sexta-feira, 1 de outubro de 2010

*Alquimias

"Já lhe disse que os novos videntes acreditam que os nossos sentidos são capazes de detectar qualquer coisa. Acreditam nisso porque vêem que a posição do ponto de aglutinação é o que dita o que nossos sentidos percebem. Se o ponto de aglutinação alinha emanações no interior do casulo em uma posição diferente da normal, os sentidos humanos percebem de maneiras inconcebíveis."

Carlos Castañeda.


Originais formas insinuam-se por entre as perspectivas do olhar. Vislumbres no esboço entrelinhas do querer-dizer contido na imagem. Interrogação reflexiva das intencionalidades em descobrir os dialetos da semiose visual.

Inexplicáveis contextos podem constituir-se a partir da admiração ingênua dessas arquiteturas do mundo. Revelação em novas cores na simbologia mediadora dos pontos de vista. Esses refúgios apreciam a exótica alegoria das figurações, para, com elas, desnudar expressões de raridade. Manifestação das texturas na indecisão tênue de incontáveis significados.

Em Deleuze o trajeto se confunde não só com a subjetividade dos que percorrem um meio, mas com a subjetividade do próprio meio, uma vez que este se reflete naqueles que o percorrem.

Na magia do desvendar-se, íntimos distanciamentos podem evidenciar singularidades caladas pelo não-ver das cotidianas cegueiras. Alternância na palavra sussurrada do discurso por entre brechas de recém-chegada. Com asas de frágil aparência, o olhar impulsiona vôos de interseção com o mundo.

Matéria-prima de quase toda abstração, as vivências utilizam-se da repercussão nas imagens para explorar sagrados territórios. Descobertas a inaugurar espaços de vida por entre o desafogo das escolhas. Não fora a busca pelos (re)equilíbrios do entendimento, esses contextos permaneceriam indescritíveis ao espetáculo do olhar.

Sartre recordando Stendhal: "Não posso ver a fisionomia das coisas. Só tenho minha memória de menino. Vejo imagens, lembro-me dos efeitos em meu coração; mas, quanto às causas e à fisionomia, nada. Vejo uma série de imagens bem nítidas, mas sem fisionomia particular. Ou melhor, só vejo essa fisionomia pela lembrança do efeito que produziu em mim."

Segredos ensaiam descortinar-se em revelações de indiscretas miradas. Apreciam desnudar lugares na ousadia em delírios de enxergar incontido. Possibilidades, à decifração de si, contém as estéticas da expressão. Propedêuticas à adequação desses universos de recém-chegada. Descobertas no espanto cotidiano à procura de tradução.

Raras belezas insinuam-se nos insaciáveis percursos da visão. Alquimia das formas em desestruturas de vir-a-ser. Admiráveis essências em revelação nas incompreensíveis imagens. Momentos de esconder-mostrar insinuam-se em expectativas de ver. Secreto vislumbre das fontes aos imprecisos vôos. Momentos de não-dizer exibem-se em inéditos achados. Enigmas no silêncio cúmplice da recém-descoberta.

Transfiguradas imagens em percepções de escassa nitidez. Estranha conversação com a natureza íntima de todas as coisas. Elaboração do indizível em traduções por entre miopias de não-ver.

Merleau-Ponty instiga sobre os impactos possíveis: "É preciso, pois, que alguma coisa no olhar do outro o assinale para mim, como olhar de outro, sem que o sentido do olhar do outro se esgote na queimadura que deixa no meu corpo olhado por ele."

Às vezes, é preciso fechar os olhos para superar as interdições contidas no enquadramento das lógicas do viável. Cogitar as impossibilidades pode auxiliar na contemplação dos novos horizontes. Momentos às estéticas do indescritível. Lugar às desconhecidas insinuações, por entre invisíveis possibilidades do olhar. Pontos cegos apreciam brincar de esconde-esconde, deixando pistas esparramadas pelos caminhos de outra vez.

Schopenhauer revela uma ótica diferente: "(...) é por isso que ninguém lhe pode prescrever ser nobre e elevado, moral, piedoso, cristão, ou isto ou aquilo; ainda menos se lhe pode censurar ser isto e não aquilo. Ele é o espelho da humanidade, e coloca-lhe na frente dos olhos todos os sentimentos de que ela está cheia e animada."

Espantos reveladores percorrem-se por entre as cores da palavra. Janelas entreabertas na expressividade dos fenômenos. Situando-se um pouco antes da relação com as coisas, modifica e produz sentidos à singularidade. Reciprocidade com os demais pontos de vista. Elaboração em compartilhados acenos com as rotas do sagrado-profano contido nas essências do viver. Jacques Derrida revela ser a linguagem o médium do jogo da presença e da ausência.

Os caminhos para a manifestação expressiva do existir, pode constituir-se com a sedução desses roteiros de inexplorada condição. A existência daquilo que ainda não pode ser visto, desafia o equilíbrio fora de foco desses instantes, seguir em frente ou recuar constitui a espécie das asas e a natureza dos vôos.

A multiplicidade sempre parcial das singularidades pode auxiliar o entendimento fora de época das descobertas, essas cúmplices em desvelar inéditos caminhos. Destino aventureiro protegido pelos deuses da estrada. Considerar os recantos de cada lugar pode favorecer a compreensão do mundo em instantes de talvez.

Doxa em preparação aos descobrimentos. Epoché por entre o claro-escuro das circunstâncias. Íntimos acordos podem prescrever esses percursos como remédio. Conversação nas premonitórias subjetividades. Absurdos a esparramar vestígios no provisório abrigo da existência. Imaginação contida no olhar distante do sonhador.

As coisas podem adquirir propriedades diversas no vislumbre das singularidades. Sentido pessoal aos transitórios trajetos à exceção especulativa. Herméticos esconderijos podem se utilizar das cegueiras, ao olhar de aparência indecifrável em conteúdos de si mesmo.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico
Diretor do Instituto Packter em Porto Alegre/RS. Coordena a Filosofia Clínica na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora/MG, Secretaria Municipal de Saúde Mental e ONG HI-VITA em São João del Rei/MG.

Nenhum comentário:

Postar um comentário