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Uma epistemologia dos subúrbios*

“A vida não é senão uma procissão de sombras e sabe Deus por que as abraçamos tão avidamente e as vemos partir com tal angústia, já que não passam de sombras”                                                                      Virgínia Woolf   A natureza também insinua seus originais na impermanência de um talvez. Instantes em que a conexão propõe a novidade discursiva ao sem rosto das aparências. Assim, para além da mentira civilizada, outras verdades ensaiam inéditas versões. Nem sempre em busca de tradução, essa característica existencial realça pontos de interseção com universos absurdos. Seu sentido inédito, antes de ser provável, descreve-se na escassez poderosa de um quase. Seu dizer marginal aparece como vontade de transgressão. Com sua pronúncia irreconhecível a escuta muda, e o momento fugaz dos achados carece a surgir distorcido. Ao ter o anonimato preservado, se distancia das ingerências de ser igual. Sua indeterminação sugere um vocabulário por chegar. Na crític

Qual a abrangência terapêutica da Filosofia Clínica?*

Essa pergunta vem atrelada, às vezes, a outra pergunta. Qual é a fundamentação filosófica da Filosofia Clínica?   Vamos começar com outra pergunta? É possível que um pensador ou uma linha de pensamento (teoria) consiga abranger toda manifestação plural do fenômeno humano? Considerando o fenômeno humano e suas manifestações tão plurais, múltiplas ou diversas, como considerar que uma linha teórica ou um autor, por mais abrangente que seja sua visão, possa dar conta do fenômeno humano em sua totalidade? A não ser que não consideremos o fenômeno humano plural e diverso! Mas, se o considerarmos, por mais abrangente que seja uma perspectiva sobre o fenômeno humano, advinda de um autor ou de uma linha teórica, ela é limitada. Não só pela busca de referências que ele possa buscar, mas pela sua própria perspectiva selecionadora do que buscar e do que deixar de fora.   A Filosofia Clínica não fundamenta seu método em um autor ou em uma linha teórica filosófica. Fundamenta, sim, no estudo d

O corpo e a Filosofia Clínica*

Além das questões verbalizadas em clínica, que dizem respeito ao corpo, como por exemplo, quando o partilhante diz literalmente: “não gosto do meu corpo”, ”me acho desengonçado”, “tenho pouca flexibilidade”, “sou muito magra para usar decotes” ou “sou muito gorda para usar saia curta”, “sou baixo demais para assistir a shows”, “sou motivo de chacota na escola por causa do tamanho de meu pé”, entre tantas outras verbalizações possíveis, devemos observar a postura, o modo de ser corporal do partilhante. Como assim? Nosso corpo guarda em si, desde o nascimento, certos modos de ação. A forma como nos desenvolvemos fisicamente está diretamente associada ao nosso desenvolvimento histórico-social, já dizia o russo Vygotsky. Muitas pessoas somatizam seus desconfortos existenciais em dores de cabeça, depressão, gastrites, pressão alta e por aí adiante. Outras tantas somatizam no corpo físico, desenvolvem problemas posturais, articulares, obesidade, anorexia. O corpo é um meio de comunicaç

Filosofia Clínica e os elementos da inventividade*

A característica central do procedimento clínico Atalho é a inventividade, a doxa, a criatividade. Isso em geral é atestado no convívio com a pessoa, mas deve ser respaldado pela compreensão da historicidade desta. A grande característica das pessoas que utilizam este submodo, e que aparece muito, ao longo da historicidade ou em alguns eventos da vida, é ter por hábito o olhar diferente as coisas que para os outros são iguais.   Algumas pessoas constroem seus Atalhos, ou seja, criam novas saídas na vida através dos impedimentos, dos obstáculos. Isso quando o submodo Atalho estiver associado ao procedimento clínico Em Direção ao Desfecho, mesmo que ainda tenhamos aqui somente os indícios.   Saberemos se o Atalho será ou não producente à pessoa através da história de vida dela. Por exemplo, se a pessoa está inserida em uma instituição dogmática, fechada, provavelmente as questões da dúvida, da interrogação, da busca por alternativas não serão bem recebidas. Podem existir problemas graves

Anotações e Reflexões de um Filósofo Clínico*

Qual o motivo de alguém procurar um filósofo clínico? O que leva uma pessoa a procurar os préstimos de um filósofo clínico? Não há uma questão específica. São casos que variam de acordo com cada pessoa. Afinal, falamos em singularidade. Mesmo que surjam queixas similares, com sintomas com diversos aspectos em comum, isso não torna o trabalho do terapeuta mais fácil. Diferente das investigações das ciências empíricas que encontram resultados padronizados por excluir variáveis e controlar ambientes, o trabalho do filósofo clínico leva em conta as variáveis e as circunstâncias particulares de cada partilhante. Por isso, a identificação dos aspectos a serem trabalhados e os procedimentos clínicos são únicos. A experiência do filósofo não serve para orientar padrões; ela permite a ampliação da capacidade de lidar com cada caso apresentado no consultório. O partilhante é um todo estrutural, um universo de complexidades incomparável a ser compreendido e auxiliado.                     

Publicação no site Ethic Lab - CESUGA University*

El prof. Helio Strassburger y la poética de la singularidad. Hemos evolucionado del psicoanálisis freudiano a la filosofía clínica y en este artículo se ve claramente. Muchas veces pensamos que que la filosofía se parece a la autoayuda de forma despectiva, pero creo que conocerse es la mejor forma de ayudarse a uno mismo. En ese sentido, el término es aceptable. ¿ No os parece? *Profa. Dra. Arantxa Serantes Humanista digital y Doctora en Filosofía. Profesora Titular de Ética en CESUGA University. La Coruña.    Para ler o artigo completo, por favor, acesse: https://ethiclab.hypotheses.org/

Anotações e Reflexões de um Filósofo Clínico***

Amigos, ao encontrar essa que talvez seja uma das mais tristes tirinhas do Calvin - neste caso, uma tirinha criada por um fã -, recordei vividamente de algo que passei há alguns anos como professor numa escola privada.                                                            ***********   No último ano em que lecionei Filosofia no fundamental, para uma turma de oitavo ano (isto é: crianças de treze e catorze anos), havia um menino com olhos que faiscavam com o fogo da vida. Alegre, falante, brilhante.   Ele não conseguia participar das aulas sentado. Por isso, na minha classe podia andar pela sala livremente - e foi em uma aula de Filosofia que descobriu que recuperava a calma o foco ao se deitar sob o quadro, justamente no espaço em que o professor usualmente caminha durante as explicações.   Pois bem: durante uma aula, a coordenadora entrou na sala e viu o pequeno deitado ali. Imediatamente gritou com ele, que teria sido conduzido à direção se eu não houvesse interferido.

O que é ser saudável ?***

Se existisse isso de ser saudável e talvez a pessoa dissesse sempre aquilo mesmo que pensa, trabalharia em algo que tem a ver com ela, teria amizades por afinidade, faria amor com quem ama. Existisse mesmo a pessoa saudável e Deus estaria com ela, os pássaros viriam ter com ela nas janelas e as janelas se abririam para o mundo. As crianças teriam escola e cresceriam com esperança - que não seria mais uma utopia. Os velhos seriam então apenas velhos e os adolescentes teriam a descarga adequada para seus dez mil hormônios. Haveria ainda solidão, tristeza, medo, ansiedade, é claro, e por que não ? Mas apenas às vezes, e seriam desejáveis porque ensinariam. A pessoa ficaria triste porque ocasionalmente isso é parte da vida, mas não estaria costumeiramente triste. Existisse a pessoa de fato saudável e eu não precisaria escrever este artigo, não teríamos livros de auto-ajuda nem de hetero-ajuda, as escolas de psicologia virariam respeitáveis museus e os médicos tratariam de consertar somente

Espelho da Vida*

  “Aquilo que chamamos de fato pode muito bem ser um véu tecido pela linguagem para ocultar da mente a realidade.”                                                                 George Steiner   Ver o sol refletido na água é poder ver tudo o que há no abismo entre as linguagens, a melhor forma de não perder a tradição da fala e o poder da leitura após observarmos que o céu não tem dono, apenas espectadores. Existem os que frequentam a vida, assim como os que vivem a vida intensamente. Os dois tipos são apenas espectadores da cosmológica definição poética existencial sobre a vida. A prova é estar vivo. De repente os conceitos, como um jogo de cartas, passam de mão em mão, olhos em olhos, pensamentos, sentidos, tudo no mesmo tempo. A sincronia é atonal, o som não é único, o estar vivo é o movimento do não verbal com os sentidos e a mente. O sintomático está diante da certeza de que o fim é um céu infinito, também podemos pensar que o fim esbarra logo ali, na primeira esquina, no

Anotações e percepções de um Filósofo Clínico*

  O que significa dizer que o filósofo clínico é um aprendiz ?* Embora seja apresentado em cursos que variam entre 18 e 24 meses, o conteúdo da filosofia clínica preencheria tranquilamente uma formação de quatro anos com a carga horária de uma graduação. Ainda assim, continuaria sendo um curso com conteúdos introdutórios. Um filósofo clínico aprende a teoria, realiza a formação da prática, mas precisará continuar seus estudos teóricos e práticos por toda a vida. A alma humana não se esgota em uma formação. O certificado que habilita à clínica é uma autorização e não a comprovação de que não há nada mais a ser aprendido. A filosofia clínica é um aprendizado para a vida toda. Hoje, dez anos depois de ter iniciado minha formação, me vejo tão iniciante quanto meus alunos que estão há alguns meses na formação. Meus professores são os filósofos clínicos com os quais converso, os artigos e livros que leio, os áudios e vídeos que acompanho, e os partilhantes que atendo semanalmente.

Prolegômenos sobre a vida nas coisas*

     “(...) Caravelas sonhando imóveis sobre velhos pianos...”                                        Mário Quintana   Na ótica das coisas, existe um deus que as faz nascer, morrer, reviver. Nelas mesmas, se encontra a versão silenciosa das múltiplas possibilidades. Tem as coisas que ofuscam a visão e as que a pluralizam, ainda àquelas à espera do olhar absurdo. Esse contexto de caos e harmonia convive na estrutura de quase tudo.      À primeira vista as coisas podem enganar intencionalidades. Ao lhe atribuirmos um nome, condição ou propriedade, ainda assim não se esgota sua condição original. Ao distorcer a impressão inicial, é possível atribuir-lhe um novo significado, concedendo-lhe razões desconhecidas. Ao ser inenarrável de forma definitiva, carrega a vertigem de suas outras regiões. Entre uma subjetividade e outra, as coisas reivindicam uma chave de acesso. Para conhecer sua condição provisória, é necessário saber a interseção que a define. A coisa precisa de uma não-coi

A Arte de Ouvir*

  Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos refletir sobre um texto oportuno de Rubem Alves: “Saber Ouvir”.   De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: “No princípio era o Verbo”. Eu acrescento: “Antes do Verbo era o silêncio.” É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Diz Rubem Alves: Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para, por não haver o que dizer, tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos

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