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Autoconhecimento e liberdade*

Se conhecer faz toda a diferença, pois é isso que nos permite não mais nos demorarmos tanto onde persistir é uma tarefa em vão. E curiosamente, é o fenômeno do autoconhecimento que nos dá poder e lucidez suficientes para deixar passar algumas circunstâncias ou recomeçar sempre que estivermos num caminho ruim ou que já não faz mais sentido, sobretudo, porque o seu lugar já é no passado. Somente o autoconhecimento nos liberta e nos ensina a dizer não quando é preciso doa a quem doer comova a quem comover. É pelo autoconhecimento que descobrimos a fundo o valor de compreender que tudo que nos tira a paz não merece durar ao nosso lado mais do que o tempo mínimo e inevitável. Enfim, se conhecer é fundamental demais porque é isso que melhor nos faz conhecer tão bem qualquer pessoa e sair tranquilamente de mãos dadas na direção de tudo que realmente importa, desde se ausentar em paz de um restaurante quando o menu não nos agrada até mesmo escolher conscientemente partir, tolerar ou se manter ...

Super-heróis do cotidiano*

  Se você só vê gente viva e já acha que está de bom tamanho; se o mais próximo que chegou de um gnomo ou fada foi através de desenhos animados; e se até considera viagem astral uma ideia bem bolada, mas prefere apreciá-la em relatos alheios, esta crônica é pra você. Pra você que, assim como eu, também é uma pessoa comum. Ou seja: nunca viu espírito, não tem o dom da clarividência, não faz ideia de como se hipnotiza alguém e também não consegue ir muito além do ascendente nas interpretações de mapa astral. Somos pessoas comuns, com nossas limitações, mas também com potencialidades e é sobre elas que quero falar. Muito embora não consigamos acessar esses níveis mais sutis da existência, nós, seres humanos comuns, também temos poderes. Super poderes, pra falar a verdade! Cito quatro, primordialmente: autoconhecimento, autogoverno, autossuperação e auto esquecimento. Autoconhecimento é olhar com honestidade e franqueza pra si mesmo, analisando virtudes e qualidades, mas também fra...

Tornando-se filósofo clínico***

Quando começamos a estudar filosofia clínica, chegamos com pré-juízos e termos agendados no intelecto sobre ela, pensamos que ela é filosófica como a filosofia. Esse foi o meu caso. Eu estava imbuído de conceitos, juízos, ideias, cheio de agendamentos vindos da filosofia, do meu convívio com a psicologia, da minha história de vida e ideias gerais vindas dos princípios de verdade. Para entendê-la, precisei me desconstruir conceitualmente. Entendi que minhas noções prévias não se encaixam nessa nova abordagem, por esta ter como fundamento a singularidade. Ao entender isso, uma porta se abriu para compreender a proposta da filosofia clínica; o método olha para cada pessoa de modo individual; cada atendimento é único. As noções de áreas alheias à filosofia clínica não se aplicam a ela, mesmo que ela tenha sido fundamentada na filosofia, ela é singular como cada partilhante. Essa ideia clarifica o paradigma terapêutico. Quando comecei o pré-estágio, pude vê-la na perspectiva de um parti...

Sobre a importância dos estudos*

  Muitos intelectuais acreditam lidar com problemas absolutamente novos, jamais pensados anteriormente - problemas como, por exemplo, a questão da "inteligência artificial", o caráter autofágico da democracia, a proposta do gênero neutro na língua portuguesa. O que os intelectuais do nosso tempo ignoram - devido à sua deficiência cultural - é que esses problemas já eram discutidos, sob outras formas, há milhares de anos. * * * O caso específico da proposta do pronome neutro é emblemático. Os defensores da inclusão do pronome neutro nas normas gramaticais do português partem da posição filosófica convencionalista radical a respeito da linguagem, segundo a qual a língua - com a sua gramática e o seu léxico - é completamente convencional e pode ser alterada deliberadamente (por razões políticas, por exemplo). Essa posição é a mesma defendida por Hermógenes no "Crátilo" de Platão (que Ross propõe ter sido escrito em 388 a.C.). Todavia, no "Crátilo" o c...

Fundamentação prática em Filosofia Clínica*

Vi que no âmago da criação pode muito bem existir algo tão incontrolável e incompreensível como um vulcão em erupção.                                   Anne Rice, Pandora   A arte terapêutica constitui-se a partir das interrogações e reflexões compartilhadas no espaço clínico. Introspecção silenciosa em ousadias de descoberta anuncia uma transgressora liberdade de ser um. Expressividade em desocultar a matéria-prima contida nas invisíveis formas em desdobramentos de viver. Elenco de aparência inexplicável em rotas protegidas pelas tramas conceituais. Possibilidades de um não-sei-quê contido nas hipóteses em experimentação. Introspecção silenciosa em ousadias de descoberta. Interseção em ponto de partida, possui significados de natureza própria. Uma das características fundamentais na terapia, esse exercício voltad...

Uma perspectiva prática da recíproca***

A metodologia da Filosofia Clínica contempla elementos que constituem a estrutura de pensamento e os modos de agir de cada pessoa. Alguns elementos, como a inversão e a recíproca, podem estar tanto na espacialidade intelectiva quanto nas ações do indivíduo. Simplificadamente, inversão é o movimento de trazer o outro ao seu próprio mundo, enquanto a recíproca é ir em direção ao outro. No espaço terapêutico, a recíproca pode fazer parte da qualificação da relação terapeuta/partilhante, sendo utilizada pelo terapeuta que escuta, acolhe e, principalmente, se isenta de suas perspectivas do mundo e das relações diante do discurso existencial do partilhante. Assim, considera essencialmente o outro para possibilitar o espaço da construção compartilhada. Em um esboço preliminar, através do discurso existencial do partilhante, a recíproca pode aparecer como tópico importante da estrutura de pensamento. Com a evolução do tempo terapêutico, através do acesso à historicidade, às circunstâncias, à l...

Artigo da Revista Internacional de Filosofia Aplicada*

                              *Profa. Dra. Arantxa Serantes                        **Prof. Dr. Fernando Carbonell da Fontoura Para ler o artigo acesse o link abaixo: Vista de La Filosofía Clínica como singularidad: Una propuesta metodológica desde las humanidades

Inquietude Investigativa*

Na filosofia clínica, há quem aprenda o método e o utilize no consultório e quem, além de realizar os atendimentos, também continue a ensinar, pesquisar, aprofundar e questionar a fundamentação e a prática.   Assim, os formados seguem acompanhando os resultados das pesquisas e os adaptam ao seu trabalho no consultório. Seu tempo é mais empenhado em fazer o atendimento da melhor maneira possível com os recursos bibliográficos e audiovisuais ao seu alcance. Com isso, podem se tornar excelentes profissionais da área, exercendo seu trabalho como filósofos clínicos. Esse é o caso da maioria daqueles que concluem a formação. O segundo grupo mencionado é constituído de uma minoria. São filósofos clínicos que não se contentam em receber o conteúdo apresentado por quem os ensinou. Antes, continuam suas investigações em prol de ter um método cada vez mais aprimorado. Por isso, pesquisam as bibliografias, reveem os fundamentos, questionam seus pares, propõem novos caminhos etc. Esse grup...

Cartografias do Eu: Sentir, pensar, existir*

  Existe uma pergunta que se insinua como brisa e, às vezes, ruge como tempestade: O que Acha de Si Mesmo? Não é uma questão que se resolve com espelhos, diagnósticos ou biografias. É um convite ao mergulho, uma travessia por corredores internos que mudam de forma conforme os olhos que os percorrem.  Pensar sobre si é como tentar abraçar a própria sombra. Ela escapa, dança, se alonga, se encolhe. O “eu” não é uma estátua, mas um rio, ora sereno, ora turbulento. E nesse fluxo, sentir e pensar se entrelaçam como amantes que não sabem se estão se encontrando ou se despedindo. Na clínica filosófica, essa pergunta se abre como uma flor que não quer ser colhida, apenas contemplada. O que achamos de nós mesmos não é uma decisão final, mas uma paisagem que muda com a luz, com o tempo, com o olhar. Há dias em que me acho vasto, como se coubesse o mundo inteiro em mim. Em outros, sou estreito, um beco sem saída. Às vezes sou ideia, outras apenas pele. Sou o que sinto, mas também o...

Primavera Irracional*

“Eu fechei os olhos para lembrar com todos os meus votos a verdadeira noite, a noite liberta da sua máscara de horrores, ela, a suprema reguladora e consoladora...”                                                                                 André Breton   Equinócio que esconde a verdadeira face do mal, os homens não descansam. Nunca descansam. A humanidade vive para atravessar todas as adversidades, alguns destroem a vida, queimam as ideias e deixam a Terra arder. No hemisfério dos sonhos, a vida é salva pela natureza, os homens são excluídos pela ganância, que só existe no cérebro dos que dizem ser racionais. Nada separa o que está em pleno movimento de viver da finitude. Existem os que creem no domínio das questões ...

Resenha Crítica*

"Pérolas Imperfeitas – Apontamentos sobre as lógicas do improvável ".  Ed. Sulina. Porto Alegre/RS. 2012, 142 p.   Editora Sulina | Editora Meridional | Página Inicial   Num estilo que dança por entre “a ilusão da realidade e a realidade da ilusão” o professor e filósofo clínico Hélio Strassburger compartilha com seus leitores suas experiências, vivências e desavenças em seu caminhar como filósofo clínico. Como um passeio pelos recônditos espaços da mente humana o autor nos presenteia com 28 pérolas que ainda imperfeitas na medida em que se constroem na busca pelo direito de serem únicas, singulares e livres das tipologias e semelhanças que mergulham o filósofo clínico num “sobrevoo que não aterrissa”. O livro nos conduz pelos labirintos da relação entre o filósofo clínico e seu partilhante onde a interseção clínica ganha a forma de sentido para o partilhante à medida que seus ainda não traduzidos e interditados conteúdos ganham vida para o filósofo clínico. O livro vai a...

Um jardim de possibilidades****

O horário da manhã em dias de clima ameno, revela o orvalho nas roseiras em flor. A luz da aurora é de uma nitidez especial para registrar as cores do jardim. Ao percepcionar os detalhes das pétalas, não raras vezes se encontra minúsculos visitantes em busca de abrigo, comida, alguns namorados. O que é que esses bichinhos podem nos revelar sobre o micro bioma que se criou ali? Em direção às sensações, o cheiro de cada rosa fotografada se mistura na mente, formando um perfume natural daquele efêmero instante disponível. Amarelos, brancos, rosas, laranjas, vermelhos misturados aos diversos tons de verde, compõem o remédio que a vista precisa para iniciar bem o dia. Com um espectro de cores e aromas, a cada floração essa festa aparece. É um fenômeno importante na vida da partilhante. E nem precisa esperar pela primavera, é no inverno que as flores de amor-perfeito desabrocham. Para quem possui o submodo percepcionar, todas as estações podem ser fonte de inspiração. O jardim pensado integr...

Humanidade encapsulada*

Vocês já se depararam com profissionais que, de tão padronizadamente mergulhados no papel que representam, se pasteurizam tanto a ponto de encapsularem sua humanidade?! Há muito os tenho encontrado, nas mais diversas áreas. Percebo-os muito próximos, invadindo territórios esquecidos, não cultivados, abandonados. O assombroso é que o mercado não só ainda anseia como replica esses perfis, não raro fruto de linha de montagens do tipo: transforme-se em oito passos e seja você o sucesso! Sucesso que se traduz comumente no endosso do mesmo, ainda que travestido de diferente. Por um certo momento eu de fato pensei que essa Pandemia fosse suavizar o arrogante rompante de tudo conhecer e dominar. De reduzir visões de mundo ao enquadramento de nossos gostos e preferências, hermeticamente vedados e selados como se verdade fossem. A mais pura e absoluta. O resto é resto e que se dane, melhor ignorar… Nesse abissal individualismo o outro é aceito como igual, desde que reitere caminhos e não questio...

Âncoras*

'Navegar é preciso; viver não é preciso'              (Fernando Pessoa)   Navegar e viver costumam ser desafios ao sabor dos ventos e das marés, como uma flecha lançada ao vento, sem rumo nem piedade, sem desculpas, sem destino, talvez só aquele que obstinadamente julgamos traçar. Não há garantias e pode não haver volta... e a cada movimento, entropicamente, detonamos o estoque de energia que nos foi reservado, sem nos darmos conta de que alguma coisa se esvaiu, de que algo precioso transmutou. Sabemos que emergimos do ventre e que vamos findar no ocaso da existência. O rio que corre entre essas duas margens, que por alguma razão somos impelidos a saltar, é que costuma fazer a diferença. Navegar é tão preciso quanto viver e viver é tão impreciso quanto navegar... uns se debatem sem alcançar suas ilhas distantes; outros buscam âncoras que os salvem daquilo que nem mesmo suspeitam, pois para ter qualquer migalha de conhecimento, virtude, experiência...

Jornada Protagonista*

A palavra é um manifesto da razão e da denúncia, toda vez que as nossas impressões transbordam e expressam numa intensidade de duração e alcance capaz de tocar nas percepções alheias. Na razão podemos justificar a temporalidade, e o quanto, as vezes, percebemos pueril e passageiro os sabores e dissabores da vida, sempre tão pertinentes para nos ensinar que o ser só pode mesmo transgredir ou transcender. E, cabe a cada um de nós, a escolha de ser mais um cativo ou mais um protagonista, nessa jornada tão própria de existir sentindo tanto... Sentir muito é o que faz despertar a possibilidade de perceber mais dia menos dia, que tanto a liberdade quanto a prisão são decisões desafiadoras, que sempre tendem na direção de um desfecho capaz de nos oportunizar sermos senhores das nossas próprias escolhas, enquanto, necessariamente, nos lançamos como reféns das consequências. Curiosamente, quando uma sensação de felicidade precisa ser justificada ou anunciada já se trata de uma ilusão, pois a su...