quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Dédalo

Beto Colombo
Filósofo Clínico
Criciúma/SC


Talvez você nunca ouviu falar nada ou quase nada sobre Dédalo. E se eu colocasse o nome do artigo de Ícaro, tenho a impressão que mais pessoas conheceriam o assunto.

Ícaro é o filho de Dédalo, um artesão famoso, patrono dos técnicos na Grécia Antiga. Dédalo colocou em seu filho Ícaro asas feitas de cera de abelhas e penas de gaivotas para que ele e seu filho pudessem fugir da Ilha de Creta e escapar do labirinto onde estava o Minotauro, aquele metade homem metade touro, e que se alimentava de carne de jovens atenienses.

Dédalo foi o inventor das asas que os libertaram da ilha prisão e ao colocar as asas em seu filho Ícaro alertou, ou melhor, aconselhou “filho, voe moderadamente. Não voe alto se não o sol derreterá a cera e você cairá. Não voe muito baixo se não as ondas do mar o apanharão ou então a umidade pesará suas penas e você não chegará ao destino”.

Dédalo voou moderadamente e chegou ao destino, mas viu seu filho Ícaro em êxtase, deslumbrado com a invenção e quanto mais alto ele voava se exibindo, mais a cera derretia. Resultado, a cera derreteu totalmente e Ícaro caiu no mar.

Essa história faz parte da mitologia grega e minha intenção como filósofo clínico é instigar seu raciocínio perguntando: por que fala-se mais de Ícaro do que de Dédalo? Por que se fala tanto da queda e pouco se fala do sucesso de Dédalo que voou moderadamente e chegou são e salvo ao seu destino?

Fala-se muito mais de Ícaro que deixa parecer que a responsabilidade da queda foi atribuída às asas feitas por seu pai, e alguns chegar a por a culpa em seu pai.

Outra linha de pensamento é que algumas pessoas são advertidas pelos mais velhos ou por profissionais experientes a seguirem sua jornada mais devagar, sem se deslumbrar.

Será que há necessidade de voar tão alto? Quantas vezes ouvimos isso dos mais velhos? E muitos de nós acabamos nos afogando no Egeu como Ícaro.

Penso que um grande número de pessoas, principalmente aquelas que estão na corrida do ouro, provavelmente estão se afastando tanto da sua essência, da sua estrutura do pensamento, que dificilmente acharão o caminho de volta sozinhas.

Às vezes me pego correndo, voando veloz e alto e me pergunto, correr tanto para que? Vejo as laranjeiras com seus frutos verdes e de nada adianta eu pedir para eles madurarem mais rápido, eles vão seguir sua jornada e um dia eles estarão prontos, chegarão ao destino...

Ansiedade, stress, estafa, depressão, fobias e outras questões do mundo moderno talvez poderiam ser evitadas apenas seguindo sua jornada natural, como Dédalo, moderadamente, sem euforia, sem êxtase, sem correria...

Estamos correndo tanto para chegar aonde? Você sabe?

Isso é apenas para mim. E para você?

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