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O que faz da Filosofia Clínica, Filosofia?*

Em diversos lugares é possível ler a seguinte afirmação: “A Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica aplicada à clínica” ou “Filosofia Clínica é filosofia porque é baseada em 2500 anos de filosofia” ou “A Filosofia Clínica tem seu fundamento no pensamento dos filósofos, só que adaptados à clínica”, só para citar alguns. Entretanto, essas afirmações dão ao senso comum ou a alguns filósofos, que ficam de “plantão” em busca de algo para criticar sem fundamentos, uma compreensão mal concebida. A impressão inicial parece ser que se toma a filosofia ou o pensamento dos filósofos e se aplica a clínica, e a única modificação parece ser a finalidade. Pois, os filósofos pretendiam um fim para seu pensamento e a Filosofia Clínica busca trabalhar questões existenciais de seus partilhantes. A questão a ser tratada nesse texto não é fundamentalmente voltada para os filósofos clínicos, mas para os que têm uma compreensão errada que uma apresentação limitada pode oferecer em relação ao entendimento d...
Postagens recentes

Primeira Impressão*

Cresci escutando e quase sempre acreditando no velho chavão da cultura popular “A primeira impressão é a que fica”. Segundo essa premissa, se você vai a um primeiro encontro, arrume-se bem, coloque perfume, seja agradável, interessado na conversa e suas chances de que o outro tenha uma boa impressão aumentarão bastante. Só que não. É muito difícil saber o que vai impressionar o outro e, mais ainda, a primeira impressão, seja lá qual for, apesar de ser importante, nem sempre é confiável e não precisa ser definitiva. O cérebro humano foi programado para analisar em questão de milésimos de segundo se está frente a uma situação de perigo. Quando um desconhecido se aproxima, automaticamente inicia o processo de reconhecimento, chegando a conclusões rápidas com muita pouca informação. Avalia ameaças instantaneamente, levando em conta sentimentos, memórias, experiências, personalidade e necessidades. Isto é o que chamamos de primeira impressão, um recurso adaptativo com a finalidade de preser...

Revista da Casa da Filosofia Clínica Outono 2025 - Ed. 12

  Convidamos para a edição de outono/2025 da revista da Casa da Filosofia Clínica.  Sua proposta trata de qualificar as leituras, publicações, desenvolver o novo paradigma cuidador. Os artigos se associam para compor um constructo de reflexões, análises, estudos, sem perder de vista a diversidade de propostas dos centros de estudo distribuídos no país.  CLIQUE AQUI PARA LER

A temporada de um velho*

“A velharia poética tinha boa parte da minha alquimia do verbo.”  ( Arthur Rimbaud) A vida serpenteia na solidão de Rimbaud, o melhor de tudo é o sono bêbado na praia, o movimento que pertence aos esquecidos do século, e nem mesmo a dor desfaz a realeza poética e o desejo dos esquecidos. O tesão não se contém, invade a vida na dor do corpo, até acalmar o medo e escolher seu lugar para descansar. E os ossos aquebrantados, diante do preparo da pátina nas paredes da alma, nessa bruta solidão que vomita no meu país envelhecido por sua riqueza cruel, e que não deixa revelar a imagem empenada na parede nua da vida, nas entranhas do medo que o totalitarismo faz nos velhos deste lugar, um misto cruel de racismo sem consciência, com absoluta naturalidade das desculpas e esquecimento do todo secular chamado, perdoar sem reparar. E nunca vai embora, continua escorrendo na idade da razão entre os dedos trêmulos, segura a vida que escapa, mergulha o corpo embebido em papel de livro – lá o m...

Escritura sub-versão*

A escritura aparece como um fenômeno incapaz de aprisionamento. Seu estorvo fundamental consiste na contradição ao discurso socialmente bem ajustado. Sua busca de ser um processo criativo recheado de novas imagens, mensagens, desvãos, aprecia desconstruir caminhos de pretensão definitiva. A partir de si mesma inaugura estilos, idioletos, compartilha estéticas a deslizar epistemologias. Seu não ser reivindica um mundo no esboço de ser original. O discurso alienado é ensinado desde cedo nas escolas da infância existencial. A expressividade que anunciaria o sujeito singular costuma ser diagnosticada, internada, exilada de sua melhor condição. Os desvios assim são tratados a golpes de farmácia, propõem a normalização alienista. A sub-versão dos códigos reconhecidos aprecia a polissemia de um dia qualquer. Sei viés simbólico convida a vislumbrar e refletir sobre as tentativas de mordaça à obra escritura. Seu aspecto fora de si descreve um território inexplorado. Uma trama significativa desc...

A biblioteca e os livros*

Uma biblioteca não é simplesmente um lugar em que podemos ler livros. Cada biblioteca é uma praça de resistência. É uma das últimas instituições em que qualquer pessoa pode entrar e ter livre acesso a bens de alto valor econômico sem que ninguém queira cobrar-lhe alguma coisa. * * * Em "Fahrenheit 451", Ray Bradbury descreve uma distopia em que os livros são proibidos. Lá as telas, a televisão, o entretenimento interativo tomam todo o lugar da cultura literária. Conseqüentemente a população se torna mansa e estúpida - e passa a odiar os livros como se fossem “armas carregadas”: "Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra 'intelectual', é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola ...

Parâmetros de estudo***

Considerar a totalidade da estrutura de pensamento não significa o mesmo que conhecer tudo sobre o indivíduo. Tudo implica na noção de reconhecimento ou estudo de algo observável em repouso, um objeto inerte ou estático. Do não dotado da capacidade de transformação. Encontrar a singularidade é entender estruturalmente o “como” do partilhante “sendo” na efetivação – submodos – de sua organização interna – estrutura de pensamento – possibilitadas por seu horizonte existencial – exames categoriais. Dentre outros motivos, esse ladear inicia por um recorte chamado assunto imediato, pois antes de enxergar a estrutura interna e sua efetivação, a possibilidade de reconhecimento se dá a partir das categorias. É necessário entender a estrutura de pensamento relacionada aos demais elementos do método. Na terapia, a proposta é uma aproximação ao como a pessoa está e não a busca de definir quem ela é. Isso traz ao filósofo clínico o desígnio de nunca baixar a guarda na relação traçada entre assunto...

El Instante Aprendiz***

*Traducción:    Prof. Dra. Arantxa Serantes (La Coruña/Espanha) Al esbozar apuntes sobre una lógica de la locura, un envés del absurdo se desvela en astillas de múltiples caras. Frontera donde la normalidad se reconoce en sus paradojas. Una de las características de la expresividad delirante es ensimismarse en desacuerdo con el mundo alrededor. Crea dialectos de difícil acceso para proteger sus versiones de mayor intimidad. El papel de la Filosofía Clínica en la intersección con la crisis inmediata también es presentación indeterminada en un proceso caracterizado por la exageración de la manifestación del que comparte. Un no saber vehicula provisionales verdades en el compartir deconstructivo de las sesiones. Representaciones existenciales difusas se alternan en narrativas del tiempo de la persona. El lenguaje de la locura se constituye en un conjunto de convivencias estúpidas. El punto de partida es la extraordinaria lengua de la persona estructurada en alguna forma caótica. ...

Leituras Clínicas*

“O ponto de vista Partilhante, ao se deixar acessar pelos termos agendados, reivindica um leitor de raridades. O fenômeno terapia aproxima papéis existenciais da clínica com a arqueologia. Sua estética cuidadora, a descobrir e proteger inéditos, mescla saberes para acolher as linguagens da singularidade.”                                                                         Hélio Strassburger      O trecho citado está na obra “A palavra fora de si”. Ed. Multifoco/RJ. 2017, do professor Hélio e especificamente no texto dedicado “As linguagens da terapia”. Aqui é essencial dar-se conta de que o veículo que nos faz percorrer caminhos dentro do espaço clínico é a linguagem, e nesse sentido, é papel do cuidador dar espaço de passagem e fornecer proteção às cenas que se revelam sessão após sessão,...

Ouvir e Compreender*

Encontros e desencontros* Nós somos todos linhas tortas porque nos encontramos. Nós somos quase todo feitos de encontros e de desencontros também; somos um conglomerado de fragmentos de você. Sim, nós somos linhas tortas porque linhas retas jamais se encontram mesmo sendo curvas infinitas. E certamente, escrever certo por linhas tortas parece cada vez mais ser o melhor caminho. Pois muito do que eu sou agora deve-se em grande medida as contribuições dos encontros e dos desencontros que compuseram e impactaram a minha vida tão somente porque a minha vida toda foi feita de histórias repletas de fatos que transcenderam e muito a lógica comum e cotidiana imposta pelos mais superficiais e céticos. A verdade é que quando se toma consciência de tudo que os encontros e os desencontros nos causaram fica difícil não nutrir paz e uma gratidão gigante e crescente por tudo que nos fora doado nessa jornada existencial sempre tão significativa, desafiadora e dignificante. Musa! ______________________...

Singularidade*

Para a filosofia (obviamente alguns autores, isso não é uma aceitação geral), a singularidade é um exercício, pois nascemos particulares – somos parte de algum grupo, de alguma família, de uma cidade etc. – e tornamo-nos singulares, com o esforço de imprimir nossa personalidade única. Para alguns, somos universais desde que nascemos, pois fazemos parte do todo seja da humanidade, do universo, da ecologia etc. Em alguns casos, em uma filosofia ontológica, nossa existência é única, porém atrelada a gêneros ou espécies. Tornamo-nos – seja o que for - comparando-nos com outros ou em hierarquia com outros gêneros ou espécies. A Filosofia Clínica tem o pressuposto da singularidade na abordagem com o fenômeno humano, mesmo que o próprio indivíduo que venha até um filósofo clínico não se considere singular. Alguns não querem ser vistos existencialmente como singulares, mas como existindo em grupos ou em conexão com particulares ou universais. Assim se efetivam existencialmente.  Para alg...

Obra de arte e juízos de valor*

A arte é uma forma de expressão do ser do artista. Toda expressão pode ser um desabafar ou um desejo de comunicação, ou ambas as coisas. Quem vê ou lê uma obra de arte, entra no diálogo que a obra lança ou se fecha diante dela fazendo um julgamento de valor. Sempre uma obra nos afeta. Quando positivamente ela expressa uma comunicação de alma para alma. Quando negativamente ela ativa nossa sombra, ela nos mostra o que não queremos ver. Na realidade o que vemos nos vê. O mundo é representação nossa. Quem diz gostar e não gostar está a falar de si mesmo e não da obra de arte em si. Quando diz gostar é porque a arte a afetou na essência, há uma compreensão inconsciente da intenção velada do artista, há uma sinergia e harmonia na relação. Quando se diz não gostar é porque a obra mexeu com a sombra, ativou um conflito velado, incomodou e criou um conflito e uma defesa. Colocar um ponto final através do julgamento é reduzir a obra, logo a ler apenas na superficialidade para não tomar co...

Atípicos*

A crescente onda de diagnósticos e da busca pela conscientização da ideia da presença de inúmeros "atípicos" na sociedade tem mostrado algo a se refletir: talvez, ninguém seja realmente "normal". Os diagnósticos de "transtornos", "síndromes" ou "doenças" mentais ou físicas têm servido para justificar a dificuldade de pessoas para se "enquadrar" entre os "normais". O problema consiste em justamente não haver a percepção de que essa "normalidade" não está em lugar ou em pessoa nenhuma. Trata-se de critérios abstratos, noções ideais sobre características de alguém "normal". Se quase metade da população possui alguma característica que a distingue desse ideal de normalidade, não seriam esses aspectos "normais" na humanidade? Não no sentido de uma normalidade "etérea", descolada da vida. Trata-se, antes, da constatação de que, no fundo (e nem tão fundo assim), cada pessoa é singular...

Leitura e horizonte cultural*

  As palavras, num texto literário, são encruzilhadas: conduzem a diversos campos de significado que adicionam novas camadas à leitura. Por isso, um verdadeiro leitor de livros percebe elementos, referências, nuances que passam completamente despercebidos pelo leitor comum - ainda que esse leitor comum tenha nível superior, mestrado, doutorado. Um exemplo: quando um bom poeta ou romancista faz referência ao "jardim", à "jardinagem", evidentemente faz uso de um símbolo literário e filosófico com uma longa história. O leitor atento logo compreende que esse jardim é tanto a horta doméstica de Alcino, com seus vegetais comestíveis, quanto o jardim selvagem de Calipso, com suas violetas exuberantes; é o jardim do Éden e também o do Getsêmani; é o mesmo jardim de Atenas onde Aristóteles criou o seu Liceu, ou onde Epicuro, na mesma cidade, estabeleceu o seu hospital do espírito; são os jardins floridos de Virgílio; é o jardim de Voltaire no "Candide" e na c...

A Palavra Conjectura******

Um pouco antes das novas conjugações existenciais, existe um período onde se rascunham estimativas, elencam suposições, roteirizam probabilidades. Nesse espaço de ensaio, insegurança, dúvida, desenvolve-se uma poética da insuficiência, por onde as incompletudes perseguem ânimos de experimentação. Assim permite a aproximação com um lugar estranho, de onde nascem categorias, verdades, suspeitas. Sua essência, de querer ser, aponta uma região inexplorada para si mesma. Talvez seu maior desafio, seja superar a incompreensão da pluralidade diante do olhar, os agendamentos, as repercussões no mundo dos outros. Esse procedimento reivindica uma disposição do sujeito para extrapolar seus limites existenciais. Aqui os sobrevoos podem ser insuficientes. É necessário um mergulho atento, circunstanciado, pelas possibilidades do ser singular. A frequência devaneio, ao surpreender-se por algum ideal de natureza intuitiva, dependendo da estrutura de pensamento onde atua, pode emancipar e configurar um...