domingo, 24 de junho de 2012

Águas ocultas*





“Tudo está cheio de deuses”
Atribuído a Tales de Mileto (séc. VI a.C.)


Na imensidão azul que perpassa dois mundos – dos seres e da natureza - todos os deuses ali habitam, integrando as realidades pela fluidez, pela unicidade e pela característica úmida de sua essência. Esses mesmos deuses se contorcem entre as passagens para alcançar as brechas da natureza mais oculta de cada ser, permitindo que as indagações mais substanciais transpareçam na transparência de seu elemento. Então, flutuamos imprecisos sobre seus movimentos e sobre sua atração, não sendo possível dispensar qualquer de suas manifestações. E este princípio fundamental – a água essencial - ainda persiste na natureza e é validado por tudo que se move, se atrai, se expande, se infiltra e está repleto de si mesmo, de vida, de deuses e da alma que se fixa através de sua qualidade ou de sua potencialidade divina.


Águas... em forma de fontes, rios, oceanos, artérias, filetes, lagos, mares, geleiras, no raso e no fundo, na terra e no ar, em todo o tempo e lugar e até onde não está, pois mesmo ali há a potência de sua natureza, já que não há (quase) nada que sobreviva sem ela... de todos os modos, sempre urgente e imprescindível, sempre presente! Nas suas formas se realizam vontades e se complementam intenções, vertendo mergulhos profundos e poéticos, ao som de cantos ancestrais.

E as águas que circulam, contidas por nossos corpos, se equivalem, proporcional e filosoficamente, às águas que circulam pelo planeta... virtualmente na mesma proporção. Ambas são precisas, carentes, ávidas de um magnetismo que as mantenha coesas em suas invisíveis fronteiras, pois elas não sabem para onde vão ou de onde vem, apenas seguem seus padrões passíveis de alternâncias. Na verdade, não há distinção de percursos... eles se misturam e se transpõem em objetivos que se supõem vitais, mas que são, igual e simultaneamente, insondáveis.


Quem pode intuir qual o sentido do caminho das águas que se ocultam? Quem pode saber que invisíveis seres a habitam? Na substancialidade do que nos serve de alimento, está a transcendência de sua própria essência, a que penetra mundos em escalas que não podem ser compreendidas, ou talvez essa compreensão seja possível apenas através de olhares e sentidos ainda não descobertos ou revelados, aqueles cuja exigência de racionalidade está além da realidade imediata.

E, no entanto, águas são apenas estruturas químicas, claramente definidas, simples em sua composição e mais simples ainda na sublime função de promover a vida da forma mais básica. Mas é uma simplicidade que carrega segredos quase impenetráveis... segredos que assolam a existência e que a validam exatamente pela sua singeleza, pela sua integralidade e interdependência. Águas transformam paisagens e faces, transfiguram o tempo e nos lembram de que não sobrevivemos sem elas. Mas também provocam fins em sua violência desmesurada, quando não se suporta e se transborda na manifestação de uma das mais poderosas forças que invade o mundo sem piedade, sem pedir licença, sem que escape um só vazio, uma só dimensão... elas requerem atenção e cuidados, vigilância constante de algo que permite vida e morte dos que são por ela tocados.

Nas esferas mais inquietantes, abissais e invisíveis, porém, alternam as configurações da frequência de vida e, a níveis inimagináveis, tomam para si a responsabilidade da perpetuação da vida e da beleza, da evolução e da própria constituição do universo.

Águas, aparentes ou ocultas, são as fontes físicas da alma que conduz e que preenche a condição existencial da natureza, representando uma das formas mais sutis que os deuses encontraram de participar da divindade em cada espécie, em cada possibilidade de vida.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

**Coincidentemente, ‘águas ocultas’ parece ser o significado do nome da minha cidade: Niterói! Ela era, originalmente, toda entrecortada por rios, que se ocultavam na mata nativa... sempre imagino o deslumbre de sua paisagem primordial!

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