quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Alerta!!***


“(...) Faça o homem sentir-se pequeno. Faça-o sentir culpa. Mate suas aspirações e sua integridade. Mate a integridade pela corrupção interna. Use-a contra ele mesmo. Pregue a abnegação. Diga a este homem que ele deve viver para os outros. Diga aos homens que o altruísmo é o ideal. Nenhum deles conseguiu chegar até lá e ninguém vai conseguir. Todos seus instintos clamam contra isso. Mas não vê o que se consegue?

O homem compreende que ele é incapaz daquilo que ele aceitou como a mais nobre das virtudes...e isso lhe dá um senso de culpa, de pecado, de sua própria e fundamental inutilidade. Uma vez que o supremo ideal está além de seu alcance, ele vai acabar desistindo de todos os seus ideias, de qualquer aspiração, de qualquer noção de seu valor pessoal. Sente-se obrigado a pregar o que não pode praticar. Preservar a integridade é uma batalha dura. Sua alma desiste do amor-próprio. Aí então, ele é seu. Morto-vivo. Vai obedecê-lo. Vai ficar feliz em obedecer...porque ele não pode confiar em si mesmo, sente-se inseguro. Essa é uma maneira.

Tem outra: mate a noção de valores do homem. Mate sua capacidade de reconhecer a grandeza ou de alcançá-la. Não negue o conceito de grandeza. Destrua-o de dentro para fora. Não comece a demolir todos os templos...você vai amedrontar os homens. Coloque a mediocridade num altar...e os templos estarão destruídos. Não permita que coisa alguma permaneça sagrada na alma de um homem...e a alma dele não mais será sagrada nem para ele mesmo. Mate a reverência e você matou o heroico do homem. Não deixe os homens serem felizes, é outra maneira.

Homens felizes são homens livres, principalmente de culpa. Portanto, mate a alegria de viver. Faça-os sentirem que o simples fato de ter um desejo pessoal é um mal. Faça-os chegar a um estado em que dizer “eu quero” não é mais um direito natural, mas uma confissão vergonhosa de egoísmo. O altruísmo é de grande ajuda neste ponto. Este último é o jeito mais antigo de todos.

Olhe para a história. Olhe qualquer sistema ético, começando no Oriente. Não pregavam todos o sacrifico do prazer pessoal? Não tinham eles um único objetivo: sacrifício, renúncia, a negação do eu? Atrelamos a felicidade à culpa. E agarramos a humanidade pelo pescoço. Jogue seu primogênito no fogo sacrifical...deite-se numa cama de pregos...vá para o deserto mortificar a carne...não dance...não vá ao cinema no domingo...não tente ficar rico...não fume...não beba.

É sempre a mesma fala. A Grande Fala! Cada sistema ético que pregou o sacrifício transformou-se num poder mundial e governou milhões de homens. Claro, você tem que enfeitar a coisa. Tem que dizer às pessoas que elas vão alcançar um tipo superior de felicidade ao desistirem de tudo o que as fazem felizes aqui e agora. Não precisa ser muito claro sobre isso. Use palavras grandiosas e vagas. “Harmonia Universal”, ”Espírito Eterno”, ”Objetivo Divino”, ”Nirvana”, ”Paraíso”, ”Supremacia Racial”, ”A Ditadura do Proletariado”.

Corrupção interna. Esta é a mais velha de todas. E, no entanto, o teste deveria ser tão simples: ouça qualquer profeta e, se ouvi-lo falando de sacrifício, fuja. Fuja mais depressa que de uma praga. É tão somente lógico que onde há sacrifício, existe alguém recebendo as oferendas. Onde há servidão, existe alguém sendo servido. O homem que fala de sacrifício fala de escravos e senhores. E pretende ser o senhor.

Mas se alguma vez você escutar alguém lhe dizendo que você deve ser feliz, que este é um direito seu, natural, que seu primeiro dever é para consigo mesmo...este será o homem que não estará atrás de sua alma. Mas deixem que ele venha, e vocês vão berrar até não poder mais, urrando que ele é um monstro egoísta. De modo que a barulheira está assegurada por muitos e muitos séculos.

Por fim, não diga que a razão é um mal...embora alguns tenham ido até esse ponto e com surpreendente sucesso. Diga apenas que a razão é limitada - assim como nossa capacidade de conhecer. Que há algo acima da razão. O quê? Você não precisa ser muito claro sobre isso tampouco. O campo é inesgotável. “Instinto”...”Intuição”...”Revelação”...”Intuição Divina”...”Materialismo Dialético”.

Se você se atrapalhar em algum ponto e alguém lhe disser que sua doutrina não faz sentido...você está pronto para ele. Você lhe diz que existe algo que está acima de fazer sentido. Que é inefável. Que aqui ele não precisa tentar, pensar, precisa sentir. Precisa acreditar. Pode-se governar um homem que pensa? Não queremos homens que pensam nem que se valorizem!”

*Contribuição de Fernando Fontoura
Filósofo, Mestrando em Filosofia, Estudante de Filosofia na Casa da Filosofia Clínica em Porto Alegre/RS

**Tirado do romance: ‘A Nascente’ de Ayn Rand, é um alerta para todas aquelas abordagens éticas, políticas e epistemológicas que já se tornaram naturais em nossa sociedade e, por isso, ficam acima ou além de qualquer crítica.

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