segunda-feira, 7 de março de 2011

Diário de um retorno*

"Eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do possível."
Torquato Neto


Diante de circunstâncias desfavoráveis à busca pré-estabelecida, a expressividade pode se ocultar esperando o momento oportuno para seu regresso.

Aguardando esse instante encontram-se homens e mulheres escondidos em si mesmos, construindo uma historicidade de aparência. O brilho existencial, inerente daqueles que transmitem o bem estar de suas vivências, se confunde com reflexos internos tentando disfarçar suas faces cansadas e sem esperança.

Alguns, de tão afastados de sua originalidade, perderam-se pelo caminho, e as possibilidades de volta não são mais consideradas. Outros, sustentados por suas buscas e valores, seguem confiantes nas possibilidades oriundas da dialética existencial.

Esses desacordos são singulares. Cada história de vida apresentará seu roteiro.
Nas convivências autoritárias é comum se encontrar indivíduos vivendo esse distanciamento. Os motivos variam: podem ter sido obrigados a realizar o que o outro não conseguiu, ou precisaram dar continuidade a um projeto existente: uma carreira profissional, por exemplo.

Essa situação costuma chegar ao consultório sob a queixa inicial de insatisfação. Realizar a vontade de alguém pode gerar êxito profissional, status, um bom patrimônio, no entanto tais coisas não são suficientes.

Para um mundo materialista parece contraditório essa lamúria, no entanto, para alguns, esse tipo de conquista significa o afastamento de seu ser. A realidade vivida se encontrava distante de suas pretensões.

Os sonhos interrompidos ao longo de uma história podem favorecer a utilização de simulacros. As facetas vão surgindo de acordo com as necessidades.

A alternância desses papéis existenciais determina a intensidade dessas aparências. Enquanto ser mãe é um papel leve e sincero, ser filha nem tanto, exigindo um esforço maior para convencer.

A forma como cada um se estrutura costuma ser determinante em algumas situações. Se para uma pessoa casada for importante sua presença na criação dos filhos, mesmo que o amor pelo seu cônjuge tiver chegado ao fim, provavelmente ela continuará nessa relação.

Viverá ilhada sob as próprias máscaras para suportar os inconvenientes de sua circunstância. Meias verdades poderão ser oferecidas na tentativa de ser fiel ao projeto inicial. O fim dessa simulação, em certos casos, tem dia e hora para terminar: a demissão do trabalho, morte ou nascimento de alguém, fim de um relacionamento, novas interseções.

Essas sensações de aprisionamento também podem ser re-significadas com a descoberta de fissuras na estrutura envolvida.Quando próximas da essência singular algumas vivências ou lugares, funcionam como janelas oferecendo momentos de alívio.

Uma viagem pode ser significativa. O distanciamento do lugar comum das convivências pode proporcionar momentos de bem estar a quem andava afastado de si mesmo. A ausência de determinados sujeitos pode mudar a energia da interseção. Torná-lo mais sereno sendo visto pelo olhar de fora como outra pessoa.

São instantes de participação verdadeira. Ensaios de si mesmo a vislumbrar possíveis autogenias. Encontrando sua rota, os movimentos existenciais são quase inevitáveis.

Deixando para traz uma vizinhança contrária a sua subjetividade, aproxima-se de algo aparentemente inédito. As percepções a sinalizar o início da construção de uma nova vida são, na verdade, o retorno a si mesmo.

*Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

Nenhum comentário:

Postar um comentário