quarta-feira, 27 de abril de 2011

Jardins internos

Sandra Veroneze
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Uma as imagens mais inspiradoras que guardo na memória, provavelmente fruto de alguma leitura, é de uma bela moça caminhando em seu jardim. O toque poético fica por conta do tempo e espaço. Estamos na Grécia Antiga. E o movimento é de todo especial: caminha firme, suavemente, com aquele magnetismo próprio de quem sabe quem é, de onde veio e pra onde vai.

Freud certamente explicaria. O fato é que esta imagem produz em mim efeito centrífugo. Por mais dispersos e fragmentados que estejam pensamentos e emoções, ao toque dela tudo pára, aquieta. Por uma fração de infinito, ousaria dizer, consigo ouvir aquilo que talvez possa ser chamado de a voz do silêncio.

A relevância desse delírio, devaneio, esforço imaginativo ou qualquer outro nome que se dê, só se justifica nos limites dos meus próprios jardins internos. E não é pouca coisa, se julgarmos que cada ser humano é único, um universo em si mesmo.

Quando me projeto em análises para esta imagem, gosto de pensar em duas coisas. A primeira delas é o simbolismo. Lançar a flecha no alvo, mesmo com toda a tecnologia de um equipamento olímpico, é muito mais saboroso conhecendo-se um pouco sobre a arte da guerra em seu sentido antigo e mais clássico.

A pergunta que fica é o que cada elemento da imagem pode representar e onde, nos confins da minha essência e personalidade, encontra calço para produzir tamanho efeito? Talvez um dia eu chegue a uma resposta satisfatória...

O outro aspecto, em termos práticos, muito importante, é a capacidade que tenho desenvolvido de visitar esse jardim, toda vez que o cotidiano me prova com prazos curtos, stress e outros desconfortos.

Eu sei que este jardim existe, e que para chegar nele existe um caminho, e sei que, quando pisar os pés naquela grama, não importa a intensidade, frequencia ou volume dos desafios, eu encontrarei terra firme, um ponto seguro no tempo e no espaço, onde poderei conectar com o que tenho de mais íntimo, profundo e verdadeiro em mim mesma, como se fosse uma usina de força, energia, coragem e ao mesmo tempo de tranquilidade e aconchego...

É uma bela teoria, ou simples viagem do pensamento. Importa é que, desde que a concebi, vivo melhor, com mais conforto subjetivo, como se estivesse aninhada no colo do universo. É nesse jardim que renovo minha vontade de ser e de estar, de sonhar, de experenciar esse conjunto plástico e mutável que me compõe. E o seu jardim interno, já descobriu como faz para chegar nele?

Nenhum comentário:

Postar um comentário