segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O meu êxtase suscitou indizíveis que povoaram a minha imaginação, fomentaram a minha ternura e fortaleceram as minhas faculdades pensantes. Muitas vezes atribuí essas sublimes visões a anjos encarregados de prepararem a minha alma para destinos sobrenaturais. Elas dotaram os meus olhos da faculdade de ver o espírito íntimo das coisas, prepararam o meu coração para as magias que fazem o poeta infeliz, quando ele tem o fatal poder de comparar o que sente com o que existe."

"(...) teve os olhos constantemente fixos no rio, mas pela maneira por que escutava, dir-se-ia que, à semelhança dos cegos, sabia reconhecer as agitações da alma nas imperceptíveis modulações da palavra."

"(...) Era assim que ampliava, sem saber, o sentido das palavras, e que arrebatava nossa alma para regiões sobre-humanas."

"O seu rosto é daqueles cuja semelhança exige o inatingível artista cuja mão sabe pintar o reflexo dos fogos interiores, e reproduzir essa penumbra luminosa que a ciência nega, que a palavra não traduz, mas que um amante vê."

"Ponham-nas num meio em que tudo é dissonância, essas pessoas sofrerão horrivelmente, ao passo que o seu aprazimento chegará até à exaltação, se encontrarem as ideias, as sensações ou os entes que lhes são simpáticos."

"(...) Um órgão expressivo dotado de movimento se exercita então em nós no vácuo, apaixona-se sem objeto determinado, produz sons sem produzir melodia, faz ouvir acentos que se perdem no silêncio."

"(...) Encontram-se nele o homem e o enfermo, duas naturezas diferentes, cujas contradições explicam muitas singularidades."

"Saí para o campo, em busca de flores (...) admirando-as, refleti que as cores e as folhagens tinham uma harmonia, uma poesia que penetrava na mente, enfeitiçando o olhar, do mesmo modo que as frases musicais acordam mil reminiscências nos corações amantes e amados."

Honoré de Balzac in "O lírio do vale" W. M. Jackson INC. Editores. SP. 1963

domingo, 30 de outubro de 2016

Poética clandestina*




                                                                                                                                                                                               

Uma profecia de caráter excepcional recai sobre alguns escolhidos, parecem surgir de uma cepa rara, sujeitos a descrever a saga do personagem marginal. Estruturados para surgir como transgressão, desconstroem a certeza de uma só versão para todas as coisas.  

A atitude inesperada de toda razão oferece uma perspectiva plural na forma de poesia, filosofia, arte, subversão estética ao mundo instituído. No caso da inquietude filosófica, antes de virar comentário ou técnica acadêmica, é a concepção do eu como outros, reapresentada na inspiração libertária dos movimentos da irreflexão.

Um cavalheiro andante em busca de sua tribo encontra Adão e Eva no paraíso da singularidade. A palavra realiza uma poética das ruas. Seu caráter de profanação reivindica um ritual de iniciados. Os enredos do mundo novo percorrem as dialéticas do imprevisível. Visionários incompreendidos possuem a rara aptidão de conceder sabor de vida real aos delírios de criação.   

Os apontamentos do devaneio se iniciam em um não saber. Abertura de alma em íntima interseção com os deslizes do cotidiano. Repercussão dos achados a tecer caricaturas pelas frestas da normalidade. Alguns segredos escolhem o silêncio desmerecido para acenar suas verdades.  

Aproximação das margens com a reinvenção das águas. Essa linguagem é refém dos endereços existenciais por onde a pessoa transita. Em cada página um continente insinua sua geografia ao leitor das suas possibilidades. Ao integrar invisibilidades, a alquimia de viver sem intermediários se faz hermenêutica das incompletudes. Seu querer dizer aprecia abrig

Aos rascunhos das entrelinhas restaria á condenação à fogueira dos versos malditos, não fora a curiosidade pesquisadora a resgatar os traços de originalidade diante de si. Sujeitos inconformados a rotina da intenção domesticada, se associam como cúmplices do instante criativo. Articulam o encontro do absurdo com a raridade de sua tradução. Anotações preliminares em busca dos heróis dessa poética clandestina. 

*Hélio Strassburger

sábado, 29 de outubro de 2016

Poemas Inconjuntos*


(...)
A Criança

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

A Espantosa Realidade das Cousas

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
(...)

*Fernando Pessoas na versão Alberto Caeiro

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Terapia x Fé*


Podem as crenças ser objeto de terapia ?

Uma pergunta muito comum durante minhas aulas é se a fé pode ser objeto de trabalho terapêutico em consultório. Sim, a fé pode ser objeto de trabalho terapêutico e é normal que assim o seja. Muitas pessoas possuem crenças de grande peso subjetivo, desempenhando funções importantes, servindo de base para suas formas de valoração, base para suas representações de mundo, para sua visão de si mesmo, para suas buscas, para seus limites e assim por diante.

Neste sentido, um dos assuntos mais tratados em consultório diz respeito ao fato do objeto da fé ser ou não condizente com a Estrutura de Pensamento do sujeito. Isto é muito comum com pessoas que se desenvolveram durante toda a vida dentro de uma crença e recentemente trocaram de religião por algum fator externo, por um casamento, por uma mudança de endereço ou por um conflito qualquer.

Nestes casos, a nova religião pode não ser condizente para com a pessoa, por exemplo. Digamos que uma senhora já de idade tenha nos procurado em consultório dizendo que não se sente bem em sua nova igreja. Ela nos diz que gosta do lugar, gosta das pessoas, gosta daquela crença, acredita naquilo que ali é colocado e tudo mais, mas sente que algo está errado, algo que ela não sabe identificar.

Pesquisamos então na historicidade dela (história de vida) e descobrimos que ela passou quase sua vida inteira em uma igreja católica, com uma fé fortemente sensorial, na qual havia uma relação com o divino através dos sentidos. Uma fé sentida através do toque nas estatuas, através das imagens nos vitrais, no cheiro do incenso, no toque na água benta, na sensação de solidão que o formato daquela igreja gerava em seu interior.

Agora, no entanto, ela se encontra em uma religião completamente desprovida de elementos sensoriais, sem imagens, sem objetos de toque, sem os cheiros, uma fé abstrata, perfeita para muitas pessoas, porém muito distinta daquela para o qual sua subjetividade se preparou ao longo da vida. Nestes casos é muito comum que tenhamos que trabalhar terapeuticamente o objeto desta fé e suas formas de relação.

Outro assunto muito comum em consultório dizer espeito à qualidade da relação que se estabelece com aquilo em que se acredita. Essa relação com o divino se dá de uma forma afetuosa, paciente, tranquila e leve? Você se relaciona com essa fé da mesma forma como se relaciona com um ente querido, com um amigo ou pai? Você dispõe de tempo, atenção, gratidão para com isto? Ou você possui aquelas relações rígidas, pesadas, nas quais você só procura pela crença quando necessita, na qual faz cobranças, na qual você joga suas frustrações e a qual funciona muitas vezes como um supermercado, aonde você pede tal coisa e oferece tanto em troca?

Considere as formas de relações que você estabelece com as pessoas queridas, próximas e importantes. É esse o tipo de relação que você possui para com aquilo em que você acredita? Para algumas pessoas estas formas de relação mostram-se extremamente problemáticas e necessitam ser trabalhadas terapeuticamente, para se desenvolver assim aspectos como paz, confiança, esperança e bem estar destro desta fé.

*Gilberto Sendtko
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Outubro*


Outubro, choveu tanto este mês,
Outubro fiz aniversário, sol no fim de tarde,
Outubro é primavera, fiz meus olhos ficarem verdes,
Tive tempo de deixar vermelho meu pensamento,
Fui até o espelho e vi o vulto da velhice dançando,
Meu corpo é um rio temperado de cumplicidade com a vida.

Vou sair para ver o rio transbordar, santuário de águas,
Vou ouvir o canto do sabiá antes do dia se apresentar,
Outubro, eu entre os librianos, é o som da rua,
O ladrão que esconde a chuva para não se molhar,
O político que é preso para o tempo ser ultrapassado.
Outubro, política da violência que discorre - dia e noite.

Outubro é o mês do Cartola e de Vinicius.
Em outubro a dor passa mas não descansa,
A música é sumo nos lábios, entoa qualquer saída,
Viver é a facilidade de todas as notas do pensamento.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A cura pela fala*


"Sou uma microcirurgiã da mente. Médica, psiquiatra e psicanalista por formação, uso palavras e símbolos para explorar e modificar o panorama neural das mentes e cérebros de meus pacientes, da mesma maneira como o cirurgião maneja o bisturi para expor e extirpar estruturas comprometidas do corpo."

"(...) a chamada 'cura pela palavra', originalmente criada por Freud, altera literalmente a conexão dos neurônios cerebrais entre si. Essa reformulação neuronal propicia mudanças na sua maneira de produzir, integrar, vivenciar e compreender informações e emoções."

"Esse trabalho exige não apenas paciência, mas também persistência, para conseguir levá-lo a contento. Se formos muito duros, na tentativa de desfazer os nós rápido demais, corremos o risco de magoar o paciente, o equivalente psíquico de puxar-lhe os cabelos."

"Trabalhando com Alice em psicoterapia, tenho de visualizar o mapa em ziguezague de sua mente e explorar sua ilha da Terra do Nunca na sua companhia."

"Acompanhar as associações de um paciente durante uma sessão é como debruçar-se sobre sua paisagem neural, obtendo a configuração do terreno através da análise de ideias e imagens interligadas que vão formando o fio da meada."

"(...) provavelmente a psicoterapia modifica, de início, as conexões funcionais entre os neurônios, para depois converter essas transformações funcionais em mudanças na estrutura concreta do próprio córtex cerebral."

"Através da desvinculação e desconstrução dos padrões problemáticos de associações gravados nas interconexões dos neurônios de um paciente, posso ajudá-lo a modificar sua mente."

"(...) Um quarto mecanismo de mudança em psicoterapia provém do fato de que nossas vidas continuam enquanto estamos em tratamento, o que nos dá a chance de praticar muitas vezes aquilo que estamos aprendendo na psicoterapia em situações externas à sessão analítica."

*Susan C. Vaughan in "A cura pela fala". Ed. Objetiva. RJ. 1998.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Nem tudo que reluz é ouro*


Certo dia, conversando com um amigo, médico esteta, dividimos um impasse sobre a mulher gostosa de verdade. Foi um “bate boca” danado porque ele insistia em dizer que remodelava e reformava os corpos de suas clientes e elas ficavam mais gostosas.

Éramos cinco na mesa do almoço, Paulo o esteta, Ricardo o cirurgião plástico, Ibraim um clinico holístico, Carla uma dentista reabilitadora e eu, terapeuta de mulheres. Turminha da pesada contando casos interessantes e comentando as pirações das cabeças femininas sobre a forma física e tantas outras coisas.

Em certo momento, a turma dividida, eu conversando com Carla e Ibraim enquanto Paulo conversava com Ricardo e... algo me chamou atenção na conversa deles dois.

_ Rapaz, você viu a transformação da Suzana, aquela cliente que operou na clinica de Ipanema no mês passado? Fez lipo total, colocou 250 Gr em cada mama, reaproveitou parte da gordura do abdome e injetou nas nádegas. Voltou para uma revisão e eu fiquei de queixo caído, a mulher tá um avião. Ah, se eu não fosse casado, não sei não. Fiquei me imaginando, indo pro motel com aquela “gostosa”.

_ Opa, disse eu. Como assim, gostosa? Quem te garante que ela é gostosa?

_ Como assim, perguntou o Paulo. Claro que é gostosa um tremendo avião. Um traseiro de matar qualquer cidadão, cinturinha de pilão e tetas de invejar as norte americanas. Gostosa sim, e fui eu quem fiz.

Carla, enrubesceu, empalideceu, esfumaçou (soltou fumacinha pelas ventas) e contestou na mesma hora. _ Não é isso que faz uma mulher ser gostosa ou não.

Quem garante que na hora “H”, ela vai ser “isso tudo”. Ela pode ser simplesmente tipo uma... boneca inflável, por exemplo. Assim... do tipo...paradona mesmo, sem graça, sem sal. Bonito de ver, mas horrível de sentir. (Pra não dizer ”comer”). Tipo doce de padaria. Carla estava toda descompensada, sem jeito, envergonhada. Ela também trabalhava na clinica e cuidava do sorriso das clientes.

A clinica oferecia serviço completo. Eu cuidava da cabecinha delas, do relaxamento pré cirúrgico com Reflexologia Podal e do emocional com os maravilhosos Florais de Bach e com o aconselhamento. Afinal, é uma mudança e tanto, é vida nova, presume-se. Carla tinha razão, porque nas minhas sessões com estas clientes, recebia muitas queixas de como estava a vida sexual delas e constatava que o que faltava menos para que tudo andasse bem neste âmbito, era um corpo perfeito.

Cabecinhas reprimidas e bloqueadas totalmente. Conceitos e pré-conceitos de todos os tipos. Tabus infinitos. Falta de informação e conhecimento do assunto à toda prova e é claro, que em decorrência de tanta alienação, a vagina delas era a ultima coisa a ser lembrada. Não tinha mesmo como ser gostosa.

Discussão pra lá, pontos de vista pra cá e a conversa foi longe. Os homens batendo em cima do palpável e as mulheres, é obvio, sustentando o essencial. E o que seria este essencial?

Coloquei meu ponto de vista afirmando que as mulheres, em decorrência de tanta confusão sobre o mito da insuficiência feminina instituído pelo patriarcado pós era de Cristo (absolutamente nada contra Jesus Cristo, sou apaixonada por ele), deixou de lado sua feminilidade, sua sensualidade, sua criatividade e sua intuição. 

Tornou-se dependente da aprovação masculina e enfim, ficou reduzida a pó mesmo e proibida de sentir ou manifestar qualquer sensação de prazer ou de se preocupar com coisas mais intimas. Servia ao seu senhor e pronto. E isso era o que ela aprendia com sua mãe que tinha aprendido com sua avó e assim vai. A mulher viveu milênios sem se conhecer, sem se tocar, sem sentir prazer e obrigada a ignorar sua sexualidade, sua genitália e tudo mais que fizesse parte deste contexto.

Agora, depois do movimento feminista, que cito apenas como um marco, ela vem cheia de sede e de vontades. Toda revertida em seus valores pontua seus conceitos como a maioria dos homens e acredita no externo, no palpável, no visível e se mutila física e mentalmente. Ela quer trabalhar, enriquecer e adaptar seu corpo aos padrões da mídia custe o que custar não se preocupando em ser uma mulher de verdade.

Implícito a toda esta questão está o seu comportamento na cama e os cuidados que realmente são relevantes para o seu corpo. Sua vagina ficou esquecida e sujeita a problemas considerados corriqueiros, mas que na verdade são gravíssimos, como a dificuldade se sentir prazer com a penetração, a incontinência urinaria e a queda de órgãos como o útero e a bexiga que as leva, aos milhares anualmente, à cirurgias que poderiam ser evitadas (classificadas como cirurgia de períneo) e à insatisfação sexual dela e do parceiro.

Voltando ao papo com a turminha da pesada, contei pra eles como as mulheres ficam mais gostosas de verdade, cuidando do seu assoalho pélvico com os exercícios do Sahajôli/Pompoarismo e fazendo com que suas vaginas fiquem mais tonificadas e com poder de contrações mais fortes, aumentando infinitamente o prazer do casal. De como elas ficam mais liberadas, quando cuidam do seu emocional e se entregam aos seus parceiros de verdade sem se preocupar com o que está aparecendo de defeito no seu corpo na tal hora “H”. Concluímos que o trabalho deles faz com elas fiquem apetitosas, mas de ficar gostosa mesmo, quem cuida sou eu.

Os nomes citados acima foram alterados e qualquer semelhança com fatos reais será mera coincidência.

*Jussara Hadadd
Psicoterapeuta Especialista nas Síndromes do Feminino. Filósofa Clínica.
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes, Literários*


"(...) é possível dizer que começamos a escrever no momento em que nascemos. Afinal, escrever é uma maneira de olhar para o mundo ao nosso redor. Aos poucos, vamos reparando nas coisas, coletando ideias, imaginando narrativas, até passar aquilo para o papel ou para a tela do computador."

"(...) independente da forma, as palavras possuem um poder de criação. Quando as pessoas rezam, por exemplo, elas pronunciam diversas palavras, imaginando uma realidade diferente, criando um mundo em suas mentes. O mesmo acontece com a literatura. De alguma forma, aquelas palavras se tornam vivas, os personagens começam a ter existência própria."

"O problema (e a sedução) da Clarice Lispector é que ela é uma ilha, não permite seguidores. Ela está ali sozinha. Ela começa e termina sozinha, fechada. É o caso do Guimarães Rosa também."

"É preciso aceitar aquilo com o que não concordamos: cada personagem tem sua humanidade, e a arte surge quando abdicamos de julgá-los."

"Eu acho que a minha voz literária surge a partir da falta. Talvez não seja só o meu caso, mas de todo escritor. Encontramos a nossa voz - ou o nosso formato - a partir daquilo que nós não temos."

*Carola Saavedra in "Ofício da Palavra". Ed. Autêntica. Belo Horizonte/MG. 2014 

domingo, 23 de outubro de 2016

O sonho das palavras*


“Quem se entrega com entusiasmo ao pensamento racional pode se desinteressar das fumaças e brumas através das quais os irracionalistas tentam colocar suas dúvidas (...).”
                                                                       Gaston Bachelard

Um enredo malabarista se insinua em apontamentos de quase lógica. O sonhar das palavras rascunha vontades, antecipa delirando aquilo desconsiderado pela razão conhecida. Seus apontamentos de estética maldita dizem mais do que consegue traduzir. Não-ser acontecendo nalgum ponto entre realidade e ficção. 

Essa sensação do fenômeno ter alguma sobrevida nos termos agendados no intelecto, possui rasgos de transcendência inevitável. Parece reverenciar o lugar instante onde a exceção, o acaso, se desdobram num agora continuado.   

É possível ao verso irreal conter mensagens ilegíveis. Sua referência ao texto repleto de incompletudes parece querer dizer, ao leitor atento, sobre as alternativas de reescrever-se com sua leitura. Como se fora um esboço a silenciar sobre a natureza e origens da linguagem. Desvendar a renúncia de se descrever por inteiro. Registrar aparecimentos, desaparecimentos diante desses vestígios dos outros.

A folha em branco a espera do traço, rememora o que se cala nas afirmações. O sujeito assim descrito refere, no chão de suas vertigens, uma estética dos excessivos roteiros. Interseção onde temor e tremor transbordam expressividades de anúncio. Sua errância descreve peripécias ilegíveis ao dado literal, sua sobrevida acontece nos contornos e margens do mundo conhecível. Ao cogitar uma ideia insinua a embriaguez de ser nada, se faz entrelinhas na quimera, na lenda. 

O inédito percurso da ideia ou sensação, antes de ser palavra, transita pela irrealidade das zonas intermediárias, possui viés de prefácio inacabado, sedução a luz do dia pelas fantasias da noite. Um texto assim busca sua essência na sobrevida das desconsiderações. Realiza-se na utopia, ressoa vozes da distância e da proximidade.  
 
Na provisoriedade dos relatos, oferece uma redação precária num território a contemplar movimentos de abertura e fechamento. Nesse sentido, seu discurso revê o mundo ao seu redor, para, em seguida, ser poética discursiva e reencontrar o cotidiano de onde partiu. Os jogos de linguagem assim descritos renunciam a percepção especialista, preferem a ingenuidade do olhar.   

Um viés de retórica maldita pluraliza laços com a realidade da qual se afasta. Para se aproximar com as evidências dessa matéria-prima, os significantes oferecidos reivindicam um papel existencial diferenciado. Lembrando de que suas fontes nem sempre se refugiam no cotidiano. 

A palavra mais que perfeita sugere a multidão de personagens. Sua articulação reflete um manuscrito de silhuetas, franjas, dobras a descobrir-se nas releituras. Na frase recomeçada existem novos roteiros. Ao acolher esse desconhecido na própria voz, sugere algo mais sobre as recusas do verbo definitivo. Eis um lugar para o indizível ter um nome, quase sempre impróprio, num chão que não lhe pertence por inteiro.

*Hélio Strassburger

sábado, 22 de outubro de 2016

Mapa de anatomia: o olho*


O Olho é uma espécio de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globobrilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrágios e peixes de ouro. 

Mas por dentro há outras pinturas,que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são invetadas. 

O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.

*Cecília Meireles

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"(...) Não pode imaginar o quanto é amargo para mim quando as pessoas não me compreendem, quando deturpam o que eu disse e veem tudo distinto do que eu pensei.."

"Querido irmão, Perdoe-me por não ter escrito antes. Estou tendo, como de costume, um monte de aborrecimentos para resolver. Meu romance, do qual simplesmente não consigo fugir, mantém-me eternamente trabalhando. Se eu soubesse de antemão como seria isso, eu jamais teria começado a escrevê-lo. Decidi refazê-lo totalmente e, meu Deus, como isso fez o texto melhorar."

"(...) Estive apaixonado pela esposa de Panaiev, mas passou, ainda que siga pensando nela. Minha saúde está terrivelmente abalada. Estou neurótico e temo ficar febril a qualquer momento. Não consigo viver decentemente, sou um dissoluto. Se não conseguir me banhar no mar durante o verão, serei um desgraçado. Adeus. Por favor, escreva. Perdoe-me por essa carta desajeitada. Eu estou com pressa. Um beijo, meu irmão. Seu, Dostoiévski."

"A cada dia surgem tantas novidades, tantas mudanças e impressões, coisas boas e agradáveis, outras desvantajosas e desagradáveis, que não tenho tempo para refletir sobre elas. Em primeiro lugar, estou sempre ocupado. Tenho montes de ideias e escrevo incessantemente. Mas não pense que para mim isso seja um mar de rosas. Longe disso."

"Mais uma vez, muito obrigado pelos livros. Eles distraem-me mais que qualquer outra coisa. Por quase cinco meses tenho vivido exclusivamente de minhas próprias provisões - ou seja, de minha própria mente e apenas dela."

"Meu tão querido irmão! Tudo está resolvido! Fui sentenciado a quatro anos de trabalhos forçados em uma fortaleza (ao que tudo indica, Orenburg), e depois, alistamento como soldado raso."

"Escreva para mim mais vezes, e com mais detalhes, cartas mais extensas. Alongue-se nos assuntos familiares, nas bagatelas, não se esqueça disso. Isso me trará esperança e vida. Se você soubesse como suas cartas confortaram-me na prisão..."

"Fico imensamente feliz por ter descoberto que trago paciência em minha alma por tanto tempo, que não desejo as coisas materiais e não preciso de nada mais que livros e a possibilidade de escrever e de estar sozinho por algumas horas todos os dias. Esse último desejo é o que mais me angustia. Por quase cinco anos tenho estado sob constante vigilância, ou com várias outras pessoas, e nem uma hora sequer sozinho comigo mesmo."

"A constante companhia de outros funciona como um veneno ou uma praga;"

"(...) Vivo sozinho aqui. Como de costume, escondo-me das pessoas. Depois de cinco anos de contínua vigilância, um de meus grandes prazeres é ter meus momentos de solidão." 

"Até breve, meu querido amigo. Perdoe-me pel incoerência desta carta. Nunca se escreve apropriadamente em uma carta. (...) Quem sabe ? Talvez eu possa estreitá-lo em meus braços novamente. Permita-nos Deus! E pelo amor de Deus, não mostre esta carta a nonguém (absolutamente ninguém!) Um abraço. Seu, Dostoiévski."

*Fiodor Dostoiévski in "Dostoiévski: correspondências 1838-1880" Ed. 8Inverso. Porto Alegre/RS. 2011.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Cartografia da Educação*

   
Torna-se patente hoje o fato de que as construções modernas de uma razão subjetiva não eram menos utópicas do que as visões antigas e medievais de uma razão objetiva. Pois a razão subjetiva não é outra coisa senão um sujeito universal coerente.
Peter Sloterdijk (Crítica da Razão Cínica) 

Tenho medo de um país mais adiante, do país que vivo, ali na frente é na certa o naufrágio de um pôr do sol. Como tinha medo do país presente, melhor de um passado sem registros é o de conhecimento. É preciso que saiamos do legado moderno. Tenho este temor diante das cabeças em minha frente, o controle da ordem é a origem do pensamento, pois refletir nas certezas nos levaria ao racionalismo, nos poria no centro das discussões. 

Não é o que parece, é o que vem acontecendo, cada vez mais o pensamento está sendo eivado pela brutalidade da lógica silenciosa de excluir o máximo possível, de colar o mínimo com mais força para poder fazer da realidade um acordo entre o que está disponível e a única coisa que pode ser dada. Ou seja, contestar sem arejar o cérebro. Não se trata de buscar o culpado, pois se fosse mexer neste presente existente, o passado estaria sendo esquecido para sempre.

Um lugar ao sol para os que acreditam que pensar é um bem supremo. Desde que o contrário da ordem oferecida não seja a não aceitação de mais um esboço de encobrir o presente com a funcionalidade das ordens injetadas para solucionar a doença maior que existe, a falta de conseguir religar os fios dos pensamentos. 

Nos iludimos muito rapidamente com as ordens, nos deprimimos mais rápido com a crítica, porque certamente o que já está sendo proposto é melhor, está pronto, já vem como uma forma vitoriosa. 

Os críticos da Educação são os mesmos que outrora gostavam de pensar um meio de socializar, mas esquecem, hoje, o pensar dentro de um limite é inócuo. Pois o pensar não é uma racionalidade pronta, não tem uma fórmula de inclusão do melhor em detrimento do que já está excluído por ter sido uma ameaça aos propósitos dessa suposta socialização da Educação. 

Existem fórmulas para aplicar na educação, mas não há uma maneira inabalável de que essas receitas possam dar certo sem que haja, o que pouco resta de um pensar autônomo, um grande desastre no presente. Não estou a pensar no futuro, mas em refletir sobre o que estão pensando em fazer, do hoje, um amanhã mais formatado, mais indecifrável, porém, funcionalmente mais seguro.   

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Tudo se me evapora*



Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. 

Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.

Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio. 

É frequente eu encontrar coisas escritas por mim quando ainda muito jovem - trechos dos dezessete anos, trechos dos vinte anos. E alguns têm um poder de expressão que me não lembro de poder ter tido nessa altura da vida. Há em certas frases, em vários períodos, de coisas escritas a poucos passos da minha adolescência, que me parecem produto de tal qual sou agora, educado por anos e por coisas. Reconheço que sou o mesmo que era. E, tendo sentido que estou hoje num progresso grande do que fui, pergunto onde está o progresso se então era o mesmo que hoje sou.

Há nisto um mistério que me desvirtua e me oprime.

Ainda há dias sofri uma impressão espantosa com um breve escrito do meu passado. Lembro-me perfeitamente de que o meu escrúpulo, pelo menos relativo, pela linguagem data de há poucos anos. Encontrei numa gaveta um escrito meu, muito mais antigo, em que esse mesmo escrúpulo estava fortemente acentuado. Não me compreendi no passado positivamente. Como avancei para o que já era ? Como me conheci hoje o que me desconheci ontem ? E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio de mim.

Devaneio com o pensamento, e estou certo que isto que escrevo já o escrevi. Recordo. E pergunto ao que em mim presume de ser se não haverá no platonismo das sensações outra anamnese mais inclinada, outra recordação de uma vida anterior que seja apenas desta vida...

Meu Deus, meu Deus, a quem assisto ? Quantos sou ? Quem é eu ? O que é este intervalo que há entre mim e  mim ?

*Fernando Pessoas in "Quando fui outro". Ed. Alfaguara. RJ. 2016  

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Errâncias*


Errante é o poeta
Pois anda por caminhos
Por ele mesmo desconhecidos
Tão somente abre trilhas
Tateando na sua penumbra
Cambaleia, cai, e rasteja
Levanta, e segue errando
Sem saber ao certo
Para onde vão seus passos.
Como poderia conduzir
Alguém por um caminho
Se o próprio, desconhece
Então escreve o seu caminho
Para tentar conduzir-se
Apenas por mais um passo
Somente por mais um dia....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sou*


Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

*Jorge Luis Borges

domingo, 16 de outubro de 2016

* Amores


O amor basta em si mesmo porque se espalha, contagia, realiza e completa qualquer lacuna, mesmo as mais persistentes, do início a eternidade. E quem ama, se ama mesmo, liberta e respeita. Quem ama, se ama mesmo, permite prosseguir; permite que se prossiga em paz. 

Quem ama, se ama mesmo, deseja de coração aberto o melhor a quem ele libertou, independente de caminharem lado a lado ou distantes conforme escolha própria. 

Quem ama, se ama mesmo é feliz porque torna os outros felizes, porque torna tudo que toca feliz, por gratidão e ternura sapiente para se aceitar como se é, ao mesmo tempo em que aceita os outros como eles são... Quem ama, se ama mesmo sorri e apoia as conquistas, sobretudo, alheias. 

Porventura, amar não é apego, não é posse nem propriedade, não é cobrança nem imposição. Enfim, seguramente, amar é, tão somente, doação e libertação por amor agora. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico da Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 15 de outubro de 2016

O afogado mais bonito do mundo*


SOU ANTROPÓFAGO. DEVORO livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de antropófago determinam a maneira como escolho livros. Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro, deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue. 

É o caso do conto "O Afogado Mais Bonito do Mundo", de Gabriel García Márquez. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.

É sobre uma vila de pescadores perdida em nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava...

Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o desapontamento de todos: era um homem morto. 

Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E, naquela vila, o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e líquens, mortalhas verdes do mar.

Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: "Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".
Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.

De novo o silêncio foi profundo, até que uma outra voz foi ouvida. Outra mulher... "Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?" E elas sorriram e olharam umas para as outras. De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher... "Essas mãos... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?". 

Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.

Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam desejado.

A história termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

*Rubem Alves

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"O nada e o ser são sempre absolutamente outros, é precisamente seu isolamento que os une; não estão verdadeiramente unidos, apenas se sucedem mais depressa diante do pensamento. Já que o vazio do Para-Si se preenche, já que o homem não está presente imediatamente a tudo, mas muito mais especialmente num corpo, numa situação e, somente através deles no mundo (...)."

"(...) o olhar do outro - e é nisso que ele me traz algo de novo - envolve-me por inteiro, ser e nada."

"Aparentemente, essa maneira de introduzir o outro como incógnita é a única que considera sua alteridade e a explica."

"(...) o filósofo procura - uma linguagem da coincidência, uma maneira de fazer falar as próprias coisas."

"(...) um mistério familiar e inexplicado, de uma luz que, aclarando o resto, conserva sua origem na obscuridade."

"Lembrando Valéry: 'a linguagem é tudo, pois não é a voz de ninguém, é a própria voz das coisas, ondas e florestas.'"

"(...) a certeza de que as coisas têm outro sentido além daquele que estamos em condições de reconhecer."

"Há uma espécie de loucura da visão que faz com que, ao mesmo tempo, eu caminhe por ela em direção ao próprio mundo e, entretanto, com toda a evidência, as partes desse mundo não coexistam sem mim (...)"

*Merleau-Ponty in "O visível e o invisível". Ed. Perspectiva. SP. 1999.