terça-feira, 2 de outubro de 2012

Expressividade 1, 2, 3*

Expressividade é o quanto cada pessoa revela dela mesma e quanto guarda para si. Quanto fica retido e quanto flui em direção ao outro. É uma característica individual na relação consigo mesmo e depois em direção ao outro.

Não pode ser quantificada com exatidão. Algumas pessoas são completamente fechadas, não conseguindo liberar nada. Outras se abrem por inteiro, deixando passar de forma bruta tudo aquilo que vivenciam. A maioria filtra o que pode sair e o que deve ficar. Não existe certo nem errado, entretanto tanto a falta como o excesso podem causar dificuldades

- UM -

Às vezes não consigo entender nem expressar direito o que estou sentindo no exato momento em que as coisas estão acontecendo. Fico com aquilo apertando ou alisando minha alma durante um tempo, para depois então aflorar e ficar escancarado. Não sei se isto é bom ou ruim. A vantagem desta demora é que quando finalmente o sentimento mostra a cara, já vem amadurecido. A desvantagem é que pode chegar atrasado e perder a hora.

Outras vezes não necessito tempo algum, é como uma máquina fotográfica instantânea registrando o sentimento ao vivo e a cores. Não sei se ontem à noite consegui expressar tudo que se passava comigo.

Nossa conversa no restaurante estava tão boa que nem percebi as horas voarem. Fomos os últimos a sair e só o fizemos porque os atendentes começaram a apagar as luzes e empilhar cadeiras. Neste momento meu sentimento estava muito claro: Quero continuar, quero mais!

Não lembro a última vez que esqueci a hora, o compromisso do outro dia, o perigo de ser assaltado dentro do carro... Estava me sentindo tão bem, a conversa fluía espontânea, as risadas vinham sem piada, os olhares se encontravam sem medo. Era como se nos conhecêssemos desde sempre. Havia uma intimidade não compatível entre duas pessoas praticamente desconhecidas. Estava adorando.

Eram quase duas horas da manhã, o restaurante praticamente nos expulsou, mal nos conhecíamos, estava louco de vontade de continuar ao teu lado, não queria de forma alguma me despedir naquele momento, mas algo me impediu de te convidar para esticarmos a conversa.

Senti aquele aperto na alma e uma voz muito chata que dizia para ter paciência, não atropelar, segurar meus instintos, afinal de contas teríamos a vida inteira para ficarmos juntos e talvez aquele ainda não fosse o momento apropriado para um convite deste tipo. Provavelmente era a voz da razão se manifestando.

A voz da emoção não falava nada, só alisava minha alma deixando-a leve e plena para usufruir tudo aquilo. Não tinha vontade nem condições de ficar elaborando teorias ou estratégias sobre o futuro.

Jamais vou esquecer aquele momento. Porta do restaurante fechada, madrugada fria, cidade adormecida, segundos infinitos de silêncio enquanto olhávamos um dentro do outro...

- DOIS -


Era apenas nosso terceiro encontro. Havíamos marcado caminhar no parque às 10 horas. Passei a noite inteira excitado, pensando em como estava gostando de ter te conhecido, como me sentia bem ao teu lado, como te achava bonita, como tínhamos afinidades e como a vida demorou a nos aproximar.

Pensava de que maneira poderia te dizer, sem parecer muito ousado, que estava super interessado no aprofundamento de nosso recém iniciado relacionamento. Não dormi direito fantasiando mil e uma situações. Acordei cedo, tomei banho, cheguei antes da hora e fiquei te esperando.

Viestes acompanhada de um rapaz mais jovem que eu, bonito e bem apessoado. Enquanto se aproximavam percebi que estavam se divertindo bastante e tinham certo grau de intimidade.

Ao ver esta cena, logo bateu uma sensação de inveja ou ciúmes, não sei direito. Fiquei mal, meus planos começaram a desabar, a auto-estima desceu ladeira abaixo, senti um vazio, um desânimo e tive vontade de ir embora prá não fazer um papel ridículo. Permaneci ali por educação e também para ficar perto de ti.

Apesar disto, estavas linda com aquela camiseta regata grudada ao corpo e os cabelos ao vento. Chegastes sorrindo e dissestes apenas uma frase: “Não te preocupa, ele é meu primo.”

Não foi preciso mais pra dissipar minha insegurança. Percebestes o mal estar e tratastes de me enquadrar imediatamente. Senti a sintonia, o acolhimento, e mais do que isto, senti que não precisava dizer nada do que havia planejado durante a noite. Já havias feito a leitura.


- TRÊS -

Espero que a viagem esteja maravilhosa e que consigas aproveitar ao máximo tua estadia em Las Vegas. Por aqui as coisas não mudaram, exceto pela temperatura que sobe e desce quase quinze graus num mesmo dia, e pelo teu time, o Internacional, que não consegue vencer no campeonato.

Ontem aconteceu algo interessante. Desde que meu marido faleceu, nunca mais havia aberto uma gaveta onde guardávamos nossos CDs. Pois não é que bateu uma nostalgia e fui direto pegar um CD que gostava muito de escutar. O cantor é um espanhol chamado Joaquim Sabina (conheces?) e a música em especial que queria relembrar chama-se “Contigo”.

O cantor fala para sua amada um monte de situações de amor civilizado que não pretende mais conviver, tais como carregar malas para ela, ser esperado na saída do trabalho, viagens ao passado com vontade de chorar, convites para recomeçar, orgulho, piedade, ciúmes...

Depois de colocar o que não quer, conclui enfaticamente dizendo o que ele quer da relação: “ O que eu quero, garota de olhos tristes, é que morras por mim. E morreria contigo se te matasses. E matar-me-ia contigo se tu morresses. Porque o amor quando não mata, morre. Porque amores que matam, nunca morrem.

Sempre que escuto esta música me emociono e choro. Quando voltares, gostaria de abrir um vinho tinto que tenho guardado na adega há muito tempo, sentar na varanda da sala, olhar nos teus olhos e degustar contigo o vinho e a canção. Quem sabe choramos juntos?

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

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