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Majora***

“Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre”                               José Eduardo Agualusa Certos universos nos surpreendem, mais ou menos como a máxima de achar que de onde menos se espera, surgem preciosidades, ou, pelo menos, algo se mexe no espírito meio adormecido. Foi assim com a lua de Majora, prestes a cair, caso o tempo não se incumba de encontrar soluções favoráveis aos destinos incertos de cada um de seus habitantes (com seus dramas e seus sonhos inacabados). O que parecia ser uma simples brincadeira revelou-se uma reflexão curiosa sobre percepção e valores. No interior deste belo e enigmático ambiente, crianças brincam a desafiar dilemas e nos convidam a tirar nossas máscaras, expor nossas questões e nos revelarmos. As crianças indagam: “Seus amigos, que tipo de pessoas eles são? E essas pessoas te veem como um amigo?” Amigos... são como c

Jürgen Habermas – o pensador no século XXI*

Hoje é o aniversário de Jürgen Habermas, nasceu em Düsseldorf ‒ Alemanha ‒ 18 de junho de 1929. Filósofo e Sociólogo, um dos grandes representantes da Teoria Crítica, soube como poucos atualizar o legado de Marx, de Adorno, Horkheimer e Marcuse. Atuante em questões de seu tempo, chegou neste século com sua obra em plena forma, atualíssimo. Conseguiu trazer temas tão importantes para as Ciências Humanas com uma renovação criativa, como por exemplo, a Teoria do Agir Comunicativo. O Mundo da Vida causou uma tempestade, o autor ganhou interlocutores críticos e, também, atraiu vorazes inimigos nessa esteira teórica que ele nos presenteou em livros. É isso que se quer de um pensador, a potencialidade da obra é, também, a luz que reflete e reflexiona, como pode ser a luz a ofuscar ideias pretensamente únicas e definitivas. Até hoje, Habermas, é um indicativo de que o pensamento crítico ainda vive. O pensador da emancipação, crítico dos exageros do cientificismo e da especiali

Meu canteiro de Flores*

Juro como fiz tudo direitinho Preparei bem o terreno Afofei a terra. Fiz carinho Deitei as sementes. Uma por uma Grãozinho por grãozinho Aguei com cuidado Tentei fazer tudo direitinho. Protegi do sol muito forte Fiz guarda-chuva contra temporais Ao dormir, cansado, conferia meu canteiro Cedinho, pela manhã, espiava meu canteiro Pela janelinha do meu quarto Esperando algum brotinho Deu nada não... Deu nada não Desconfio que a semente seja transgênica Faz mal nada, não Vou refazer tudo de novo: Preparar o terreno Afofar a terra Deitar a semente Aguar com cuidado Velar dia e noite Montar guarda se preciso for Até que o brotinho apareça... Depois vou contar pra todo mundo... *José Mayer Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica Porto Alegre/RS

O Legente*

Há muito tempo, desde que a tarde se ouvia Com o murmúrio da chuva nas janelas, eu lia. O vento lá fora, já o não escutava: O meu livro pesava. Como se fossem rostos, as folhas sob o meu olhar Escurecem de tanto pensamento E, envolvendo a leitura, avolumava o tempo. De súbito desce sobre as páginas um fulgor, E em vez de confusas palavras - um tormento - Há em todas só... noite, noite só, a nascer. Não olho ainda para fora, mas já as longas Linhas se desfazem, e as palavras rolam Do fio que as liga, vão para onde querem... E então eu sei que há céus sem fim Sobre o esplendor e a plenitude dos jardins; O sol teve de nascer mais uma vez. - E agora é verão e noite o horizonte: O que andava disperso em grupos se une, Poucos, e há gente pelos caminhos escuros, E longe, estranhamente, como se outro sentido Tivesse, ouve-se o pouco que ainda acontece. E ao levantar do livro o olhar agora, Nada me é estranho, tudo tem grandeza. O que aqui de

Vinho: a Bebida Sagrada dos Cristãos*

“Bebei, isso é meu sangue” disse Jesus ao levantar o cálice com vinho. E concluiu dizendo: “fazei isso em minha memória”. Na Bíblia, no livro de Mateus, o autor faz um relato do nascimento de Jesus descrevendo que os Reis Magos levaram ao Messias três presentes especiais: ouro, símbolo da realeza; incenso, símbolo da espiritualidade; e mirra, símbolo do profetismo, que não passa de um fortíssimo alucinógeno comparado a morfina utilizado em rituais religiosos na África antiga. No Evangelho de Marcos, a mirra aparece mesclada ao vinho, oferecida a Jesus torturado antes de o crucificarem. Ele rejeitou a bebida. Ao longo de toda a história, o uso de alucinógenos e outros aditivos químicos teve início em rituais religiosos. No Brasil, por exemplo, temos ayahuasca utilizada pelos adeptos do Santo Daime e União do Vegetal, religiões nascidas com o povo da floresta amazônica. Muitas religiões e seitas têm suas bebidas sagradas e o vinho é a bebida sagrado dos Cristãos, institu

A que bebeu poesia*

A louca que passa Deixou na vidraça Um olhar que no fundo Tem muita desgraça. Será minha mãe A pobre da louca Que nada mais tendo Conserva a ternura? Será minha noiva Que louca ficou Depois que parti No barco da guerra? Será minha filha A louca do bairro Que a vida judiou Depois que morri?                   Ou foi a poesia Que a louca bebeu Que lhe deu esse ar De ser doutro mundo? *Luiz Guilherme do Prado Veppo

Nem todos os quebrantos, toda alquimia e nem todos os santos*

Acontece sim, com frequência, de casais não resistirem. O que não tem juízo, não faz sentido e não se explica. O que se sente e prende, quando em laço os sentidos atende e, se cuidado, regado e amparado com carinho e respeito, nada, nenhuma mandinga, pai de santo, nada vai desfazer. Nada vai separar um casal que se ama. O pecado é que acontece de muitos casais não resistirem às influências externas. Acontece, tristemente, aos olhos dos que apostavam naquela linda e promissora relação, o fim. Acontece, para decepção e angustia de uma das partes que apostou que deu o seu melhor e que confiou, do outro desistir. De o outro sucumbir ao entorno, muitas vezes egoísta e injusto que julga, condena e cobra momentos, presenças e recursos os quais por preguiça ou pura maldade, faz apenas, exigir, exigir e exigir. Acontece, para decepção de alguém que luta contra tudo e todos para permanecer em um amor, apesar de toda dificuldade, daquele que esperava as coisas melhorarem, p

Traduzir-se*

 Uma parte de mim  é todo mundo:  outra parte é ninguém:  fundo sem fundo.  Uma parte de mim  é multidão:  outra parte estranheza  e solidão.  Uma parte de mim  pesa, pondera:  outra parte  delira.  Uma parte de mim  almoça e janta:  outra parte  se espanta.  Uma parte de mim  é permanente:  outra parte  se sabe de repente.  Uma parte de mim  é só vertigem:  outra parte,  linguagem.  Traduzir uma parte  na outra parte  - que é uma questão  de vida ou morte -  será arte? *Ferreira Gullar

Invasão oceânica*

Em uma entrevista, o filósofo Pierre Hadot define sua conversão filosófica na juventude a partir da uma visão espetacular do céu noturno e, definindo a emoção que o acometeu naquele momento, diz que foi invadido por um “sentimento oceânico” de prazer e admiração. Vou usar essa expressão dele com uma pequena alteração na linguagem mas tentando manter o significado no sentido de uma coisa que é maior do que aquilo que se pode suportar e que acaba por colocar abaixo os limites que antes faziam parte desse algo bem definido. No caso, vou usar a frase invasão oceânica. O sentido dessa frase já coloquei, mas em que contexto pretendo usá-la? No contexto familiar. A psiquiatria e seus conceitos já romperam a barreira da própria profissão e assim invadiram várias instituições e áreas que nada tinham a ver com sua atividade inicial e seu território original. Uma dessas instituições e território invadido foi o das escolas. Elas, por sua vez, invadidas, acumula

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