quarta-feira, 20 de abril de 2011

Controle e surpresa

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Repousa sobre nós uma consciência histórica sobre a relevância do controle, especialmente das nossas vidas. É preciso ter um projeto, saber para qual direção a existência avança. O sentido de quem somos, de onde viemos e para onde vamos é rascunhado por metas, sonhos, rotinas, para que não percamos o horizonte, o propósito, o foco...

Isso tudo me encanta. Adoro bússolas, agendas, relógios... Com esses instrumentos, e tantos outros concebidos na contemporaneidade dos tempos, conseguimos mensurar tempo, espaço, velocidade, direção, frequencia, intensidade. Conseguimos fazer previsões, avaliar consequências, corrigir rotas. Tudo isso é muito rico quando se trata de promover autogenia e valor em nossas vidas.

Navegar, sim, é preciso, como já disse o poeta. Mas viver é impreciso. Por mais que utilizemos instrumentos diversos para mensurar nossos avanços e resultados, sempre existirão os imprevistos. Já reside no inconsciente coletivo, inclusive, uma certa ideia de que o imprevisto é também indesejado, só porque não estava nos planos.

Oras. Aquela chuva durante a madrugada não estava nos planos, mas fez tão bem ao espírito... Aquele gatinho preto abandonado na rua também não estava nos planos, mas hoje não se consegue mais imaginar a casa sem sua presença alegre e urgente. Aquele beijo roubado definitivamente não estava nos planos, mas alegrou a existência e mostrou se estar disponível novamente para o amor.

Imprevistos, quando gostosos, têm o nome de ‘surpresa’. Lembra festa de aniversário, aumento de salário, pedido de casamento, presente fora de hora, meia dúzia de flores na mesa quando se chega ao trabalho, correspondência que vem de longe...

Quem não gosta? Até parece poesia, e por ser poesia é tremendamente real. Ao final das contas, não existe régua capaz de medir felicidade, nem tampouco calculadora que quantifique o quanto se quer, ou o quanto se ama. E que bom que é a vida é assim, inteira, verdadeira e potencialmente livre de indicadores ou conceitos. Ilimitada!

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