sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Jairo, o homem conceitual

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


A cada consulta Jairo retornava ao assunto com novo ânimo. Parecia que das vezes anteriores algo fora dito a mais, algo deixara de ser dito, alguma coisa agora pedia reparo.

Para ele, muitos homens formulam idéias, armam planos, projetam caminhos com a mente que funciona semelhante a uma fundição de minério de ferro. Cadinho, rampas e cubas, temperaturas alta, peso. Gente que tem na cabeça coisas como calcinações do carvão mineral, coque metalúrgico. Abstrações de cutelaria, cultura que avança pelo corte do aço, batidas repetidas, marretadas de prensas mecânicas. Aço forjado em martelos-pilões. Máquinas de esmerilar. E mais temperaturas altas, acima de mil graus.

Enquanto a mente e a vida de gente como Jairo são esquadrinhadas por desenhos sem esquadros, por formas sem peso, densidade zero, várias combinações possíveis, calor e frio juntos, raiz quadrada negativa de um limão, e nada é tanto que necessite fazer um sentido.

O sujeito da metalurgia não compreende como se pode polir uma superfície sem esforço e o homem conceitual não se motiva a um esforço mecânico que tenha por conseqüência uma superfície espelhada.

Jairo já foi José, seu segundo nome, nome do meio, quando trabalhava em uma oficina, arrumava peças, fabricava algumas peças cilíndricas sulcadas em hélices, discos dentados nas bordas, aqueles que transferiam força a outros por meio do movimento. Mas José foi internado, foi pego devaneando sobre o uso de força motriz a pressão de água, enquanto os clientes aguardavam no balcão.

No hospital, Jairo nasceu. Olhando o movimento suave, pendular, das cortinas, descobriu que poderia viver conceitualmente, que isso era possível, que é de certo modo óbvio, mas ainda um tanto cedo, talvez.

Ele sabe que passar de uma existência movida por várias roldanas presas a uma moldura, uma vida de cadernal, estrutura piramidal de levantamento de pesos, para a brisa leve dos conceitos não significa trocar roldanas e cordas de tração por botões digitais. Significa ir dos botões digitais para um plano no qual a própria idéia virou botão. Jairo acredita que podemos conseguir isso por caminhos melhores que o dele, um caminho que o levou a um hospital, a choques, ao lítio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário