terça-feira, 22 de março de 2016

Fragmentos Filosóficos, Literários, Delirantes*



"(...) Esse ponto, donde as vemos irredutíveis, coloca-nos no infinito, é o ponto onde o infinito coincide com lugar nenhum. Escrever é encontrar esse ponto. Ninguém escreve se não produzir a linguagem apropriada para manter ou suscitar o contato com esse ponto."

"O poeta é aquele que ouve uma linguagem sem entendimento."

"É verdade que muitos criadores parecem mais fracos do que os outros homens, menos capazes de viver e, por conseguinte, mais suscetíveis de se espantar coa vida."

"Kafka, talvez sem o saber, sentiu que escrever é entregar-se ao incessante (...)"

"As lembranças são necessárias, mas para serem esquecidas, para que nesse esquecimento, no silêncio de uma profunda metamorfose, nasça finalmente uma palavra, a primeira palavra de um verso. Experiência significa, neste ponto: contato com o ser, renovação do eu nesse contato - uma prova, mas que permanece indeterminada."

"(...) A escrita automática tendia a suprimir as limitações, a suspender os intermediários, a rejeitar toda mediação, punha em contato a mão que escreve com algo de original (...)"

"A música pintura, são mundos em que penetra aquele que possui a chave para eles. Essa chave seria o 'dom', esse dom seria o encantamento e a compreensão de um certo gosto."

"Pois esse movimento é também encorajado pela própria natureza da obra de arte, provém dessa profunda distância da obra em relação a si mesma, pela qual esta escapa sempre ao que é, parece definitivamente feita e, no entanto, inacabada, parece, na inquietação que a furta a toda a apreensão, tornar-se cúmplice das infinitas variações do devir."

"O poema denomina o sagrado, é o sagrado que os homens escutam, não o poema. Mas o poema denomina o sagrado como o inominável, o que diz em si o indizível, e é, envolto, dissimulado no véu do canto (...)"

"O errante não tem sua pátria na verdade mas no exílio, mantém-se de fora, aquém, à margem, onde reina a profundidade da dissimulação, essa obscuridade elementar que não o deixa conviver com ninguém e, por causa disso, é o assustador."

"O poema é a ausência de resposta. O poeta é aquele que, pelo seu sacrifício, mantém em sua obra a questão aberta."

"Holderlin tinha formulado assim o dever da palavra poética, essa palavra que não pertence nem ao dia nem à noite, mas sempre se pronuncia entre a noite e o dia, e de uma só vez diz o verdadeiro e o deixa inexpresso (...)"

*Maurice Blanchot in "O espaço literário". Ed. Rocco. RJ. 2011

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