segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dédalo da alma*


                                                                                          
Labirintos são intrincadas construções arquitetônicas que mudam de forma a cada instante, de acordo com o ponto de vista dos que neles se aventuram: são, portanto, construções de caráter instável. O indivíduo que adentra um labirinto nem sempre se dá conta de que encontrar a saída pode ser algo complexo.
        
A argumentação em relação aos espaços labirínticos tem como ponto de partida o labirinto mitológico grego, construído para  asilar um ser emblemático. Essa criatura foi um filho bastardo de Pasífae, que era esposa do rei Minos, com um Touro que fora núncio pela majestade do mar, Poseidon, com o intuito de punir o rei através do adultério da rainha.
        
Por conseqüência, Pasífae acabou concebendo a um ser meio homem, meio touro: o Minotauro. Na medida em que ele crescia, teve que ser aprisionado no labirinto, uma construção projetada por Dédalo. Tratava-se de um ser híbrido, não só por sua compleição física, mas como criatura que não pertencia nem ao mundo dos homens, nem à esfera divina. O Minotauro tinha que se nutrir de púberes, que eram arremessadas ao labirinto.

Os banquetes à criatura configuravam-se, também, como cerimônias de sacrifício aos deuses. Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, ofereceu-se para ser lançado ao labirinto, pois seu desígnio era eliminar o monstro e deliberar as rixas entre gregos e cretenses. Sua apaixonada, a filha do rei Minos, Ariadne, forneceu-lhe um novelo de lã para auxiliar a tirá-lo do labirinto. Ao conseguir seu intento, que era o de exterminar a criatura, Teseu deparou o caminho de volta, soltando o fio de linha que havia desenrolado do novelo, enquanto adentrava o labirinto. Podemos proferir que essa é uma sinopse de convergências, das mais diversas variantes desse mito.
       
 Evocado por esse mito, o labirinto é levado à condição de questão existencial, um ponto de partida. Isso exige do investigador certo esforço, certa concentração para que, em cotejo com o labirinto, possa fazer e refazer os vários percursos, ora confrontando, ora dialogando, ora justapondo sua própria existência e perpetrando através desse olhar, a recontextualização de sua intrincada singularidade, em sintonia com seu universo labiríntico.
        
Existem dois tipos de labirinto: os unicursórios e os multicursórios. O modelo unicursório é constituído por um único caminho que leva ao centro, enquanto que o multicursório possui diversos caminhos e, por tal, envolvem escolhas. O modelo multicursório requer o uso da intuição em oposição ao unicursório que clama racionalidade. Podemos traçar um paralelo do modelo multicursório com a própria existência, onde inúmeros caminhos são ofertados a cada momento, exigindo do caminhante coerência interna com os ditames de sua alma.
        
Se estabelecermos uma analogia, podemos proferir que o fio de Ariadne é propiciado pela existência ao caminhante, através das múltiplas proposições dos desígnios do caminho.
        
Ao seguir pelo labirinto da existência, com suas inconstantes nuances , há sempre uma nova chance, onde a especificidade pode ser redefinida a cada passo, com consequentes reavaliações e tomada de decisões.
        
O fio condutor indica o caminho, porém cabe ao caminhante, através de uma via aberta a escolha, levando-o assim ao próximo passo na trajetória de seu ciclo existencial.

*Mariah de Olivieri
Filósofa e Mestre em Filosofia. Artista Plástica. Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS                                                                     
       

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