quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ame mais, fale menos*


Será que isto é amor? Esta é uma pergunta que muitos morrem angustiados sem saber responder. Felizes daqueles que afirmam categoricamente sim. Ainda que não tenha durado para sempre, que tenham sido anos, meses ou dias, esta certeza é melhor que a dúvida ou a negativa.

Se o amor foi correspondido ou não, é outra história. A questão é saber se amou ou não amou.  Passar uma vida inteira e ao final constatar jamais ter amado alguém é um desperdício. Ou pior, passar anos fazendo análise para saber se realmente era amor aquilo que sentia e morrer na dúvida. Desperdício dobrado.

Houve um tempo em que amar significava comprometimento. Dizer “eu te amo” era declaração de um sentimento único e raro em uma relação diferente de todas as outras. Um envolvimento sólido, uma ligação pra valer. Eram necessários meses ou anos de convívio e muita coragem para solenemente declarar amor por aquela pessoa especial. Jamais seria escrito via whatsapp seguido de figuras de coraçõezinhos ou beijinhos. O amor era revelado ao pé do ouvido, olhando nos olhos, entrelaçando as mãos, e significava quase um pedido de casamento. Em tese, sabiam do que estavam falando. 

Hoje em dia, anunciar que ama alguém, não quer dizer quase nada.  A palavra amor foi banalizada e é verbalizada à toa. Maria ama João, mas antes amou Paulo e antes dele, Francisco. Maria só tem treze anos de idade, e todas as declarações foram postadas no facebook.  Fernanda amou o show do Fábio Júnior, Ana amou a torta de nozes que provou na confeitaria. Ama-se cachorros, filmes, viagens, móveis, óculos, biquínis e pessoas também.

O dicionário define amor como uma afeição profunda, a ponto de estabelecer um vinculo intenso, capaz de doações próprias, até o sacrifício. É assim que funciona pra você?  Fique tranqüilo, nem todos concordam com esta explicação, existem milhares de outras definições, em alguma delas você deve se encaixar.

“Amar é aquela vontade danada de andar de mãos dadas durante o dia e de pés dados durante a noite”.
”O amor tem vários sabores, desde o adocicado do início, até o amargo do fim”.
“O amor nasce não sei de onde, vem não sei como, e dói não sei porquê”.
“O amor está em todos os lugares, você é que não procura direito”.
“O amor é o que o amor faz”.
“O amor que acaba, nunca principiou”.
“Quando encontramos o amor da vida da gente, tudo parece fazer sentido. E percebemos que tínhamos uma falsa idéia do que era o amor”.
"O amor que acaba também é eterno".
"Quem não é nem capaz de dividir o amor, deixará o outro sofrer sozinho depois".
"Quando um homem ama de verdade, a única coisa que vai querer mudar na mulher amada é o sobrenome".
"Quem perde tempo julgando, fica sem tempo para amar".

E agora, ficou mais fácil ou complicou de vez? Como enquadrar aquilo que estamos sentindo em uma definição de amor? Por mais evoluídos que possamos parecer, não conseguimos descrever sentimentos com palavras adequadas, então utilizamos o auxilio de metáforas palpáveis. Ainda não atingimos a capacidade de descrever idéias abstratas sem transformá-las em algo físico. Não conhecemos palavras pertinentes, então tentamos nos comunicar através de imagens que simulem aquilo que queremos expressar. “Explodiu de amor”, “ficou cego de paixão”, “regou o amor”, “amor raso”, “amor profundo”, “amor de verão”, “louco amor”.

Provavelmente você tem a sua definição de amor, que é diferente da minha, que é diferente da maioria das pessoas. E não há nada de errado nisto. Amor é uma palavra que inventaram para expressar um sentimento e não um conceito fechado e consensual, portanto, cada um sentirá de sua maneira e o expressará como conseguir. Se aquilo que você está sentindo se encaixa ou não no rótulo amor do dicionário ou combina com a imagem formada de seu amado(a) é o grande desafio.

Por conta destas discordâncias conceituais, casais que lá atrás juravam se amar, depois de um tempo de convivência, descobriram que se enganaram, hoje se odeiam e talvez amanhã até se matem. Quem pode assumir o papel de juiz ou dono da verdade para decidir o que é amor ou não? Já dizia o Marquês de Maricá: “nossas necessidades nos unem, mas nossas opiniões nos separam”.

Não gosto de dar conselhos, mas vou dizer o que penso hoje sobre o amor. Talvez ajude alguns corações indecisos. Preste atenção: amor é apenas uma palavra que sequer consegue expressar o sentimento de uma só pessoa, quem dirá de um casal ou do universo inteiro. Dizer “eu te amo” não significa muito, não é garantia de nada e pode causar confusão, tapas e beijos.  Em compensação, amar significa quase tudo.
Ame mais e fale menos.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

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