contra. Na prática, quando marcamos um encontro, usualmente imaginamos que estamos propondo uma junção convergente de pessoas. Só que nem sempre acontece. Tanto pode haver concordância como discordância, embaraço, discussão, indiferença ou até mesmo des...

Resenha crítica***

  "Pérolas Imperfeitas – Apontamentos sobre as lógicas do improvável ". Ed. Sulina. Porto Alegre/RS. 2012, 142 p.   Editora Sulina | Editora Meridional | Página Inicial   Num estilo que dança por entre “a ilusão da realidade e a realidade da ilusão” o professor e filósofo clínico Hélio Strassburger compartilha com seus leitores suas experiências, vivências e desavenças em seu caminhar como filósofo clínico. Como um passeio pelos recônditos espaços da mente humana o autor nos presenteia com 28 pérolas que ainda imperfeitas na medida em que se constroem na busca pelo direito de serem únicas, singulares e livres das tipologias e semelhanças que mergulham o filósofo clínico num “sobrevoo que não aterrissa”. O livro nos conduz pelos labirintos da relação entre o filósofo clínico e seu partilhante onde a interseção clínica ganha a forma de sentido para o partilhante à medida que seus ainda não traduzidos e interditados conteúdos ganham vida para o filósofo clínico. O livro vai ...

Singularizando o conceito*

Para pensarmos temas de consultório e, talvez, semelhantes àqueles em voga como a tranquilidade da alma, desenvolvido por Sêneca - cuja reflexão tem circulado atualmente - é importante relembrarmos a noção introdutória ao nosso método: o mundo é uma representação da pessoa, reveladora de sua singularidade. Assim, em filosofia clínica, tanto “tranquilidade” como “alma”, ou mesmo “tranquilidade da alma”, são considerados termos equívocos, ou seja, sem contextualização ou tradução, longe do sujeito que os pronuncia, geram dubiedades, interpretações diversas. Se ocorrer o caso de um partilhante trazer esse tema para a clínica, é preciso compreender o significado dado por ele. Investigar o sentido e uso conferido a essa afirmação. O sujeito pode dizer em suas queixas iniciais: “sempre quis ter a alma tranquila”. Essa fala vem do tópico buscas: para onde a pessoa se dirige existencialmente, junto com um termo equívoco, o qual, inicialmente, não sei o sentido. Posso interpretar a partir d...

Estruturação de raciocínio?**

Para falar sobre o décimo tópico é preciso começar pelo motivo de sua criação. Nos Cadernos, principal referência pedagógica nos primeiros anos da filosofia clínica, existem determinações sobre não trabalhar com indivíduos apresentando raciocínio desestruturado. É descrita a possibilidade deste “tipo” de atendimento sob consentimento familiar e acompanhamento médico simultâneo à terapia. Há também a ideia de definir ou diagnosticar o raciocínio bem estruturado e o contrário da boa estruturação. Os critérios são: capacidade de agendar e responder apropriadamente a um estímulo, relação íntima e/ou justificável entre termo antecedente e termo subsequente, firme relação entre causa e efeito, contiguidade e semelhança, associação coerente e justificável de ideias e capacidade de interpretação lógica, literal e via bom-senso. O problema se dá na constituição da proposta do tópico. Em sua descrição existem elementos contraditórios em relação ao exercício da filosofia clínica. Ao afirmar a imp...

El ángulo de las perplejidades***

Uno de estos días vi una reseña, de esas que sigues pensando en la representación de la que partió. La persona dijo: “ese nombre extraño: Filosofía Clínica, no me suena bien”. A partir de entonces, surgieron algunas notas sobre este lugar donde la gente dice lo que dice, incluso cuando cree saber lo que sabe. El precepto socrático: “Solo sé que no sé nada”, ofrece una pista de aprendiz para vivir con la dialéctica de las originalidades. Tienen una fuente única de rituales y dialectos, inaccesible al contacto superficial. Su expresión suele tener un sentido obtuso, una lectura alejada de su origen. A un punto de vista excepcional le gusta ser inesperado. Le toca al sujeto moverse para ser el protagonista con la amplitud inconmensurable de cada medida; aun así, su aspecto de incomprendido sigue deconstruyendo convicciones. Una descripción de esta naturaleza precursora parece elegir a quién revelar su óptica. Las medallas, las condecoraciones, los títulos no son suficientes para justifica...