sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Escrever implica calar-se, escrever é, de certo modo, fazer-se 'silencioso como um morto', tornar-se o homem a quem se recusa a última réplica, escrever é oferecer, desde o primeiro momento, essa última réplica ao outro"

"Escreve-se talvez menos para materializar uma ideia do que para esgotar uma tarefa que traz em si sua própria felicidade"

"(...) atividade estruturalista: a criação ou a reflexão não são aqui 'impressão' original do mundo, mas fabricação verdadeira de um mundo que se assemelha ao primeiro, não para copiá-lo mas para o tornar inteligível"

"(...) a literatura é pelo contrário a própria consciência do irreal da linguagem: a literatura mais 'verdadeira' é aquela que se sabe a mais irreal, na medida em que ela se sabe essencialmente linguagem, é aquela procura de um estado intermediário entre as coisas e as palavras (...)"

"(...) a linguagem não é aqui violação de um abismo, mas espraiamento sobre uma superfície, está encarregada de 'pintar' o objeto, isto é, de acariciá-lo, de depositar pouco a pouco ao longo de seu espaço toda uma cadeia de nomes progressivos, dos quais nenhum deve esgotá-lo"

"(...) o descontínuo é o estatuto fundamental de toda comunicação (...) O problema estético consiste simplesmente em saber como mobilizar esse descontínuo fatal, como lhe dar um sopro, um tempo, uma história"

"(...) não sente ele que retoma contato com um certo para-além do texto, como se a linguagem primeira da obra desenvolvesse nele outras palavras e lhe ensinasse a falar uma segunda língua ?"

"O crítico não pode pretender 'traduzir' a obra, sobretudo de modo mais claro, pois n~çao há nada mais claro do que a obra. O que ele pode é 'engendrar' um certo sentido derivando-o de uma forma que é a obra"

*Roland Barthes in "Crítica e verdade". Ed. Perspectiva. SP. 2011

Nenhum comentário:

Postar um comentário