sábado, 8 de setembro de 2012

Crônica de um Aviso*


De que forma lhe avisam que não está bem, que tome cuidado, ou que precisa acordar?

Se tentava libertar dos mitos que lhe ensinaram e das lendas que fez em si próprio. Escolhera não um caminho, pois gostava de variedade, mas três possibilidades. Um coração, uma mente e um espírito a seguir. E como agradar a tantos senhores, governantes de bulas diversas?

A virtude queria corpo casto e mente limpa, ordeira como receptáculo do Bem, meta do espírito. Invariavelmente não realizava nem um, nem outra, nem outro. E brigava com Fulano, esfomeava Cicrana, amordaçava Beltrano.

O fantasma reclama da usura e o ridiculariza em nome de modéstia e humildade, fruta amarelo-ocre com coração de espinhos.

- Mas esses valores não estão na moeda, dizia ele.

E não sabia se se escravizava nas dívidas, na acumulação ou na pobreza.

O corpo mortificado pela mente esmorecia e definhava a esperança por músculos ferozes e poderosos, doces para os dentes da amiga. Não há mais forças para lutar, as uvas estão verdes.

Surge, de furacão, o rosto rosado da volúpia, vindo não sabe de que cheiro, cena ou toque. Ele está lá, o desejo nunca morreu; só lhe dera uma trégua para que fosse assombrar outras aldeias desencantadas, que compartilhar é preciso – aprendeu.

O viajor estava confuso e tinha sede. E há tempos não bebia tanto e não sentia a vontade ardente de se banhar e sair por aí, pelo vento morno – vento morno, coisa rara nas suas noites – e conversava consigo mesmo.

Agradecido pelo sol que se fora, e com ele o trabalho, agora pode descansar a mente sentindo-se mais uma vez como homem de lugar algum.

Teme que sua alma voe pela janela aberta e encontre mundos mais estranhos ainda daqueles que visita na jornada que escolheu.

No quarto novo, é como se nunca houvesse tido rotina. Nem vida. Seu coração está nos vários gânglios, não sabe mais o que é, se é quem; se deita acelerado, não dorme.

E uma canção – canção, pois música antiga, daquelas que já tocavam quando ainda nem tinha nascido –, a música velha o leva pra dançar de novo. Mas pena, é uma versão em português – e retorna, senta no salão de baile que ainda está decorando. Não sabe se haverá mesmo festa.

Lá fora o movimento do rodeio de touros, tão comum ali e tão destoante, lhe assegura: conserve-se ou te incorporo.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

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