segunda-feira, 10 de abril de 2017

Descrituras*


“(...) Deram-me esta bela gravata... como um presente de desaniversário! (...) o que é um presente de desaniversário ? – Um presente oferecido quando não é seu aniversário, naturalmente.”
                                                                               Lewis Carroll

Uma redação se faz página cotidiana na vida de qualquer pessoa, quer ela entenda ou não. Algo que restaria esquecido, não fora a ousadia semiótica a tentar decifrar essa trama de códigos imperfeitos. Por esse esboço a lógica descritura se incompleta para prosseguir inconclusa, aberta, viva. 

Nem sempre se escolhe escrever, algumas vezes são as palavras a escolher um sujeito para se dizer. Conteúdos de rascunho, ilação, percepção extemporânea, reflexão. Aproximações com a zona interdita nas margens de cada um.

O tempo aprecia conceder eficácia de tradução aos traços persistentes. O sujeito prisioneiro dessa armadilha conceitual experimenta liberdades nem sempre possíveis de mencionar na forma retórica. A relação do universo singular com o mundo dos outros aprecia se realizar em manuscritos compartilhados.

A trama constitutiva dos termos agendados exibe um processo em curso na pessoa fonte de vivências, um deslocamento a mencionar labirintos desmerecidos. Esse olhar inédito, a conter invisibilidades, se aproxima de um lugar sem nome. 

Um refém sugere seu extraordinário teor discursivo em dialetos de novidade. Quiçá à espera de algo que o mantenha vivo, um pouco antes de ser verdade nalguma forma de religião. A desnecessidade aparece, ao autor dessas linhas, como um lugar provisório aos textos por vir.

No encontro do acaso com a definição o sujeito desdobra-se num percurso onde entrevê seu ser passando. Assim as releituras podem conseguir um vislumbre desses traços malditos. Nalguns instantes as palavras podem antecipar a visão do paraíso ou inferno pessoal.

Essa teia de signos possui intencionalidade transbordante, a qual, longe da singularidade que a produz, nada é. Sua ameaça às certezas oscila com a frequência das interseções do seu entorno. Os rituais de autodescoberta esparramam vestígios de arquitetura indizível. Quiçá tentativa de expandir a janelinha diante do espelho.

Escreve-se por não saber por que. Quando se sabe já são outras razões. Nessa dialética a descritura aproxima sonho com a vida real. Já é outro aquele mesmo que se foi. Convivência absurda a parir virgindades. 

*Hélio Strassburger

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