quarta-feira, 6 de abril de 2016

Meu cartão de visitas*


Recentemente tenho percebido uma grande insistência de “terapias de marketing” em trabalhar o que eles chamam de “cartão de visitas pessoal”, ou seja, o conjunto de caracteres que lhe mostrará de certa maneira para a sociedade. Em Filosofia Clínica trabalho isso em diversos tópicos e através de complexos movimentos.

O primeiro deles diz respeito ao Papel Existencial, também conhecido como rótulo, titulação, designação, máscara ou personagem. Se eu me denomino médico, isto é um caractere de identificação existencial, identificação de um papel, de um personagem que se comporta como tal. Esse “médico” deverá ter outros vários caracteres pré-definidos socialmente, tais como conhecimento acerca do corpo humano, como postura profissional, ética e etc...

Esse papel, a priori, deve dizer algo sobre a pessoa com a qual conversamos, pois parte dela é esse personagem. Porém, um personagem nem sempre possuí correspondência com a pessoa que o vivifica, e semelhantemente ao teatro, tal personagem pode ser encarnado e depois deixado, suas fantasias são colocadas para posteriormente o ator delas se despir. Não se pode ser ator o tempo todo, assim como não se pode ser médico o tempo todo.

E aqui fica uma dúvida: o quanto essa fantasia/personagem de fato fala sobre aquela pessoa? Quais as primazias deste personagem? Seriam aquelas melhor reconhecidas e aceitas pela sociedade ou aquelas que são intrínsecas a tal papel existencial?

Outra questão que a Filosofia Clínica levantaria seria o Tópico 1, a própria sociedade. Ou seja, o que devemos mostrar de nós para o mundo dos homens? Aquilo que mostramos de nós de fato fala de nós ou apenas fala aquilo que o mundo deseja ouvir para poder em nós confiar?

Seguindo aqui as questões, qual deveria ser o veículo utilizado para levar informações sobre mim aos outros? Seria um simples cartão de visitas impresso em papel? Seria um livro por mim escrito? Seria um programa de televisão? Será que o marketing faz de um profissional um profissional melhor? Ou apenas atua sobre a representação social acerca dele?

Outra questão ainda mais complexa que precisa ser tratada diz respeito aos processos de expressividade. O quanto aquilo que se expressa sobre mim chega até outro da forma como está em mim? E quais as interferências neste processo de comunicação? Será que aquele que me vê de fato vê aquilo que expresso, ou será que a imagem da minha pessoa fica deturpada para o outro? Seria isto causado pela forma como codifico as informações expressas? Seria isso devido aos veículos de expressão escolhidos? Seria isto consequência do próprio mundo e da sua forma de significar as coisas? Neste último caso, não seria necessário estudar como as pessoas significam a mim, ao meu personagem e aos caracteres que expresso tentando me identificar? Ou será que isto será distinto conforme cada sujeito ao qual o meu “cartão de visitas” for submetido?

E por último e não menos importante: o que de fato habita em mim de tudo isso que aparento ser? Será que há preços a se pagar por tentar parecer ser algo que talvez não se seja? Será que de fato devo me ocupar daquilo que aparento ser? Ou devo apenas ser quem sou e deixar com que a minha história conte sobre mim?

Deixo aqui minhas interrogações, pois para cada sujeito as resposta serão provavelmente diferentes.

*Gilberto Sendtko
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

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