terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Como encontrar o verdadeiro amor

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

Era uma vez uma jovem empresária que queria alcançar o sucesso. Trabalhava duro, não tinha tempo para perder. Participava de cursos, fazia parte de diretorias, precisava ler muitos livros, prestar atenção nos concorrentes, olhar os lançamentos.

Um belo dia se deu conta de que na ânsia de atingir o sucesso, deixou para trás o amor. Aquele amor que assistia nos filmes e novelas, em que casais depois de vários impedimentos conseguem ficar juntos e felizes para sempre. Aquele amor que faz escutar musica melosa, esperar uma mensagem pelo celular, percorrer vários quilômetros, ficar madrugadas acordada...

Já havia passado por vários relacionamentos, até mesmo dois casamentos e nunca sentira nada que chegasse perto do que imaginava ser um amor com "A" maíusculo. Uma frase lida em um almanaque havia marcado sua memória. “O amor verdadeiro é como um fantasma. Todos falam dele, mas poucos o viram de verdade”.

Sequer registrou quem era o autor, mas a partir daquele dia, assumira como um desafio encontrar este fantasma e encará-lo.. Perguntava-se se o medo de encarar o amor era o que fazia muitos boicotarem a experiência do mergulho no desconhecido sentimento. Assustaria tanto quanto um fantasma? Incrédula, questionava-se enquanto buscava coragem para partir em busca do verdadeiro amor.

Já havia compreendido que filmes eram ficção ou apenas fragmentos da vida real, nem sempre mostrando todas as facetas do amor. Percebeu também que quando se aproximava e colocava lentes de aumento sobre casais que aparentavam se amar, começava a ver pequenas e até mesmo grandes distorções que a faziam duvidar se aquelas atitudes eram compatíveis com o amor. Antes que desacreditasse no sentimento que pretendia conhecer, procurou um psicólogo. Intuiu que a visão masculina do amor poderia lhe ser útil.

O terapeuta lhe explicou que por se tratar de uma mulher bela e sedutora, não tinha dificuldades em fazer homens se apaixonarem e declararem seu amor, porém depois da conquista, a moça não sabia mais como agir e por alguma razão, ainda desconhecida, terminava por se frustrar e boicotar a relação. Talvez o problema estivesse nela, pois as pessoas não se apaixonam quando encontram a pessoa ideal, mas sim quando decidem se entregar.

E por já conhecer as características da paciente, terminou com uma provocação: “Você foi amada muitas vezes, mas só isto não justifica o amor. A graça e o prazer estão em amar. Amar é muito melhor do que ser amada”. Foi o suficiente para insuflar seu ego e colocar como projeto de vida ser uma pessoa mais evoluída, sem medo do amor e com capacidade de amar.

Partiu para a teoria e começou a ler tudo que os filósofos escreveram sobre o amor. Quais eram os medos? Perder a identidade, a liberdade? Medo que o amor termine? Medo de ser rejeitada, abandonada, traída, enganada? Medo de perder o amor e despertar do sonho bom? Seria um medo legítimo ou uma angústia irracional? Amar é desejar o melhor para a pessoa amada, mesmo que ela seja feliz longe de nós? Amar é dar ou receber? Amamos uma pessoa ou o sentimento que ela nos evoca? Podemos amar várias vezes ao longo da vida? A paixão é algo mais intenso que o amor?

Quanto mais lia, mais se confundia, pois depois de tanta pesquisa, descobriu que a maioria dos filósofos e mestres espirituais que transcenderam dedicou pouco, ou nenhum tempo à prática do amor. Compreensível, pois havia questões existenciais mais importantes a serem discutidas e não seria possível lançar a luz da racionalidade sobre o existencialismo se estivessem preocupados em amar e entender o amor. Daí o resultado de um acervo literário filosófico sem consenso sobre o amor, quase tudo fora escrito timidamente, baseado mais na teoria que na prática.

Partiu então para a leitura dos poetas. Estes eram boêmios, amantes, sofredores, conquistadores e tinham grandes probabilidades de terem de fato experimentado o amor. Descobriu que o amor é uma experiência perigosa e atraente, às vezes dolorosa, mas sensorialmente encantadora. Ficou confusa mais uma vez ao saber que poetas ao tentar exprimir sentimentos em palavras, muitas vezes terminam por maximizar ou distorcê-los. Pode o amor ser imortal, posto que é chama, e ao mesmo tempo infinito enquanto dure? Não entendeu mais nada, nem mesmo se já havia amado alguma vez na vida.

Diante da dúvida, procurou um psiquiatra. Desta vez apelou para o lado mulher e escolheu uma terapeuta, que a tranquilizou com o fato de que já ter sido mãe a colocava no grupo das que sabiam amar. Ponderou que aquele sentimento da mulher grávida, a sensação de serem duas pessoas em uma só, a preocupação com o bem estar do outro, a doação, o cuidado, isto era o amor e quando ela sentisse algo parecido por outra pessoa, as chances de estar amando seriam grandes.

Outro sinal sugestivo seria o desejo de envelhecer ao lado desta pessoa. Deveria apenas ter cuidado porque duas pessoas não podem se tornar uma só e o perigo está justamente em se estabelecer uma luta pelo poder, onde a individualidade e a fusão do casal vão precisar de muito amor para encontrar um meio termo.

Não satisfeita com as explicações quis saber ainda por que motivo amava seu filho. Seria por carregar sua carga genética? Por ser parecido com ela? Por ampará-lo desde o nascimento? Por representar sua perpetuação? Por sentir-se útil e importante para o filho? Nada disso, respondeu-lhe a terapeuta, ou melhor, tudo isto. O amor simplesmente acontece, não tem explicação nem motivos. Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis. Mais ainda, a melhor definição de amor, não vale um beijo da pessoa enamorada.

Mais tranquila, sabendo agora como reconhecer o amor, foi relaxar num retiro de neurolinguística. Acontece que o tema desenvolvido era a escolha do parceiro ideal. Justo o que ela estava precisando: primeiro encontrar o príncipe encantado para depois se jogar sem freios ao amor verdadeiro.

Sugeriram que escolhesse cinco ou dez características de um parceiro que impossibilitariam um relacionamento: agressivo, mentiroso, desempregado, obeso, fumante, falta de higiene, baixo nível intelectual, exibicionista, mulherengo, vulgar... Descartadas essas hipóteses, o resto seria administrável. Saiu de lá decepcionada, pois sua opção era pelo amor e não pela lista

Conversou com uma amiga de Natal que lhe disse ter tido um só amor na vida, e que não era o seu marido atual. Outra amiga de Belém lhe confessou estar amando três homens ao mesmo tempo. Escutou Caetano Veloso cantar “qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar...”

Onde mais ela poderia buscar ajuda? Sites de relacionamento, igreja, academia de ginástica, clubes, parques, cafés, shopping, danceterias... Lembrou então de uma outra frase que havia lhe encantado. Desta vez sabia até quem era o autor, Mario Quintana. “O segredo é não correr atrás das borboletas. é cuidar do jardim para que elas venham até você”. Havia caído na roda viva de perseguir e encontrar o amor verdadeiro. Estava cansada, desanimada, frustrada. Decidiu pular fora e cuidar de si.

Quando o amor chegasse, ela sentiria e se entregaria. Tornou-se mais realista. Aceitou o risco de desfrutar da montanha russa chamada “Prazer e Segurança”. Desistiu de andar no carrossel da individualidade. Começou a praticar pequenas renúncias e desapegos materiais.

Entendeu finalmente que o amor é feito na medida de quem ama, construído a partir das vivências íntimas de duas personalidades distintas e por isto nunca dois amores serão iguais. Não existia um manual ou receita pronta para amar. Seu amor teria que ser único, exclusivo, customizado.

Preparou seu corpo e sua alma para se encaixar no amor quando o encontrasse. Devagar, com sintonia, sem precisar se violentar e sem ferir ninguém. Aprendeu que o amor é a magia de dois seres se unindo, parecendo um só. Alguns acham que isso é um fantasma, outros pensam que é uma borboleta.

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